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permanecendo.

por M.J., em 10.07.15

há uns anos a minha vida mudou radicalmente. foi muito fácil, descompensada quimicamente que estava, arranjar mil desculpas para a dor em que entrei e o circulo vicioso de doença que me atirou ao charco, que quase me matou e que me obrigou a recomeçar e ainda hoje me ir curando aos poucos.

ainda que me culpasse a mim também, que não restem dúvidas, eu culpava outros. e entendi que uma amiga, de infância, que me acompanhara no meu crescimento, que me ouvira ler as minhas coisas, que sonhara o mesmo que eu, tinha uma grande quota parte de responsabilidade das minhas dores.

posto isto, afastei-me. deixei remoer a dor que era minha e que eu podia atirar para cima de alguém e cortei. não sei se fui injusta, sequer, que a dor era minha e as circunstâncias assim o ditavam. mas quando fiquei melhor e me pude ver integralmente, tive a oportunidade de ser maior.

não o fiz.

anos depois um amigo que eu amava de paixão teve um comportamento de que não gostei. levei a peito e afastei-me. posso afastar-me de quem amo aprentando uma facilidade de quem vai comprar pão, mesmo que morra aos bocadinhos, mesmo que isso me dilacere, mesmo chorando baba e ranho e sentindo que o meu mundo se desfaz aos poucos. posso fazer tudo isso e não voltar atrás. comi o orgulho, todo e alimentei-me dele.

já disse várias vezes a minha anormalidade. nunca o omiti, muito menos aqui.

enfim, o tempo passou e como em todas as vidas também eu passei por momentos bons e maus. nenhum deles me limpou lágrimas, pegou na mão ou jurou que ia ficar tudo bem. nenhum deles chorou comigo, me telefonou para acalmar a ansiedade ou me ouviu em dores. mas eis quando, num dia solarengo, ao se saber que um dos meus sonhos de infância se concretizaria, e que eu rejubilava de sol num brilho de quem se sente dona do mundo, ambos me ligaram, ambos me contactaram, cada um à sua maneira, dando-me os parabéns e dizendo que estavam realmente felizes por mim.

assim, sem pedir nada em troca.

assim, depois do que fiz e sobretudo, do que não fiz.

li há uns dias, creio que foi a cláudia quem o escreveu, que mais difícil que compadecer-se com a dor dos outros, é ficar feliz pela felicidade dos outros. assumo isso. a felicidade dos outros atirada á nossa cara faz-nos ver nus, naquilo que somos, no que não temos, no que nos falta. nem todos sequer temos a capacidade de sair de nós próprios e admirar o outro, pelo outro.

creio que faz parte de ser humano.

mas eles ficaram. e disseram-mo quando não precisavam. e mostraram-se superiores a mim.

na verdade, não é difícil ser superior a mim. é até bastante fácil atento a pessoa que sou, as fragilidades que tenho, a anormalidade que me compõe. mas ser superior a mim comigo, estendendo-me uma mão em sorrisos é realmente algo de que não posso, de que não sei falar.

sei que essas pessoas existem. e não entendo, novamente o digo, não posso, não sei entender como permanecem. 

como pode alguém permanecer da vida de alguém como eu.

 

mas permanecem. 

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publicado às 15:04


4 comentários

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De (des)Esperança a 10.07.2015 às 16:17

permanecem porque tu mereces. porque és única e inesquecível. porque fazes falta. porque é tão fácil amar-te. mesmo quando tens a mania. ponto.
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De M.J. a 12.07.2015 às 01:08

nunca sei o que te dizer.
nunca!

obrigado.
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De Violinista a 10.07.2015 às 18:03

Assim de repente pareceu parte da minha vida também.

Permanecem, e quero acreditar pelo que escreveste que souberam crescer e ter esse gesto. Permanecem, porque me parece também que apesar do que escreves, és uma pessoa inteligente e íntegra. Não és má, és daquelas pessoas que se fica feliz por ver concretizar desejos.
Mas isto sou eu, e eu sei muito pouco sobre amizades (e sobre a vida).
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De M.J. a 12.07.2015 às 01:08

somos duas a nada saber sobre amizade.
mas na verdade, não digas a ninguém, aqui que ninguém nos ouve, acho que só quem admite que não sabe nada de amizade tem capacidade de a sentir integralmente.

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