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envelhecer em conjunto

por M.J., em 13.07.17

estamos a envelhecer em conjunto, concluo, olhando para estes quase seis anos juntos.

estamos a envelhecer mesmo que a palavra velho pareça deslocada nesta fase.

estamos a envelhecer porque os dias correm e nos fazem mais rugas, mais brancas e a ti menos cabelo.

porque já não celebramos meses de namoro mas anos.

porque já sabemos de antemão o que sentimos só de nos olharmos.

porque procuramos no outro o refugio do que nos falta na completude que somos juntos.

porque evitamos dizer o que sabemos já, de ginjeira, que pode magoar.

porque pomos de lado as coisitas minúsculas que incomodam, na certeza que são só assim, minúsculas.

porque nos vemos sempre, um e outro, a caminhar no mesmo passo na procura do que nos espera.

porque assumimos como de ambos falhanços e vitórias, concretizações e degraus caídos. 

 

estamos a envelhecer em conjunto.

já não guardo todos os recibos, papelinhos e coisitas da vida num caderno de anotar quem somos porque são tantos que não faria sentido.

já não penso em fugir no desencontro de opiniões.

desfiz-me da mochila preta e penso em momentos de referência estando lá tu.

é incrível.

tu estás.

tu amas.

tu sentes por mim, em reflexo diário, uma imensidão de amor que me constrói, comove, consola, mantém, e me faz viver em pleno.

 

estamos a envelhecer em conjunto.

e juro-te que não faço a mínima ideia como seria se não fosse assim. 

 

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oh vai ver ali:

no dia dos namorados tenho medo

por M.J., em 14.02.17

um medo absurdo da perda de mim, enquanto eu.

da perda da minha sanidade mental.

da perda do que sou enquanto pessoa.

 

de me transformar noutra coisa, sem traços do que creio ser.

de ver imagens que não existem.

de acreditar em coisas que não são reais.

de me perder daquilo que sou transformando-me noutra coisa, meio louca, meio estranha.

de me tornar dependente de outros para sobreviver sem a réstia da dignidade que sou.

 

de te esquecer.

de olhar a tua cara e não ver mais do que olhos e pele e lábios e dentes e não seres tu mas um outro qualquer. de não saber da tua voz, do teu cheiro e dos teus gestos. de não reconhecer os teus traços. de não me lembrar das tuas mãos. de não recordar o teu corpo junto ao meu. de não saber o sabor da vida que partilhamos. de não ver já as gargalhadas.

tenho medo de esquecer as coisas que nos faziam enquanto nós. 

 

tenho medo de, um dia, por mais longínquo que seja, não te ver. 

não posso viver cega de amor. 

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saudade, uma dor feliz.

por M.J., em 12.02.17

ontem relembrei um texto que escrevi há uns anos.

e percebi - numa conversa que não pensara ter - que há almas "que se reconhecem".

daqui até à lua. sempre.

 

fica novamente.

há textos que pelo muito que senti, podem ser repetidos.

 

não consigo, por mais que pense sobre isso, imaginar até que ponto vão os limites da dor a suportar pelo ser humano.

sei mais ou menos os meus limites, o esticar das emoções até às últimas consequências, até o cérebro se transformar numa esponja adormecida e tu, enquanto tu, seres apenas um pedaço de corpo andante, sem qualquer emoção ou sensação.

não sei qual o limite dos outros.

 

não sei qual a capacidade plena e absoluta de suportar, sem desistir, sem o desespero inundar tudo e quebrar os sentidos, o olhar, o odor, o tacto, o palato. qual o exacto ponto que a maioria das pessoas consegue sentir, sem quebrar, o manto tenebroso de escuridão colado aos ossos.

sem acabar por desistir por completo.

 

ontem, sem querer, dei de caras com alguém, pequeno, frágil, do tamanho de mil pequeninas partículas, ar de menina de rosas, que vive no limiar da dor.

olho para ela, observo-lhe a face, os lábios e não sei, juro que não - ainda que tenha passado um bom bocado hoje de manhã, sentada na esplanada com o vento a bater-me o corpo, a pensar nisso - como consegue não sucumbir.

como os ombros permanecem erguidos.

não sei.

 

saber que a pessoa que é o nosso mundo, pela qual nutrimos um sentimento de absoluto amor, a quem nos entregamos em tudo o que somos, com a qual rimos em ingenuidade, com a qual choramos em dias de tristeza, da qual conhecemos os mais pequenos silêncios, da qual sabemos o brilhante do olhar, da qual sabemos pedaços de toque, da qual ouvimos a respiração... saber que esse alguém pode morrer, que tem mais hipóteses de desaparecer do que o outro, o comum dos mortais, e trava um luta, gigante, contra o próprio corpo...

como se aguenta isso?

 

que dose sádica de esperança é preciso carregar nos ombros para ver a outra pessoa, o outro pedaço de nós definhar, lentamente, perder o que era e só restar um corpo, quase sem alma, perdida numa batalha contra a vida, e só ver trevas e morte?

que quantidade absurda de coragem, de batalhas travadas consigo próprio é preciso ter para adormecer todas as noites e seguir vivendo, um dia e outro, com a pessoa a morrer, ainda em vida?

 

como se sobrevive? como se sente o cheiro a terra molhada em dias de verão?

como se absorve as cores vivas das primeiras flores da primavera?

como se respira o odor de canela e maçã em dias de outono?

como se sente a chuva forte de inverno ou o vento fresco em mil voltas nos cabelos?

de que sabor se transforma o café quente na pastelaria do bairro ou de que cor fica o vestido favorito, aquele que vestíamos para seduzir, conquistar o pedaço de nós que morre, aos nossos pés, sem podermos fazer absolutamente nada senão agarrar-nos à desgraçada da esperança?

