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poderei eu?

por M.J., em 19.01.16

uma amiga da minha da faculdade divorciou-se. não é que a rapariga tenha andado aí a anunciar o facto ao mundo pela via de comunicação directa que é o facebook. nem é como se eu a pudesse ter chamado de amiga. reformulo portanto. uma colega minha, de faculdade, com quem troquei dias e apontamentos divorciou-se. da minha idade. dois putos fora da barriga. assim. a família perfeita. esposa, mulher e mãe. a santa trindade numa pessoa só desfeita de um momento para o outro. as fotografias dos quatro, em grandes gargalhadas, em pinturas a preto e branco, a partilhar gelados e praias todas apagadas do facebook. de repente é ela e só ela e muitas partilhas de um blog chamado "crónicas de uma mãe divorciada". 

uma pessoa percebe logo.

quando falei disto, abanando a cabeça num medo idiota, como que se nas minhas pernas houvessem dois putos a pedinchar-me atenção, a minha pele ganhasse rugas, a conta bancária estivesse a zero numa batalha por cento e cinquenta ou duzentos euros mensais da parte do pai para alimentar a canalhada que pus no mundo estremeci.

posso então eu estar condenada um cenário possível, espalhado aí ao mundo todos os dias, é só ver?

posso ser eu a pessoa que casa de vestido branco e espalha fotografias do grande dia nas paredes do quarto e na sala e obriga os amigos a ver o álbum, num orgulho de que ninguém quer saber, a parecer uma vaca prenha vestida de branco mas com toda a gente a dizer que sim senhoras, estava muito linda?

e posso ser que pronto, no seguimento da vida decide escarrapachar-se toda e expelir um ser humano pelo mesmo sitio onde faz xixi e achar o momento lindíssimo? e pejada de hormonas dizer coisas de que ele é que me dá força, e antes de eu conhecer o meu filho - é que nem sequer ponho hipótese de ser fêmea, azar sim senhor mas tanto seria demais - a vida não fazia sentido e o amor só conheci agora?

e posso ser eu que, imbuída de uma loucura triste, decido ter outro porque - por experiencia própria - os filhos únicos são todos malucos e ala que se faz tarde, a gente os dois até ganhamos (desculpem, não resisti ao plural) para além das despesas e se formos contidos até podemos ir quinze dias ao algarve, desde que comamos em casa e levemos para a praia o tacho do arroz?

e posso ser eu que me desleixe ainda mais da cara e do corpo e de repente me transforme não numa vaca prenha mas num pequeno bisonte e ele vai, que nem é desses mas toda a gente tem fases, umas melhores e umas piores, e encontra no trabalho uma jovem, bonita, que fala de viagens e dias de sol e primavera e eu toda inverno, gorda a servir de tetrapak de dois putos e ele vai-se embora que sim, ninguém é obrigado a viver infeliz e os putos ficam com a mãe, porque assim é que é, e fraca é a mulher que não cuida de quem pare e temos de ir a tribunal decidir visitas e férias, espalhar podres e dias feios, ele faltou à visita e ela diz mal de mim e tu não pagas duzentos euros e tu queres é que eu te mantenha.

poderei eu cair nas garras desta mediocridade?

não creio.

não posso.

recuso-me.

 

a culpa meus senhores, a culpa é da puta da profissão que eu escolhi. 

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publicado às 14:00


24 comentários

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De Me, myself and I a 19.01.2016 às 14:16

É uma triste e recorrente realidade!
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:19

c'est vrai.
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De Sarabudja a 19.01.2016 às 14:47

Arre!
A minha profissão não é, nem de perto nme de longe, parecida com a tua, e conheço tantos e tantos casos assim.
O fim das relações é uma possibilidade a partir do momento em que iniciam. Escolher o rumo que se dá a esse fim e a atitude com as crianças, com as mensalidades, com as "visitas" (os pais não devem visitar os filhos. Mas isso também sou eu que não percebo da vida. Ou se é pai, ou se é conhecido. Ou se acompanha, ou se visita).

