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patos

por M.J., em 10.10.17

um amigo meu comprou casa nos arredores da cidade. 

tem um quintal atrás, bastante grande, separado da casa em si, com um poço, anexos para animais e um terreno grande para plantar o que quiser. 

quando soubemos rimos. não pela casa em si, evidentemente, no sonho provinciano de virmos a ter a nossa (não tanto eu, mais ele), com dois cães e cinco árvores de fruto. rimos porque um nerd típico tinha agora ao seu dispor uma fazenda (green farm3, de certeza que conhecem) para agricultura de subsistência. imaginamos os dois a horta ao abandono, o poço sem uso e os anexos para os animais (pequenitos) cheios de gadgets ultrapassados.

 

olhe que não, olhe que não, provou-nos ele, e nos últimos tempos é vê-lo nos intervalos da vida a construir estufas de estruturas duvidosas, alimentar frangos e patos, semear feijão verde e cenouras e mostrar, orgulhoso, as couves do quintal no caldo verde em jantares semanais. 

no orgulho da novidade veio fotografando as inovações.

tirou fotos aos pitos pequenos, aos patos a crescer e aos feijões semeados. pôs no facebook as cenouras novas, pequenitas e esganiçadas, as couves e meio quilo de batatas.

o sonho do homem em fotografias a que estendeu - numa ingenuidade de quem não liga a mínima para as redes sociais e usa o facebook para dar novidades à família - a fotografias de um pato vivo e um pato morto, no antes e depois, depenado e aberto, pronto para um fabuloso arroz que, por sinal, estava muito bom. 

e soube a pato.

 

pois meus senhores, não estava ele à espera da indignação e celeuma que a foto provocou.

eu estava, e dei conta mal a vi, mas ele não. e no jantar de sábado queixou-se disso, enquanto dávamos uso ao arroz do forno com a carne do pato criado no quintal. cinco ou seis conhecidos, com os quais mantém o laço facebookiano enervaram-se quanto às fotos e clamaram a insensatez do homem.

a insensibilidade.

a crueldade.

como criar um pato, matar um pato, comer um pato e fotografar um pato morto?

 

não entendo, dizia ele, sem entender mesmo, porque toda a gente vai ao supermercado e compra carne ao quilo. toda a gente vê folhetos promocionais escarrapachados em outdors gigantes, de carne em promoção, seja pato, vitela, porco ou coelho. 

tentei explicar-lhe.

as redes sociais têm uma alma própria. e uma certa necessidade de alimentação. não de pato, evidentemente, mas de opinião. as pessoas gostam de se manifestar mesmo que aquilo não tenha pés nem cabeça. porque as mesmas pessoas que se insurgiram contra a foto do pato morto, carne de qualidade para arroz, são as mesmas que não vêem mal nenhum a bifes a cinquenta por cento no continente ou frango do campo em desconto no lidl.

 

há uma dissociação, dizia-lhe eu.

carne dentro de couvete de esferovite, rodeada de plástico, é carne. não é bicho. é carne mesmo que tenha hormonas de crescimento; mesmo que o animal que foi essa carne tenha sido criado, maioritariamente, em gaiolas apertadas, numa fábrica alimentar, transformado em carne ainda antes de o ser somente.

a dissociação é provocada e resulta.

ninguém compra um frango de churrasco e pensa num pintainho a saltar feliz.

ninguém se lembra dos aviários repletos de animais, das luzes sempre ligadas para comerem constantemente, do espaço que não existe para se movimentarem ou dos químicos que lhes injectam.

é carne e pronto.

mas o pato do quintal do meu amigo, criado durante meses ao ar livre, com espaço de sobra, a comer couves e restos de pão e arroz, milho e pouco mais, não é carne.

não pode ser transformado em carne, porque quem come a outra carne não acha bem que assim seja.

 

o problema não foi a carne, concluiu alguém, foi o desrespeito pelo animal, assim morto e aberto e exposto ao mundo.

e o meu colega:

quer dizer que se eu pusesse batom no pato, escolhesse o melhor biquinho e o fotografasse a olhar o horizonte, espetando depois na legenda um #friendsforever, estava a respeitar o bicho?

isso, acenei, ou se explicasses que estava em promoção. 

