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banalidades

por M.J., em 22.11.17

peguei na minha agenda pirosa e observei os dias.

ainda ontem era agosto - e andava a passear, numa despreocupação de cabelos ao vento - e estamos praticamente no final de novembro.

são estas constatações que nada dizem que me fazem os dias. 

o tempo corre e não corre, numa dualidade que nem sempre consigo entender e eu vou ficando para trás. 

 

alinhei, muito alinhadas, as tarefas do dia que me escapam, ou que queria muito adiar, e planeei semanas.

sei que há gente que detesta este planeamento mas de outra forma é impossível estar com certas pessoas, fazer certas compras, ir a certos sítios e ler certas coisas.

as horas fogem-me das mãos - contrariamente a outros anos - e se não me organizo as semanas transformam-se em meses e eu perdi coisas na procura de outras.

agendei na tradição quando faremos a árvore de natal. pus de lado a outra tradição do bolo-rei, trocada por uma ida à madeira, de pouquíssimos dias mas que servirá para respirar outros ares e fazer uma pausa da correria dos dias. 

 

depois de alinhar palavras, bebi um copo de água e fui à varanda.

o dia está cinzento, corre um outro carro na rua e há um vento que anuncia chuva que não vem.

estendi uma máquina de roupa, na banalissima tarefa doméstica que me lembra do meu TOC (pequenino), e me faz alinhar roupa por tamanhos e cores, com molas das respectivas tonalidades, à mesma distância e medida. não suporto que a empregada o faça porque não respeita aquelas que são, na minha mente, regras universais e impossíveis de ser quebradas. 

 

tenho estas minudências que nem toda a gente entende e que fui percebendo com os anos.

dão-me comichão no cérebro se não praticadas.

como deixar sapatos fora da sapateira, andar pela casa com os calçado da rua ou deixar chávenas de café fora do sítio. não sou paranóica mas preciso de respirar fundo e não enfiar uma caneta até ao cérebro para coçar a comichão que aquilo me provoca.

também não consigo dormir com louça por lavar, as almofadas do sofá fora do sítio ou acordar de manhã e não abrir a janela, nem mais nem menos do que a distância que já sei de cor. 

herdei estas coisitas da mamã. ela, por exemplo, não consegue ver um tapete fora do sítio ou um vidro sujo. faz parte de quem é.

eu julgara que não era assim até perceber as minhas coisas: como não suportar deixar estragar alimentos, mesmo que perca tanto tempo a tratá-los que acabam por ficar mais caros do que se comprasse outros. como todas as castanhas que se iam estragando e eu descasquei-as, uma a uma, descartando as estragadas e congelando as outras. e a irmã do rapaz, quando soube: credo que seca, mais valia comprares. e eu, os ombros encolhidos, na aprendizagem que não se diz tudo o que se pensa ou, corremos o risco de passarmos por fedelhos irritantes.

 

estendi roupa, numa obra de arte simétrica, e reguei plantas.

costuma ser a pausa das onze, em horários a cumprir para me mexer.

trabalho com concentração e esqueço que sou um corpo mais do que mãos e olhos e quando dou conta estou rígida faz horas, sem mexer um músculo que não os essenciais ao trabalho.

nessas alturas estico-me e é como se mil alfinetes me apertassem as articulações, rígidas da múmia em que me transformo.

instituí por isso o regime das pausas e tem corrido bem.

 

reguei plantas e tomei um café.

alguém abriu uma persiana no prédio e o som espalhou-se pela rua e pelo monte, como num eco de lembrança. tirei as folhas secas de uma sardinheira. aparei a salsa, os oregãos e o cebolinho, na mini horta de uma prateleira da varanda. 

voltei ao trabalho vinte minutos depois.

agora, é quase hora de almoço e a manhã já se foi.

os dias fogem-me na pressa das horas e não sei onde vão ficando.

mas as plantas estão viçosas, a roupa está milimetricamente estendida e avancei mil tarefas de trabalho que estavam pendentes. 

 

o tempo não é meu mas tenho-o transformado em pedaços de algodão doce. 

