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papéis

por M.J., em 05.12.17

às vezes, no meio do rebuliço dos minutos que voam na secretária, encontro pessoas mais velhas que carregam papéis como quem carrega tesouros.

já quase não imprimo nada, a não ser que seja estritamente necessário.

habituei-me a ler nos ecrãs e tirando os livros físicos, que vou coleccionando e preferindo carregar nas mãos, deixei de acumular papeis. 

 

depois percebo a magia da hipnose do trato do papel por alguma pessoa.

chegam-me com eles dentro de pastas de plástico, que se encarquillham nas mãos enrugadas e secas.

pegam nas folhas com cuidados, tirando-as das micas com a ponta dos dedos grossas, pondo um deles na boca, na procura de humidade.

estendem os documentos em cima da mesa.

às vezes sublinham com cores diferentes passagens importantes. e dizem sempre que aquilo é uma fotocópia, que se pode riscar à vontade. mesmo que o à vontade sejam riscos curtinhos em palavras chave.

 

depositam nos papéis toda a fé do mundo.

são documentos num tempo em que a palavra não serve.

são assinaturas que comprovam momentos, factos e decisões.

e é difícil explicar a validade deles quando foram tratados com tanta consideração. quando são retiradas as folhas, uma a uma com uma delicadeza rústica e alinhados à espera de fazerem justiça. 

 

pegam nos papeis e têm neles convicção.

separam este e aquele por momentos e datas.

alinham-nos e batem-nos na mesa para ficarem certinhos. dividem-nos nas respectivas pastas. nunca deixam os originais. 

 

alguns papéis têm, para algumas pessoas, o valor sério da fé.

mesmo que uns e outros, fé e papéis, não tenham valor algum. 

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publicado às 10:40


4 comentários

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De M.J. a 06.12.2017 às 12:29

não me consegui expressar neste post... era apenas a demonstração do hipnotismo que sinto ao ver certas pessoas manusear papéis, com um respeito acrescido, e saiu-me uma coisita arrogante...
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De Cristina M. a 06.12.2017 às 17:22

entendo-te.

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