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um blog sério, credível, com escritores e leitores profundos, cultos e sabedores não menciona - JAMAIS - certas banalidades corriqueiras. 

é ponto assente, não vamos discutir.

sobretudo, meus senhores, blog no topo da pirâmide não faz referência - por mais que doa, por mais que pique, por mais que queime - a programas de tv de segunda categoria. 

blog digno tem em si referências ao telejornal da rtp2 (aquele que passa depois dos outros todos), programas cultos sobre cinema italiano, documentários acerca de pinguins, filmes a preto e branco (mais preto do que branco) e, evidentemente, um dos últimos mil comentários de três obesos acerca das fintas que um jogador fez e não devia ter feito. ou o contrário.

posto isto, é regra básica de que só um blog muita rasquinha fala de reality shows. ou da casa dos segredos. ou daqueles programas idiotas do gordo que quer ser magro. ou daquela família que tem mais elementos do que os beatles e cujas senhoras têm um cu que podia conter toda a gordura de uma tribo de áfrica. ou daqueles programas onde as moçoilas ciganas vão casar e querem vestidos maiores do que toda a família junta (e olhem que costumam ser numerosas). 

blog decente não fala disso.

e é por esse motivo que eu desbravo caminho e aviso já - de peito feito - que vou falar da casa dos segredos.

um pequeno ponto, só, mas vou. aguentem-se à fava ou respirem fundo que aqui vai bomba!

 

em setembro a tvi apostou novamente em fechar uns quantos marmanjos dentro de uma casa com piscina. em dezembro a tvi terminou o ano com cinco desses marmanjos e todo um movimento nacional para ganhar uma das moças que fazia parte. 

e é isto.

"ah MJ, tanta coisa e é essa frase medíocre - ainda para mais mal escrita - que querias aqui esbardalhar? tanta introdução para nada?"

eu explico: quando o programa começou decidi acompanhar numa espécie de estudo académico (se quisermos chamar isso ao facto de uma fulana estar sentada no sofá, aos domingos à noite, de pc nos joelhos e tv sintonizada na tvi deitando o olho para perceber o que se passa). depois tomei o passo seguinte e fui mais longe: passado um mês e meio aderi a grupos e a páginas do facebook sobre o assunto (tirando os temas fit, que tanta celeuma deram neste blog, nunca tinha aderido a tanta idiotice junta) e posso garantir o que garanto:

há uma multidão de gente que delira com aquilo. que gasta dinheiro com aquilo. que vivencia aquilo como se fosse a sua própria vida. que assume aquilo como parte de si e vê naqueles fulanos com nome de cães (mias, kikas, tuchas) e que falam num dialético anormal (e depois eu amo ela) a sua própria vida, os seus próprios traumas e coisitas. 

"M.J. mas o zé maria é tão anos dois mil..."

pois é. mas desta vez a multidão em delírio direccionou o seu histerismo para a vitória de uma fulana loira que ganhou o programa com uma percentagem idiota de votos.

"ah MJ, vê se cresces, que aquilo é tudo manipulado pelos senhores que mandam em tanta burrice".

pode ser, meus senhores, pode ser. mas o que eu li era real. e o que eu li foram dezenas, centenas de pessoas, sem exagero nenhum, que se digladiavam na internet a defender uma moçoila loira que nunca conheceram. o que eu vi foi gente que a tratava por "a nossa menina", "a nossa queridinha", " a nossa princesa". que dizia "vamos enviar um avião", "vamos gritar lá para dentro", "vamos carregar o telemóvel com duzentos euros para votar nela", "já gastei cem euros em telefonemas mas foram os cem euros mais bem gastos da minha vida".

e isto tudo, meus senhores, acreditem ou não, é verdade.

três meses. três longos meses de gente unida em multidões, a gastar dinheiro, semana a semana, num programa. a destilar comentários gigantes com opiniões. com argumentação concreta e bem definida acerca de como a moça comia, bebia, dormia, falava, mijava e apanhava sol.

três longos meses de dinheiro gasto, constantemente em chamadas. 

uma autêntica demanda nacional, meus senhores. 

 

e o que se conclui com aquilo? que aquela multidão, por mais poucochinha que fosse, esteve disposta a gastar rios de dinheiro em algo inútil. 

num país tão pequenito, num programa tão medíocre, aquela multidão predispôs-se a gastar tempo, energia e dinheiro em nada, unindo-se com força e garra, como se as suas unhas nascessem encravadas em função disso. 

 

caso ainda não tenham dado conta, num país tão pequenito aquela multidão pequenina vota, quando não se abstém.

num país tão pequenito, meus senhores, se o trump participasse na casa dos segredos, ganhava as eleições.

 

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venham ter comigo até facebook - aqui - instagram - aqui 

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publicado às 09:30


20 comentários

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De Rooibos a 03.01.2017 às 11:14

Já fui fã desse tipo de programas. Ao início o conceito era novo para mim e gostava de ver.
Depois passou a ser mais do mesmo. E cada vez mais as regras foram alteradas e os concorrentes escolhidos a dedo para causar pressões e conflitos.
Mas enquanto houver audiências e gente disposta a gastar dinheiro nas chamadas, o programa continuará a existir.
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De M.J. a 03.01.2017 às 14:37

e o problema é que há mesmo muita gente com vontade de gastar dinheiro nisto.
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De Cristina a 03.01.2017 às 11:24

MJ, o que me faz mais impressão é a tipa ser identificada como "jurista".
a banalização de funções nobres só tem lamentáveis resultados, veja-se o caso dos "professores" que, se ainda são desse tempo, mereciam algum respeito.
boa semana.
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De M.J. a 03.01.2017 às 15:53

