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banalidades

por M.J., em 18.04.17

li a culpa é das estrelas e chorei como uma madalena. vi o viver depois de ti e voltei a chorar que nem uma tola. é como que se alguém tivesse pegado nas minhas hormonas e dito que deviam estar altamente emocionais mesmo não estando grávida.

uma consumição.

 

comi pão de ló como se não houvesse amanhã. e saí de casa para ir comprar folar. pediram-me conselhos numa matéria sentimental que não domino e sugeri amêndoas. das de chocolate. há pouca coisa que o açúcar não cure.

sério.

 

uma amiga, mãe há menos de um ano, desistiu de ir trabalhar porque a criança não consegue ficar na creche. chora que se farta e às tantas estão as duas a chorar. se eu estivesse lá chorávamos as três, que nesta matéria de choradeira ando afiada.

tens a bexiga atrás das orelhas, dizia a minha bisavó.

acho que sim, mesmo que nunca me tenha cheirado a xixi quando engulo as lágrimas.

 

quando tinha três anos e me puseram no jardim infantil dei cabeçadas na porta, numa tentativa qualquer de sair dali. ninguém me foi buscar. ninguém acusou a educadora de negligência, tanto mais que, segundo contam, parei à terceira que aquilo doía. e quando a mamã se lamentou a alguém a resposta foi rápida e curta: "se aos três anos já manda imagine aos vinte e três".

foi remédio santo.

 

talvez tenha sido por isso que uma outra amiga, mesmo estando desempregada pôs os dois miúdos na creche. por uma questão de tempo pessoal. entendo perfeitamente. por mim, os meus vão para um colégio militar aos cinco: na sua inteligência desmesurada - basta saírem à mãe - fazem a quarta classe antes de entrarem na escola. 

podem apostar.

 

tenho montes de trabalho atrasado. literalmente montes. há tanta coisa para fazer que mesmo que me dedique a isso o dia inteiro sem uma das cinco pausas de cinco minutos normais que espalho pelas horas, consigo dar adiantamento à coisa. talvez precise de ler menos e chorar menos.

mas custa. 

 

arranjei finalmente uma empregada. uma pessoa chega a um limite de lixívia e vidros e percebe que não tem tempo para tudo e perder tempo em tarefas domésticas é perder vida. a não ser que se goste. ou não se consiga dormir, por exemplo, com a louça por lavar. ou se tenha tal alergia ao pó que seja preciso declarar guerra sem misseis falhados.

uma tristeza.

 

e no filho da mãe do passatempo?

desta vez ninguém participa?

obrigada pela demonstração de interesse de ganhar o raio do bloco de notas.

é por ter as cores da tasca?

passatempo bloco de notas.png

 

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das pessoas e eu

por M.J., em 08.02.17

eles continuaram.

sorriram mais e choraram. talvez menos. apanharam sol em dias de verão e viram chuva cair por entre vidros foscos no inverno e fizeram planos e mudaram de vida e tomaram café em pastelarias com cheiro a pão fresco.

fizeram novos amigos e sentiram novas coisas e trilharam novos mundos.

 

eu não.

para com eles fiquei lá atrás. no exacto sitio que levou à quebra.

também sorri e chorei e apanhei sol e vi chuva e fiz planos e mudei de vida e passei horas sentada em pastelarias com cheiro de pão fresco e bolos doces.

fiz amigos e perdi amigos.

 

para com eles permaneço lá atrás, teimosamente, batendo o pé. sabendo, na minha loucura de rancor, a dimensão da perda, numa certeza de razão que não interessa mas é minha.

 

no mundo dos loucos a sua loucura é a única lucidez que faz sentido.

e nela permaneço lá atrás na espera do que nunca vai chegar uma vez que a razão assiste a todos. ainda que a minha razão seja maior.

sempre foi.

 

e afinal se chegasse tenho a certeza que percebia a sua desnecessidade.

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asfixia

por M.J., em 29.11.16

caio na falácia de achar que viver na aldeia onde nasci e cresci seria algo a pôr-me toda contentita.

descaio a cabeça ligeiramente para a esquerda, roo uma unha e ponho-me a pensar, toda tolita, que aquilo podia ser o paraíso se ligado a uma boa rede de internet e uma casa com vista para o rio.

depois a realidade atropela-me com a mesma força de um camião conduzido pelo kanye west paranóico e passa-me logo.

