Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



acabei um curso superior, tive um bom trabalho e planeei a minha vida profissional como algo certo e transparente. arrependi-me do curso superior, despedi-me do trabalho e reorganizei a vida de trabalho depois de a colocar num turbilhão. fiz amigos. de infância, de adolescência, de juventude e já adulta. perdi amigos. de infância, de adolescência, de juventude e, estranhamente mantive os de adulta mesmo que às vezes questione se é recíproco. conheci uma irmã que não sendo de sangue é de coração. ansiei muito por me rodear de pessoas e por me abandonar de pessoas até perceber qual a medida que resulta comigo. quis fugir do sitio onde nasci e depois voltar quando percebi que era o meu refúgio. quase morri fisicamente e estive morta emocionalmente. desisti muito e fugi ainda mais vezes. ganhei arrogância. perdi arrogância. entendi o quem ao mais alto sobe, a galinha da vizinha, mais vale uma pomba, quem escorrega e todos os outros, por os viver na pele. li muito, parei de ler, voltei a ler com intensidade. engordei, emagreci, voltei a engordar. escrevi um livro. editei um livro.  abri um blog, fechei um blog, abri outro blog. conheci pessoas através do blog. do primeiro, do segundo e do terceiro. mudei de casa. de várias casas. pensei nunca encontrar ninguém com quem partilhar a vida. pensei ter encontrado alguém com quem partilhar a vida. recebi um valente pontapé no rabo de quem pensara que podia partilhar a vida. sofri por amor e sobretudo por desamor. recusei-me a perceber as pessoas e as suas fragilidades e ergui a minha dor como uma bandeira, clamando a sua importância acima das outras. senti-me superior mesmo sendo muito pequena e quando reparei na minha pequenez apreendi um pouco acerca de humildade. eduquei-me em deus, perdi deus e desacreditei da religião. convenci-me que o mundo era do tamanho do que via até concluir que o mundo será sempre do tamanho do que não vivo. aprendi a amar. a amar muito. sem comparações e sem diminuições. pus-me no lugar certo da relação, na aprendizagem do que ficara lá atrás. descobri-me em mim pelo amor de outrem. casei. deixei de dar valor às coisas grandiosas e percebi a beleza das pequenas. redescobri o sabor de cevada e pão com manteiga. assumi como traumas os traumas, como medos os medos, como fragilidades as fragilidades, eu como eu. elenquei os defeitos e percebi os que não podia mudar aceitando-os e combatendo-os. viajei menos do que queria e mais do que pensei. vi demasiada tv de lixo e ri-me javardamente do que não era para rir, mesmo que desse vontade. caí em situações estranhas, tomei medicação estranha e senti coisas estranhas. fiz coisas que jurara não fazer e reorganizei prioridades. traí, fui traída. abandonei, fui abandonada. levei-me demasiado a sério e dei-me um valor infinitamente menor do que o que tenho. ganhei ideais e ri-me dos ideais. pus em causa valores, abandonei convicções e aprendi a duvidar. de tudo. ou quase tudo. aprendi a conhecer-me mesmo desconhecendo-me. fui eu mesmo não sabendo quem era.

 

e vivi até aos trinta depois de me convencer que não passaria dos vinte. 

e estou aqui. 

 

e que benção é estar aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

hoje encheria todas as ruas de sardinheiras.

pegaria nas flores das jarras, das noivas, dos altares e das varandas e trocá-las-ia por hortênsias.

azuis.

transformaria todas as árvores em áceres de outono.

encheria todos os lugares, por onde passasses, de beladonas a escorrer memórias.

mataria qualquer resquício de calor sufocante.

encheria de berlindes, repletos de fios coloridos, todos os bolsos dos bibes das crianças

substituíria o dicionário pela palavra avô e todos os avós veriam que o teu coração é um deles.

 

hoje faria ressoar em cada hora, num lamento corrido mas de esperança, que avec le temps nem tudo vai, nem tudo desaparece:

tu - em quem tocas, a quem sorris, a quem amainas, a quem suavizas, a quem socorres, a quem te entregas, a quem és - permaneces.