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e de crianças a cães, e de jornalismo entre aspas a citar raças perigosas e de meio mundo que não gosta de animais a criticar o outro meio mundo que delira com os ditos, apraz-me dizer uma coisa:

 

antes de abaterem os cães, eduquem os donos.

 

a raça mais perigosa de entre todas é o ser humano:

é a única que conheço capaz de maltratar, matar, torturar e provocar sofrimento pelo puro prazer de maltratar, matar, torturar e provocar sofrimento.

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oh vai ver ali:

maluquinhos dos animais

por M.J., em 05.04.17

a mamã sempre me chamou de maluquinha dos animais:

  • apanhava grilos que soltava meia hora depois, por pena de os ter presos;
  • tocava em todos os gatos e cães, por mais carraças, macilentos ou doentes que estivessem;
  • achava que as lagartas eram giras; e,
  • aos dez anos apanhei uma infecção num dedo depois de mordida por um gato sendo que, no medo das represálias ao gato, só o confessei quando a mão triplicou de volume. 

uma tristeza.

 

mesmo assim fui criada num espaço e num tempo em que animais são animais e nunca comparados a pessoas. e é por serem animais que os usamos como companhia, alimentação e fonte de rendimento. em troca alimentamo-los, providenciamos abrigos, levamo-los ao veterinário e não os maltratamos. 

são animais e têm a sua função: um cão serve para fazer companhia, guardar a casa, ajudar com vacas e ovelhas. uma vaca dá leite, bezerros, dinheiro se vendida, ou carne se morta. uma galinha dá ovos, dinheiro e/ou carne. uma minhoca não dá nada. um piolho também não.

fui criada num espaço e num tempo em que os animais são respeitados e amados como animais. e é no respeito da sua função e do que são que se lhes são atribuídos direitos: não passar fome nem sede, não apanhar pancada ou quaisquer outros maus tratos físicos, ter um abrigo e a andar - grande parte - livres com uma casa para onde voltar.

no sítio onde nasci e cresci um cão é um cão e nunca - valha-me deus - um filho.

um gato é um gato e não um irmão.

uma mosca é uma mosca e não uma prima.

uma galinha é uma galinha e não uma mãe.

os animais são animais e esse é lugar deles. não são coisas, não são objetos, não são pessoas.

e é nisso que eu acredito.

 

a tentativa de colocar os animais no mesmo nível das pessoas tem trazido - na minha opinião - um fundamentalismo idiota que aumentou exponencialmente nos últimos tempos.

não me interpretem mal:

  • tanto se me dá como se me deu se as pessoas chamam os cães de filhos e os põem ao mesmo nível dos seres humanos que pariram;
  • ou que achem que um beijinho de um cão que acabou de lamber os tomates tem o mesmo valor do beijo do marido;
  • ou que digam que entre o companheiro e o cão preferem o segundo.

são opções pessoais de cada um.

eu por exemplo, não tenho problema em dizer que gosto mais dos gatos da mamã - que vejo duas vezes por mês - do que do meu vizinho do lado que chama a namorada de puta e arrasta cadeiras de madrugada.

gosto pois.

mas isso não invalida que perceba que o meu vizinho, chato como a merda, é uma pessoa. e que os gatos da mamã são gatos. e que por esse facto, o parvalhão do meu vizinho tem direitos que não se equiparam aos direitos dos gatos da mamã.

 

e por que é que vens com isso agora, M.J.?

simples.

há uns tempos o rui unas - que sigo no facebook e no youtube - colocou um vídeo idiota nas redes sociais, em que dançava de pijama na cozinha enquanto à porta da entrada de vidro, o seu cão - um fila dos açores, cão pastor por excelência - olhava para ele à chuva.

talvez por perceber até que ponto as pessoas conseguem ser idiotas, o unas avisou logo que o cão tinha um abrigo e estava à chuva porque queria mas isso não serviu de nada. meus senhores foi um deus me acuda.

ai o direito dos animais.

ai a crueldade.

ai o desespero.

ai que mau.