Faz-me urticária misturar desamores com maternidades e paternidades, fechar no mesmo saco (com nome da criança) e andar ali aos chutos. Se isso é ser mãe, pai... Mas pronto(s). (atenção a esta frase lapidar. Sem verbo)
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:21

isso é o padre nosso diário. e desengane-se (sei que não é o teu caso) quem associa isto a casos de pouca formação, gente sem "curso" - como se diz na minha terra - ou sem dinheiro.
isso que falas acontece em todo o lado. em todos os extractos.
miséria.
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De Quarentona a 19.01.2016 às 14:49

Essas tuas dúvidas já passaram pela cabeça de milhões de noivos, não vale a pena pensar nisso, é viver um dia de cada vez e usufruir ao máximo de cada um deles, o resto... bem, o resto a seu tempo
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:21

depois logo se vê?
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De Quarentona a 21.01.2016 às 16:31

Exato! É o chamado "sofrimento por antecipação", há que evitá-lo a todo o custo
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De Cusca a 19.01.2016 às 14:53

E eu penso tanto mas tanto em tudo que prefiro estar sozita ou com um ou outro amigo colorido.. cruzes!

Tudo é muito lindo quando corre bem :\
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:21

na maioria das vezes corre mal.
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De Just_Smile a 19.01.2016 às 14:54

Recuso-me a tal coisa. Mas nunca, não poderemos dizer... A vida dá muitas voltas e muitas delas são surpresas inesperadas...
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:22

a maneira como reagimos ao filme é que pode ser diferente.
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De Di Art Blogger a 19.01.2016 às 15:29

Também não quero esse filme! Credo... Cruzes!
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:22

canhoto.
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De S.o.l. a 19.01.2016 às 15:33

"posso ser eu que me desleixe ainda mais da cara e do corpo e de repente me transforme não numa vaca prenha mas num pequeno bisonte" Já agora punhas uma foto minha pá...

Vale-me o facto de não pensar em me divorciar ;)
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:22

diz que há bons cremes no lidl (não estou a ser irónica). e agora há aulas de ginástica de grupo bem baratas. e sem ocupar tempo por aí além :)
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De S.o.l. a 21.01.2016 às 16:26

Cremes do lidl testados e aprovados ;)
Amor próprio sempre em construção que melhor do que estar bem para um homem temos de estar bem connosco mesmas!! ;)
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De Fatia Mor a 19.01.2016 às 17:55

Vou falar do alto dos meus 33 (qq dia 34 anos) e dos quase 5 de casamento e 10 de relação... Que equivale a dizer que a minha opinião vale o que vale e é directamente proporcional à fase da vida em que me encontro. Duas crias a puxar-me pelas pernas (e pela paciência).

Acho que sim, que podes cair. Podemos todas. A exigência é grande para uma mãe, esposa, mulher e é fácil cairmos no extremo do "não consigo".
É doloroso deixar de dormir descansada, é complicado ter que gerir educações, é difícil manter-nos agradáveis e pacientes quando a paciência se esgota por entre os dedos. E ainda ter que lidar com a idade, com o corpo mudado, com essas margaridas jovens e frescas que anunciam primaveras por vir e nós já nos reservamos a verões secos ou invernos frios.

Ainda assim, sou como tu: recuso-me! Mas tenho dias em que a pressão é tão grande que racho. Que saio à rua e mal me reconheço. E é natural que quem está connosco passe pelo mesmo. Que não se reconheça e não veja em nós a mulher que escolheu, o acordo que se fez... Não desisto de mim e procuro sair dessa espiral. Trato-me, cuido-me e amo-me. Mas não vejo que esses casos sejam mediocridade. Lamento, mas acho a palavra muito forte para esse sofrimento. E mesmo quando nos recusamos a vida traz-nos dissabores bem grandes, que não podemos controlar. Já vi de tudo. Preparo-me sempre para o pior, ainda que espere sempre o melhor. Não sei se te interpretei mal... Lamento se estiver a ser injusta, não era a minha intenção.

