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banalidades

por M.J., em 20.09.17

gosto de amanheceres cinzentos.

lembra-me a manhã a ouvir o vento contar a história do gato malhado e da andorinha sinhá. lembra-me o começo do dia lento e molengão, os dedos nos olhos, a percepção da vida numa névoa ainda de sonho. 

não me sinto tão culpada pela minha pausa forçada no que diz respeito ao viver.

arrasto-me pela casa sem culpa. faço o pequeno almoço de portas abertas e olho as plantas na varanda. não há sol a fazer-me correr, a gritar para me despachar na turbulência, na pressão das próximas horas. 

 

há gente que escolheria o sol como companhia diária. aboliria a chuva e a névoa e faria dos dias correntes vivas de vitamina d, cores fortes e calor a bater na pele. 

eu tenho um dia ganho quando há um casaco sobre os ombros, horas que correm na névoa do cinzento, uma neblina que beija a pele e a sensação de pacatez na passagem de cada minuto.

abro até a janela do escritório, cerrada nos dias de sol, e visto um casaco enquanto começo.

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banalidades

por M.J., em 15.09.17

por mais que me levante cedo não consigo ser pessoa antes de passar, no mínimo, uma hora desde que acordei.

é verdade.

não tenho fome, arrasto-me pela casa e todo o meu corpo grita que devia voltar para a cama, desde os olhos inchados como dois balões, os braços que me pesam, a cabeça que teima em tombar.

deixo, por isso, que passe algum tempo até conseguir raciocinar.

abro as janelas e olho a vida invariavelmente de sol nos últimos meses. rego as plantas da cozinha mesmo que elas gritem que estão inundadas de água. vejo a meteorologia numa aplicação do telemóvel que erra mais do que acerta. abro a agenda e percebo as coisitas mil que tenho de fazer. 

uma hora depois estou mais ou menos pronta para começar a ser. 

 

o problema é que a vida não se compadece com este meu atraso matinal.

às vezes há telefonemas ainda eu estou a coçar os olhos. atendo tentando manter uma voz clara enquanto conto os pássaros das árvores em frente. discuto questões importantes no meio de um café ou outro, muito quente que inunda a cozinha de um odor enérgico e enjooa as plantas, de pijama e chinelo no pé.

rogo pragas mentalmente ao forçar do meu acordar, tão lento, tão vagaroso. 

 

quando era miúda levantava-me antes das sete e apanhava o autocarro escolar para quase quarenta minutos de viagem entre a serra. em dias de geada acordava ainda antes de estar acordada e não havia a necessidade de me arrastar pelas divisões da casa como uma velha já morta. comia pão com manteiga e água castanha com cevada. e quando era mesmo miúda ia com a avó tirar leite à vaca que bebia, depois já em casa, por uma caneca de latão.

e não havia plantas enojadas com o cheiro da cafeína.

nem estudos a condenar a lactose.

só a vaca pinta e a avó a dar-me a melhor parte do leite. 

 

o problema minha cara, constato enquanto vejo sair os vizinhos, é que não adormecias às duas da manhã com a barriga cheia de porcarias da internet, vistas num telemóvel em frente aos olhos. ias para a cama às dez, depois de meia novela da noite e dormias como uma pedra, sem interrupção nem do carro do padeiro às quatro da manhã.

e pensar que disse, tantas vezes, perante um amuo na hora de dormir:

"quando for grande!"

 

quando fores grande arrastas-te pelas divisões achando que estás velha e que precisavas da cama da tua infância e das mãos da tua mãe a aconchegar-te os cobertores antes de dormir. 

