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às vezes recebo e-mails de pessoas que, lendo o blog, raramente comentam. ou mesmo nunca.

são agradáveis surpresas.

quase sempre palavras discretas, amáveis e com uma ou outra dica de gente que diz ler, seguir mas não comentar ou interagir. na maior parte das vezes pedem desculpa pelo atrevimento e que eu não leve a mal. 

nunca levo. como poderia levar? pedir desculpa pelo quê?

 

entendo que a personagem que aqui está e que reflecte quem sou - mesmo que não me descubra na imensidade das camadas que me constroem - pareça, grande parte das vezes, depressiva, antipática, com mau feitio e pelo na venta. é verdade. também tenho essas características. mais depressiva, antipática e metida comigo própria do que com pelo na venta. mas ainda assim, essa é apenas uma parte pequenita daquilo que sinto ser.

 

não levo - evidentemente - a mal e-mails que recebo com dicas, sugestões ou comentários.

ou apenas uma anotação de que "estou aqui, leio-te, gosto das tuas palavras mesmo que nem sempre concorde".

fico antes feliz.

de uma felicidade de criança que recebe um presente inesperado. 

 

por opção profissional passo a maior parte do dia sozinha.

falo muito ao telefone e uso a internet como parte da minha ferramenta de trabalho. interajo em grupos de facebook, do whatsapp e sigo canais de youtube. converso largas horas de telefone no ouvido. mas só. não convivo com este ou aquele. não troco meia dúzia de palavras com um colega de trabalho, não desabafo as coisitas do dia com um amigo de secretária nem rio a bandeiras despregadas com os colegas de sala. 

o blog serviu, numa primeira fase, para suprimir essa ausência de contacto (também, não só).

não sendo comparável deu-me a conhecer gente que não conheceria de outra forma sem ele.

pôs-em em contacto com pessoas que não trocaria duas palavras se as visse na vida.

fez-me ficar amiga - sim amiga, mesmo que essa palavra me seja tão cara - de gente que admiro profundamente e pela qual, à primeira vista, sentia o contrário.

o blog fez isso porque, sendo esta às vezes uma personagem, é uma personagem que me reflecte.

e quem fica depois, nos contactos diários, sabendo dessa personagem, sabe quem sou e de onde venho, o que sinto e o que espero. e concorda com isso. e gosta disso. não há já a barreira do desconhecido. não há já a máscara solene da simpatia, da extroversão ou da arrogância que sou obrigada a pespegar nas trombas com gente nova ou antiga, em certos contextos. 

 

não levo a mal nenhum e-mail que recebo.

agradeço.

lembra-me do porquê que escrevo online.

recorda-me que as minhas palavras chegam a gente que não conhecerei jamais. que provocam qualquer reacção - boa ou má - a pessoas que não convivem comigo, não me conhecem e, ainda assim, sentiram a vontade de me dizer "olá, estou aqui, gostava de te dizer isto".

pessoas que não o fariam se me vissem na rua, de ar fechado e soturno, perdida nos pensamentos que me consomem. 

 

não levo a mal.

sinto exactamente o contrário disso:

levo a bem. 

e espero por mais. 

 

obrigada. 

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a morte saiu à rua

por M.J., em 23.08.17

esta casa tem estado um pouco ao abandono.

deixei de fazer títulos catitas, ler outros blogs, pesquisar temas da moda, ter um cuidado com os temas de escrita ou respeitar, escrupulosamente, as horas de publicação.

 

fiz isso porque não consigo ver neste espaço as regras habituais da vida e vou levando isto, nos últimos tempos, como diário de anotar a vida, episódios, interacção e o correr das horas.

é engraçado. 

 

não tinha percebido que a caixa dos comentários mudou.

não tinha dado conta do regresso de outras pessoas, da criação de novos blogs por gente que já leio há tanto tempo.

mas sobretudo, neste deixa andar blogosférico, o calor infernal que me mói nas horas, as férias, as variações de humor pela medicação tomada, as alterações da vida, a praia e a passeata, as plantas em colecção na cozinha, o café na varanda, as noites fora de hora, o seguir pelo caminho em vontade de prosseguir e desistir, no meio disso tudo não tinha percebido a morte de alguém de um outro alguém que tanto gosto. que tanto admiro. que tanto quero que seja - não tenho a pretensão de achar que já é - minha amiga.