Ah... E nota para futuro (piada para aliviar a coisa)... Eles não saem por onde fazes xixi... Mas doi na mesma que se desunha e mais parece que é por aí!
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De M.J. a 19.01.2016 às 18:05

não estás nada a ser injusta.
a palavra que usei aplica-se no último paragrafo, creio. aplica-se aos casos em que depois de deixarmos de ser quem somos, depois de abandonarmos promessas de sonhos, e já não somos esposa ou parceira ou cara metade mas a parte contrária, em guerra, entramos em papeis e terceiros, pessoas estranhas e público e escarrapachamos podres e dias tristes. abdicamos da dignidade porque dignidade não paga roupas, comidas, médicos e escolas. abdicamos do que poderíamos ser porque há bocas para alimentar e faz sentido discutir cinquenta euros, visitas e férias.
entramos na mediocridade de não sermos quem merecemos por uma escolha que fizemos.
é essa escolha que não entendo. essa escolha que tomamos conscientemente, todos os dias, e sabemos de casos, aos milhares - eu sei, sei muito bem - e mesmo assim vamos ao mesmo e achamos que é bem e que o mal não vai acontecer connosco e teremos a santa trindade em nós próprios e seja como for não interessa nada porque há ali uma parte de nós a pedir-nos atenção e amor.
quando interessa. interessa sempre.

(sou eu quem mistura sentimentos, e medos, e conceitos e experiências e troco tudo e nem sei, na verdade, do que falo, só do que vejo e do que trato e do que sinto acontecer.
e não encontro outra palavra para discussões constantes, para roupas sujas estendidas ao vento e perda de quem somos do que mediocridade. eu é que sou injusta, não tu.)
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De Fatia Mor a 19.01.2016 às 18:17

O problema é que conheço bem demais o processo para lhe ficar alheia. Conheço a parte do não haver dinheiro para roupa, comida e depender de outros para sobreviver (avós que nunca nos abandonaram). De não ter quarto próprio. Das conversas com os juízes, com as testemunhas e com a necessidade de expor a vida porque a dignidade não paga contas. Não queria mesmo ser injusta porque sei quão difícil é classificar isto. Infelizmente passei como filha. E espero nunca passar como mãe... Não te preocupes, não estás a ser injusta. Estás a ver do prisma de quem se compadece e percebe que se o ser humano tivesse bom senso, a dignidade permaneceria intacta.
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De VeraPinto a 19.01.2016 às 23:06

Lamento seriamente que seja eu a dar-te a triste notícia, mudar a tua vida para sempre, e lamento pelo sistema de educação deste país que não te ensinou como deveria (ou será por leres coisas como esta? http://eagoraseila.blogs.sapo.pt/uma-pessoa-tem-de-se-manter-informada-813896)

M.J: os bebés não saiem pelo mesmo sítio que se faz xixi. É ligeiramente ao lado. Ligeiramente.
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De M.J. a 19.01.2016 às 23:13

ai porra. queria dizer que saem pela vagina.
pronto.

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De SP a 20.01.2016 às 12:43

Também eu já fui atingido por essa "doença"...
Pode acontecer a qualquer um, infelizmente....
É uma experiência que fica para a vida ou então um valente soco no estômago que de vez em quando com as mudanças do tempo se fazem sentir em dôr...
Não haja dúvidas que dói pá caralh nos primeiros tempos e que fica uma cicatriz para o resto da vida...
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De M.J. a 21.01.2016 às 16:23

mas é possível viver (não sobreviver) com a cicatriz certo?
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De SP a 21.01.2016 às 21:24

Claro que sim
A queimadura dói pá carago mas depois a dor passa...
O ideal é tentar não olhar muito para trás, não lembrar o passado durante algúm tempo, seguir em frente e viver a vida de uma forma muito lenta, ou seja, um dia de cada vez...

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