Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



banalidades

por M.J., em 29.01.18

o facto de hoje ter amanhecido soalheiro fez-me sentir, contrariamente ao expectável, um pouco menos melancólica, pessimista, chateada com a vida em geral e sem a aura negra que me acompanhou grande parte de janeiro. 

tomei o pequeno almoço com vista para a planta que uma das pessoas que mais amo no mundo me deu no natal.

o sol entrava a jorros pela cozinha e inundava de luz o chão e as paredes, as plantas e as chávenas, que pendurei de jeito pouco artístico.

estendi os pés em direcção à janela e fui mordiscando torradas enquanto continuava na leitura do terceiro livro deste ano.

 

quando fui à varanda, ainda de robe, as plantas dançavam nos vasos, a roupa bailava no estendal e o vento revolveu-me os cabelos.

é segunda feira, há um cheiro a novo no ar.

mas tenho saudades do ar da praia, das caminhadas no paredão, dos miados das gaivotas. tenho saudades da pastelaria do bairro, das cadeiras e das mesas alinhadas pela calçada e os velhos que se reuniam todas as manhãs em conversas infindáveis. tenho saudades do cão que aditou o dono e que fazia uma ronda matinal pelo bairro. tenho saudades da árvore que entrava quase toda pela janela da sala, mesmo em frente à varanda, os raios de sol que batiam no chão fazendo desenhos. tenho saudades das pessoas que faziam parte dos meus dias. tenho saudades da cidade e do que deixamos, mesmo aqui ao lado, como se estes três anos tivessem sido num país distante, longe de tudo, ainda que possamos, inacreditavelmente estar longe de tudo mesmo a poucos quilómetros. 

e agora que é certo voltarmos, e antevejo já os miados das gaivotas, o mar no inverno, o vento agreste, as glicinias floridas, os lanches ao fim da tarde, sinto saudades da melancolia das manhãs aqui, da vista sobre os cedros, das luzes, do cantar das rolas, da ausência de barulho, da louca que passeia os cães gritando pela rua. 

 

a minha vida é um corropio de mudanças banais.

pequenitas.

sem grandes coisas.

sem nada que se veja ou diga.

e no meio desse nada - que faria rir às gargalhadas amigos que passeiam pelo mundo e habitam cidades no outro lado do planeta como quem vive na aldeia onde nasceu - há uma sensação de tragédia grega que impregno a tudo, como um cheiro a bafio e mofo, a naftalina e a medo.

 

só estou bem onde não estou. 

e não é apenas um desabafo.

é uma constatação. uma certeza. um mantra que me guia nos caminhos.

é tão ridículo ser eu. 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

guarda-chuva

por M.J., em 11.12.17

uma das plantas da varanda perdeu praticamente as folhas todas.

encontrei-a despida esta manhã; o penduricalho que lhe amarrei ao vaso - e que faz barulho com o vento - partido, depois de uma tempestade para que não foi feito; e a triste da planta nua, num ar envergonhado de quem pode estar moribundo.

fechei a porta da varanda com rapidez.

o mundo está de um cinzento esbranquiçado e eu sou de cinzentos escuros.

coloquei água num fervedor, em cima do fogão, e juntei-lhe um pau de canela e uma raspa de laranja. da laranjeira da mamã.

e deixei ferver enquanto fazia as torradas e o café de cevada.

na cozinha, poucos minutos depois, cheirava a natal, a casa da avó, a dias de inverno, a bilharacos e rabanadas, a canela e a laranja e se fechasse os olhos poderia ouvir a voz da mamã, do avô, da chuva a bater no telheiro e do odor agreste do fumo quando, numa rabanada de vento, se enganava na chaminé.