 

percebi assim, num momento brutal, por uma mensagem de facebook. 

a morte saiu à rua e no momento seguinte eu não sabia estar contigo.

 

 

desculpa.

lamento.

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vocês

por M.J., em 12.06.17

no início deste ano tinha decidido para este blog um rumo diferente.

aconteceu num dia em que não me identifiquei com tudo o que lia por aqui. o que faz sentido. crescemos e deixamos de sentir o que sentíamos antes e quando escrevemos o que sentimos deixamos de nos rever como somos no que escrevemos.

uma consumição, não é?

 

li umas coisas sobre marketing. por gosto. agendei horários e planeei objectivos. estruturei a agenda. não por querer ser rica, famosa e almejar a glória com isto (tanto mais que escrevo cheiinha de erros) mas por querer chegar a mais gente.

se escrevo para cinquenta por que não chegar aos cem?

 

nos primeiros dias a coisa correu bem.

havia uma rotina profissional que se enquadrava e os temas fluíam. editei posts antigos, repesquei outros. fiz passatempos e percebi as horas adequadas. as visitas aumentaram e surgiu uma parceria.

boa M.J.! e o que aconteceu depois?

ao fim do segundo ou terceiro mês percebi que andava a escrever por obrigação e que cada vez mais sentia relutância em continuar.

 

além disso, a vida profissional deu outro salto e os dias tornaram-se maiores. há um pequenito susto todos os dias, uma agenda que cresce mesmo que se mantenha com as mesmas horas, a leitura começou também a ser mais ávida e os planos também.

voltamos ao mesmo:

posts escritos em cima do joelho.

pouco cuidado com os erros.

querer lá saber das horas, dos agendamentos, de ler outros blogs (há uns quatro ou cinco que são lidos religiosamente pelo simples prazer da leitura), de comentar outros sítios, de responder a toda a gente.

de pensar em passatempos ou títulos catitas.

deixei de me preocupar com isso e voltei a canalizar isto para aqui aquilo que sempre foi:

um refúgio.

a disciplina de escrita no sentido de despojar para os dedos as pequenas coisas da vida, que a vida é feita de nadas e os nadas são o que realmente interessa.

 

o resultado foi óbvio: uma diminuição das visitas, dos comentários e olaré pimpim parcerias, adeus. 

 

no entanto, mesmo assim, quando aqui entro, há sempre dois ou três comentários simpáticos, um ou dois e-mails trocados, reacções e sorrisos.

quer os posts sejam escritos a horas recomendadas ou não.

quer escreva sobre temas relevantes ou sobre as horas a que me levantei e as insónias que me deram cabo dos olhos.

quer me debruce sobre ginásios (bhá) ou sobre bolos com aveia. 

vocês estão aqui. 

e isso deixa-me tão, mas tão, mas tão feliz que quase juro que somos todos amigos, mesmo não sendo.

que quase penso que escrever quem sou compensa.

que quase concluo que, mesmo sem parcerias com enlatados, hotéis ou tintas da china para as vistas, eu tenho o que interessa.

a maria diz que não há nada pior do que um bloguer escrever sobre o seu blog.

é verdade.

 

mas a maria, tal como alguns de vós, veio até mim por este blog.

faz parte dos meus dias e eu gosto tanto mas tanto dela que não sei explicar. 

falo sobre ele, portanto, porque falar sobre ele é falar sobre vós. sobre nós. 

 

e se tivesse tempo até vos pespegava as banalidades do meu fim de semana, afinadinhas e melancólicas. 

não tenho.

 

mas falamos mais logo como, aliás, temos vindo a fazer nos últimos dias.

sem títulos catitas, passatempos ou horas recomendadas.

sem comentários atrás de comentários.

sem obrigações.

pelo simples prazer de estarmos juntos mesmo não estando. 

 

gosto de vocês porra. 

(tenho dúvidas que "vocês" esteja correto nesta frase).

 

até logo. 

