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por mais que suba

por M.J., em 07.09.17

lembro-me de ouvir um dia dizer que, por mais que fulano subisse na vida, não deixaria nunca de ser o filho do qualquer coisa.

sendo o qualquer coisa pejorativo. atirado ao ar como uma escarreta. dito assim, num arremesso de palavras, na convicção de que enfim, há vidas pequenas e há vidas grandes que serão sempre pequenas devido a certos factores.

podes fugir mas não te podes esconder. 

quem és é moldado pelo sítio de onde vieste ou de quem saíste.

não interessa quem sejas hoje.

e cada degrau que sobes ou desces é condicionado por quem foste.

sem opção.

 

durante anos lutei contra a certeza de que era uma serranita gorda e pouco polida.

que não sabia qual o copo da água e do vinho num grande evento.

que não percebia o motivo de se pôr o guardanapo nas pernas e não entendia, sobretudo, o falar em sussurro, o rir em sons cristalinos, o caminhar com ar de quem leva a vida em cima do nariz.

desajeitada, com a delicadeza de um elefante em cima de nenúfares, voz pujante, gargalhadas fortes, caminhar torto e desengonçado, olhando o chão no medo de ver muito acima. 

 

a primeira vez que vivi na cidade tinha a certeza absoluta de que o mundo me observava e apontava o dedo, clamando que o meu lugar era entre as árvores e o rio. entre a terra, as galinhas e as carroças de erva com a vaca pinta à frente, da quinta para os currais ao fundo da casa da avó. e que o meu lugar sendo lá, aos olhos destes onde hoje regresso, lá também não era porque sempre senti que o mundo era mais do que as curvas e contracurvas, o isolamento e a sensação de gota fora de água.

 

e depois, quando finalmente me moldei a viver de outra forma e achei que o passado era um fantasma que não me incomodava, mandei tudo às urtigas e percebi, sem perceber muito bem, que a melhor parte de mim, a mais segura, a mais pura, a que mais valia a pena, era a que vinha de trás.

era a rudeza dos montes, o cantar do galo às quatro da manhã, o apanhar o autocarro desconchavado em dias gélidos para ir para a escola.

era a broa de milho feita no forno a lenha, as laranjas caídas nas ruas como bolas de futebol e a corda de amarrar os molhos transformada em brinquedo em pequenos saltos.

eram os rebuçados de dois e quinhentos, a marmelada a secar ao sol, as uvas a escorrer nos lagares e os livros dos cinco no banco de cimento à entrada do portão.

 

por mais que suba ou desça na vida - seja lá isso o que for - virei dali ou dacolá e terei nascido dacolá ou dali.

isso não é pejorativo.

é quem sou. 

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publicado às 11:05


4 comentários

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De Gorduchita a 07.09.2017 às 11:17

Nem mais. Molda quem somos, mas não condiciona o que podemos ser! :)
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De Cá coisas minhas a 07.09.2017 às 11:35

Adorei. Tão bom.
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De Cristina M. a 07.09.2017 às 20:47

esses são os chamados movimentos-completamente-ilusórios-na-vida.
:-)
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De David Marinho a 08.09.2017 às 01:31

Nós nunca nos moldamos verdadeiramente. Voltamos sempre, emocionalmente ou historicamente, ao que éramos.

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