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banalidades

por M.J., em 19.10.17

há um leve cheiro a fumo no ar que se entranha na roupa, no corpo, no cabelo, na pele.

não tem a imensidão de cinza e pó e abafado intenso dos últimos dias mas permanece gravado a cada partícula de ar, como uma espécie de fumado adocicado e enjoativo que se propaga, insistentemente, por todo o lado.

o cinzento da manhã apanha cada partícula e deixa-se vaguear pela vida.

tomo café a olhar os cedros. não há ninguém na rua e esforço-me por canalizar a mente para o que vejo. as árvores, as casas, um gato no jardim em baixo.

está tudo queimado. 

ainda não consegui abarcar essa ideia:

está tudo queimado. 

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publicado às 10:20

banalidades

por M.J., em 11.10.17

está sol como tem estado sol nos últimos meses da nossa vida.

o tempo é quente e nublado de um fumo amarelado que se cola à pele e aos ossos e à alma.

ouço ludovico einaudi, faço pausas que não terminam e passarico pelo espaço numa falta de produtividade gritante. 

as coisas a fazer aumentam.

olho a lista e encolho os ombros como se a vida e o que sinto e o tédio existencial tivessem mais força do que qualquer necessidade de trabalho. estou feita numa burguesa é o que é.

 

tomo café encostada à varanda, os olhos franzidos pela claridade doente do dia. os cedros continuam erguidos numa mansidão de eternidade. há um seco, mesmo no meio dos outros e que ali permanece desde que cá cheguei.

morto mas erguido ou moribundo mas digno, sei lá.

pondero sair.

sentar-me numa pastelaria e ouvir o ruído das chávenas, da porcelana e o cheiro do café. abrir o jornal na mesa, olhar de soslaio as outras pessoas. dizer bom dia só para ouvir a minha voz. mas fico. há tanto trabalho acumulado que certos prazeres, ou necessidades, precisam invariavelmente de ficar para segundo plano.

o cão do vizinho late, de vez em quando, numa espécie de ganido solitário. ao longe ouço o som de um motosserra e viajo, imediamente, até à serra. vejo as videiras já sem uvas, a erva molhada da neblina matinal que a avó apanhava com uma foicinha. ouço, na beira do rio, o som de uma ou dois motosseras a desbravar árvores. sinto as enxadas a abrir a terra e vejo o avô, que já não vê, a limpar a fronte do suor enquanto se queixa da falta de água. sorri-me e tem mil rugas do tempo e da vida. estende as mãos e aperta a minha num amor de bondade e família.

está mesmo não estando.

como o cedro erguido em frente à minha varanda.

tenho saudades tuas.

 

está sol como tem estado sol nos últimos meses da nossa vida.

e eu dava tudo para uma manhã de chuva. 

que não fossem as minhas lágrimas.

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autocrítica

por M.J., em 09.10.17

em certos dias cultivo uma certa animosidade com o mundo em geral.

praguejo entre dentes, em silvos que só eu ouço e que me fazem mexer os lábios como alguém a ajeitar uma placa contra as gengivas. não é agradável porque a batalha mental que estabeleço entre mim e comigo pode ser um pouco exaustiva e para cansaço já bem basta o que basta.

uma consumição.

 

os ódios de estimação podem ser muitos e variados e acabam, na maior parte das vezes, a bater no alvo comum do eu e comigo que é a própria pessoa que alberga essa dualidade: eu própria.

é interessante, em boa verdade, porque há sempre uma série de defeitos que me consigo apontar -  quase listar, se quiser - na minha agenda parola e remoer até à exaustão.

não é algo que possa controlar.

faz parte de mim como uma das minhas pernas grossas ou a dor da omoplata direita que me está a obrigar a novas sessões de fisioterapia e provoca noites horríveis às voltas no colchão.

está um dia lindo, penso, mas estaria melhor se chovesse.

e logo a minha mente, às turras com ela própria, a lembrar-me que sim, com chuva posso ser mais preguiçosa, sair menos de casa,  dispensar qualquer exercício físico e engordar até não passar em nenhuma das portas ou janelas da casa, acabando transportada por uma grua, em cima de um contentor industrial de transporte de animais mortos.

 

às vezes, os ódios de estimação passam de mim e do comigo para o mundo que me rodeia.

é fácil. mesmo que a minha autocrítica seja do tamanho de uma catedral, futebolística ou não, é muito fácil ver nos outros as características que odeio. ainda que, conclua muito sinceramente, essa fase já tenha passado há algum tempo. 

