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quotas de desgraças

por M.J., em 15.05.17

tenho andado com insónias recorrentes. 

o filme é sempre o mesmo: chego à cama e dói-me a vida, aliada ao braço que ficou bom depois da fisioterapia mas começou novamente a chatear-me há umas semanas. depois tudo se torna uma pequenita tortura. os lençóis dobram-se sobre o corpo, há calor a mais que se transforma em frio e um sem número de pensamentos recorrentes que me assaltam como num cerco desprevenido, causando a vulnerabilidade que insisto em pôr para trás das costas ao longo do dia.

uma consumição.

 

ontem fez um ano de casamento.

não trocamos flores nem juras e procurei à pressa uma foto do dia só para assinar a coisa sem grandes foguetes.

a nossa vida começou antes do casamento e passou muito para além daquele dia, na constante caminhada diária de viver na partilha. porque se há coisa que descobri este ano - isto as emoções são como são e nem sempre as controlamos - é a inevitabilidade da total partilha quando se decide uma vida em comum. ou em comunhão, diria o padre. a ausência de segredos, planos individuais ou o "eu quero". a ausência de uma tristeza egocentrista a causar uma dor apenas própria, ou uma alegria de vitórias vivida por um só.

uma partilha constante de sonhos, planos, objectivos, medos, inseguranças e incertezas. há uma partilha constante de receios e fantasmas mesmo quando me sento na varanda de madrugada, de cálice de vinho na mão - que se não fumo algo tem de substituir a mão vazia na lassidão - a ponderar se o que tenho me chega ou desisto de vez. 

há uma total partilha em igualdade de circunstâncias e às vezes, quando nos deitamos e chegam as insónias e os lençóis são carvão aceso no corpo e tenho frio e calor e há um gato que mia no jardim e um vizinho que caminha pela casa e mil fantasmas que voltam de fundo do passado onde os prendi, e mil situações que não fechei na fuga da personalidade que sou, e quando me dói a alma no sono que não chega e percebo, numa epifânia quase constante que ele ali está e dorme, na respiração pausada dos serenos, o corpo abandonado ao meu lado, a entrega total a quem sou mesmo sendo eu - como é possível? - mesmo nas minhas insónias e fantasmas e medos e eu, só eu como eu, toco-o ligeiramente para saber se é real

serei o rei que sonha que é borboleta ou a borboleta que sonha que é rei?

é esta mesmo a minha vida ou vou perceber, a qualquer instante, que tudo se desmorona e tenho de recomeçar outra vez, carregando traumas e medos, pedaços de mim desfeitos, novamente, tudo muito ruim e queimado, uma pequena selva de medo? 

é mesmo ele ali e esta é a nossa vida e somos dois mesmo que eu sinta, às vezes, que somos quase um, e vamos seguir e continuar e amanhã vamos estar ainda aqui, e os dias permanecem na paz de cafés de cevada e pão com manteiga ou há uma volatilidade que pode esfumar tudo isto num piscar de olhos?

 

tenho tanto medo, disse-lhe um dia, tenho tanto medo de estar a viver toda a quota de coisas boas disponíveis a uma pessoa, e tarda nada receba o que é suposto, na balança do equilíbrio karmico, mesmo que não acredite, e qualquer dia venha novamente a desgraça da dor para me lembrar que eu sou eu e eu não sou esta.

e ele, baixinho, a caminhada na tarde que caía, as primeiras flores de primavera:

não te preocupes. encheste já, no que ficou para trás, a tua quota de desgraças de vida. agora e o que aí vem é só e apenas para compensar.

 

é, não é?

 

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publicado às 11:17


8 comentários

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De Quarentona a 15.05.2017 às 11:35

É! :))))
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De M.J. a 15.05.2017 às 11:39

estás ai :)
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De Quarentona a 15.05.2017 às 11:42

Sempre estive :))))
Umas vezes esta porra deixa comentar, outras não, vá lá saber-se porquê... olha, como tu dizes, uma consumição...
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De M.J. a 15.05.2017 às 11:44

agora com os trinta vou começar a dizer "uma inquietação"
é mais chique :D
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De A rapariga do autocarro a 15.05.2017 às 13:03

Nada temas, os problemas do amanhã não são os de hoje! Vivea felicidade cada dia!
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De Fátima Bento a 15.05.2017 às 18:53

Olha, é um pecado comentar um texto tão bonito com uma frase cliché, mas só me ocorre isto: não olhes para trás que não é nessa direção que segues!

Sei do que falas. Acredita. Mas sem acreditar na lei karmica, sei que a vida tem a sua forma de nos compensar... os meus quase 20 anos extra já mo mostraram...

B'jinhos
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De Cristina a 15.05.2017 às 20:07

teu esposo habla muy bien ;-)
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De Aninhas a 17.05.2017 às 21:20

A vida é pra seguir em frente, não pensar mto no futuro, esquecer o passado, viver o melhor possível o presente! Qto a insônias, qda um comprimido pra dormir, eu já faço isso há mtos anos! Prq enquanto estamos acordadas, só nos lembramos do foi mau na nossa vida! Os homens teem mais facilidade em adormecer, e até isso nos imcomoda! Cuide bem de si!

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