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sobre isto da escrita em blogs

por M.J., em 27.04.17

uma pessoa com quem não falava há mais de um ano disse-me olá através do chat do facebook.

não foi alguém minimamente marcante na minha vida. conhecemo-nos num contexto banal, pediu-me amizade no facebook e depois deixamos de falar, porque o acontecimento que nos ligava terminou. nada mais do que o normal nestas coisas das pessoas e do facebook e dos contactos.

com a excepção de que um ano depois pergunta-me como estou. 

estranhei.

não me lembro de ter sido simpática em demasia ou de ter dito ou feito qualquer coisa que levasse a que a minha pessoa, as minhas características, a minha maneira de ser pudesse ser marcante ou criasse empatia com aquela personalidade em concreto.

respondi portanto - um pouco desconfiada - o normal também nestas coisas: tudo bem e tu?

 

nesse instante foi como se tivesse aberto uma torneira cuja água jorrava com tanta força que fechá-la só com a ajuda de uns braços capazes.

em cinquenta linhas contou-me o último drama. todo. completo. acontecimentos de uma vida. com lamentos, impropérios, dores e quase lágrimas. a mim. com quem não falava há um ano e que apenas retribuí a pergunta por cortesia.

foi altamente constrangedor.

primeiro porque eu não sabia o que dizer e as palavras fugiam-me por entre os dedos.

depois porque fui assaltada por um misto gigantesco de emoções em que sobressaía uma pena terrível por alguém cuja necessidade de falar levava a que expusesse a praticamente um estranho uma vida inteira.

respondi coisas triviais:

"lamento",

"que chato",

"que situação",

"há-de passar",

"tu és capaz".

aqueles chavões retirados da bíblia do "ajude o outro" que aprendemos - uns mais cedo do que outros - a dizer em situações em que não há nada a dizer.

não sei se percebeu. a conversa morreu por ali.

 

depois constatei, uns dias mais tarde, que aquilo que faço e fazemos todos nós que temos um blogue e escrevemos a vida e sentimentos e dias e horas e sensações, tudo isso não é muito diferente daquele desabafo cego à primeira pessoa que respondeu a um "como estás?".

parte da mesma premissa de necessidade de desabafo. de conseguir criar empatia. de criar laços com outros, mesmo que muito ténues, mesmo que se desfaçam cinco minutos depois.

 

felizmente ao longo destes anos de letras e palavras a descrever dias e emoções tenho encontrado gente extraordinária.

gente com quem nunca falaria de outra forma.

gente que me fez e faz crescer com uma intensidade que não esperaria jamais.

gente que pega no que escrevo e transforma à sua medida retribuíndo depois, só porque sim. 

 

acho que é nesse exacto ponto que se distinguem uns e outros:

os que escrevem na procura de desabafo e não encontram nada mais do que palavras banais de circunstância - quando não é só silêncio - e os que escrevem e encontram, sem perceber como nem porquê, gente gigante do outro lado. 

como raio estou eu neste segundo ponto?

obrigado. 

 

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publicado às 10:34


12 comentários

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De meandmyboy a 27.04.2017 às 10:46

É por isso que eu desabafo no meu blog.
Tem dias que nem todos tem paciência para ouvir as nossas lamentações. Eu às vezes so me apetece desaparecer. E agora neste momento da minha vida so me apetece desaparecer.
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De M.J. a 27.04.2017 às 11:10

creio que já te disse o que penso, quanto a esta tua fase.
nas vendas as pessoas que estão no cimo da hierarquia são treinadas para usar frases de motivação, para levar a pessoa a acreditar que é capaz, para dizer coisas como "é tempo de domarmos a nossa vida", "com este negócio somos nossos chefes", "se lutarmos conseguimos".
é tudo muito bonito mas quando a pessoa não consegue sente-se uma bosta e isso não corresponde à realidade.
a maior parte das pessoas não consegue vender e não é por sua culpa direta. eu não conseguira, há mil pessoas que não conseguiriam porque são precisas caracteristicas que nem toda a gente tem. é como dizer a qualquer um que consegue ser o melhor cozinheiro do mundo e a pessoa não ter o minimo talento para a cozinha. a culpa não é da pessoa se queima o arroz, quando lhe fizeram acreditar que ela conseguiria.
és tu que tens de saber no que vale a pena apostar. racionalmente e sem cair no conto do vigário.

desculpa, se calhar estou para a qui a falar nem ajudo nada.
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De Fátima Bento a 27.04.2017 às 10:53

Muitas, mesmo muitas vezes, há uma imensa solidão do outro lado do monitor. E a bolinha verda ao lado de um nome conhecido às vezes é o que impede alguém de descarrilar.

