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saudade, uma dor feliz.

por M.J., em 12.02.17

ontem relembrei um texto que escrevi há uns anos.

e percebi - numa conversa que não pensara ter - que há almas "que se reconhecem".

daqui até à lua. sempre.

 

fica novamente.

há textos que pelo muito que senti, podem ser repetidos.

 

não consigo, por mais que pense sobre isso, imaginar até que ponto vão os limites da dor a suportar pelo ser humano.

sei mais ou menos os meus limites, o esticar das emoções até às últimas consequências, até o cérebro se transformar numa esponja adormecida e tu, enquanto tu, seres apenas um pedaço de corpo andante, sem qualquer emoção ou sensação.

não sei qual o limite dos outros.

 

não sei qual a capacidade plena e absoluta de suportar, sem desistir, sem o desespero inundar tudo e quebrar os sentidos, o olhar, o odor, o tacto, o palato. qual o exacto ponto que a maioria das pessoas consegue sentir, sem quebrar, o manto tenebroso de escuridão colado aos ossos.

sem acabar por desistir por completo.

 

ontem, sem querer, dei de caras com alguém, pequeno, frágil, do tamanho de mil pequeninas partículas, ar de menina de rosas, que vive no limiar da dor.

olho para ela, observo-lhe a face, os lábios e não sei, juro que não - ainda que tenha passado um bom bocado hoje de manhã, sentada na esplanada com o vento a bater-me o corpo, a pensar nisso - como consegue não sucumbir.

como os ombros permanecem erguidos.

não sei.

 

saber que a pessoa que é o nosso mundo, pela qual nutrimos um sentimento de absoluto amor, a quem nos entregamos em tudo o que somos, com a qual rimos em ingenuidade, com a qual choramos em dias de tristeza, da qual conhecemos os mais pequenos silêncios, da qual sabemos o brilhante do olhar, da qual sabemos pedaços de toque, da qual ouvimos a respiração... saber que esse alguém pode morrer, que tem mais hipóteses de desaparecer do que o outro, o comum dos mortais, e trava um luta, gigante, contra o próprio corpo...

como se aguenta isso?

 

que dose sádica de esperança é preciso carregar nos ombros para ver a outra pessoa, o outro pedaço de nós definhar, lentamente, perder o que era e só restar um corpo, quase sem alma, perdida numa batalha contra a vida, e só ver trevas e morte?

que quantidade absurda de coragem, de batalhas travadas consigo próprio é preciso ter para adormecer todas as noites e seguir vivendo, um dia e outro, com a pessoa a morrer, ainda em vida?

 

como se sobrevive? como se sente o cheiro a terra molhada em dias de verão?

como se absorve as cores vivas das primeiras flores da primavera?

como se respira o odor de canela e maçã em dias de outono?

como se sente a chuva forte de inverno ou o vento fresco em mil voltas nos cabelos?

de que sabor se transforma o café quente na pastelaria do bairro ou de que cor fica o vestido favorito, aquele que vestíamos para seduzir, conquistar o pedaço de nós que morre, aos nossos pés, sem podermos fazer absolutamente nada senão agarrar-nos à desgraçada da esperança?

 

e depois?

como sobreviver ao absurdo e infinito vazio, após a partida?

como retornar a lugares comuns, olhar a cama onde ambos dormíamos, o sofá onde explorámos vidas e sonhos, a árvore da frente onde os pássaros cantavam a marcha nupcial das manhãs de domingo?

que dose absurda de vida é preciso injectar nas veias para viver após tudo isto?

 

amar meus senhores é muito complicado. amar é o maior desporto radical, a maior dose de adrenalina, a maior bebedeira ou moca de droga que o ser humano consegue sentir. e é também as consequências de quando a corda da escalada se parte, da ressaca do álcool ou da falta de droga, quando o corpo sucumbe ao desespero da ausência.

tem dias, creio, que amar é uma merda.

e ainda assim, a minha vida só faz sentido amando.

amando-o.

 

se um de nós tiver que passar por isso, que seja eu a morrer aos poucos meu amor.

não teria a dose de coragem das pedras, necessária à sobrevivência.

 

 

 

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publicado às 10:32


6 comentários

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De helena a 12.02.2017 às 19:20

Venho aqui todos os dias mas entro e saio em silêncio, mas este post tocou-me mais que os outros e por isso deixo o meu primeiro comentário.

Na esperança e incredulidade fiz, ou tentei fazer, manobras de reanimação ao meu marido, amor de uma vida, assim por alto, entre amigos, colegas, namorados, casal e pais 30 anos. Na luta para o salvar esqueci-me de mim e da minha dor, nem houve tempo para assimilar, e ver a morte chegar assim, em segundos, num dia de férias de Verão, calmo e doce com a tranquilidade de quem está enamorado e em paz é assustador. Mas apesar de estarmos "mortos", vá-se lá saber como, suportamos, sim. No meu caso, suportei porque na cabeça tinha: "o meu filho perdeu o pai, não pode perder também a mãe".

Desculpe o tom de desabafo, mas hoje, as suas palavras foram certeiras.

Um abraço
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De M.J. a 13.02.2017 às 10:07

lamento. não sei que dizer.
a não ser que lhe admiro a coragem de prosseguir. a força.
a helena deve ser uma pessoa extraordinária.
não há muitas assim.
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De Fleuma a 12.02.2017 às 21:44

Não vou M.J., agradecer-lhe este post. Talvez fosse até meu instinto amaldiçoar estas palavras. Porque por vezes, certos golpes surgem de onde menos espero. Por vezes, por muito que esteja habituado, o soco mais mordaz surge do nada.

Lamento. Não vou agradecer-lhe os rasgos que estas palavras me causaram. Porque partilho destes temores todos os dias. Desde que me ergo da cama até ao voltar a ela. Todos os dias. Só descanso quando observo um certo riso e penso sempre o mesmo que foi escrito nestas palavras: preferia ser eu em vez dela.

Odiei estas palavras. Sei que estão carregadas de sentido e razão. Expostas nuas e cruas. Eu talvez não consiga suportar cheirar o mesmo odor daquele cabelo lavado. E ao contrário destas escuras palavras eu já comecei a morrer antes que se vá.

Lamento, uma vez mais M.J. A sensação que me atravessou não merece que perdoe estas palavras.

Saúde.
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De M.J. a 13.02.2017 às 10:07

entendo.
mas não posso pedir desculpa por elas... são manifestação do que sentia...

beijo.
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De Fleuma a 13.02.2017 às 10:59

Pedir desculpa por sentimentos destes?

Nunca.

Saúde.
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De Joana B. a 13.02.2017 às 16:09

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