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às vezes recebo e-mails de pessoas que, lendo o blog, raramente comentam. ou mesmo nunca.

são agradáveis surpresas.

quase sempre palavras discretas, amáveis e com uma ou outra dica de gente que diz ler, seguir mas não comentar ou interagir. na maior parte das vezes pedem desculpa pelo atrevimento e que eu não leve a mal. 

nunca levo. como poderia levar? pedir desculpa pelo quê?

 

entendo que a personagem que aqui está e que reflecte quem sou - mesmo que não me descubra na imensidade das camadas que me constroem - pareça, grande parte das vezes, depressiva, antipática, com mau feitio e pelo na venta. é verdade. também tenho essas características. mais depressiva, antipática e metida comigo própria do que com pelo na venta. mas ainda assim, essa é apenas uma parte pequenita daquilo que sinto ser.

 

não levo - evidentemente - a mal e-mails que recebo com dicas, sugestões ou comentários.

ou apenas uma anotação de que "estou aqui, leio-te, gosto das tuas palavras mesmo que nem sempre concorde".

fico antes feliz.

de uma felicidade de criança que recebe um presente inesperado. 

 

por opção profissional passo a maior parte do dia sozinha.

falo muito ao telefone e uso a internet como parte da minha ferramenta de trabalho. interajo em grupos de facebook, do whatsapp e sigo canais de youtube. converso largas horas de telefone no ouvido. mas só. não convivo com este ou aquele. não troco meia dúzia de palavras com um colega de trabalho, não desabafo as coisitas do dia com um amigo de secretária nem rio a bandeiras despregadas com os colegas de sala. 

o blog serviu, numa primeira fase, para suprimir essa ausência de contacto (também, não só).

não sendo comparável deu-me a conhecer gente que não conheceria de outra forma sem ele.

pôs-em em contacto com pessoas que não trocaria duas palavras se as visse na vida.

fez-me ficar amiga - sim amiga, mesmo que essa palavra me seja tão cara - de gente que admiro profundamente e pela qual, à primeira vista, sentia o contrário.

o blog fez isso porque, sendo esta às vezes uma personagem, é uma personagem que me reflecte.

e quem fica depois, nos contactos diários, sabendo dessa personagem, sabe quem sou e de onde venho, o que sinto e o que espero. e concorda com isso. e gosta disso. não há já a barreira do desconhecido. não há já a máscara solene da simpatia, da extroversão ou da arrogância que sou obrigada a pespegar nas trombas com gente nova ou antiga, em certos contextos. 

 

não levo a mal nenhum e-mail que recebo.

agradeço.

lembra-me do porquê que escrevo online.

recorda-me que as minhas palavras chegam a gente que não conhecerei jamais. que provocam qualquer reacção - boa ou má - a pessoas que não convivem comigo, não me conhecem e, ainda assim, sentiram a vontade de me dizer "olá, estou aqui, gostava de te dizer isto".

pessoas que não o fariam se me vissem na rua, de ar fechado e soturno, perdida nos pensamentos que me consomem. 

 

não levo a mal.

sinto exactamente o contrário disso:

levo a bem. 

e espero por mais. 

 

obrigada. 

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comentários

por M.J., em 23.06.17

aprovei todos os comentários do post de ontem.

mal tinha acabado de o escrever foi destacado. numa questão de minutos. percebo que é uma tema quente, que dá que falar e os comentários que se seguiram não foram algo que já não estivesse à espera:

continuamos em grande parte preconceituosos, racistas, xenófobos e afins sendo que há quem o demonstre, orgulhosamente, aos sete ventos  em blog alheio. 

 

aprovei os comentários para tentar perceber quem somos e quem nos rodeia.

isto foi o que li:

que defender os mais básicos princípios de direito é ter peninha;

que todos os terrenos que estão por limpar são de pessoas que ganham reformas de cem euros;

que quem recebe o rendimento social de inserção é gente que nunca fez nada na vida;

que o estado social serve para proteger toda uma e só categoria de pessoas a que chamam de gentalha; e cambada.

