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ai MJ, a tua vida.

por M.J., em 14.03.17

ai manel, a tua vida,

grandes gargalhadas quando o viam, costas dobradas no campo, enxada na mão, suor a escorrer por entre as rugas que tinha desde que nascera porque há pessoas que nascem velhas, uma vida de cem anos no choro de quem vê a luz,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

a voz fina, amaricada, mãos calejadas, um mouro de trabalho, o calor infernal serrano do meio dia a bater nas costas, um pouco de água num rego por entre as ternadouras,

são leiras, que raio é isso de ternadouras?

um poço de água salgada a escorrer pelo corpo, a mesma camisola, inverno ou verão, uma malha velha em cima do peito cansado de velho, de quem nasceu velho, de quem cresceu velho, de quem morre velho.

 

ai manel, a tua vida,

quando passavam e o viam, uma quinta grande para tomar conta, sozinho, que os amos - a madrinha e o padrinho - assim o exigiam,

há que justificar o que come e bem que ele come,

o milho, o feijão, as batatas, as duas vacas e a erva, o abrir a presa e o fechar a presa, apanhar cachos,

são uvas, que raio é isso de cachos,

pô-los em cestas grandes que carregava aos ombros sozinho, despejá-las no lagar para transformar em vinho, um mouro de trabalho de quem não sabe o que é outra coisa,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

 

às dez da manhã, depois de levantado desde as seis, tirar leite às vacas, levar o leite ao posto, limpar o esterco dos currais, apanhar erva, correr pelas quintas,

para onde vais tu manel, com essa pressa? olha que cais,

as pernas velhas de quem nasceu velho, tropeças em passo apressado, um ar de missão de quem tem a vida nas mãos e precisa de a levar a bom porto,

vou levar o leite à madrinha, que deve estar a levantar-se,

senhora velha nascida nova, cabelos brancos, uma santa de virtudes a acolher o rapaz órfão, velho de nascimento, velho de infância, velho de juventude, velho de velhice, 

olha que tu vê lá como me tratas a quinta,

voz fina e sedosa, uma completa boa acção, que seria dele sem ela?

e ele a correr, todas as manhãs, umas quatro horas depois de estar acordado, com meio dia de trabalho nas costas, a levar o leite para a ama comer.

 

ai a tua vida manel,

as piadas de quem passava, um ar de galhofa na voz, a certeza de que era paneleiro, mariconço, maricas e larilas. palhaço nacional na miséria humana encontrado um dia, num dos currais perto do rio, enrolado com um tolito ainda mais tolo, uma pouca vergonha, os dois engalfinhados como dois cães com o cio,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

 

a mesma camisola, inverno ou verão, um sol infernal serrano do meio dia, o feijão e o milho, uma folha que não se movia num verão estéril, uma mosca que não zumbia na frescura de uma árvore inexistente, um calor bruto, seco, doente, e ele de costas dobradas, a cabeça descoberta ao morrer do meio dia,

ai manel que tu morres assado com essa roupa,

e ele, voz fina de mulher, olhos velhos de quem nascera velho,

o que tapa o frio tapa o calor. 

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(imagem daqui)

 

tantos anos depois, quando encasacada mesmo em dias quentes, me perguntam,

que raio M.J. não tens calor? 

respondo, com um sorriso de quem sabe por ter aprendido com um velho nascido mais velho e que se recusara - a vida toda - a admitir a inferioridade da própria vida:

o que tapa o frio tapa calor!

 

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confeisho a god

por M.J., em 07.03.17

marble_champion-large.jpge então já sabem dizer as cores?

voz suave de menina ainda que os cabelos brancos a lembrassem da idade, saia casaco da mesma cor, sapatos resistentes de homem, sempre que nos encontrava a menina milinha perguntava-nos coisas e nós - bem ensinados e crentes - respondíamos fosse verão ou inverno, houvesse chuva nos chapéus grossos de plástico,

olha que não partas o guarda-chuva que não te compro mais nenhum,

ou calor abrasador serrano, em dias eternos de verão.