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banalidades

por M.J., em 11.09.17

acordei tão enjoada que a concentração teima em não chegar e mesmo as coisas mais simples parecem ter a complexidade de uma teoria física sobre buracos negros.

seria capaz, se tal fosse possível, de arrancar o estômago com as duas mãos, muito coladinhas, e colocá-lo num contentor fechado para ver se aprende, que isto não pode ser assim, pega lá enjoo, agora desemerda-te.

o problema foi do fim de semana e das bodas de ouro - literalmente de ouro mas para perceberem teriam de ter visto - e da lagosta toda e do camarão todo e do cherne todo e de que raio era aquilo tudo, e o meu estômago sensível a lembrar-me que até posso mandar o que lá ponho mas não mando na fase seguinte.

uma consumição.

por isso esta manhã nem tomei café.

 

 

está sol e o prédio é uma ilha de silêncio no recomeço de toda a gente aos trabalhos de toda a gente.

o matraquear do meu teclado inunda a casa e, se abrisse a janela, inundaria o bairro e ecoaria pelas ruas, em palavras e tarefas e coisas que não avançam porque sinto, muito sinceramente, o mesmo que sente um homem com gripe.

o mundo parou nos últimos dois fins de semana.

demasiadas horas de comida, conversa de circunstância, necessidade de fazer sala, um ar muito comedido, as mesmas piadas, os mesmos saltos, a mesma sensação de peixe fora de água, de custo em respirar.

a mesma máscara. 

casei e em troca fui a quatro casamentos e um baptizado num ano. três missas e duas certidões de casamento. cinco bolos de festa. mil pessoas alinhadinhas de que não lembro a cara. quatro bailes. quatro comboios de pessoas de saltos desengonçados. quintas, piscinas e flores. hastags e pormenores. promessas em público e juras de futuro. retalhos de felicidade alheia a que assisti, compenetradamente, a tentar perceber os motivos que me levaram a fazer o mesmo e, percebendo, muito singelamente, que talvez o não fizesse hoje.

estás enjoada, não sabes o que dizes - calou-me a mamã ao telefone, durante o pequeno almoço de iogurte e chá.

e alguma vez soube?

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banalidades

por M.J., em 05.09.17

acordei enjoada tarde e más horas.

não que interesse. depois de um fim de semana - que incluiu a segunda - a dormir pouco mais de duas horas por noite, achei que podia dar uma de louca e levantar-me às nove na terça. 

agora sinto que tenho tudo atrasado.

e está.

 

na cozinha cheirava a lavado que esfreguei por montes e vales - foi nada, eram azulejos - ontem a horas indecentes.

a minha compulsão pela limpeza acalmou nas férias mas acentuou-se quando reparei, no descanso nocturno, que ia chumbar no âmbito de uma inspecção de higiene e segurança no trabalho.

e para porcaria já basta as vezes que comi fora de casa.

 

reguei as plantas que pendurámos na bancada.

são da minha obrigação, apesar de as exteriores estarem ao cuidado do rapaz. a malagueteira (existirá tal nome?) morreu (já é a segunda) e a do canto, que não sei o nome, começa a secar. creio que sou inabilitada no tratamento de outras vidas mas não desisto.

a esta, pelo menos, não posso transmitir traumas emocionais.

creio.

será que posso?

 

na rua está cinzento e tomei o pequeno almoço a olhar o mundo pela varanda.

o mesmo mundo que é do tamanho do que vejo: os cedros, a pequena rua, um ou outro carro que passa em frente. o jardim de baixo e dois gatos com coleira à procura do sol.

 

escolhi agnes obel como banda sonora do dia e abri a agenda pirosa de caneta em riste.

alinhei na minha letra escangalhada tarefinhas banais e importantes, tudo muito direito e feio ao mesmo tempo, uma caneta preta de um tom horrendo de dó, pouco conjugável com o rosa da coisinha fofinha que escolhi como lembrança dos dias:

* cinco linhas de trabalho

* ligar à empregada

* agendar a catrefada de posts que tenho numa listinha no telemóvel

* acabar a leitura perdida do livro que comecei antes das férias

* ir aos correios

* passar pela farmácia

* marcar duas consultas

* e uma quantidade de merdinhas chatas.