é sério.

deixei de ter grandes ódios de estimação que não passem pela minha pessoa.

custa-me até a acreditar que houve tempos em que me irritava pelo comportamento, opiniões e considerações alheias, numa consumição sem dó, toda chateada e apezinhada, os nervitos à flor da pele, as argumentações estendidas como manifestos, na certeza de que o maior parte do mundo era ridícula. é fácil cairmos nessa falácia quando nos esquecemos que olhamos para o resto do mundo com as nossas próprias vistinhas e que, na maior parte das vezes, atribuímos ao mundo as características que são nossas porque é através delas que olhamos. 

faz sentido, não faz?

não entendo mesmo. às vezes olho para este blogue, por exemplo, para a imensidão de horas que aqui passei, e não entendo como me irritei com tão pouco, escrevi certas coisas ou dei importância a comportamentos, palavras e comentários, como se a vida se resumisse a uma série de letritas escritas num ecrã, com muitos erros na maior parte das vezes e a opinião de quem nunca vi fosse mais importante do que o mundo que me envolve aqui fora. 

 

talvez seja este o amadurecimento de que as pessoas falam.

não sei.

não vejo grande evolução se as minhas inabilitações sociais, as minhas incapacidades de lidar com a vida e os outros se centram em mim e, por consequência, encontro em cada dia um defeitozito ranhoso - e manhoso - nas minha pessoa.

torna-se mais difícil a convivência com o que sou, as discussões mentais aumentam e, às vezes, desconheço completamente os pensamentos que me formam.

se somos feitos de nós e se o nós é feito do que pensamos e vivenciamos, perco-me na procura de mim. 

e nesse intervalo, quando olho ao espelho, tenho sempre grande vontade de me dizer adeus.

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banalidades

por M.J., em 28.09.17

creio que o momento em que perco mais facilmente a perspectiva é à noite.

não faz sentido, eu sei, mas chega a um certo ponto, quando o dia acabou mas ainda não acabou e há horas e momentos que posso preencher e perco a noção da realidade e do tamanho das coisas a que me propus.

tudo me parece de uma inutilidade extrema.

seria nesse momento, noutras alturas da vida, que saíria de casa numa demanda de encontrar quem sou. procuraria nos outros. olharia pessoas, gente e questionaria se a parte de mim que me falta e não reconheço poderia ali estar.

nunca estava. não está. nunca estará. 

 

tive sempre - talvez devido a livros e filmes e séries e novelas consumidos em miúda - a ideia de que a minha vida seria muito maior.

eu sabia, antes da gente da minha idade se questionar sobre isso, quais seriam os meus feitos. e tudo era aguentado e suportado porque na imensidão dos dias, dobrados e triplicados no silêncio das árvores, havia o amanhã.

havia a data.

havia o dia dos planos em concretização.

pois nenhum se concretizou. ou melhor, tendo-se concretizados alguns, foram os menos agradáveis, os que menos prazer me deram, os que me trouxeram até dissabores.

como que se o caminho que eu trilhei, na imaturidade de quem não pode - por mais que queira - saber das coisas, fosse todo ao contrário, desajustado à pessoa que eu era e sou para ser bom à personagem que eu achava que seria e serei.

 

é à noite que tenho mais tempo para pensar. equacionar os pontos e falhas e momentos da vida que são os meus mas que me parecem de outro. 

de manhã a vida recomeça.

tomo pequenos almoços longos, rego as plantas e avalio o dia, no clima dos idosos. hoje vai estar quente, penso, mesmo que só haja nevoeiro. porque há nevoeiro nas sardinheiras e numa suculenta que morre lentamente num vaso.

há café e sol por trás da névoa.

e penso hoje vou ser melhor. e decido hoje vou fazer isto. e aquilo. e aqueloutro.

e depois, à noite, sentada na imensidão das horas constato que não fui, nem fiz isto, aquilo, aqueloutro.

 

todos os dias da minha vida são o falhanço das expectativas que não controlo.

e, por consequência, da pessoa que eu sou. 

isso faz de mim uma falhada, não é mesmo?