 

 

e então, já sabem dizer os números?

uma curiosidade quase infantil, na procura de quem conversar, mesmo que a conversa fosse com quatro miúdos pequenos, alinhados e carregados, vindos da escola primária com grandes mochilas aos ombros, pão na mão esquecido de ser comido durante o dia,

olha que tu come o que te mando, que aqui em casa não há dinheiro para estragar,

e toda uma certeza de quem sabe que a vida se moldará aos seus pés, ainda que a vida fosse só aquelas casas perdidas, a escola no cimo pequena e branca, com duas salas enormes e duas casas de banho na rua, na entrada, 

posso ir fazer xixi, senhora professora? 

a espera da resposta, pernas a tremer, só se pedia quando a vontade era mesmo muita, na vergonha dessa intimidade,

podes pois, mas não se diz assim. repete comigo: a senhora professora dá licença que vá à casinha?

e depois uma corrida até à casa de banho feminina ou masculina com uma sanita ao meio e uma porta com um fecho.

sem lavatório. 

 

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e então, já sabem dizer os dias da semana?

e nós, na ida para casa, desertos do dia que passara em mais brincadeiras do que estudo, o grande cruzeiro ao centro, a árvore onde nos empoleirávamos, o lago ao fundo com girinos que pescávamos, as flores da época, 

nada de calcar as flores, vejam se têm maneiras ou eu chamo os vossos pais,

nós ali, bem comportados e mandados, que a menina milinha - à espreita, de saia casaco e cabelo levantado - era uma autoridade,

por que é que ela é menina, mãe? se já é velha,

a curiosidade espantada de quem não sabe a vida,

porque as irmãs dos padres são sempre meninas. 

 

 

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e o padre nosso, já sabem dizer o padre nosso?

perguntava a menina que não era menina mas que nunca fora mulher, desejosa de dois dedos de conversa e nós, saídos da escola, com calor e esbaforidos, sabedores da recompensa de quem poupara um mês inteiro, cinco escudos aqui, dez escudos perdidos ali, tudo junto num lenço à saída da escola, para quatro gelados comprados na loja perto da igreja,

temos duzentos escudos!

nós esbaforidos da corrida, cinquenta escudos por gelado, uma festa enorme de quem antevê doçuras, quase a chegar à loja e ela,

e a avé maria? já sabem dizer a avé maria?

aquela curiosidade santa de quem nunca aprendera inglês e queria saber o que nós sabíamos, todas a quartas depois das aulas, na professora nova que nos ensinava aos bocadinhos, uma hora por dois contos mensais, 

e o acto de contrição? já sabem dizer o acto de contrição?

e nós, que até em português nos engasgávamos no credo, os bolsos a queimar do dinheiro junto, uma fortuna enorme para quatro gelados, uma excitação de quem poupara tanto para a doçura de cinco minutos, nós já cabisbaixos pela meia hora ali perdida a fazer companhia a uma menina tão velha,

e o credo? já sabem dizer o credo?

 

e a ana, mais expedita, mais afoita, a minha ana que me desenganou do pai natal aos seis anos e me fez acreditar novamente na vida aos vinte e quatro, farta, sem paciência, lingua afiada, ombros encolhidos e a pergunta, num descaramento sem fim, vozinha felina de quem pensara no assunto,

e a menina, por que não se casou?

 

os gelados de cinquenta escudos não serviram para acalmar as lágrimas das palmadas que a mamã me deu depois, quando sabedora do episódio.

e por mais que lhe explicasse que não fora eu, que até me mantivera calçada e de olhos no chão, a mão da mamã encontrou o meu rabo e fez-me lembrar, de uma vez só, que não havia confissão que perdoasse certos pecados.

nem mesmo em inglês.

 

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e a confissão? já sabem dizer a confissão?

uns dias mais tarde, no retorno à normalidade,

e eu,

pois sim, que sei,

e ela,

então diz lá.

e eu,

confaisso a god alwais powerful my pecaidos. 

e ela,

só isso? 

e eu,

isso e cinco palmadas no cu. 

 

 

e desta vez a mamã não bateu. estava a rir-se demasiado para ter força. 

 

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deu discussão! (quase porrada)