 

quando bebia o café um pedaço de sol iluminou as árvores em frente, cansadas do vendaval nocturno, fez brilhar em mil cristais a água das folhas, numa espécie de joalharia natural, antes de ser esquecida no cinzento logo depois.

quando me sentei para trabalhar já era tarde.

tenho uma lista de coisas pendentes, que se foi acumulando três dias longe da secretária e do computador.

a minha roupa cheira a laranja e a canela e de vez em quando chove intensamente contra os vidros da varanda do escritório.

e não consigo levar para longe o pensamento de tempos idos, em detrimento de tempos de agora.

 

quando andava na primeira classe, num dia chuvoso como este - talvez menos, talvez mais, a memória não guarda tudo e temos tendência a moldá-la de acordo com a disposição - fui para a escola levando um guarda-chuva da mamã.

disso não esqueço: era um guarda-chuva grande, com enormes ramagens vermelhas e um cabo preto com um plástico brilhante na ponta que eu segurava com força. 

a subida até à escola era feita - na maioria das vezes - a pé por nós, quatrou cinco miudos, com botas de chuva e mochilas grossas. só mais tarde uma carrinha da junta de freguesia passava de casa em casa a recolher a canalhada.

no meu primeiro ano nós íamos sozinhos e a pé, com a mesma naturalidade que antes de nós foram os nossos pais.

havia um caminho pré-definido e várias subidas.

e levávamos muitas recomendações: não falar com desconhecidos - mesmo que isso fosse algo inexistente na aldeia - não saltar nas poças, não ficar a brincar muito pelos caminhos e, no meu caso, não partir nem perder o guarda-chuva.

o grande e reluzente guarda-chuva com ramagens vermelhas.

 

antes de chegar à escola, a meio da encosta, uma rabanada de vento veio e virou-me o desgraçado do chapéu.

eu tinha sido avisada para o fechar quando não houvesse chuva mas era a primeira vez que me confiavam um tesouro colorido para as mãos e não cabia em mim de contente, no orgulho de ter uma coisa nova.

o vento veio, virou as ramagens vermelhas ao contrário e partiu as varetas.

 

fiquei ali num grande pranto.

tive perfeita noção da desilusão da mamã desde muito cedo. e mais do que uma ou outra palmada, um ou outro castigo, uma ou outra palavra mais azeda, o que me magoava, a pontos de provocar sensações estranhas no peito, era a tristeza que eu lhe pudesse provocar.

e ali estava eu: a causar uma imensidão de desgosto ao partir, de uma vez só, um guarda-chuva novo que me tinha sido recomendado que estimasse. 

 

nas lágrimas e choros um senhor que morava ali perto veio ter comigo.

creio que morreu já e não me recordo do nome.

vivia numa casa perto da escola e às vezes caminhava por ali, com ar triste. e prometeu-me que me compunha o guarda-chuva se eu parasse de chorar e lho desse para as mãos.

talvez noutro sítio, noutro local, aos dias de hoje, isso fosse estranho. eu estendi-lhe os restos do meu tesouro com naturalidade de quem não tem motivos para desconfiar, ainda limpando as lágrimas e o ranho, e fui, à chuva o resto do caminho, até à escola, não pensando em mais nada o resto do dia.

à tardinha, quando desci para casa, ele estava à porta da entrada, de guarda-chuva em riste, composto e novo outra vez.

entregou-mo a sorrir. talvez tenha dito qualquer coisa que não recordo. talvez não.

recordo sim, que este foi um dos momentos de felicidade que tenho com mais carinho da minha infância.

 

e esta manhã, quando fervia canela com laranja para resgatar odores de outrora, lembrei-me disso, vindo das profundezas da memória onde estava encaixotado e senti-me mais bem-disposta, numa decisão parvinha:

vou comprar um guarda-chuva.

vermelho. 

com ramagens.

e um cabo preto de plástico brilhante. 

e vou ter nas mãos não um objeto chato e corriqueiro mas um tesouro de infância que poucos terão algum dia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

banalidades

por M.J., em 22.11.17

peguei na minha agenda pirosa e observei os dias.

ainda ontem era agosto - e andava a passear, numa despreocupação de cabelos ao vento - e estamos praticamente no final de novembro.

são estas constatações que nada dizem que me fazem os dias. 

o tempo corre e não corre, numa dualidade que nem sempre consigo entender e eu vou ficando para trás. 