 

cresci rodeada de árvores no meio do nada.

para onde olhasse havia um manto verde e uma velha vestida de preto a opinar sobre a vida alheia.

a mulher era como a galinha, ao pôr do sol recolhidinha, e menstruada estava proibida de entrar no lagar, em altura de fermentação de uvas.

a violência doméstica imperava pelas casas como pó dos pinheiros.

vagueava-se livre na ida para a escola e encontravam-se colegas que andavam com piolhos no cabelo até ao ensino secundário.

falar da família do outro era passatempo nacional e na missa apontava-se, com sabedoria, fatos menos adequados. comentava-se, como quem comenta jogos de futebol, quem ganharia na rixa entre os grupos da terra e sabia-se de antemão quantos filhos tinha o padre que, no seu poderio provinciano, se recusava a crismar gente sem modos.

uma grandessíssima bosta.

mas sobretudo, o que me transformou numa adulta incapaz de lidar com a ansiedade normal dos dias, num temor do incerto, foi o crescer no meio da total incapacidade de olhar com perspectiva.

o mundo era traçado numa linha e cada desvio, por mais pequeno que fosse era maior do que uma guerra de proporções nucleares. tudo tinha o seu rumo e cada escorregadela era mais do que uma desgraça: ultrapassava mil refugiados mortos no mediterrâneo ou cinco mil criancinhas em agonias de fome. 

cada imprevisto, cada pequena coisa que não se podia ver (e tanta coisa era não era visível na asfixia das árvores de uma serra fechada) assoberbava os minúsculos mundos da vida onde a minha se inseria. 

sou uma pessoa tendencialmente difícil. o meu feitio assemelha-se a um dia nebuloso com pequenos raios de sol tendo em vista tempestades de trovoada. mas garanto, com a sinceridade com que me garanto coisas (não me minto na assumpção do que sou) que a ansiedade que não soube lidar foi-me inculcada na claustrofobia de uma vida fechada.

não. nunca seria lá feliz.

e é uma pena. 

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são coisas

por M.J., em 17.11.16

conheço alguém que perdeu o namorado, num dia escuro de inverno: num avc fulminante sem que nada o fizesse prever.

assim. um segundo respiras e tens a vida pela frente, revelando saúde a quem perguntar, juventude no corpo e na alma, e no segundo seguinte estás estendido no chão, o ar a recusar a entrar, o corpo a esfriar, o sangue parado: o nada.

não falando na tragédia em si e nos dias (anos) que esta minha conhecida vivenciou no após, gostaria apenas de partilhar convosco uma coisa que me contou, há uns tempos, quando casualmente nos encontrámos e a conversa rolou para o assunto (é melhor matar o elefante na sala de uma vez só):

pior do que aqueles que se afastaram na incapacidade de lidar com a minha dor, foram os carpidores da vida que me procuraram para ver na minha dor uma maior do que a deles. 

sem tirar nem pôr. 

é que no dia a seguir a minha colega recebeu dezenas de mensagens e pedidos no facebook de pessoas que não conhecia: numa pesquisa de faro de desgraças. na procura da dor alheia para amenizar a dor própria. no constante esmiuçar de pormenores. na tentativa de saber o mais macabro do assunto. no espalhar da desgracia ao vento. nas palavras que não dizem nada mas que fica bem dizer. 

segundo a minha amiga, o afastamento daqueles de quem esperava proximidade não doeu um terço em comparação com a proximidade daqueles que procuravam o detalhe sórdido da situação.

 

o ser humano é macabro. 

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fim

por M.J., em 15.11.16

há qualquer coisa de muito macabro num funeral católico.

ultrapassa as barreiras da dor para espetar, em constante loop, facadas num espécie de masoquismo sádico: vela-se quem partiu uma noite inteira, na casa mortuária (quando era miúda era mesmo na sala da casa, a mesa de jantar desmontada para dar lugar às velas e flores, caixão e morto). as horas são longas e permanece-se, encolhido a um canto, na espera do tempo e nas recordações toldadas para incerteza do fim, porque não se consegue abarcar, maior parte das vezes, o significado da eternidade que aí vem.

no dia a seguir continua-se encolhido no transporte da urna para a igreja. os cânticos irrompem pelas paredes. as pessoas acomodam-se nos bancos corridos. há olhos vermelhos, palavras de circunstância, um choro mais lento que se ouve na multidão. repara-se na conveniência do preto vestido ou no garrido esquecido da camisola. há quem se ajoelhe, quem se levante e se sente. o padre discursa o que, praticamente, ninguém ouve. promete a passagem, o rito, a ausência do fim na espera do que somos. não diz que é ali a certeza do não regresso das mãos quentes com vida. não fala do corpo depositado no fim porque, consta, a alma prossegue. 