O que contas já me aconteceu.... através do blogue. Lançam-me cordas aflitas porque já me lêem há um ror de tempo e nunca tiveram coragem de comentar mas naquele dia resolvem fazê-lo, e a razão fica ali pelas entrelinhas e a mais das vezes encontro-a. E em resposta, incito a falarem comigo por mail (a ver se consigo ajudar de alguma forma).

E ao longo destes 12 anos de blogosfera devo ter conseguido secar lágrimas e amparado crises de uma meia dúzia de pessoas. Os contactos mantiveram-se durante uns meses, um ano no máximo e esfumaram-se, o que eu acho positivo. Ainda estão na lista de amigos do FB, ocasionalmente 'laikam', eu 'laiko', dão-se os parabéns, deseja-se feliz Natal, bom ano e afins.

Tento sempre dar sequência a esses pedidos de ajuda tímidos; se calhar é de ser de psicologia, não sei. Aliás já em miúda era a almofada de todos, a pessoa que ouvia.

Por detrás de um 'olá, tudo bem, a que dás sequência pode, em última análise, estar uma tentativa de suicídio abortada, já pensaste nisso?

Desculpa o tamanho do comentário.

B'jinhos ;)
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De C.S. a 27.04.2017 às 10:58

As tuas palavras transparecem sempre genuinidade, talvez seja por isso que estás no segundo ponto. Beijocas
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De Um quarto para as nove a 27.04.2017 às 12:15

Porque quando lemos encontramos alguém que está de facto do outro lado. E muitas vezes, em diferentes circusntâncias encontramos palavras que não nos dão certezas que que esteja lá alguém verdadeiro.
Depois, a capacidade que cada um tem para se expressar de forma escrita muda tudo...
Depois há a sorte...essa bandida que dita muito...senão mesmo tudo...
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De Olívia a 27.04.2017 às 12:38

Ainda ontem falei sobre ti ao serão...
;)
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De Olívia a 27.04.2017 às 18:02

Pois foi!
Estivemos a falar sobre como muitas vezes nos enganamos sobre as pessoas... eu gostava do que escrevias, mas não achava piada nenhuma ao mau feitio da tua "personagem", depois descobri que afinal gosto muito de ti e da personagem também!!!
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De Cristina a 27.04.2017 às 14:14

e numa situação assim, algures no seu desenrolar, não te sentes usada?
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De M.J. a 27.04.2017 às 14:17

de qual das situações? na que eu desabafo ou quando desabafam comigo?

quando desabafam, da forma que este fez, sinto só pena. uma pena terrivel por aquela pessoa, naquele dado momento não conseguir mais ninguém que a ouça ou leia ou amaine as dores que não uma perfeita desconhecida. (e repara que não falo de gente que conheço através da escrita. falo de uma pessoa que me viu pessoalmente duas vezes e com a qual não criei absolutamente laço nenhum, muito menos empatia pelas palavras escritas).

quando eu desabafo no blog a primeira parte, do desabafo por si só, por mim e pelas letras fica cumprida, numa espécie de catarse. os comentários que vierem a seguir são um (bom) acréscimo.
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De Cristina a 27.04.2017 às 14:19

quando desabafam. já respondeste. obrigada :-)
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De Mula a 27.04.2017 às 23:26

A última vez que alguém com quem não falava há muito tempo escreveu um "olá tudo bem?" no facebook.... umas frases mais tarde tentou vender-me uma Bimby... por isso desconfio sempre desssas gentes...

Mas sim, concordo contigo.

No fundo acabamos a ser todos um pouco solitários a precisar de desabafos... nós temos a sorte de podermos ir ali aquele botãozinho do "novo post" e desabafamos, sejamos lidos ou não, ficamos aliviados... enquanto que alguém mais solitário sente necessidade de ir ter com alguém com quem não fala há séculos e tentar desabafar....

Acho que no fundo quando abrimos um chat escolhemos uma vítima.... ao passo que quando escrevemos no blog, alguém é que nos escolhe a nós por qualquer coisa extraordinária e superior.... também conhecido por empatia....

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