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passa a morte

por M.J., em 23.01.18

quando eu era miúda - e fazia todas as manhãs e tardes viagens entre a serra, da escola para casa e de casa para a escola, havia um estranho jogo entre nós.

não sei como nasceu ou se desenvolveu entre miúdos, uns mais velhos do que outros, mas a morbidez não afastava o que se tornou tradição:

sempre que um de nós via um carro funerário, uma espécie de caixão com rodas num negro imponente, quebrado uma vez ou outra com umas flores atrás, pegava de um balanço de mão e dando um valente palmada na pessoa do lado dizia

passa a morte,

pronunciado assim, num sorriso rasgado de quem acabou de ter  um motivo para sacudir pequenas vinganças ou maldades. 

passa a morte,

aliado a uma espécie de dor, uma chapada bem dada, no companheiro do lado, um calduço no da frente, uma palmada no de trás, 

passa a morte,

e nós passávamo-la, mais doloridos pelo ritual das lamparinas, do que conscientes da brutalidade daquilo que dizíamos. 

 

o passa a morte acompanhou-me 8 anos de escolaridade obrigatória em que andei de autocarro.

é certo que nos últimos anos, já demasiado graúda para dar confiança a tal estupidez, a morte passava por mim mas não me batia, na certeza de que as minhas lambadas seriam mais fortes do que as outras.

 

lembrei-me do passa a morte um dia destes quando, numa tarde de trabalho passava os olhos pelo facebook, no descanso do lanche, e vi uma fotografia de alguém que conhecia legendada com descansa em paz.

o meu espanto foi tão grande que, posso garantir, gelei, não acreditei, tive um espasmo de choque.

ali estava ela, como da última vez que a vira, uns meses antes, as duas à entrada a falar, na espera do dia de trabalho que ia começar.

ali estava ela.

o mesmo cabelo, os mesmos olhos muito abertos, um sorriso rasgado, a mania de me tocar no braço esquerdo quando queria dizer algo e chamava a minha atenção.

ali estava ela e com ela já não estava a promessa que fizemos quando me vim embora, meses antes,

tomamos um café tarda nada, ouviste?

fez-me prometer enquanto me passava para a mão um saquinho branco, que fez em croché, repleto de um cheiro a alfazema,

olha não te vás esquecer,

relembrou-me e eu que sim, que não ia, que íamos tomar cafés, há pessoas que não podemos perder na sorte que as foi encontrar.

 

esta promessa foi em março de 2017.

depois o meu mundo alterou outra vez e aprendi a gerir coisas que antes não gerira.

os dias tornaram-se pequenos e a dimensão das horas alterou-se.

por isso, o café passou um mês, dois, três.

deixou de estar nas listas dos pendentes.

logo deixamos de trocar mensagens.

às vezes abria a gaveta da secretária e encontrava o saquinho delicado a cheirar em croché. nessas alturas dizia,

tenho de ligar à margarida.

tenho.

devia.

era bom.

e se. 

mas nunca liguei. nunca marquei. 

o café a escaldar, as mãos frias na chávena, a colher a mexer o açúcar pelas mãos magras dela não chegou. 

 

e por isso eu não soube do cancro que a começou a comer, nas entranhas, com uma malvadez demoníaca.

e por isso eu não soube que perdeu o cabelo, que perdeu as cores e deixou de fazer croché.

e por isso eu não soube que perdeu esperanças e que perdeu a vida.

 

só soube quando, numa espécie de passa a morte, a vi sorridente quando já não sorria.

foi há dois meses.

e não há um dia, ridiculamente, na azáfama que são os meus dias, na sensação de que as coisas começam a fugir ao meu controlo, no medo de que deixo de conseguir harmonizar vertentes, que não me lembre dela, as duas em pé ao sol de novembro, episódios contados, a mão dela no meu braço esquerdo e a promessa final que não cumpri.

 

passa a morte, 

dizia-me alguém no autocarro.

passei foi a vida.

 

puta que pariu.

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publicado às 10:00


6 comentários

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De Quarentona a 23.01.2018 às 11:57

Tão verdadeiro, Émejóta, tão duramente verdadeiro...

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