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banalidades

por M.J., em 22.09.17

acordei cedo com o barulho de um camião mesmo na ruela em frente à casa.

orgulho-me de - no meio desta cidade onde não me encaixo - ter encontrado um apartamento num sítio onde reina a pacatez dos dias longos de aldeia, com o barulho das rolas no telhado, os cedros erguidos em frente e o latir dos cães na desconfiança de quem chega.

no entanto, andam agora a construir uma casa numa das ruelas adjacentes e, de vez em quando, somos presenteados com o barulho dos camiões, pedaços de terra amarelada caídos do transporte e um cima abaixo de carros, na novidade do que se passa.

 

desci para ir tirar o meu carro do sítio onde estava estacionado.

o homem do camião transpirava de nervoso e não conseguia passar, por mais manobras que fizesse, devido ao meu carro, apesar de nenhum de nós estar a cometer uma contra-ordenação. fui boa samaritana e mudei-o de lugar, vestida com um robe esquisito que comprei na primark para os dias frios, o cabelo esgrouviado e incontrolável todas as manhãs, e o pequeno almoço ainda por tomar.

agradeceram-me muito mas já estava acordada com o barulho infernal do motor em manobras.

 

perdi depois uma hora não sei em quê.

estava cinzento de breu. mantive-me com o robe vestido apesar de, na opinião do rapaz, me fazer parecer um rebuçado gigante tal a cor. não está frio para o manter vestido mas faz-me lembrar chás quentes, chuva miudinha, castanhas assadas e dióspiros.

é outono e no cinzento do amanhecer estava em paz.

tomei o pequeno almoço, reguei uma planta e tentei desregar quando percebi que a água se acumulava toda no fundo, tendo em conta a quantidade de terra molhada. li as notícias e vi a meteorologia: torci o nariz perante o fim de semana quente e a ausência inevitável de névoa hoje pelo meio da manhã.

não tirei a roupa do estendal, não fiz a cama, não lavei a louça do pequeno almoço nem controlei as tarefas de trabalho do dia. 

 

uma hora depois, ainda estava cinzento, a empregada chegou.

trazia a animação da rua: voz rija, gestos desembaraçados, a agitação do autocarro, do saco na mão, da conversa matinal com a vizinha de baixo e a senhora da pastelaria onde vai todas as manhãs.

pousou um saco no bengaleiro, decidida, e soltou duas ou três gargalhadas perante duas ou três piadas que disse.

ofereci-lhe um café e,  encolhida e sentada com o meu robe estranho no sofá da sala, ouvia-a falar. ela cheirava a café, a desenrasque e a decisão por contraponto à minha molenguice matinal. contou-me as novidades da semana, muito desembaraçada e deu-me o ponto de situação da vida, no que a vida nos permite compartilhar. tristezas não pagam dívidas, diz decidida, mesmo que enumere as tristezas, e as dívidas, sem vergonha.

comparado com o silêncio de missa que reina nesta casa, há hoje uma animação enérgica de roupa a ser estendida e lavada, sons de louça, aspirador e a tv da cozinha, nas notícias que nunca vejo.

 

sentei-me com os phones nos ouvidos, na tentativa de anular os ruídos da vida.

o camião voltou com uma grua que tenta desesperadamente levar para outra rua.

ouço aurora, madrugada, agnes obel, birdy e anne brun.

há uma melancolia em cada som e fico quieta em frente ao pc sem saber muito bem o que fazer mesmo que tenha, muito alinhadinha, uma lista das coisas pendentes na agenda.

 

o sol surgiu agora.

tirei o robe.

ouço o tilintar de um copo na cozinha no intervalo de uma das músicas.

 

 

acho que vou tomar (outro) café. 

e nunca mais chove. 

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publicado às 10:20

banalidades

por M.J., em 20.09.17

gosto de amanheceres cinzentos.

lembra-me a manhã a ouvir o vento contar a história do gato malhado e da andorinha sinhá. lembra-me o começo do dia lento e molengão, os dedos nos olhos, a percepção da vida numa névoa ainda de sonho. 

não me sinto tão culpada pela minha pausa forçada no que diz respeito ao viver.

arrasto-me pela casa sem culpa. faço o pequeno almoço de portas abertas e olho as plantas na varanda. não há sol a fazer-me correr, a gritar para me despachar na turbulência, na pressão das próximas horas. 

 

há gente que escolheria o sol como companhia diária. aboliria a chuva e a névoa e faria dos dias correntes vivas de vitamina d, cores fortes e calor a bater na pele. 

eu tenho um dia ganho quando há um casaco sobre os ombros, horas que correm na névoa do cinzento, uma neblina que beija a pele e a sensação de pacatez na passagem de cada minuto.

abro até a janela do escritório, cerrada nos dias de sol, e visto um casaco enquanto começo.