fecha-se a urna ao término da missa e vai-se em cortejo até ao cemitério. a dor agrava na finitude os gestos. leva-se para debaixo da terra alguém que se ama. caminha-se ao toque dos passos, ainda que a vontade seja ficar. entra-se no cemitério vendo a derradeira morada de quem já lá está. recorda-se outros momentos em que se acompanhava um corpo não tão querido. 

no cemitério abre-se a urna. reza-se. é o derradeiro final. é a última despedida. há um corpo e uma certeza de fim eterna. pode haver fé mas não afastará a ideia da solidão de quem fica. do bocado a menos que permanece no mundo. 

na entrega à terra há flores e choros e lamentos e dor. 

 

e constato, sem dúvida alguma, que a escolher morra eu primeiro, antes da dor de saber do fim do amor (por três ou quatro pessoas nesta vida) na terra: morta por morta, morta sem dor.

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presenças

por M.J., em 09.11.16

vou ver scott matthew ao vivo, logo à noite, e penso em vós. há uma mistura de solidão e ternura aliada à sensação de incompletude pela ausência de alguém que, não fazendo parte da minha vida, aqui permanece. 

não conheço de vós nada do que são e, pasme-se, a vossa presença chega a ser palpável em quem sou. 

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bicho do mato

por M.J., em 31.10.16

deixa de ser bicho do mato, rapariga,

a mamã em tentativas frustradas, primeiro a catequese, depois a escola, depois com a vizinha, a minha cara cerrada, o não querer ir, estava-se tão bem no meio dos livros, da tv ou a falar com a bonecada em cima da cama onde era rainha e senhora,

eu que mando, eu que sei,

a miúda que não se adaptava nem sabia conviver com o outro, 

é filha única, 

dizia a professora, que gostava de mim, já sabia ler e não dava problemas,

isso mais tarde passa,

ainda que não tenha passado e perceba que procuro iguais a mim, pessoas inabilitadas à conivência humana, incapazes de estar sozinhas mas com tanta limitação social, a melhor amiga, o marido, gente sóbria, inteligência a abarrotar mas poucas falas a gente estranha,

quem tu? olha que não, não parece nada, tão divertida,

ainda que o sorriso esconda o eu, os meus erros com os outros perfilados a encher uma autoestrada num dia de verão com incêndios, incapaz de fazer o que me é exigido, a cara fechada, a critica na ponta da língua, a resmunguice prestes a espalhar-se, 

eu que mando, eu que sei,

brinca com os outros meninos, rapariga,

um misto já de sentimentos contraditórios pelo outro, ora desprezo ora inferioridade, 

sou muito melhor do que este, este é muito melhor do que eu,

a mesma bitola para todos, nunca o equilibrio, a impaciência pela limitação alheia ao lado da entrega total a quem me tocava na alma, mesmo que com oito anos lá soubesse o que era alma,

não ligues, podemos brincar na mesma,

gordita, voz forte, inteligente quanto baste, insegurança a abarrotar pelas orelhas, vergonha disfarçada no ar arrogante,

eu que mando, eu que sei,

um paradoxo, mas ainda assim eu,

deixa de ser bicho do mato, rapariga.

 

não deixei. só aperfeiçoei. 

 

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sonhos

por M.J., em 28.10.16

tenho sonhado com velhos amigos nos últimos tempos.

aumentou a frequência desde que saí de aveiro. quando dou conta estou acordada, alagada em suor, a ver o quarto numa escuridão intensa com gente a bailar-me perante os olhos, em sorrisos e tristezas, o mesmo ar de há mil anos em pormenores que não recordaria mesmo que quisesse, estando acordada.

é um rol intenso de pessoas ainda que, necessariamente, eu não seja gente de gente. mas há tanta que ficou para trás, afastada deliberadamente ou simplesmente porque a vida assim é, que me espanta a minha capacidade de não carpir com quem estive.

a não ser em sonhos.

desde há umas semanas que há um recorrente: é início de verão e estou sentada no carro de um velho amigo, lado a lado, os dois. existe um silêncio longo quebrado apenas pelo passarinhar de pessoas que entram e saem do edifício em frente, no jantar prometido. sei que é domingo e há traços da minha frequência universitária: a pasta negra dele descansa no banco traseiro e eu tenho uma mochila cor de rosa aos meus pés.