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sobre isto da escrita em blogs

por M.J., em 27.04.17

uma pessoa com quem não falava há mais de um ano disse-me olá através do chat do facebook.

não foi alguém minimamente marcante na minha vida. conhecemo-nos num contexto banal, pediu-me amizade no facebook e depois deixamos de falar, porque o acontecimento que nos ligava terminou. nada mais do que o normal nestas coisas das pessoas e do facebook e dos contactos.

com a excepção de que um ano depois pergunta-me como estou. 

estranhei.

não me lembro de ter sido simpática em demasia ou de ter dito ou feito qualquer coisa que levasse a que a minha pessoa, as minhas características, a minha maneira de ser pudesse ser marcante ou criasse empatia com aquela personalidade em concreto.

respondi portanto - um pouco desconfiada - o normal também nestas coisas: tudo bem e tu?

 

nesse instante foi como se tivesse aberto uma torneira cuja água jorrava com tanta força que fechá-la só com a ajuda de uns braços capazes.

em cinquenta linhas contou-me o último drama. todo. completo. acontecimentos de uma vida. com lamentos, impropérios, dores e quase lágrimas. a mim. com quem não falava há um ano e que apenas retribuí a pergunta por cortesia.

foi altamente constrangedor.

primeiro porque eu não sabia o que dizer e as palavras fugiam-me por entre os dedos.

depois porque fui assaltada por um misto gigantesco de emoções em que sobressaía uma pena terrível por alguém cuja necessidade de falar levava a que expusesse a praticamente um estranho uma vida inteira.

respondi coisas triviais:

"lamento",

"que chato",

"que situação",

"há-de passar",

"tu és capaz".

aqueles chavões retirados da bíblia do "ajude o outro" que aprendemos - uns mais cedo do que outros - a dizer em situações em que não há nada a dizer.

não sei se percebeu. a conversa morreu por ali.

 

depois constatei, uns dias mais tarde, que aquilo que faço e fazemos todos nós que temos um blogue e escrevemos a vida e sentimentos e dias e horas e sensações, tudo isso não é muito diferente daquele desabafo cego à primeira pessoa que respondeu a um "como estás?".

parte da mesma premissa de necessidade de desabafo. de conseguir criar empatia. de criar laços com outros, mesmo que muito ténues, mesmo que se desfaçam cinco minutos depois.

 

felizmente ao longo destes anos de letras e palavras a descrever dias e emoções tenho encontrado gente extraordinária.

gente com quem nunca falaria de outra forma.

gente que me fez e faz crescer com uma intensidade que não esperaria jamais.

gente que pega no que escrevo e transforma à sua medida retribuíndo depois, só porque sim. 

 

acho que é nesse exacto ponto que se distinguem uns e outros:

os que escrevem na procura de desabafo e não encontram nada mais do que palavras banais de circunstância - quando não é só silêncio - e os que escrevem e encontram, sem perceber como nem porquê, gente gigante do outro lado. 

como raio estou eu neste segundo ponto?

obrigado. 

 

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o blog vai nu

por M.J., em 13.03.17

sei que não sou consensual nem na escrita nem na vida.

tirando as vezes em que sou obrigada a usar de todo o polimento que fui adquirindo ao longo dos anos, passo pelas horas com um ar agreste e amargo. gosto de provocar (nem sempre, mas às vezes), de esticar a corda e de ver espernear. (ainda que, muitas das vezes, seja eu quem esperneie).

não sou um poço de virtudes (sou mais um poço de defeitos) nem sei um décimo do que era suposto saber sobre a vida. rejo-me por alguns aspectos de que fui dotada ao nascer (um filho da mãe de um orgulho que só visto) e vou usando a maturidade que os anos me vão dando, ora como arma de arremesso, ora como defesa.

não há grande segredo.

 

o facto de não ser uma pessoa emocionalmente estável (ainda que o seja, nesta fase, muito mais do que algum dia), madura ou com grande capacidade de diplomacia (uso dela apenas quando é necessário) levou-me a criar espaços - como este - onde posso espernear à vontade, gritando o quanto me apetece e dando ao mundo o que o mundo me dá de volta.

não posso esperar por isso, em resposta, unicórnios dourados e amores de arco-íris quando sou, tantas vezes, uma velha rezingona, com a placa a bater na língua e lançando ao mundo uma casmurrice do tamanho de mil homens.

no entanto, sei, como sei de todos os meus defeitos, que consigo ser consensual se o quiser.

mesmo nos blogs, mesmo na escrita.

