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quantas pessoas deixei morrer?

por M.J., em 13.01.17

ontem li um texto num blog que me causou arrepios:

a autora escrevia, de uma forma absolutamente dorida, a morte de alguém que gostava. e descrevia com uma certa amargura a partida sem regresso de um amigo: o xico. 

 

em tempos também tive um xico.

eu escrevia noutro blog coisas dolorosas que demonstravam o quão doente me encontrava, que demonstravam as trevas que iam comendo a alma e, um dia, recebi um e-mail do francisco.

foi a partir desse primeiro passo que estabelecemos uma amizade desinteressada e que me ajudou a crescer, a ultrapassar, a procurar as mãos que apoiariam na subida do lodo onde me colocara.

o xico foi tão importante, mesmo à distância das teclas, como todas as pessoas daquela fase que entretanto perdi. como todas as pessoas que me fizeram rir, soltar gargalhadas, que me ajudaram a atenuar a ansiedade em turbilhão e me fizeram ultrapassar cada dia e amanhecer depois de cada noite em que as preces eram para não acordar.

 

e depois perdi o contacto do xico.

não foi num repente mas não demorou anos. recuperei na vida e recuperei a vida. apaixonei-me, conheci outras pessoas. cresci e conheci-me a mim e pelo caminho fui perdendo aos poucos as ligações de quem me ajudou na transição.

é triste, mas é verdade.

 

ontem, ao ler aquele texto senti a alma um bocadinho em frangalhos. como quando emergimos de um longo mergulho e percebemos que o oxigénio não obedece aos nossos comandos e há luz e ar e cor e barulho mas o corpo demora a reagir e a chegar à realidade que vemos.

aquela pessoa, ali descrita, que morrera, que fizera por morrer, podia ser o meu xico. assentava em cada descrição, em cada palavra e por momentos eu morri um bocadinho também.

por momentos, a pequena certeza de que aquela pessoa podia não ser já - mesmo não sendo na minha vida - foi-me consumindo a pontos negros de dor. 

 

depois percebi que não era ele a pessoa a se referiam naquele post.

mas podia ser.

podia ser e eu não soubera. podia ser e mesmo que fosse a diferença que isso provocaria na presença dos meus dias seria indiferente porque já não está. porque deixei que não estivesse. no fundo - e analisando pragmaticamente - na minha vida, na constância dos meus dias deixei que o xico morresse. o xico e tantos outros. fui galgando as horas e entrando na minha ilha e deixei para trás todos os que me ajudaram a navegar nas ondas que quase me impediram daqui chegar. 

embrulhei a vida num manto de egoísmo e matei os xicos que ma fizeram.

que diferença pode fazer - neste momento - que respirem ou não? e porquê aquela dor no peito, aquele tremor na alma, aquela sensação de desespero seco na possibilidade de estarem mortos? que diferença faz a sua permanência ou não, na vida, depois de os ter expulsado da minha, de forma directa ou indirecta?

 

é pelas recordações que guardamos? é pelo sentimento de que algo permanece mesmo sem a presença?

o que nos faz sentir a dor da morte daqueles com quem não convivemos há anos? daqueles que já não vemos, não falamos, não sabemos? é o remorso? a certeza da fatalidade? de que o agora é mesmo eterno? 

ou é ainda a dor por os amarmos, mesmo não estando?

 

quantas pessoas deixei morrer da minha vida?

terei feito o luto por alguma?

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 11:54


3 comentários

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De Miss Winter a 13.01.2017 às 12:22

:(
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De Corvo a 13.01.2017 às 14:01

Está enganada. Não tem nem é responsável por nada.
A vida é isso: um turbilhão de encontros, desencontros, amizades, afastamentos sem que necessariamente alguém seja responsável
Não carregue os pecados do mundo, não suporte as dores de outrem. As pessoas são o que são e a vida é o que é.
A responsabilidade que erradamente a si se atribui, é a mesma que a todos concerne.
Um bom fim-de-semana
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De Quarentona a 13.01.2017 às 19:51

Subscrevo inteiramente o comentário do Sr. Corvo! E acrescento, aproveita quem tens por perto, um dia também partirão.

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