depois, num momento eterno, damos um longo abraço. os braços dele apertam-me ao peito e sinto-me em casa. sei-me envolvida por pai, mãe, irmão e amigo. sou criança pequena ao colo e, ao mesmo tempo, incrivelmente adulta, consciente da bênção que é ter conquistado um amigo que me segura nos tombos, me atura as birras e me leva no crescimento individual a ser mais polida. 

acordo sempre a seguir.

invariavelmente, como num filme.

e estranhamente sei o seguimento do sonho, em pormenores que se densenrolam na banalidades dos momentos, mesmo já acordada: 

é que se trata de uma recordação, das muitas que recalco, que me faz companhia em sonhos para não esquecer quem me trouxe até quem sou.

desculpa meu amigo que te chamo assim. mas tenho tido, nos últimos tempos, absurdas saudades tuas. e há uma certeza renovada de que por mais que os anos passem permanecerás sempre em mim porque te amo na dimensão das amizades eternas.

que as há.

mesmo que não admitamos.

 

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e é isto

por M.J., em 24.10.16

há dois anos atrás despedi-me.

gostava muito de dizer que acordei um dia de manhã e decidi bater com a porta mas não foi isso. foram antes meses de uma intensa ansiedade, incapacidade de lidar com alguns aspectos e uma perene certeza de que ali "não ia ser feliz". 

como muita gente fiz contas à vida e ponderei aspectos. ninguém se despede no mundo actual. espera-se que alguém nos despeça e depois lamentamos a vida injusta. eu achava que era esse o percurso certo:

que não fazia sentido dar cabo de uma coisa segura.

que eu fazia parte de um trabalho e perderia quem sou se o perdesse a ele.

 

ainda assim vim embora. sem nada à espera do outro lado. como quem dá o salto na espera de não partir as duas pernas na queda. e não pensem que foi coragem que analisando bem tudo, assumo ter sido só incapacidade de lidar com as pessoas na minha inabilidade social. foi a certeza que ou batia com a porta ou dava cabo da minha sanidade mental.

vim embora, pois então.

acima do receio do amanhã vinha a certeza de que vivemos uma vez só e não podia continuar a viver dois dias por semana sobrevivendo em torturas nos restantes cinco. que não poderia transitar pela vida com a sensação que as horas eram perdidas em função de nada e que dinheiro algum seria uma recompensa pela ausência de ansiedade.

os primeiros dias no desemprego* foram uma merda. ainda que tenha descoberto um ritmo que não vivia desde os dezoito anos, com possibilidade de passar horas numa esplanada, sentir o sol às quatro da tarde ou caminhar sem destino no momento em que quisesse, essa sensação de liberdade não era capaz de eliminar os gritos de inutilidade, vazio, incertezas e dúvidas: durante anos fora medida pelo meu trabalho e agora vivia ao deus dará, como se tivesse arrancado um braço, uma perna ou algo integrante do que era.

depois, com o tempo, a sensação desvaneceu-se e comecei a poder amadurecer. não imaginam como conseguimos transformar-nos, abrir a mente, ganhar conhecimento acerca do nós e do outro se a ansiedade de ver perder a vida for eliminada.

cresci de uma forma estonteante. da forma que não pude crescer quando era suposto porque ocupada a trabalhar.

realizei sonhos: escrevi um livro, editei um livro, fui pedida em casamento, casei. visitei países. descobri que gosto de fazer certas tarefas domésticas. aprendi a beleza da alquimia de um chá quente com um bolo de maçã. mesmo que feito com farinha integral. percebi como é dedicar-nos ao outro e cuidarmos da vida que construimos em conjunto com amor. compreendi a beleza de flores frescas numa jarra e a maravilha de esperar alguém que amamos depois de transformarmos uma casa num lar.

uma autêntica pirosa, bem sei, mais ainda assim é quem sou. 

 

ah MJ, ouço as vozes, isso é tudo muito bonito desde que haja pilim, massa, aquilo que faz mover o mundo. 

bem sei, e é esse o busílis da questão. quem é despedido e não tem como pagar o tecto onde dorme está pouco importado em ter um lar ou amadurecer. precisa é da certeza que pode fazer face a um sem número de despesas e não que está mais apto à convivência com o próximo.

eu tive sorte, confesso. mesmo em casa pude trabalhar por freelancing, controlando o que fazia, como fazia, quando fazia e tive, nos momentos em que isso não chegava, alguém do meu lado a amparar-me. 

uma sortuda, mas as coisas são o que são. 