 

quando acabo percebo que a agenda tem, neste dia, uma frasezinha bonita para animar o dia.

pois que "os sentimentos podem escapar-te da boca mas nunca do coração" e paro e leio e percebo que se calhar aquilo serve mesmo a alguém, que o repete num mantra de sapiência e serenidade, e relembro tristemente, enquanto abro documentos, planeamento de trabalho, e-mails a enviar e objectivos mensais, que a senhora da roulote perto da rotunda, ali plantada desde que me mudei, em dias de chuva torrencial e sol ardente, barraquinha aberta, numa imensidão de certezas das coisas certas, desapareceu e só reparei ontem, quando passava, e me pareceu aquele pedaço de espaço vazio em ânsias de ausência.

e no meio daquele sítio gora de nada, que outrora me fazia parecer mais certas as coisas incertas, mais seguras as inseguranças dos dias, a ilha do costumeiro mesmo quando tudo era um pedaço de questionamento, o sorriso da mulher mesmo em frente, a rotina segura de que o mundo se mantém no mesmo lugar, desaparecido agora, lembrei-me com um baque de que nunca parei para tomar um café e comer um cachorro quente, tal como prometia todas as vezes, e eram muitas, que por ali passava.

só para dizer olá, bom dia e ouvir a voz de quem tornava, na estranhez de quem sou, os meus dias mais normais.

foi-se.

desapareceu.

e se os sentimentos podem escapar-me da boca e não do coração, escapo à minha agenda que é uma porcaria, porque em vez de me avisar, naquela letrinha amorosa, de pacatoadas adolescentes devia saber que preciso que me recorde antes das coisas realmente importantes:

"os dias certos nunca são certos".

 

 

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publicado às 12:00

banalidades

por M.J., em 16.08.17

às vezes percebo que não consigo chorar.

é raro mas acontece. há um aperto apertado apertadíssimo no peito, na garganta, nos olhos, nos dedos enquanto extensão de sentimentos, e não consigo chorar. seca de lágrimas. repleta de sentimentos corrosivos, que queimam num constante loop, numa constante ebulição.

queimo sem queimar. 

o mal de não conseguir chorar é que sem o pranto impulsivo de cinco ou dez minutos não há, inevitavelmente, a bonança após a tempestade e a sensação de perda de norte intensifica-se durante muito tempo.

sei que a maioria das pessoas não sobrevive desta forma, numa constante procura de qualquer coisa, numa constante insatisfação, num constante desconhecimento, numa constante incerteza, numa constante incapacidade de ser. a maioria das pessoas vive. arranja uma série de refúgios, subterfúgios, coisitas que permitem a continuação de cada amanhecer.

eu não consigo e galgo as horas como um rafeiro perdido e carracento, que morde quem lhe dá comida e abana o rabo à ideia de algo que parece brilhar mas é pechebeque em vez de ouro. galgo as horas como uma espécie de abutre na espera dos restos que me possam acalentar os minutos. 

a minha constante insatisfação diária é legendária e demonstra o ponto em que me encontro, o que sou e o que tenho. e em minutos em que não consigo chorar o meu azedume gritante berra em prantos que chega de ser. 

estou tão cansada. 

 

e quem não está? repete-me o reflexo ao espelho. 

quem não está?

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casa

por M.J., em 10.08.17

as minhas incursões nocturnas pela casa costumam ser mais frequentes quanto mais tarde me deito.

normal.

agora que estou de férias - uma semana antes do rapaz - tenho praticamente os ciclos de sono trocados.

nunca fui uma pessoa amplamente matinal mas, levantar-me às onze ou ao meio dia - como ontem - é invulgar e não me põe bem disposta.

pelo contrário.

 

esta noite fiquei a ler até bem depois das duas.

há um lugar no sofá especialmente destinado para as minhas leituras, uma lista de música destinada ao efeito, uma caneca de chá na mesinha de apoio e um candeeiro que amortece o ambiente, numa espécie de cenário de igreja. 

gosto.

na rua o vento batia nas janelas, na cadeira da varanda, na roupa na corda, nas plantas nos vasos. as árvores moviam-se na velocidade de uma pequena corrida de cinquenta metros e ouvi voar qualquer coisa. 