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banalidades

por M.J., em 15.09.17

por mais que me levante cedo não consigo ser pessoa antes de passar, no mínimo, uma hora desde que acordei.

é verdade.

não tenho fome, arrasto-me pela casa e todo o meu corpo grita que devia voltar para a cama, desde os olhos inchados como dois balões, os braços que me pesam, a cabeça que teima em tombar.

deixo, por isso, que passe algum tempo até conseguir raciocinar.

abro as janelas e olho a vida invariavelmente de sol nos últimos meses. rego as plantas da cozinha mesmo que elas gritem que estão inundadas de água. vejo a meteorologia numa aplicação do telemóvel que erra mais do que acerta. abro a agenda e percebo as coisitas mil que tenho de fazer. 

uma hora depois estou mais ou menos pronta para começar a ser. 

 

o problema é que a vida não se compadece com este meu atraso matinal.

às vezes há telefonemas ainda eu estou a coçar os olhos. atendo tentando manter uma voz clara enquanto conto os pássaros das árvores em frente. discuto questões importantes no meio de um café ou outro, muito quente que inunda a cozinha de um odor enérgico e enjooa as plantas, de pijama e chinelo no pé.

rogo pragas mentalmente ao forçar do meu acordar, tão lento, tão vagaroso. 

 

quando era miúda levantava-me antes das sete e apanhava o autocarro escolar para quase quarenta minutos de viagem entre a serra. em dias de geada acordava ainda antes de estar acordada e não havia a necessidade de me arrastar pelas divisões da casa como uma velha já morta. comia pão com manteiga e água castanha com cevada. e quando era mesmo miúda ia com a avó tirar leite à vaca que bebia, depois já em casa, por uma caneca de latão.

e não havia plantas enojadas com o cheiro da cafeína.

nem estudos a condenar a lactose.

só a vaca pinta e a avó a dar-me a melhor parte do leite. 

 

o problema minha cara, constato enquanto vejo sair os vizinhos, é que não adormecias às duas da manhã com a barriga cheia de porcarias da internet, vistas num telemóvel em frente aos olhos. ias para a cama às dez, depois de meia novela da noite e dormias como uma pedra, sem interrupção nem do carro do padeiro às quatro da manhã.

e pensar que disse, tantas vezes, perante um amuo na hora de dormir:

"quando for grande!"

 

quando fores grande arrastas-te pelas divisões achando que estás velha e que precisavas da cama da tua infância e das mãos da tua mãe a aconchegar-te os cobertores antes de dormir. 

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banalidades

por M.J., em 11.09.17

acordei tão enjoada que a concentração teima em não chegar e mesmo as coisas mais simples parecem ter a complexidade de uma teoria física sobre buracos negros.

seria capaz, se tal fosse possível, de arrancar o estômago com as duas mãos, muito coladinhas, e colocá-lo num contentor fechado para ver se aprende, que isto não pode ser assim, pega lá enjoo, agora desemerda-te.

o problema foi do fim de semana e das bodas de ouro - literalmente de ouro mas para perceberem teriam de ter visto - e da lagosta toda e do camarão todo e do cherne todo e de que raio era aquilo tudo, e o meu estômago sensível a lembrar-me que até posso mandar o que lá ponho mas não mando na fase seguinte.

uma consumição.

por isso esta manhã nem tomei café.

 

 

está sol e o prédio é uma ilha de silêncio no recomeço de toda a gente aos trabalhos de toda a gente.

o matraquear do meu teclado inunda a casa e, se abrisse a janela, inundaria o bairro e ecoaria pelas ruas, em palavras e tarefas e coisas que não avançam porque sinto, muito sinceramente, o mesmo que sente um homem com gripe.

o mundo parou nos últimos dois fins de semana.

demasiadas horas de comida, conversa de circunstância, necessidade de fazer sala, um ar muito comedido, as mesmas piadas, os mesmos saltos, a mesma sensação de peixe fora de água, de custo em respirar.

a mesma máscara. 

casei e em troca fui a quatro casamentos e um baptizado num ano. três missas e duas certidões de casamento. cinco bolos de festa. mil pessoas alinhadinhas de que não lembro a cara. quatro bailes. quatro comboios de pessoas de saltos desengonçados. quintas, piscinas e flores. hastags e pormenores. promessas em público e juras de futuro. retalhos de felicidade alheia a que assisti, compenetradamente, a tentar perceber os motivos que me levaram a fazer o mesmo e, percebendo, muito singelamente, que talvez o não fizesse hoje.

estás enjoada, não sabes o que dizes - calou-me a mamã ao telefone, durante o pequeno almoço de iogurte e chá.

e alguma vez soube?