 

alinhei, muito alinhadas, as tarefas do dia que me escapam, ou que queria muito adiar, e planeei semanas.

sei que há gente que detesta este planeamento mas de outra forma é impossível estar com certas pessoas, fazer certas compras, ir a certos sítios e ler certas coisas.

as horas fogem-me das mãos - contrariamente a outros anos - e se não me organizo as semanas transformam-se em meses e eu perdi coisas na procura de outras.

agendei na tradição quando faremos a árvore de natal. pus de lado a outra tradição do bolo-rei, trocada por uma ida à madeira, de pouquíssimos dias mas que servirá para respirar outros ares e fazer uma pausa da correria dos dias. 

 

depois de alinhar palavras, bebi um copo de água e fui à varanda.

o dia está cinzento, corre um outro carro na rua e há um vento que anuncia chuva que não vem.

estendi uma máquina de roupa, na banalissima tarefa doméstica que me lembra do meu TOC (pequenino), e me faz alinhar roupa por tamanhos e cores, com molas das respectivas tonalidades, à mesma distância e medida. não suporto que a empregada o faça porque não respeita aquelas que são, na minha mente, regras universais e impossíveis de ser quebradas. 

 

tenho estas minudências que nem toda a gente entende e que fui percebendo com os anos.

dão-me comichão no cérebro se não praticadas.

como deixar sapatos fora da sapateira, andar pela casa com os calçado da rua ou deixar chávenas de café fora do sítio. não sou paranóica mas preciso de respirar fundo e não enfiar uma caneta até ao cérebro para coçar a comichão que aquilo me provoca.

também não consigo dormir com louça por lavar, as almofadas do sofá fora do sítio ou acordar de manhã e não abrir a janela, nem mais nem menos do que a distância que já sei de cor. 

herdei estas coisitas da mamã. ela, por exemplo, não consegue ver um tapete fora do sítio ou um vidro sujo. faz parte de quem é.

eu julgara que não era assim até perceber as minhas coisas: como não suportar deixar estragar alimentos, mesmo que perca tanto tempo a tratá-los que acabam por ficar mais caros do que se comprasse outros. como todas as castanhas que se iam estragando e eu descasquei-as, uma a uma, descartando as estragadas e congelando as outras. e a irmã do rapaz, quando soube: credo que seca, mais valia comprares. e eu, os ombros encolhidos, na aprendizagem que não se diz tudo o que se pensa ou, corremos o risco de passarmos por fedelhos irritantes.

 

estendi roupa, numa obra de arte simétrica, e reguei plantas.

costuma ser a pausa das onze, em horários a cumprir para me mexer.

trabalho com concentração e esqueço que sou um corpo mais do que mãos e olhos e quando dou conta estou rígida faz horas, sem mexer um músculo que não os essenciais ao trabalho.

nessas alturas estico-me e é como se mil alfinetes me apertassem as articulações, rígidas da múmia em que me transformo.

instituí por isso o regime das pausas e tem corrido bem.

 

reguei plantas e tomei um café.

alguém abriu uma persiana no prédio e o som espalhou-se pela rua e pelo monte, como num eco de lembrança. tirei as folhas secas de uma sardinheira. aparei a salsa, os oregãos e o cebolinho, na mini horta de uma prateleira da varanda. 

voltei ao trabalho vinte minutos depois.

agora, é quase hora de almoço e a manhã já se foi.

os dias fogem-me na pressa das horas e não sei onde vão ficando.

mas as plantas estão viçosas, a roupa está milimetricamente estendida e avancei mil tarefas de trabalho que estavam pendentes. 