é ridiculo.
sobretudo porque não faz sentido que se designe uma pessoa em função daquilo que faz. se o fulano se chama miguel e é desempregado não nos referimos a ele como "o desempregado está a comer atum". até porque ficávamos com treze por cento (ou sei lá quanto) da população ali englobada.

o que se tem assistido, no entanto, é uma série de jornais e blogs alimentados por gente que não sabe escrever e que em todas as frases usa o nome próprio de alguém para relatar. exemplifico:
" a helena comeu atum. depois a helena foi fazer xixi. depois a helena discutiu com a sandes e a sandes disse à helena que o atum que a helena comia era de ontem. entretanto, a helena foi dormir e a helena sonhou com salsichas".
ao reler isto, quem produz tal conteúdo acha que há ali helenas a mais. solução: helena sim, helena não usa o termo "jurista".
et voilá! assim se banaliza a coisa! (não pela banalização em si mas pela incapacidade de escrita).

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De Cristina a 03.01.2017 às 18:33

apontas uma realidade (triste): a incapacidade de escrita; por si só, advém da incapacidade de nomear com "nuances", que, por sua vez, advém da limitação de pensamento. triste.
eu entendo que a questão aqui referida - a "jurista" - e outras afins têm origem, sim, na pretensa importância, no acréscimo que uma função pode ser quando acoplada a um indivíduo.
sendo assim, parece-me isto tão ridículo (no mínimo) como alguns bloggers se referirem a si mesmos como "escritores", quando até o José Rodrigues dos Santos consegue ser (coitado) um prémio Camões se ao lado deles.

saudações académicas ;-)
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De M.J. a 04.01.2017 às 09:37

ahahahahahahaha

saudações académicas.
saudoso professor.
quarto de hora académico.
a horna de ter conhecido tão douto professor.

estes jargões são fabulosos!
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De Genny a 03.01.2017 às 14:10

Boa tarde, MJ!
Não acompanho esses programas - e podes não acreditar, nunca vi nenhum episódio, nem faço ideia em que série vai -, mas passei o fim de ano em casa de uma vizinha que tinha a TV ligada nesse programa. Forçosamente, tive que ver o final. Uma das pessoas presentes não queria que essa moça ganhasse. E só ouço isto "queira Deus que ela não ganhe, Deus sabe que ela não devia ganhar".
Óh fosca-se!!! Com tanta gente a necessitar, MESMO, das preces de Deus! A não ser que chamar a atenção de Deus para estes programas seja uma forma de Ele ver o quão o ser humano desceu....
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De M.J. a 03.01.2017 às 14:43

estou a imaginar Deus:

"oh Armindo, faz aí uma contagem das orações para ver quantas houve a favor de cada um dos concorrentes do secret story em portugal. e ao mesmo tempo, tem lá atenção, dá ordens ao são pedro para não esburacar a casa da dona maria com o mini tornado de segunda feira, que ela tem rezado muito. mas que se lixe a da vizinha que essa está em atraso de padre-nossos!"
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De Maria Mocha a 03.01.2017 às 14:30

Este post é serviço público! Os meus parabéns pelo discernimento demonstrado.
Quanto às preciosas conclusões, de facto é isto que temos, MJ.
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De M.J. a 03.01.2017 às 14:44

diz que há um psicólogo que avança que tudo o que seja ligado a programas desses é serviço público!

:)
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De Quarentona a 03.01.2017 às 20:46

Seria serviço público caso servisse para mostrar como não se deve ser, mas a realidade é que aquilo funciona mais como uma epidemia, as gentes que participam são cada vez mais exemplos de tudo o que não desejamos ver nos que nos rodeiam. Segui religiosamente o primeiro do género, por ser novidade, depois e como referiram acima, é mais do mesmo e muito pouco recomendável.
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De M.J. a 04.01.2017 às 09:39

nada recomendável.
a não ser que queiras fazer um estudo da estupidez humana.
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De Maria Mocha a 04.01.2017 às 14:08

Nesse sentido é que eu dizia que este post é serviço público!!! Não é isto ("estudo da estupidez humana") que tu fazes, e muito bem, no post?
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De M.J. a 04.01.2017 às 15:31

tentei, tentei :)
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De Ana a 04.01.2017 às 10:00

Estou a bater palmas ao teu texto. Bravo. É que é mesmo isso.
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De Joana B. a 04.01.2017 às 11:25

Costumo ver esses programas, as primeiras casas dos segredos via mais, costumava ver os diários e as galas mas o do ano passado e este já não segui tanto só via ao domingo e ia sabendo das últimas pelo facebook.
Acho que os concorrentes deste ano foram os piores de sempre, pessoas que só por estarem ali dentro pensaram que eram muito importantes, gente tão convencida que se eu estivesse ali dentro era expulsa logo ao inicio porque atirava com qualquer coisa à cabeça de alguém.
A que ganhou acho que de todos era a menos má.

Para concluir, apesar de seguir as casas (e de querer que este ano ganhasse quem ganhou) nunca votei em ninguém e nunca gastei dinheiro nessas coisas (já para não falar dos 300€ que gastam para enviarem aviões)
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De M.J. a 04.01.2017 às 11:27

ora aí está uma informação que eu não tinha:

TREZENTOS PAUS?
POR AVIÃO?

vou montar uma empresa dessas!
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De Joana B. a 04.01.2017 às 14:17

diz que sim, o senhor dos aviões (que acho que é sempre o mesmo) nesta altura do ano é que deve ganhar bem para aguentar o resto do ano
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De Cristina a 04.01.2017 às 19:15

pronto, nada feito, MJ. já existe um lóbi dos "aviões que passam por cima da casa dos coisos com uma fita com dizeres".

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