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por que tens um blog M.J.?

por M.J., em 01.04.16

porque posso - anos depois - encontrar num deles quem fui.

perdi o caderno onde anotei a vida.

não perdi a password do pedaço de internet onde expus as anotações da morte.

 

bom fim de semana.

 

"Esta manhã fiquei sentada no carro pasmada, meia hora, antes de vir para o trabalho. Assim, sentada, pasmada, calada, quieta, sem ouvir nem ver nada, só quieta, só a pensar que tinha de me levantar, que tinha de pegar na mala, no casaco, nas coisas e caminhar até aqui e depois sentar-me e ficar aqui, o dia todo a fazer uma insolvência onde entram coisas como letras e livranças.

Foi isso que fiquei a fazer, sentada, meia hora que contei pelo relógio novo que a mamã me deu pela recuperação, pasmada a olhar em frente. Ali sentada, a pensar no quão idiota é a minha vida. No quão absurda se tornou, de um dia para o outro, tudo aquilo que eu acreditava, todas as bases se afundaram e eu fiquei, assim, à deriva, sem pés, nem cabeça, só a andar, para ali, para aqui, a dormir nas horas que devo dormir, a comer nas horas que devo comer, a sentar-me longos períodos na terra, com o gato como minha companhia, ambos os dois, sentados a olhar em frente, à espera de uma resposta qualquer que faça sentido o ter descido onde desci, o abandono a que fui sujeita, os comportamentos que fiz, tudo, tudo, tudo.

Esta manhã fiquei no carro sentada a pasmar durante meia hora. Cheguei atrasada ao trabalho, mas isso agora não interessa, que está tudo de férias, este mês é de relaxamento. Fiquei ali sentada, a olhar as matronas das caravanas a passear os cães e a pensar que antes disto tudo eu também ia ter um cão, mesmo contra a tua vontade. Fiquei sentada a pensar, pasmada da silva, sem ver o tempo, porque não sinto assim a tua falta da maneira que eu achava que ia sentir; porque não tenho o coração tão dilacerado da maneira que eu achava que ia estar. Fazes-me falta. Mas a tua ausência não me parte de angústia, não me mata de dor.

Dói mais este andar que agora ando, este não saber viver que não sei. Este pairar pelo ar, este ser conduzida, por alguém que não eu, acordar, vestir, tomar banho (eu que nem tomar banho queria), vir para o trabalho, comer a sopa ao almoço sempre no mesmo sitio, tomar a medicação, enfiar-me nesta sala durante a tarde a fingir que trabalho, pasmando em frente ao computador, tentando encontrar coisas que me façam viver em vez de andar e depois jantar, tomar mais medicação e dormir.

Não choro. Não rio. Não vivo. Ando. Como num barco à deriva, ando sem pensar no amanhã, no depois, se as coisas estão bem, se o dinheiro chega, se o trabalho está bem feito, se os amigos vão permanecer lá, se a mamã sofre por me ver assim, se estou vestida de verde com roxo, ou se o cabelo está com a franja em frente aos olhos ou encaracolada. Ando. Não quero morrer, eu sei. Mas este andar não é nada.

Quero zangar-me, revoltar-me, chatear-me com esta doença que te levou, quero rir-me até às lágrimas, combinar jantares com amigos, falar com toda a gente, passar manhãs ao espelho a preparar-me, orgulhar-me dos trinta quilos perdidos, orgulhar-me do trabalho bem feito. Quero a velha Maria João, que desapareceu. Mas não sei onde ir busca-la, porque passo meia hora, de manhã, pasmada, sentada no carro, a olhar as matronas a passear os cães.

Andar não é viver. Passar não tempo não é viver.

Estou farta disto.

Acho que começo a fartar-me destas férias emocionais."

agosto, 2012

 

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publicado às 19:30


5 comentários

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De Novembro a 02.04.2016 às 22:13

MJ só posso felicitar-te por te sentires bem melhor e tua vida ter mudado. Por estares a viver. Que bom.
Eu tenho medo do meu dia não chegar.
Receio de não superar este meu "estado de triste sobrevivência". Não desisti. Mas.... :-(:-(:-(
Beijinho
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De Novembro a 03.04.2016 às 11:38

MJ, por favor dá-me uma palavra. Preciso de uma palavra de alguém que passou por este sofrimento.
Desculpa!
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De M.J. a 04.04.2016 às 13:11

Olá. posso dar-te todas as palavras do mundo mas sei, por experiência própria, que são as tuas próprias palavras que te podem ajudar.
só as tuas.
posso dizer-te que tudo vai ficar melhor mas creio que sabes isso. sabes, não sabes? que tudo melhora?
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De Novembro a 04.04.2016 às 20:31

MJ, há momentos em que acredito que tudo vai passar, mas outros há, em que penso o oposto.
Hoje, estou melhor. :-)
Quando li o teu post e te escrevi estava a sentir-me muito triste, "assustada", e identifiquei-me com o que um dia escrevestes. E só quem já sentiu algo idêntico me poderia compreender.
Estou a lutar :-) Quem sabe um dia te escrevo, a dizer que consegui. Que venci.
Obrigada. Um beijinho e tudo de bom para ti!
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De Joana B. a 04.04.2016 às 17:55

é bom teres estes textos para de vez em quando ires lendo e perceberes o que conseguiste ultrapassar.
tenho essa sensação de ir vivendo, dos dias passarem e de não estar a ir para lado nenhum, mas não consigo pôr esses sentimentos por escrito.
obrigada por partilhares este texto

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