 

nas 24 horas de hoje eu moldo o mundo à tua medida. 

mesmo que tão longe.

mesmo que só em palavras.

 

parabéns meu amor.

não haverão jamais palavras que descrevam quem és. 

 

(*talvez estas, de alguém melhor do que eu)

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

para-quedas

por M.J., em 19.04.17

este ano faço trinta.

não sei onde se meteu o tempo uma vez que sinto ter vivido muito mais do que era suposto.

não sei o que fiz aos dias e aos anos uma vez que não os vi passar e foi como se de repente, num repentismo estranho, desse conta de mim aqui ainda que, quando me olho ao espelho, não me reconheça.

 

este ano faço trinta e tenho uma série de vídeos de londres.

apareço ora desfocada ora focada de mais, a câmara colada à cara que duplica de tamanho. tenho brancas, imensas apenas de um dos lados (vá-se lá entender) e mal reconheço a minha voz. dizem que nos ouvimos de forma diferente e eu não sou excepção.

fiquei a olhar-me, pernas, tronco e membros a sorrir para a câmara e é como se visse outra.

aquela não sou eu porque não me reconheço em mim.

aquela não tem todos os traços que devia ter, na passagem dos anos.

aquela não tem todas as rugas que devia ter.

aquela não tem um desgaste nos olhos.

aquela não tem mil anos e é estranho porque no tempo que vivi, na evolução que senti em mim, é como se tivesse passado por décadas de vida, muito mais que três, embrulhada num limbo de incertezas.

 

este ano faço trinta anos. 

às vezes dou por mim especada, perdida em centenas de momentos vividos que revivo com uma clareza quase dolorida.

e sinto saudades imensas - mesmo do que doeu a pontos de morte - perdida numa nostalgia velha de que tudo é ténue. revivo pequenos minutos, longos abraços, horas de choro e gargalhadas imensas. embrulho num mesmo espaço e tempo o eu de outrora com o eu de hoje e de repente avalio quem fui com os olhos de quem sou e é uma misturada de sentimentos do que devia ter feito e não fiz e vice-versa.

 

este faço trinta anos e poderia jurar que eram sessenta.

faço trinta anos e não consigo parar de pensar que já vivi o melhor.

que não há muito mais que me espere porque perco juventude. porque daqui não podem vir dias maiores, mais cheios, mais doloridos ou felizes.

faço trinta anos e constato, muito tristemente, que nada mais me pode surpreender a sério, provocar lágrimas de riso ou dar-me aquela sensação absurda de descarga de adrenalina.

quase como se fosse trilhar um caminho vestida de mim mas sendo outra qualquer.

 

faço trinta anos e foda-se, para assinalar o marco vou saltar de para-quedas nesse mesmo dia.

a minha crise dos quarenta chegou dez anos antes.

lindo serviço.

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

gosto de ti:

 

porque és dotada de uma rara sensibilidade que escondes;

porque trilhas a vida com um sorriso constante;

porque alias à emoção uma sensível racionalidade;

porque sabes escolher cada palavra adequada a cada situação;

porque colocas aos ombros as dores dos outros, escondendo as tuas;

porque não tornas em bandeira o que melhor te define;

porque amas;

porque te fizeste amada;

porque gostas de frank sinatra;

porque me fazes soltar gargalhadas;

porque partilhas quem és;

porque tens mil palavras;

porque - ninguém diria - temos mais semelhanças do que diferenças;

porque descobri que estás mais presente na minha vida de que muitos outros;

porque tens a coragem dos heróis;

porque tens a determinação dos fortes;

porque tens uma simplicidade de criança;

porque tens mil palavras que ofereces;

porque tens mil palavras que me ofereces;

 

porque sim, gosto de ti.

 

seita.PNG

 

e porque o resto dos motivos só nós três é que sabemos:

 

comes arroz!

Autoria e outros dados (tags, etc)