 

e tantas outras pérolas.

 

creio que sei quem serão estas pessoas.

são as mesmas que se queixando de um tempo de liberdade e pedindo o regresso de um salazar renascido, usam a liberdade de expressão para chamar cabrões aos governantes.

são as mesmas que fogem, sempre que podem, ao pagamento de impostos, mas que dizem depois, muito orgulhosamente, eu posso falar porque pago os meus impostos.

são as mesmas que escarafuncham as cmtvs da vida e dizem que ajudaram tudo e todos porque ligaram para os 760 enquanto estavam encostados à janela a espiolhar a vida dos vizinhos.

são os mesmos que não sabem, nem que lho enfiem pela garganta, o que significa o principio da dignidade da vida humana e o que é preciso fazer para o salvaguardar, mesmo que digam aos gritos avés marias aos domingos.

são os mesmos que vão a fátima a pé, comendo pão e água e espalhando palavras de fé, enquanto pelo caminho olham com nojo as putas da estrada, porque essas não são filhas de deus.

são os mesmos que acham que se eu estou mal o meu vizinho não tem nada que estar bem. ou ainda, eu estou mal mas aqueles estão piores.

são os mesmos que se defendem de um alegado ataque de falta de educação respondendo "vai para a puta que te pariu mais a tua mãe que não te deu educação".

são os mesmos que não conseguiriam assumir uma crítica nem que lhe dessem o euromilhões em troca.

são os mesmos que respondem a qualquer argumentação com "pois, mas" mesmo que o "pois" seja concordar mas o "mas" venha dizer tudo ao contrário:

- as pessoas são todas iguais, indepentemente da cor, raça ou sexo.

- pois mas os ciganos e quem recebe o rendimento mínimo são gentalha.

 

são os meus desprezíveis da vida.

e têm todo esse direito de o ser.

podem escrever, gritar, aplaudir ao mundo quem são e o quanto os outros estão errados:

podemos sempre perceber com eles quem não queremos ser.

 

podem apontar as minhas falhas - e se as tenho, meus senhores, se as tenho, tendo nascido e vivido numa aldeia do mais rural possível, onde um negro aparecia uma vez de cinco em cinco anos e trazia olhares às janelas fechadas - de revelar as contradições de quem fui e quem sou:

relembram-se de mim própria.

 

podem ser racistas, xenófos, mesquinhos, pequeninos, sexistas e o raio que os parta:

lembram-nos que o ser humano não é superior e precisamos de continuar a educar. 

 

 

e no fim, eu posso despreza-los, sentir nojo e asco e saber - isto é certinho - que por mais que avancem, nunca chegarão muito longe:

nunca vamos longe quando a humanidade nos escapa. 

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vocês

por M.J., em 12.06.17

no início deste ano tinha decidido para este blog um rumo diferente.

aconteceu num dia em que não me identifiquei com tudo o que lia por aqui. o que faz sentido. crescemos e deixamos de sentir o que sentíamos antes e quando escrevemos o que sentimos deixamos de nos rever como somos no que escrevemos.

uma consumição, não é?

 

li umas coisas sobre marketing. por gosto. agendei horários e planeei objectivos. estruturei a agenda. não por querer ser rica, famosa e almejar a glória com isto (tanto mais que escrevo cheiinha de erros) mas por querer chegar a mais gente.

se escrevo para cinquenta por que não chegar aos cem?

 

nos primeiros dias a coisa correu bem.

havia uma rotina profissional que se enquadrava e os temas fluíam. editei posts antigos, repesquei outros. fiz passatempos e percebi as horas adequadas. as visitas aumentaram e surgiu uma parceria.

boa M.J.! e o que aconteceu depois?

ao fim do segundo ou terceiro mês percebi que andava a escrever por obrigação e que cada vez mais sentia relutância em continuar.