 

o tempo não é meu mas tenho-o transformado em pedaços de algodão doce. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

banalidades

por M.J., em 19.10.17

há um leve cheiro a fumo no ar que se entranha na roupa, no corpo, no cabelo, na pele.

não tem a imensidão de cinza e pó e abafado intenso dos últimos dias mas permanece gravado a cada partícula de ar, como uma espécie de fumado adocicado e enjoativo que se propaga, insistentemente, por todo o lado.

o cinzento da manhã apanha cada partícula e deixa-se vaguear pela vida.

tomo café a olhar os cedros. não há ninguém na rua e esforço-me por canalizar a mente para o que vejo. as árvores, as casas, um gato no jardim em baixo.

está tudo queimado. 

ainda não consegui abarcar essa ideia:

está tudo queimado. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 10:20

banalidades

por M.J., em 11.10.17

está sol como tem estado sol nos últimos meses da nossa vida.

o tempo é quente e nublado de um fumo amarelado que se cola à pele e aos ossos e à alma.

ouço ludovico einaudi, faço pausas que não terminam e passarico pelo espaço numa falta de produtividade gritante. 

as coisas a fazer aumentam.

olho a lista e encolho os ombros como se a vida e o que sinto e o tédio existencial tivessem mais força do que qualquer necessidade de trabalho. estou feita numa burguesa é o que é.

 

tomo café encostada à varanda, os olhos franzidos pela claridade doente do dia. os cedros continuam erguidos numa mansidão de eternidade. há um seco, mesmo no meio dos outros e que ali permanece desde que cá cheguei.

morto mas erguido ou moribundo mas digno, sei lá.

pondero sair.

sentar-me numa pastelaria e ouvir o ruído das chávenas, da porcelana e o cheiro do café. abrir o jornal na mesa, olhar de soslaio as outras pessoas. dizer bom dia só para ouvir a minha voz. mas fico. há tanto trabalho acumulado que certos prazeres, ou necessidades, precisam invariavelmente de ficar para segundo plano.

o cão do vizinho late, de vez em quando, numa espécie de ganido solitário. ao longe ouço o som de um motosserra e viajo, imediamente, até à serra. vejo as videiras já sem uvas, a erva molhada da neblina matinal que a avó apanhava com uma foicinha. ouço, na beira do rio, o som de uma ou dois motosseras a desbravar árvores. sinto as enxadas a abrir a terra e vejo o avô, que já não vê, a limpar a fronte do suor enquanto se queixa da falta de água. sorri-me e tem mil rugas do tempo e da vida. estende as mãos e aperta a minha num amor de bondade e família.

está mesmo não estando.

como o cedro erguido em frente à minha varanda.

tenho saudades tuas.

 

está sol como tem estado sol nos últimos meses da nossa vida.

e eu dava tudo para uma manhã de chuva. 

que não fossem as minhas lágrimas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

autocrítica

por M.J., em 09.10.17

em certos dias cultivo uma certa animosidade com o mundo em geral.

praguejo entre dentes, em silvos que só eu ouço e que me fazem mexer os lábios como alguém a ajeitar uma placa contra as gengivas. não é agradável porque a batalha mental que estabeleço entre mim e comigo pode ser um pouco exaustiva e para cansaço já bem basta o que basta.

uma consumição.

 

os ódios de estimação podem ser muitos e variados e acabam, na maior parte das vezes, a bater no alvo comum do eu e comigo que é a própria pessoa que alberga essa dualidade: eu própria.

é interessante, em boa verdade, porque há sempre uma série de defeitos que me consigo apontar -  quase listar, se quiser - na minha agenda parola e remoer até à exaustão.

não é algo que possa controlar.

faz parte de mim como uma das minhas pernas grossas ou a dor da omoplata direita que me está a obrigar a novas sessões de fisioterapia e provoca noites horríveis às voltas no colchão.

está um dia lindo, penso, mas estaria melhor se chovesse.

e logo a minha mente, às turras com ela própria, a lembrar-me que sim, com chuva posso ser mais preguiçosa, sair menos de casa,  dispensar qualquer exercício físico e engordar até não passar em nenhuma das portas ou janelas da casa, acabando transportada por uma grua, em cima de um contentor industrial de transporte de animais mortos.

