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uma pessoa está a comer uma sopa deslavada, com ar de enterro enquanto olha a chuva a cair pela janela. é meio dia e meio e tocam à campainha.

uma pessoa abre a porta, a bocarra ainda cheia de sopa e percebe que na porta do lado também se encontra a vizinha enquanto no átrio, com uma grande lata, está uma menina da unicef.

dizemos as duas em coro que estamos a almoçar, eu e a vizinha, e fazemos questão de entrar dentro de casa.

a menina interrompe-nos e começa com a ladainha de sempre.

tenho um absoluto asco pelas pessoas e as suas ladainhas. é uma técnica de venda, eu sei, e o objectivo é falar sem interrupções para que os tristes que ouvem não desistam a meio e usem daquela pouca educação que têm para não serem mal educados.

eu e a vizinha ouvimos.

a menina fez um amplo discurso acerca das criancinhas que morrem todos os dias não sei onde. a meio tanto eu como a vizinha a interrompemos lembrando cada uma do seu almoço mas ela continuou como se fossemos asquerosas por querermos ir comer quando ela estava a vomitar coisas importantérrimas acerca de criancinhas.

disse ainda, se não me falta a memória, que deviamos não pensar só em nós.

começou a subir-me a mostarda ao nariz. não me subiria tanto se fossem senhores a vender pacotes televisivos, casas ou telemóveis. neste caso a tónica estava no facto de a menina achar que era a rainha da paz porque andava a pedir dinheiro, em nome da unicef, para as criancinhas. chateou-me sobretudo porque a menina tinha a frase final ensaiada e porque alguém lhe ensinou que se deve acabar com chantagem emocional:

- podem estas crianças contar convosco?

apeteceu-me mandar-lhe com a sopa nas trombas, o mais a ferver possível. tentando não soar muito mal disse-lhe, de sorriso amarelo, que tinha sido uma pergunta muito bem formulada.

a partir daí a coisa descambou.

a menina disse que sim, que formulava bem perguntas, enquanto sorria.

eu disse, enquanto sorria mais, que não decidia nada e se ela quisesse que deixasse as folhas para eu ler. 

ela disse - esticando ainda mais os lábios, que estávamos as duas a brincar - que não, não podia deixar nada pois que eu falsificaria a assinatura dela.

nesta altura sorriamos tanto as duas que podia perfeitamente estar ali o nilton a dizer piadas.

a vizinha, para tentar meter água na fervura, balbuciou que também não decidia assim mas que poderia, se o caso fosse grave, dar alguns alimentos.

a menina, com grande desprezo e sacudindo o cabelo, afirmou que essa era a ajuda fácil e o que a unicef queria era dinheiro.

a coisa azedou mesmo. 

pois que sim, disse eu, pois que estava muito surpreendida pela bondade no mundo e como uma menina tão bem falante como ela gastava o seu tempo, de forma voluntária e gratuita a ajudar criancinhas. e que era muito bonito da parte dela mas que seria mais bonito ainda se eu não soubesse que lhe pagavam para aquilo. 

à minha vizinha não pagavam pelos alimentos que ela queria doar. 

 

bati-lhe com a porta na cara.

se fosse agora tinha-lhe mesmo batido na cara.

 

cum mil enxadas!

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oh vai ver ali:

publicado às 15:00


8 comentários

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De Paula Lima a 19.04.2016 às 15:26

Cheira a esquema! A UNICEF não me parece nada ter porta a porta!
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De Paula Lima a 19.04.2016 às 15:54

Ok! Mesmo assim... nem abria a porta!!!!
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 19.04.2016 às 16:07

Ja me fizeram o mesmo. Também à hora de almoço , estava doente e sem paciência e debía estar em repouso. Disse que estava a almoçar, tocou o microondas e ela disse que lhe desse almoço que Veio de longe e tinha de ajudar as crianças. Toda a força para não a mandar a um sítio pior e fechei a porta na cara. Não acreditava sequer na campanha, mas confirma-se que é oficial. Nessa semana tocaram mais três vezes.
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De M.J. a 19.04.2016 às 16:11

eu costumo respeitar quem trabalha porta a porta. conheço-lhes os truques. aparecer quando estamos em casa, normalmente há horas das feijões. falar sem parar para que não os possamos interromper. arranjar frases fortes e apelativas... essas merdas.
esta chateou-me pela arrogância, pela imagem de "estou a ajudar criancinhas por isso ouve-me e cala-te" e por se fazer de santa quando estava a ganhar dinheiro em nome das santas crianças.
é que pedem autorização para fazer débitos bancários e querem que uma pessoa decida assim, enquanto espera que a sopa arrefeça, porque as crianças merecem.
porra.
há um limite!
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 19.04.2016 às 16:24

Foi o que chateou também. Sou céptica, e desconfiada. Não faria nenhuma transacao daquela forma. Nem sabia que a Unicef operava daquela forma. Mas foi arrogante, fez-se superior, convidou-se para minha casa, quis almoço porque estava a trabalhar, depois de ouvir que estava doente e a almoçar. Ha limites.
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De Silent Man a 19.04.2016 às 17:05

Santa arrogância... Avho que dizia "Com lincença" a meio da história. Só não o fiz contigo porque estava divertido a pensar que no fim a tinhas mandado ir coiso com alguém da preferência dela e li religiosamente até ao fim.

Desiludiste-me...
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De saracasticamente a 20.04.2016 às 00:04

Gosto particularmente quando as pessoas necessitadas só aceitam dinheiro. Eu também aceito géneros!

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