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oh vai ver ali:

publicado às 10:06

25 de abril

por M.J., em 24.04.17

a primeira vez que soube do significado do 25 de abril tinha 9 ou 10 anos e uma quadra da escola para fazer em casa.

o título seria qualquer coisa como "o 25 de abril para mim" e depois de concluir pela rima com "jardim" fiz um longo poema sobre rosas e malmequeres, abelhas e morangos.

 

a avó leu as palavras alinhadas e escritas com uma letra gigante muito desfeita, muito feia, um esbardalhanço de tinta e borrões,

escreve tão mal, esta miúda,

e abanando a cabeça com desilusão no olhar perguntou:

mas tu sabes ao menos o que é o 25 de abril?

e eu que não, que não sabia, achava que era feriado mas haviam tantos e tirando o natal escapavam-se-me todos.

uma consumição já aos oito.

 

a avó sentou-se comigo num murito do quintal.

haviam laranjas numa laranjeira antiga, galinhas ao fundo e uma ameixoeira grande.

o silêncio era atroz - algo que não lembro mas depreendo, que nunca se queima o silêncio na aldeia - e contou, muito séria, muito longa, muito solene, o que fora a revolução.

contou baixinho, quase em surdina, olhando de soslaio possíveis escutas porque há hábitos que não morrem e medos que não desaparecem:

enumerou dias e torturas.

falou de gente que eu conhecia e do que passara.

contou acontecimentos com conhecimento de causa e autoridade.

respondeu a todas as perguntas de infância de quem não entendia o que era "não poder falar", "não poder pensar", "não poder ser diferente".

revelou segredos antigos de família, que eu não compreendera por criança, e levou-me a crescer muito rápido naquele dia.

 

o meu poema, alinhado e grande, letra desconchavada e tinta borrada, foi o melhor segundo a professora, que me presenteou com uma estrela (ou seria uma cara sorridente?) colada no canto da folha:

o meu prémio, o meu troféu por qualidade. 

 

mas não me lembro de festejar.

foi o meu primeiro contacto com um medo superior do homem na impotência do próprio homem.

foi a primeira certeza de que os adultos não podem tudo, não conseguem tudo, não são tudo.

foi a primeira ideia de que havia no mundo uma coisa chamada "ditadura" e que ia muito para além do "come e cala-te, vai para a cama, estás de castigo".

foi a primeira sensação de que o homem tortura o homem, no significado da palavra.

 

só anos mais tarde compreendi a total beleza rara do 25 de abril, o seu significado como um todo e onde nos trouxe.

 

e hoje tenho tanto medo que o mundo se vá esquecendo dele, encaminhando-nos cada vez mais para aquele meu terror primitivo, num dia à tarde, com uma avó destemida e aterrorizada, a contar-me sobre a privação da liberdade de ser. 

 

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deu discussão! (quase porrada)