 

às vezes, os ódios de estimação passam de mim e do comigo para o mundo que me rodeia.

é fácil. mesmo que a minha autocrítica seja do tamanho de uma catedral, futebolística ou não, é muito fácil ver nos outros as características que odeio. ainda que, conclua muito sinceramente, essa fase já tenha passado há algum tempo. 

é sério.

deixei de ter grandes ódios de estimação que não passem pela minha pessoa.

custa-me até a acreditar que houve tempos em que me irritava pelo comportamento, opiniões e considerações alheias, numa consumição sem dó, toda chateada e apezinhada, os nervitos à flor da pele, as argumentações estendidas como manifestos, na certeza de que o maior parte do mundo era ridícula. é fácil cairmos nessa falácia quando nos esquecemos que olhamos para o resto do mundo com as nossas próprias vistinhas e que, na maior parte das vezes, atribuímos ao mundo as características que são nossas porque é através delas que olhamos. 

faz sentido, não faz?

não entendo mesmo. às vezes olho para este blogue, por exemplo, para a imensidão de horas que aqui passei, e não entendo como me irritei com tão pouco, escrevi certas coisas ou dei importância a comportamentos, palavras e comentários, como se a vida se resumisse a uma série de letritas escritas num ecrã, com muitos erros na maior parte das vezes e a opinião de quem nunca vi fosse mais importante do que o mundo que me envolve aqui fora. 

 

talvez seja este o amadurecimento de que as pessoas falam.

não sei.

não vejo grande evolução se as minhas inabilitações sociais, as minhas incapacidades de lidar com a vida e os outros se centram em mim e, por consequência, encontro em cada dia um defeitozito ranhoso - e manhoso - nas minha pessoa.

torna-se mais difícil a convivência com o que sou, as discussões mentais aumentam e, às vezes, desconheço completamente os pensamentos que me formam.

se somos feitos de nós e se o nós é feito do que pensamos e vivenciamos, perco-me na procura de mim. 

e nesse intervalo, quando olho ao espelho, tenho sempre grande vontade de me dizer adeus.

Autoria e outros dados (tags, etc)

banalidades

por M.J., em 28.09.17

creio que o momento em que perco mais facilmente a perspectiva é à noite.

não faz sentido, eu sei, mas chega a um certo ponto, quando o dia acabou mas ainda não acabou e há horas e momentos que posso preencher e perco a noção da realidade e do tamanho das coisas a que me propus.

tudo me parece de uma inutilidade extrema.

seria nesse momento, noutras alturas da vida, que saíria de casa numa demanda de encontrar quem sou. procuraria nos outros. olharia pessoas, gente e questionaria se a parte de mim que me falta e não reconheço poderia ali estar.

nunca estava. não está. nunca estará. 

 

tive sempre - talvez devido a livros e filmes e séries e novelas consumidos em miúda - a ideia de que a minha vida seria muito maior.

eu sabia, antes da gente da minha idade se questionar sobre isso, quais seriam os meus feitos. e tudo era aguentado e suportado porque na imensidão dos dias, dobrados e triplicados no silêncio das árvores, havia o amanhã.

havia a data.

havia o dia dos planos em concretização.

pois nenhum se concretizou. ou melhor, tendo-se concretizados alguns, foram os menos agradáveis, os que menos prazer me deram, os que me trouxeram até dissabores.

como que se o caminho que eu trilhei, na imaturidade de quem não pode - por mais que queira - saber das coisas, fosse todo ao contrário, desajustado à pessoa que eu era e sou para ser bom à personagem que eu achava que seria e serei.