 

no verão passado, num dia particularmente de tédio, criei um blog onde escrevia sobre coisa muito poucochinhas. sejamos francos. não é que aqui escreva acerca de grandes coisas. no entanto, adoptei uma postura ali de que não gosto. escrevi com ar fofo de quem tem duas trufas de caramelo em cada dedo. foram dois posts (ou três, acho). três únicos posts, repletos de coisitas sem significado algum, ainda que essas coisitas fizessem parte da minha vida. 

e nesses três únicos posts, pequenitos, poucochitos, tive comentários de gente que não suporta - assumidamente - a personagem que aqui criei.

pior, que acredita não suportar quem a escreve. 

 

apaguei o blog dois dias depois com uma ligeira sensação de culpa por - supostamente - ter enganado pessoas. quando no fundo não enganei. pelo menos não mais do que aquilo que fazemos - nós todos - todos os dias.

é que todos os dias escrevemos e comentamos e revelamos coisas e apreendemos coisas com a certeza de quem acha que conhece a vida de quem escreve e comenta e revela e apreende coisas.

mesmo que a vida de quem escreve e comenta e revela e apreende coisas seja polida, arremessada, alterada, aumentada, diminuída, escolhida e embelezada com aquilo que achamos ser o melhor.

 

este blog é um grande reflexo de quem sou.

eu.

que escrevo.

reflecte o meu crescimento, a minha evolução (ou desevolução para quem assim o entender) e vai sendo, a cada dia que passa, um precioso instrumento para perceber mais acerca de mim e dos outros.

mas não se enganem.

nem eu, nem vós, nem ninguém que escreva é integralmente aquilo que coloca em palavras desenhadas.

os blogs são coisas fantásticas mas não reflectem - na maioria das vezes - a total e integral realidade. estão vestidos, todos os dias, com a roupagem que achamos mais bonita e adequada escondendo-lhes a nudeza de emoções e acontecimentos. 

 

e até eu, que sei não ser grandemente apreciada, conseguiria, se assim quisesse, vestir uma sainha travada e passar pela mais mimosa das moças.

com todos os unicórnios e flores silvestres à mistura. 

optei por o não fazer.

por vos entregar - e a mim - praticamente o que sou. mesmo que isso não traga grandes amores, grandes simpatias ou grandes emoções delicadas.

 

no entanto, trouxe grandes pessoas.

pessoas que me foram conhecendo não só pelas palavras que visto em roupagens adequadas, mas por todas as conversas diárias e por todos os acontecimentos da vida que fomos partilhando também longe daqui.

 

tenho a certeza que se eu fosse só mimimimimimi não teria nenhuma dessas pessoas. 

e aí sim, estar-me-ia a enganar ao escrever: este blog não teria utilidade alguma. 

 

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há ternura que se sente

por M.J., em 22.02.17

há ternura que se vê.

e há ternura em palavras.

 

se um dia tiver um filho há-de ser como o gui: cheio de girassóis nos olhos.

 

"O Firmino é parecido com um ponto de interrogação e não sabe desenhar nada porque quando a senhora professora nos mandou desenhar a nossa família o Firmino desenhou um gato."

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saudade, uma dor feliz.

por M.J., em 12.02.17

ontem relembrei um texto que escrevi há uns anos.

e percebi - numa conversa que não pensara ter - que há almas "que se reconhecem".

daqui até à lua. sempre.

 

fica novamente.

há textos que pelo muito que senti, podem ser repetidos.

 

não consigo, por mais que pense sobre isso, imaginar até que ponto vão os limites da dor a suportar pelo ser humano.

sei mais ou menos os meus limites, o esticar das emoções até às últimas consequências, até o cérebro se transformar numa esponja adormecida e tu, enquanto tu, seres apenas um pedaço de corpo andante, sem qualquer emoção ou sensação.

não sei qual o limite dos outros.

 

não sei qual a capacidade plena e absoluta de suportar, sem desistir, sem o desespero inundar tudo e quebrar os sentidos, o olhar, o odor, o tacto, o palato. qual o exacto ponto que a maioria das pessoas consegue sentir, sem quebrar, o manto tenebroso de escuridão colado aos ossos.

sem acabar por desistir por completo.

 

ontem, sem querer, dei de caras com alguém, pequeno, frágil, do tamanho de mil pequeninas partículas, ar de menina de rosas, que vive no limiar da dor.

olho para ela, observo-lhe a face, os lábios e não sei, juro que não - ainda que tenha passado um bom bocado hoje de manhã, sentada na esplanada com o vento a bater-me o corpo, a pensar nisso - como consegue não sucumbir.

como os ombros permanecem erguidos.

não sei.