 

em resumo, foram os dois anos mais serenos da minha vida: mesmo com dúvidas acerca do presente, incertezas relativamente ao que fazia com o meu futuro, questões se não estava a desperdiçar capacidades.

foram os dois anos mais compensadores da minha vida: mesmo sentindo, às vezes, o estigma de estar a ficar muito para trás, o não conseguir enfrentar colegas que continuavam.

foram, garanto, os dois anos em que mais cresci. 

e agora retomo. 

não no mesmo ponto onde fiquei, evidentemente, mas com uma inteligência emocional superior. retomo ao mundo da gente crescida com horários que não controlo, a impossibilidade de trabalhar de pijama ou remela nos olhos e ainda a certeza de que não posso evitar falar com pessoas, o sorriso nos lábios, o trato cordial e as excelências da vida sempre que solicitadas. 

agora retomo.

muito mais preparada do que algum dia estive. e se alguma coisa aprendo - eu que nada sei acerca da vida - é que vale a pena bater com a porta quando sentimos que desperdiçamos mais horas a sobreviver do que a viver. nunca estamos presos a nada mesmo quando há algemas. um trabalho é só um trabalho mesmo que pareça tudo o que somos. e ter tempo para nos conhecermos vale mais do que qualquer salário do mundo. 

juro. 

nem sempre insistir é sinónimo de coragem: às vezes, acreditem, é de uma intensa cobardia.

há lá cobardia maior do que perder vida perante os próprios olhos?

 

*diz que está desempregado quem não estando a trabalhar procura activamente emprego e isso não se confunde com a imagem que querem fazer desse facto, com a ideia de coitaditos, números, estatísticas, gente sem ter o que comer e esfarrapados. no entanto, o estigma acerca do desemprego é coisa para outro post.

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enxovais

por M.J., em 12.10.16

com aquela idade já podia era pensar em fazer um enxovalzinho,

dizia a avó acerca da vizinha lá de casa, moça nova e bonita que um dia não saiu na paragem do autocarro ao vir da escola, perdida de amores por um fulano das imediações, a mãe em prantos, as vizinhas a abanar a cabeça,

bem que sabia, aquela é fresca,

eu perdida: fresca mesmo no inverno deve ser uma chatice, antes convencida de que tinha sido raptada como a menina pequenita no primeiro livro dos cinco lido* que tinha um fato azul,

compras-me um fato azul, mãe?

e a mamã sem entender o fascínio pelo fato azul, saia-casaco, 

raio da miúda, agora deu-lhe para isso,

e a moça casadoira que apareceu no dia a seguir, quando se pensava mesmo em raptos e polícias, longe, distantes na vila,

chamar a guarda para quê? lá querem saber da gente,

aparecida então no dia a seguir e eu, no autocarro, pensamento em raptos e dores, saia-casaco azul e racionamento de pão,

foste raptada?

cala-te sua gorda!

pois ainda bem que sou gorda que assim ninguém me rapta.

 

com aquela idade já podia era pensar em fazer um enxovalzinho,

dizia a avó, sentença bem dita, assente em convicções tiradas do livro das moças, um calhamaço verde com ilustrações e dicas do comportamento aceitável "da boa mulher cristã",

«as moças devem lavar o cabelo no dia em que o noivo as for visitar»,

mas 'vó, a mãe diz que tenho de lavar o cabelo todos os dias para não ficar oleoso. isto não tem jeito nenhum,

a indignação por um livro que não era lei, e a avó a sorrir, olhos brilhantes debaixo dos óculos,

qual noivo qual quê? vais é estudar e ser médica, para cuidar da avó na velhice, que com essa inteligência bem que és capaz,

mesmo que eu não quisesse ser médica mas outra coisa qualquer que me permitisse ler todo o dia e escrever e ter a minha biblioteca, com muitos livros dos cinco e raptos e, 

que é um enxoval, avó?

são coisas que as moças compram e guardam para quando se casarem. ainda tenho lençóis do meu, de linho, que bordei aos serões e nas tardes de domingo,

quando o avô te vinha visitar? e lavavas o cabelo?

pergunta ingénua, a avó que tinha um cabelo tão grande que chegava ao rabo, entrançado no cimo da cabeça, um carrapito na nuca, e cheirava a alfazema dos lençóis de linho bordados nos serões, velas em luz e lareira a adormecer,

com aquela idade já podia era pensar em fazer um enxovalzinho,

e eu também avó?

tu não, que não precisas. vais ser médica para cuidar da avó na velhice, que com essa inteligência bem que és capaz.

 

não fui avó.

não fui. 

 

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deu discussão! (quase porrada)