ai que devia ser preso por maus tratos.

onde já se viu deixar um cão pastor, de porte médio à chuva por opção?

não senhor! para ser bom dono, boa pessoa, bom ser humano, devia vesti-lo, calça-lo, ensiná-lo a ler e dar-lhe o seu lugar no sofá. não bastou - nem de longe nem de perto - tirá-lo do canil, dar-lhe uma casa, gostar do bicho como se gosta de bichos e ter como restrição que ele não entre sujo dentro de casa.

parece que se não o tratar como uma pessoa, pois meus senhores, não presta!

na volta mais valia até tê-lo deixado no canil para ser abatido. que crueldade! que mau pai ali com o cão pastor à chuva.

 

ah M.J., - dizem vocês nestes meus diálogos imaginários - mas esse histerismo é bom porque chama a atenção dos direitos dos animais. 

só que não.

só que não mesmo e por uma razão muito simples:

descredibiliza uma causa importante: a defesa dos direitos dos animais!

 

porque de repente - reparem - não estamos a lutar contra os maus tratos efectivos, contra gente que os mata de fome, que os abandona só porque sim, que os deixa cheios de parasitas e doenças ao deus dará, que os fecha em varandas minúsculas uma vida, que os faz de saco de pancada.

não senhor. 

de repente estamos a lutar contra o facto de o senhor antónio ou o senhor manuel não tratar o bobi como filho.

esse malvado.

quando é normal que ele não trate uma vez que o bobi não é filho do senhor antónio!

o bobi é o cão do senhor antónio e ele tem direito de o tratar como um cão: alimentá-lo, vaciná-lo, pô-lo na sua casota e proceder ao seu bem estar dentro da ideia de que é um cão e não um bebé.

 

 

quando entramos em fundamentalismos perdemos a credibilidade.

esse ruído idiota afasta o cerne da questão. põe tudo no mesmo saco. põe na linha da frente o que não é importante e faz saltar aos olhos coisitas sem fundamento mas que gastam tempo e açambarcam o resto.

faz com que deixemos de olhar para uma causa como séria e a associemos a uma espécie de circo (circo neste tema também é apropriado), onde se encolhe os ombros e diz: ah, esses são maluquinhos! querem que eu trate o meu tareco como trato o meu dinis maria!

faz com que deixemos de olhar para uma causa séria e a associemos apenas a um bando de fundamentalistas tolitos, aos saltinhos, porque o vizinho não corta a carne do cão quando lha serve na mesa e ele, coitadito, não tem polegares para segurar na faca! ou porque a vizinha do rés do chão esquerdo não amamentou o cachorro e, veja-se o descalabro, amamentou o filho!

e não é nada disso!

a defesa dos direitos dos animais não é nada mas mesmo nada disso!

 

a sério, meus senhores:

um cão é um cão tal como um piolho é um piolho, uma vaca é uma vaca e um porco é um porco: não são objectos, não são coisas, não são pessoas.

se os querem tratar como vossos filhos, primos, irmãos, tios, amigos é uma opção própria.

mas não façam tanto barulho contra aqueles que, não o fazendo, cuidam dos seus animais como animais: com atenção, providenciando ao seu bem-estar e dispensando-lhe tempo e amor. 

 

guardem o fôlego para aqueles que os tratam como coisas sem sentidos e sentimentos, sacos de pancada e desprovidos de qualquer direito. 

 

 

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pessoas que deixam cães lamber-vos na boca, respondei-me a umas simples questões:

sabeis que eles lambem o rabo (que é como quem diz ânus, não confundir com cauda), certo?

e que fazem cocó por lá, correto?

tipo, cocó que é o mesmo que caca, vulgo merda, bosta, fezes. isso.

com coisas do género, lombrigas, e coli e bicharocos desses a passear por lá.

 

sabeis, certo?

que cocó não é chocolate?

e eles - como dizer isto? - lambem aquilo.

às vezes não só o rabo, como o que saiu por lá.

 

então explicai-me:

depois da língua que faz isso lamber a vossa boca, usam a dita para dar beijinhos a outrem assim mesmo, com tempero, ou passam-na por água antes?

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