às três da manhã fui à varanda:

uma lua gigantesca no céu e um ar frio.

uma ventania ao género de temporal sem chuva.

um silêncio arrebatador com dois ou três grilos e o som do vento nas árvores, nas casas, nas ruas e no meu cabelo.

a vista sobre a cidade era minha e sobre a lua também.

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pela primeira vez, vai fazer dois anos, numa quinta feira às três da manhã, descalça numa varanda a tremer de frio, um vento a lembrar-me a serra e o mar, o silêncio que percorria a vida, senti-me em casa.

estou finalmente em casa. 

 

na cama o corpo dele quente descansava.

encostou-se a mim, quando me deitei, o vento a brincar nas paredes, o som de um temporal sem chuva na rua.

e apercebi-me então que já estava em casa antes de saber que estava. 

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banalidades

por M.J., em 24.07.17

tive uma crise de choro, um dia destes, enquanto ouvia uma música aleatória das centenas de bandas sonoras que passam pelas colunas, todos os dias, enquanto matraqueio as teclas.

foi assim num rompante.

estava tudo normal, um dia claro, o som tranquilizante dos vizinhos ao lado, a correria de um dos cães na rua em baixo, a janela aberta com duas folhas de orquídea a entrar junto à parede e, quando dei conta, estava a chorar descontroladamente, um rio de lágrimas em marcha até ao chão.

uma dor cega.

um baque surdo.

um desespero sentido. 

 

fiquei prostrada, a cabeça em cima dos braços, o teclado atirado para um canto. não havia nada: nem sol, nem luz, nem continuidade, nem esperança, nem eu ou alguém. só um sentimento atroz de escuridão que me podia consumir.

sentia, naquele instante, que podia ser engolida e desaparecer num fundo negro de escuridão, ali, a música, o cão, os vizinhos, a orquídea e a janela.

 

lembrei-me nessa altura da minha prima porque me lembro das pessoas também em função das épocas em que vivemos.

no verão era assim: eu saía de casa antes das seis (ou seria sete?), subia a rua, entrava pelo portão, subia as escadas e chamava por ela na porta da cozinha. mais velha do que eu três anos ela era - e é - dotada de uma vivacidade que eu nunca tive e uma força de três furacões enraivecidos. qualquer obstáculo era contornado com a ligeireza de quem encontra justificações para o que acontece sem questionar.

ela andava por ali. regava plantas, limpava a casa de uma ponta à outra, combinava saídas, fazia bolos e tinha planos. a energia dela transbordava em cada poro e eu sentia-me sempre pequenital, assoberbada pela gigantesca capacidade dela de ser. 

no quarto dela havia um televisão e dezenas de posters colados nas paredes - a mamã fizera-me arrancar o único que me arriscara a pôr no meu quarto - que vinham nas revistas compradas por duzentos e tal escudos: dos excesso, dos anjos e de bandas do outro lado do mundo que nós cantarolávamos num linguarejar estranho de quem não domina o inglês. nós deitávamo-nos sobre a cama e víamos a novela. não eram os morangos, coisa mais recente ainda que antiga, mas uma brasileira, onde as miúdas eram magras e sofriam de anorexia por serem apelidadas de gordas, andavam numa escola com piscina, tomavam pequenos almoços gigantes e iam a centros comerciais onde eu, com 13 ou 14 anos nunca entrara.

era sempre uma maneira muito boa de acabar as tardes. 

 

lembrei-me da minha prima e das novelas e dos fins de tarde de verão a ver novelas que entretinham a alma e o tempo no meio daquele desespero cego. lembrei-me dela e telefonei-lhe, a sensação de absoluta solidão pelo corpo, o choro compulsivo apenas amainado para que não notasse. 

falou-me dela.

como sempre fazia. contou coisas, momentos, planos e anseios. num relato comprido que me enxugou as lágrimas, me acalmou as dores, me alisou a solidão que sinto colada aos ossos e a perda que não existe mas que parece ser a única coisa de que sou feita. 