 

e depois?

como sobreviver ao absurdo e infinito vazio, após a partida?

como retornar a lugares comuns, olhar a cama onde ambos dormíamos, o sofá onde explorámos vidas e sonhos, a árvore da frente onde os pássaros cantavam a marcha nupcial das manhãs de domingo?

que dose absurda de vida é preciso injectar nas veias para viver após tudo isto?

 

amar meus senhores é muito complicado. amar é o maior desporto radical, a maior dose de adrenalina, a maior bebedeira ou moca de droga que o ser humano consegue sentir. e é também as consequências de quando a corda da escalada se parte, da ressaca do álcool ou da falta de droga, quando o corpo sucumbe ao desespero da ausência.

tem dias, creio, que amar é uma merda.

e ainda assim, a minha vida só faz sentido amando.

amando-o.

 

se um de nós tiver que passar por isso, que seja eu a morrer aos poucos meu amor.

não teria a dose de coragem das pedras, necessária à sobrevivência.

 

 

 

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digam o que disserem, esperneiem o que espernearem, há em certas relações (de amor, de amizade, de pai-filho, de gato-dono, etc e tal) um dos elementos que ama o outro mais do que o outro o ama a si.

é visível, ainda que se possa questionar o que é o amor e o pessoal se abespinhe, jurando a pés juntos que não, que se ama à maneira de cada um e a coisa é ao ritmo de cada qual.

pode ser.

mas acontece também que, em grande parte dos casos, uma das partes dedica mais, aposta mais, sonha mais, sacrifica mais, sente mais falta, sente mais vontade, precisa mais da outra, ama mais a outra do que a outra a si. 

 

só não sei qual das duas fica a perder: o que sente mais do que sentem por si ou o que não consegue sentir pelo outro aquilo que ele lhe devota.

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oh vai ver ali:

do amor

por M.J., em 24.03.15

não consigo, por mais que pense sobre isso, imaginar até que ponto vão os limites da dor a suportar pelo ser humano.

sei mais ou menos os meus limites, o esticar das emoções até às últimas consequências, até o cérebro se transformar numa esponja adormecida e tu, enquanto tu, seres apenas um pedaço de corpo andante, sem qualquer emoção ou sensação.

não sei qual o limite dos outros.

 

não sei qual a capacidade plena e absoluta de suportar, sem desistir, sem o desespero inundar tudo e quebrar os sentidos, o olhar, o odor, o tacto, o palato. qual o exacto ponto que a maioria das pessoas consegue sentir, sem quebrar, o manto tenebroso de escuridão colado aos ossos.

sem acabar por desistir por completo.

 

ontem, sem querer, dei de caras com alguém, pequeno, frágil, do tamanho de mil pequeninas partículas, ar de menina de rosas, que vive no limiar da dor.

olho para ela, observo-lhe a face, os lábios e não sei, juro que não - ainda que tenha passado um bom bocado hoje de manhã, sentada na esplanada com o vento a bater-me o corpo, a pensar nisso - como consegue não sucumbir.

como os ombros permanecem erguidos.

não sei.

 

saber que a pessoa que é o nosso mundo, pela qual nutrimos um sentimento de absoluto amor, a quem nos entregamos em tudo o que somos, com a qual rimos em ingenuidade, com a qual choramos em dias de tristeza, da qual conhecemos os mais pequenos silêncios, da qual sabemos o brilhante do olhar, da qual sabemos pedaços de toque, da qual ouvimos a respiração... saber que esse alguém pode morrer, que tem mais hipóteses de desaparecer do que o outro, o comum dos mortais, e trava um luta, gigante, contra o próprio corpo...

como se aguenta isso?

 

que dose sádica de esperança é preciso carregar nos ombros para ver a outra pessoa, o outro pedaço de nós definhar, lentamente, perder o que era e só restar um corpo, quase sem alma, perdida numa batalha contra a vida, e só ver trevas e morte?

que quantidade absurda de coragem, de batalhas travadas consigo próprio é preciso ter para adormecer todas as noites e seguir vivendo, um dia e outro, com a pessoa a morrer, ainda em vida?

 

como se sobrevive? como se sente o cheiro a terra molhada em dias de verão?

como se absorve as cores vivas das primeiras flores da primavera?

como se respira o odor de canela e maçã em dias de outono?

como se sente a chuva forte de inverno ou o vento fresco em mil voltas nos cabelos?

de que sabor se transforma o café quente na pastelaria do bairro ou de que cor fica o vestido favorito, aquele que vestíamos para seduzir, conquistar o pedaço de nós que morre, aos nossos pés, sem podermos fazer absolutamente nada senão agarrar-nos à desgraçada da esperança?

 

e depois?

como sobreviver ao absurdo e infinito vazio, após a partida?

como retornar a lugares comuns, olhar a cama onde ambos dormíamos, o sofá onde explorámos vidas e sonhos, a árvore da frente onde os pássaros cantavam a marcha nupcial das manhãs de domingo?

que dose absurda de vida é preciso injectar nas veias para viver após tudo isto?

 

amar meus senhores é muito complicado. amar é o maior desporto radical, a maior dose de adrenalina, a maior bebedeira ou moca de droga que o ser humano consegue sentir. e é também as consequências de quando a corda da escalada se parte, da ressaca do álcool ou da falta de droga, quando o corpo sucumbe ao desespero da ausência.

tem dias, creio, que amar é uma merda.

e ainda assim, a minha vida só faz sentido amando.

amando-o.

 

se um de nós tiver que passar por isso, que seja eu a morrer aos poucos meu amor.

não teria a dose de coragem das pedras, necessária à sobrevivência.

 

 

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