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banalidades

por M.J., em 05.09.17

acordei enjoada tarde e más horas.

não que interesse. depois de um fim de semana - que incluiu a segunda - a dormir pouco mais de duas horas por noite, achei que podia dar uma de louca e levantar-me às nove na terça. 

agora sinto que tenho tudo atrasado.

e está.

 

na cozinha cheirava a lavado que esfreguei por montes e vales - foi nada, eram azulejos - ontem a horas indecentes.

a minha compulsão pela limpeza acalmou nas férias mas acentuou-se quando reparei, no descanso nocturno, que ia chumbar no âmbito de uma inspecção de higiene e segurança no trabalho.

e para porcaria já basta as vezes que comi fora de casa.

 

reguei as plantas que pendurámos na bancada.

são da minha obrigação, apesar de as exteriores estarem ao cuidado do rapaz. a malagueteira (existirá tal nome?) morreu (já é a segunda) e a do canto, que não sei o nome, começa a secar. creio que sou inabilitada no tratamento de outras vidas mas não desisto.

a esta, pelo menos, não posso transmitir traumas emocionais.

creio.

será que posso?

 

na rua está cinzento e tomei o pequeno almoço a olhar o mundo pela varanda.

o mesmo mundo que é do tamanho do que vejo: os cedros, a pequena rua, um ou outro carro que passa em frente. o jardim de baixo e dois gatos com coleira à procura do sol.

 

escolhi agnes obel como banda sonora do dia e abri a agenda pirosa de caneta em riste.

alinhei na minha letra escangalhada tarefinhas banais e importantes, tudo muito direito e feio ao mesmo tempo, uma caneta preta de um tom horrendo de dó, pouco conjugável com o rosa da coisinha fofinha que escolhi como lembrança dos dias:

* cinco linhas de trabalho

* ligar à empregada

* agendar a catrefada de posts que tenho numa listinha no telemóvel

* acabar a leitura perdida do livro que comecei antes das férias

* ir aos correios

* passar pela farmácia

* marcar duas consultas

* e uma quantidade de merdinhas chatas.

 

quando acabo percebo que a agenda tem, neste dia, uma frasezinha bonita para animar o dia.

pois que "os sentimentos podem escapar-te da boca mas nunca do coração" e paro e leio e percebo que se calhar aquilo serve mesmo a alguém, que o repete num mantra de sapiência e serenidade, e relembro tristemente, enquanto abro documentos, planeamento de trabalho, e-mails a enviar e objectivos mensais, que a senhora da roulote perto da rotunda, ali plantada desde que me mudei, em dias de chuva torrencial e sol ardente, barraquinha aberta, numa imensidão de certezas das coisas certas, desapareceu e só reparei ontem, quando passava, e me pareceu aquele pedaço de espaço vazio em ânsias de ausência.

e no meio daquele sítio gora de nada, que outrora me fazia parecer mais certas as coisas incertas, mais seguras as inseguranças dos dias, a ilha do costumeiro mesmo quando tudo era um pedaço de questionamento, o sorriso da mulher mesmo em frente, a rotina segura de que o mundo se mantém no mesmo lugar, desaparecido agora, lembrei-me com um baque de que nunca parei para tomar um café e comer um cachorro quente, tal como prometia todas as vezes, e eram muitas, que por ali passava.

só para dizer olá, bom dia e ouvir a voz de quem tornava, na estranhez de quem sou, os meus dias mais normais.

foi-se.

desapareceu.

e se os sentimentos podem escapar-me da boca e não do coração, escapo à minha agenda que é uma porcaria, porque em vez de me avisar, naquela letrinha amorosa, de pacatoadas adolescentes devia saber que preciso que me recorde antes das coisas realmente importantes:

"os dias certos nunca são certos".

 

 

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deu discussão! (quase porrada)