 

esta tarde, quando falei com a minha prima, perguntas curtas da minha parte na tentativa gloriosa de a ouvir falar, minutos completos, seguidos, planos e momentos, tive 13 anos outra vez e fui acalmada dos meus anseios pela força com que ela comanda a vida ainda que, em segredo, eu saiba que é a vida que comanda a ela.

 

na maior parte das vezes não preciso de nenhuma palavra de consolo dirigida a quem sou.

preciso apenas de olhar e ouvir o outro, perdendo-me por instantes da minha patética maneira de sentir. 

sou tão ridicula. 

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banalidades

por M.J., em 20.07.17

a verdade é que, analisando bem a coisa, é tudo uma questão de perspectiva. 

todas as vezes que passo pelo corredor e me olho no espelho de parede, e vejo como a minha expressão se altera nos dias, ora num mutismo cego, sem nexo, ora numa sensação de leveza e conquista, e analiso as horas e percebo que as as diferenças radicais são meramente emocionais, pedaços de nada, sem nada de importante a não ser  a minha mentalidade, sei que é tudo perspectiva.

sou eu dona de quem sou e não comando minimamente como me sinto.

a mesma chávena de café consegue ter um sabor amargo hoje e doce ontem.

a mesma brisa fresca nos lençóis a secar na varanda é percepcionada de duas formas diferentes e isso é ridículo.

devia sentir em função das vivencias e não vivenciar em função do sentir.

acho eu, mas eu não sei nada.

 

para a merda tudo isto, desabafo, atirando o teclado contra o monitor.

há mil coisinhas a fazer, tanta coisa a aligeirar e deixo morrer os dias no que sinto sem motivo.

observo a rua quando abro a janela do escritório: está fresco, os cedros dançam nos mesmos movimentos desde que cá cheguei vai fazer dois anos, e a manhã morre mansa.

o grande problema, constato, enquanto trinco a borda da chávena de café meio bebido, é que deduzi que estes cedros, aqui em frente, seriam passageiros, uma mera temporada rápida num intervalo da vida de dois anos, não mais.

e é esse o mal das expectativas.

acreditamos em coisas que sabemos, no fundo, serem só mais ou menos mas, ao mesmo tempo, vamos moldando a vida ao que acreditamos. era só passageiro. só um intervalo antes do regresso a casa. estes cedros, esta rua, a senhora maluca dos cães que lhes grita todas as manhãs, as flores roxas do jardim, as ervas daninhas atrás da garagem, as varandas com vista para o nada porque nunca quis que fosse tudo, tudo isso seria passageiro. não interessava dar-lhe grande valor. não interessava pôr fotografias nas paredes, mudar os sofás ou comprar mais plantas. não interessava organizar os livros, alterar tapetes ou pensar noutros candeeiros.

era só passageiro.

era só mais uns dias antes da brisa do mar na face, da casa no bairro do estudantes, no jardim enorme com um banco que era meu, na vizinha da mercearia, ou na árvore que entrava toda sala dentro. 

 

era só passageiro e essa passagem chegaria agora ao fim.

e apesar de não ser promessa ou certo, era certo e promessa nas minhas expectativas.

esta cidade onde vivo hoje não é minha. esta casa não é a minha casa e não há pessoas que me sejam pessoas porque nunca quis que fossem. perdi laços de onde vim e não criei novos onde estou. deixei a sensação de casa perdida e não a encontrei aqui porque era só passageiro.

sou mais pequenina do que sempre fiz crer.

crio amarras e raízes que se entranham na terra e não consigo desligar-me. lá foi o único sítio onde me senti em casa. e essa sensação, talvez exacerbada ao limite, faz-me acreditar que não o sentirei em mais lado nenhum.

nem lá, outra vez, porque já lá não há quem eu era.