 

é à noite que tenho mais tempo para pensar. equacionar os pontos e falhas e momentos da vida que são os meus mas que me parecem de outro. 

de manhã a vida recomeça.

tomo pequenos almoços longos, rego as plantas e avalio o dia, no clima dos idosos. hoje vai estar quente, penso, mesmo que só haja nevoeiro. porque há nevoeiro nas sardinheiras e numa suculenta que morre lentamente num vaso.

há café e sol por trás da névoa.

e penso hoje vou ser melhor. e decido hoje vou fazer isto. e aquilo. e aqueloutro.

e depois, à noite, sentada na imensidão das horas constato que não fui, nem fiz isto, aquilo, aqueloutro.

 

todos os dias da minha vida são o falhanço das expectativas que não controlo.

e, por consequência, da pessoa que eu sou. 

isso faz de mim uma falhada, não é mesmo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

banalidades

por M.J., em 22.09.17

acordei cedo com o barulho de um camião mesmo na ruela em frente à casa.

orgulho-me de - no meio desta cidade onde não me encaixo - ter encontrado um apartamento num sítio onde reina a pacatez dos dias longos de aldeia, com o barulho das rolas no telhado, os cedros erguidos em frente e o latir dos cães na desconfiança de quem chega.

no entanto, andam agora a construir uma casa numa das ruelas adjacentes e, de vez em quando, somos presenteados com o barulho dos camiões, pedaços de terra amarelada caídos do transporte e um cima abaixo de carros, na novidade do que se passa.

 

desci para ir tirar o meu carro do sítio onde estava estacionado.

o homem do camião transpirava de nervoso e não conseguia passar, por mais manobras que fizesse, devido ao meu carro, apesar de nenhum de nós estar a cometer uma contra-ordenação. fui boa samaritana e mudei-o de lugar, vestida com um robe esquisito que comprei na primark para os dias frios, o cabelo esgrouviado e incontrolável todas as manhãs, e o pequeno almoço ainda por tomar.

agradeceram-me muito mas já estava acordada com o barulho infernal do motor em manobras.

 

perdi depois uma hora não sei em quê.

estava cinzento de breu. mantive-me com o robe vestido apesar de, na opinião do rapaz, me fazer parecer um rebuçado gigante tal a cor. não está frio para o manter vestido mas faz-me lembrar chás quentes, chuva miudinha, castanhas assadas e dióspiros.

é outono e no cinzento do amanhecer estava em paz.

tomei o pequeno almoço, reguei uma planta e tentei desregar quando percebi que a água se acumulava toda no fundo, tendo em conta a quantidade de terra molhada. li as notícias e vi a meteorologia: torci o nariz perante o fim de semana quente e a ausência inevitável de névoa hoje pelo meio da manhã.

não tirei a roupa do estendal, não fiz a cama, não lavei a louça do pequeno almoço nem controlei as tarefas de trabalho do dia. 

 

uma hora depois, ainda estava cinzento, a empregada chegou.

trazia a animação da rua: voz rija, gestos desembaraçados, a agitação do autocarro, do saco na mão, da conversa matinal com a vizinha de baixo e a senhora da pastelaria onde vai todas as manhãs.

pousou um saco no bengaleiro, decidida, e soltou duas ou três gargalhadas perante duas ou três piadas que disse.

ofereci-lhe um café e,  encolhida e sentada com o meu robe estranho no sofá da sala, ouvia-a falar. ela cheirava a café, a desenrasque e a decisão por contraponto à minha molenguice matinal. contou-me as novidades da semana, muito desembaraçada e deu-me o ponto de situação da vida, no que a vida nos permite compartilhar. tristezas não pagam dívidas, diz decidida, mesmo que enumere as tristezas, e as dívidas, sem vergonha.

comparado com o silêncio de missa que reina nesta casa, há hoje uma animação enérgica de roupa a ser estendida e lavada, sons de louça, aspirador e a tv da cozinha, nas notícias que nunca vejo.

 

sentei-me com os phones nos ouvidos, na tentativa de anular os ruídos da vida.

o camião voltou com uma grua que tenta desesperadamente levar para outra rua.

ouço aurora, madrugada, agnes obel, birdy e anne brun.

há uma melancolia em cada som e fico quieta em frente ao pc sem saber muito bem o que fazer mesmo que tenha, muito alinhadinha, uma lista das coisas pendentes na agenda.