 

além disso, a vida profissional deu outro salto e os dias tornaram-se maiores. há um pequenito susto todos os dias, uma agenda que cresce mesmo que se mantenha com as mesmas horas, a leitura começou também a ser mais ávida e os planos também.

voltamos ao mesmo:

posts escritos em cima do joelho.

pouco cuidado com os erros.

querer lá saber das horas, dos agendamentos, de ler outros blogs (há uns quatro ou cinco que são lidos religiosamente pelo simples prazer da leitura), de comentar outros sítios, de responder a toda a gente.

de pensar em passatempos ou títulos catitas.

deixei de me preocupar com isso e voltei a canalizar isto para aqui aquilo que sempre foi:

um refúgio.

a disciplina de escrita no sentido de despojar para os dedos as pequenas coisas da vida, que a vida é feita de nadas e os nadas são o que realmente interessa.

 

o resultado foi óbvio: uma diminuição das visitas, dos comentários e olaré pimpim parcerias, adeus. 

 

no entanto, mesmo assim, quando aqui entro, há sempre dois ou três comentários simpáticos, um ou dois e-mails trocados, reacções e sorrisos.

quer os posts sejam escritos a horas recomendadas ou não.

quer escreva sobre temas relevantes ou sobre as horas a que me levantei e as insónias que me deram cabo dos olhos.

quer me debruce sobre ginásios (bhá) ou sobre bolos com aveia. 

vocês estão aqui. 

e isso deixa-me tão, mas tão, mas tão feliz que quase juro que somos todos amigos, mesmo não sendo.

que quase penso que escrever quem sou compensa.

que quase concluo que, mesmo sem parcerias com enlatados, hotéis ou tintas da china para as vistas, eu tenho o que interessa.

a maria diz que não há nada pior do que um bloguer escrever sobre o seu blog.

é verdade.

 

mas a maria, tal como alguns de vós, veio até mim por este blog.

faz parte dos meus dias e eu gosto tanto mas tanto dela que não sei explicar. 

falo sobre ele, portanto, porque falar sobre ele é falar sobre vós. sobre nós. 

 

e se tivesse tempo até vos pespegava as banalidades do meu fim de semana, afinadinhas e melancólicas. 

não tenho.

 

mas falamos mais logo como, aliás, temos vindo a fazer nos últimos dias.

sem títulos catitas, passatempos ou horas recomendadas.

sem comentários atrás de comentários.

sem obrigações.

pelo simples prazer de estarmos juntos mesmo não estando. 

 

gosto de vocês porra. 

(tenho dúvidas que "vocês" esteja correto nesta frase).

 

até logo. 

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há ternura que se sente

por M.J., em 22.02.17

há ternura que se vê.

e há ternura em palavras.

 

se um dia tiver um filho há-de ser como o gui: cheio de girassóis nos olhos.

 

"O Firmino é parecido com um ponto de interrogação e não sabe desenhar nada porque quando a senhora professora nos mandou desenhar a nossa família o Firmino desenhou um gato."

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e constatei que os posts com mais favoritos são alguns dos que mais me dizem enquanto pessoa que escreve a personagem M.J.

favoritos.PNG

as pessoas percebem sempre quando colocamos a alma em palavras, não percebem?

quando somos mais genuínos, não é?

 

se alguém quiser dar uma espreitadela, eis os links:

1. depressão -15

2. conto-te eu uma história, sim? -13

3. dois mil e dezasseis em provérbios - 11

4. permanecendo - 11

5. dá-me sempre uma dor na boca do estômago -11

6. festa é festa: da importância do tasco -10

7. escrever num blog -10

8. disto do frio -10

9. contado ninguém acredita - 9

10. casa - 9

 

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vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

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disto do blog

por M.J., em 14.03.15

acordei novamente doente.

dói-me a garganta, tenho tonturas e o meu corpo parece roído por dois cães esfomeados. espero que tenham a vacina em dia.

 

ia escrever um texto grande dos comentários que às vezes aqui deixam. de como já me mandaram morrer longe. ou dos palavrões que me apelidaram. ou dos textos elaborados para me chamar anormal.

era um texto giro.

mas estou doente e não me apetece.

conseguem sobreviver sem mim certo?

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oh vai ver ali:


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