 

saber que a pessoa que é o nosso mundo, pela qual nutrimos um sentimento de absoluto amor, a quem nos entregamos em tudo o que somos, com a qual rimos em ingenuidade, com a qual choramos em dias de tristeza, da qual conhecemos os mais pequenos silêncios, da qual sabemos o brilhante do olhar, da qual sabemos pedaços de toque, da qual ouvimos a respiração... saber que esse alguém pode morrer, que tem mais hipóteses de desaparecer do que o outro, o comum dos mortais, e trava um luta, gigante, contra o próprio corpo...

como se aguenta isso?

 

que dose sádica de esperança é preciso carregar nos ombros para ver a outra pessoa, o outro pedaço de nós definhar, lentamente, perder o que era e só restar um corpo, quase sem alma, perdida numa batalha contra a vida, e só ver trevas e morte?

que quantidade absurda de coragem, de batalhas travadas consigo próprio é preciso ter para adormecer todas as noites e seguir vivendo, um dia e outro, com a pessoa a morrer, ainda em vida?

 

como se sobrevive? como se sente o cheiro a terra molhada em dias de verão?

como se absorve as cores vivas das primeiras flores da primavera?

como se respira o odor de canela e maçã em dias de outono?

como se sente a chuva forte de inverno ou o vento fresco em mil voltas nos cabelos?

de que sabor se transforma o café quente na pastelaria do bairro ou de que cor fica o vestido favorito, aquele que vestíamos para seduzir, conquistar o pedaço de nós que morre, aos nossos pés, sem podermos fazer absolutamente nada senão agarrar-nos à desgraçada da esperança?

 

e depois?

como sobreviver ao absurdo e infinito vazio, após a partida?

como retornar a lugares comuns, olhar a cama onde ambos dormíamos, o sofá onde explorámos vidas e sonhos, a árvore da frente onde os pássaros cantavam a marcha nupcial das manhãs de domingo?

que dose absurda de vida é preciso injectar nas veias para viver após tudo isto?

 

amar meus senhores é muito complicado. amar é o maior desporto radical, a maior dose de adrenalina, a maior bebedeira ou moca de droga que o ser humano consegue sentir. e é também as consequências de quando a corda da escalada se parte, da ressaca do álcool ou da falta de droga, quando o corpo sucumbe ao desespero da ausência.

tem dias, creio, que amar é uma merda.

e ainda assim, a minha vida só faz sentido amando.

amando-o.

 

se um de nós tiver que passar por isso, que seja eu a morrer aos poucos meu amor.

não teria a dose de coragem das pedras, necessária à sobrevivência.

 

 

 

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quando eu estive às portas da morte, houve alguém que me entendeu:

 

 

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só por isso, acabou de ganhar... dois bagacinhos em cartão. 

e nem foi preciso ligar para o 760.

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da escrita

por M.J., em 06.04.15

uso este espaço como quem usa uma caravela na descoberta da vida.

esperneio, grito, escrevo em humor os dias que me fazem e o que sou. tenho um especial carinho pelas palavras depois de escritas. sempre foi assim. consigo visualizá-las como mais do que som. têm letras e formas e constituem coisas que podem ser belas ou cortantes.

com este espaço dei recados a pessoas com quem convivo. usei-o para não ser esquecida e para não esquecer. aprendi a crescer nas palavras de que sou feita e que se transformam em pedaços de realidades quando as escrevo.

isto é, assim, na continuidade dos dias um pedaço de mim que exponho na exacta medida que quero. longe vão os tempos em que me deixava dominar pelo que isto era, deixando um chorrilho de palavras, todas seguidas, mal compreendidas, mal usadas. assim que aprendemos a usar o sarcasmo, a ironia e a arrogância em palavras escritas torna-se mais fácil alimentar aquilo que somos escrevendo.

ainda que, muitas das vezes, as palavras me controlem, ainda, e apareça despida neste sitio que é meu. mas que quem quiser vê.

 

é por isso que fico pasma quando vejo espaços abertos ao mundo a despejar de frustração, de paranóia, de psicose louca de quem os gere para com outras gentes. de quem sente que o mundo os persegue apenas porque sim. de quem, por mais que o tempo passe, não consegue deixar de se levar a sério, permanecendo erguido, como em procissão de dias santos, na roupa mais formal e nos cabelo mais levantado em litros de laca.