 

o sol surgiu agora.

tirei o robe.

ouço o tilintar de um copo na cozinha no intervalo de uma das músicas.

 

 

acho que vou tomar (outro) café. 

e nunca mais chove. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 10:20

banalidades

por M.J., em 20.09.17

gosto de amanheceres cinzentos.

lembra-me a manhã a ouvir o vento contar a história do gato malhado e da andorinha sinhá. lembra-me o começo do dia lento e molengão, os dedos nos olhos, a percepção da vida numa névoa ainda de sonho. 

não me sinto tão culpada pela minha pausa forçada no que diz respeito ao viver.

arrasto-me pela casa sem culpa. faço o pequeno almoço de portas abertas e olho as plantas na varanda. não há sol a fazer-me correr, a gritar para me despachar na turbulência, na pressão das próximas horas. 

 

há gente que escolheria o sol como companhia diária. aboliria a chuva e a névoa e faria dos dias correntes vivas de vitamina d, cores fortes e calor a bater na pele. 

eu tenho um dia ganho quando há um casaco sobre os ombros, horas que correm na névoa do cinzento, uma neblina que beija a pele e a sensação de pacatez na passagem de cada minuto.

abro até a janela do escritório, cerrada nos dias de sol, e visto um casaco enquanto começo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

banalidades

por M.J., em 15.09.17

por mais que me levante cedo não consigo ser pessoa antes de passar, no mínimo, uma hora desde que acordei.

é verdade.

não tenho fome, arrasto-me pela casa e todo o meu corpo grita que devia voltar para a cama, desde os olhos inchados como dois balões, os braços que me pesam, a cabeça que teima em tombar.

deixo, por isso, que passe algum tempo até conseguir raciocinar.

abro as janelas e olho a vida invariavelmente de sol nos últimos meses. rego as plantas da cozinha mesmo que elas gritem que estão inundadas de água. vejo a meteorologia numa aplicação do telemóvel que erra mais do que acerta. abro a agenda e percebo as coisitas mil que tenho de fazer. 

uma hora depois estou mais ou menos pronta para começar a ser. 

 

o problema é que a vida não se compadece com este meu atraso matinal.

às vezes há telefonemas ainda eu estou a coçar os olhos. atendo tentando manter uma voz clara enquanto conto os pássaros das árvores em frente. discuto questões importantes no meio de um café ou outro, muito quente que inunda a cozinha de um odor enérgico e enjooa as plantas, de pijama e chinelo no pé.

rogo pragas mentalmente ao forçar do meu acordar, tão lento, tão vagaroso. 

 

quando era miúda levantava-me antes das sete e apanhava o autocarro escolar para quase quarenta minutos de viagem entre a serra. em dias de geada acordava ainda antes de estar acordada e não havia a necessidade de me arrastar pelas divisões da casa como uma velha já morta. comia pão com manteiga e água castanha com cevada. e quando era mesmo miúda ia com a avó tirar leite à vaca que bebia, depois já em casa, por uma caneca de latão.

e não havia plantas enojadas com o cheiro da cafeína.

nem estudos a condenar a lactose.

só a vaca pinta e a avó a dar-me a melhor parte do leite. 

 

o problema minha cara, constato enquanto vejo sair os vizinhos, é que não adormecias às duas da manhã com a barriga cheia de porcarias da internet, vistas num telemóvel em frente aos olhos. ias para a cama às dez, depois de meia novela da noite e dormias como uma pedra, sem interrupção nem do carro do padeiro às quatro da manhã.

e pensar que disse, tantas vezes, perante um amuo na hora de dormir:

"quando for grande!"

 

quando fores grande arrastas-te pelas divisões achando que estás velha e que precisavas da cama da tua infância e das mãos da tua mãe a aconchegar-te os cobertores antes de dormir. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:


foto do autor




deu discussão! (quase porrada)