 

viver é uma canseira e começo mesmo, mesmo, mesmo a ficar farta disto.  

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banalidades

por M.J., em 18.07.17

dormi mal esta noite.

a cama estava quente e o ar abafado. levantei-me às três da manhã e abri, desesperada, todas as janelas da casa, na esperança vã de sentir o ar da noite na pele.

estava escuro e haviam luzes espalhadas na cidade. tive saudades da noite que é noite, das luzes mortas e do sino que vela os sonhos, esperando a hora certa de acordar.

bebi um copo de água. estava morna e haviam dois mosquitos no ar, num zumbido intenso de quem espera um jantar. 

acordei esta manhã cansada, numa noite mal dormida. a empregada telefonou, muito depois da hora de chegar, a avisar que afinal não vinha. tenho mesmo de arranjar outra mas perco a paciência de procurar, tal como perco a paciência de ler, escrever, trabalhar, viver ou dormir.

perco a paciência e não sei se a tive, alguma vez, ou se este desespero de viver, agarrado à minha alma como duas mãos aflitas, faz tão parte mim como o meu braço direito.

 

canso-me que viver é uma canseira apática, de quem procura um significado que não existe, uma sentido que não há, um caminho que não passa, ilusoriamente de nada no meio de nada.

dormi mal esta noite.

tomei o pequeno almoço cansada, em frente a uma das plantas que ele rega quando chega a casa. gosta de cuidar, ele. olha as coisas com amor, pega nas folhas mortas e retira-as, calmamente, numa cirurgia delicada. olha a terra onde estão as raízes e molda-a sabendo que elas irão para onde ele quiser, desde que lhes providencie estrutura. limpa-lhes as folhas, mima as flores mais viçosas. gosta de cuidar, mesmo. às vezes, na hora de jantar olha-me e diz é preciso regar as plantas, regaste as plantas hoje? num sentido de missão e dever. 

nunca as rego. deixei morrer umas quatro ou cinco, na varanda, até ele tomar as rédeas do assunto.

pressinto, às vezes, uma analogia qualquer nisto tudo. 

depois concluo são só plantas e prossigo.

numa canseira.

 

dormi mesmo mal esta noite.

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por M.J., em 03.07.17

às vezes dá-me para desistir.

acordo de manhã e penso não quero. dói-me a vida e tudo é tão claro que bate nos olhos e cega como um sol forte de verão ao meio dia.

não quero, penso, por feitio ou doença. não quero respirar, sentir o coração a bater ou mexer os braços e as pernas no prosseguir da vida.

não quero e o não querer consome porque é ingrato e doloroso.

 

 

não quero, concluo.

acordo e sei que não quero. olho-me no espelho e digo: que tens reservado para hoje sua anormal? às vezes são adjetivos menos simpáticos porque gosto de chamar as coisas pelos nomes corretos e os que se adequam a quem sou nunca são os bonitos.

e não sei responder. não tenho nada reservado, penso, porque não quero. e digo-me adeus ao espelho. tenho quase sempre vontade de me dizer adeus. olho os meus olhos, a minha cara e conto todas as imperfeições. são muitas e encontro sempre mais. e quase nunca sei responder à pergunta do que tenho reservado porque só a faço nos dias em que não sei. são dias de sol abafado que cega, já disse? fecho as janelas e cerro a vida na esperança de um dia cinzento e chuvoso. não resulta.

 

não quero, penso.

e ninguém respeita o meu não querer. sobretudo eu:

continuo a respirar, a sentir o sangue a correr e a avançar pela vida.

 

não quero, sei.

e quando chegar o dia em que o queira mesmo, já não é possível porque é sempre assim.

mais vale nunca querer, digo-me ao espelho enquanto insulto nariz, lábios, dentes e queixo e me aceno em adeus. 

mas nunca me respondo de volta.

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deu discussão! (quase porrada)