 

podeis atacar tudo o que para aqui escrevo. é legitimo porque sendo eu não tem a qualidade que poderia ter se não fosse feito por mim. mas não tenhais a pretensão de achar que as vossas palavras são capazes de me incomodar mais do que as palavras que eu própria escrevo.

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do amor

por M.J., em 24.03.15

não consigo, por mais que pense sobre isso, imaginar até que ponto vão os limites da dor a suportar pelo ser humano.

sei mais ou menos os meus limites, o esticar das emoções até às últimas consequências, até o cérebro se transformar numa esponja adormecida e tu, enquanto tu, seres apenas um pedaço de corpo andante, sem qualquer emoção ou sensação.

não sei qual o limite dos outros.

 

não sei qual a capacidade plena e absoluta de suportar, sem desistir, sem o desespero inundar tudo e quebrar os sentidos, o olhar, o odor, o tacto, o palato. qual o exacto ponto que a maioria das pessoas consegue sentir, sem quebrar, o manto tenebroso de escuridão colado aos ossos.

sem acabar por desistir por completo.

 

ontem, sem querer, dei de caras com alguém, pequeno, frágil, do tamanho de mil pequeninas partículas, ar de menina de rosas, que vive no limiar da dor.

olho para ela, observo-lhe a face, os lábios e não sei, juro que não - ainda que tenha passado um bom bocado hoje de manhã, sentada na esplanada com o vento a bater-me o corpo, a pensar nisso - como consegue não sucumbir.

como os ombros permanecem erguidos.

não sei.

 

saber que a pessoa que é o nosso mundo, pela qual nutrimos um sentimento de absoluto amor, a quem nos entregamos em tudo o que somos, com a qual rimos em ingenuidade, com a qual choramos em dias de tristeza, da qual conhecemos os mais pequenos silêncios, da qual sabemos o brilhante do olhar, da qual sabemos pedaços de toque, da qual ouvimos a respiração... saber que esse alguém pode morrer, que tem mais hipóteses de desaparecer do que o outro, o comum dos mortais, e trava um luta, gigante, contra o próprio corpo...

como se aguenta isso?

 

que dose sádica de esperança é preciso carregar nos ombros para ver a outra pessoa, o outro pedaço de nós definhar, lentamente, perder o que era e só restar um corpo, quase sem alma, perdida numa batalha contra a vida, e só ver trevas e morte?

que quantidade absurda de coragem, de batalhas travadas consigo próprio é preciso ter para adormecer todas as noites e seguir vivendo, um dia e outro, com a pessoa a morrer, ainda em vida?

 

como se sobrevive? como se sente o cheiro a terra molhada em dias de verão?

como se absorve as cores vivas das primeiras flores da primavera?

como se respira o odor de canela e maçã em dias de outono?

como se sente a chuva forte de inverno ou o vento fresco em mil voltas nos cabelos?

de que sabor se transforma o café quente na pastelaria do bairro ou de que cor fica o vestido favorito, aquele que vestíamos para seduzir, conquistar o pedaço de nós que morre, aos nossos pés, sem podermos fazer absolutamente nada senão agarrar-nos à desgraçada da esperança?

 

e depois?

como sobreviver ao absurdo e infinito vazio, após a partida?

como retornar a lugares comuns, olhar a cama onde ambos dormíamos, o sofá onde explorámos vidas e sonhos, a árvore da frente onde os pássaros cantavam a marcha nupcial das manhãs de domingo?

que dose absurda de vida é preciso injectar nas veias para viver após tudo isto?

 

amar meus senhores é muito complicado. amar é o maior desporto radical, a maior dose de adrenalina, a maior bebedeira ou moca de droga que o ser humano consegue sentir. e é também as consequências de quando a corda da escalada se parte, da ressaca do álcool ou da falta de droga, quando o corpo sucumbe ao desespero da ausência.

tem dias, creio, que amar é uma merda.

e ainda assim, a minha vida só faz sentido amando.

amando-o.

 

se um de nós tiver que passar por isso, que seja eu a morrer aos poucos meu amor.

não teria a dose de coragem das pedras, necessária à sobrevivência.

 

 

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deu discussão! (quase porrada)