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sento-me no carro. é noite. tenho sono. está frio. no carro está quente mas sinto frio. sinto sempre frio. é noite, já te disse que é noite? tu sabes, tens de saber, que saíste ainda há minutos do meu lado. deixaste-me aqui. abandonada em mim mesma. sabes o quanto dói esta solidão em que habito dentro de mim?

ligo o carro. ele anda. ainda bem. está frio e dentro de mim o frio é esquecido pelo calor do álcool que bebi. tinha de beber. sabes bem que sim. tu não o fazes também, nas noites em que a dor te mata, te dilacera, te corta até não saberes quem és? sinto o calor falso do álcool a queimar o peito. e não choro.

está frio. já te disse que está frio? entrei na auto estrada. estou a conduzir, eu sei, mas não sou eu que conduzo. é o carro que me conduz a mim, mas isso é já outra história. sei de ti, ai deitado em casa. deves estar já em casa. desejo ardentemente que me ligues. que perguntes onde estou.

onde estou? estou aqui, seu filho da puta, onde mais podia estar se me calcas, me queimas com dores, sem saber, nem um pouco, sem entender que preciso mais do que "vai ficar tudo bem" e "gosto de ti". onde estou? estou perdida, dentro de mim, dentro de ti, que tu dóis-me tanto, mas tanto como me dói a alma neste momento.

não ligas. o carro leva-me. o álcool também. digo qualquer coisa, em delírio do que não sou. está frio e ainda assim, repara, ainda assim abro a janela. e está tanto frio. porque não me ligas a perguntar como estou?

como estou? morta. a morrer. sabes que estou a morrer. sabias que posso morrer agora? que me basta fechar os olhos, e como eles querem fechar, cansados, esgotados, basta-me fechar os olhos dizia eu, e tenho a plena consciência que se os fechar acaba. termina. a dor deixa de ser dor. o desespero deixa de ser desespero. a angustia deixa de ser desespero.

não ligas. não páro o carro. não fecho os olhos.

e percebo, meses mais tarde, sentada naquele sofá, com os teus olhos nos meus (tão pouco que me lembro dos teus olhos) quando me dizes chega, não dá mais, que fui eu, com a minha dor, que nos matei, a nós.

já te disse que está frio?

e já te agradeci por teres ido, assim, embora? que a tua ausência foi a salvação do que sou?

não?

muito obrigado então. e boa sorte ai no inferno.

 

*excecionalmente hoje, às sextas.

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publicado às 17:39


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