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está decidido

por M.J., em 14.03.17

vamos a londres na páscoa!

 (íamos para roma mas à última hora, num passo de magia, mudamos o destino - roma fica para um tempo em que haja mais tempo).

 

agora:

  • quereis um relato como este do ano passado em barcelona, ou dispensais bem?
  • sugestões, opiniões, roteirões existem por ai?
  • e se eu vos disser que vou conhecer uma pessoa lá, que me lê há quase sete anos e que esteve comigo nos momentos mais azedos, acreditam?

ele há coisas...

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fim de semana.

por M.J., em 23.11.16

no fim de semana fomos dar uma voltinha.

sou uma burguesa pobre, vinda do povo, que dá grande importância à voltinha do domingo à tarde nem que isso signifique vestir a melhor roupa para dar dois passos na calçada escorregadia, voltando para casa com ar de dever cumprido.

nem tudo se entende e há coisas em mim que mais vale nem explicar.

assim como assim, perdidos numa vida em que andamos em passeio muito menos do que era suposto, e na combinação do almoço semestral com a seita, abancámos em peninche no sábado e almoçamos na nazaré no domingo.

peniche em mim o sentimento primitivo do mar. explico: menina e moça nascida e criada na serra vi o mar no seu esplendor, sem taças de arroz na mala, gente aos gritos no areal ou atenção à bandeira verde/vermelha, aos doze anos numa visita de estudo (que nunca estudávamos) num dia de outono. e não consigo, por mais que queira porque a memória extrapolou o sentir, descrever o primeiro impacto com o cheiro a sal, o vento no cabelo, a imensidão de água, de um verde azulado que me parecia maior do que qualquer céu que havia na serra.

em peniche "uma península meninos, olhem que vai sair no teste" estava-se rodeado de água e parecia-me imensamente mais livre do que na serra, rodeada de árvores. foi nessa altura que jurei viver ao lado do mar, algo que aconteceu até ter encontrado amor maior,

"uma península meninos, não é uma ilha!",

mas bem que há ilhas de amor.

 

 

Sábado é dia de passeio #Peniche

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

 

almoçamos não o peixe que eu planeara mas uma espécie de, enrolada em arroz: um sushi manhoso. que a culpa foi minha embrenhada a sentir não percebi que o rapaz escarafunchava a net na procura de um restaurante recomendado aparecendo em fundo uma sugestão de sushi: nada bem feito, muito mal conseguido e, ainda assim, a abarrotar de gente que comer tudo o que se puder por dez euros não é para desperdiçar nos dias que correm.

 

no forte de peniche cheirava a sal e liberdade. li os relatos de quem fugiu e percebi que seria mais cobarde que dois moluscos meios mortos, perante actos como os descritos. no resto da tarde caminhamos pelas rochas, que havia sol e mar e vento e liberdade.

 

 

#Peniche

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

 

 

de volta ao hotel, vista para o mar, a chuva a bater no vidro percebi os dois grandes inconvenientes que não vira nos comentários do booking:

i) as paredes eram de papel e ouvia tudo o que os vizinhos faziam (desde abrir a braguilha, a virar-se na cama ou a assoar o nariz).

ii) as almofadas eram um monte de esponja encarquilhada do tempo da minha avó. 

por melhor que seja a vista, a não ser que tenham um pescoço de aço e uns ouvidos disfuncionais não recomendo.

 

no domingo houve arroz. houve mar e vento e chuva. houve abraços, sorrisos, agitação e conversa. houve amizade numa mesa larga, num restaurante do mar.

no domingo houve uma parte de mim absolutamente completa.

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há dias de fins de semana.

e há fins de semana de absoluta vida. 

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o problema de se decidir as coisas em cima da hora é que podem pôr-nos em trabalhos desnecessários.

explico: na sexta à noite, enquanto bebia café a olhar para a lua, lembrei-me de uma viagem feita há muitos anos numa companhia de outrora, pelos socalcos do douro vinda de armamar em pleno verão, lua em fulgor, estrelas em diamante. achei que era hora de rever e vai de anunciar ao rapaz que, no dia a seguir, íamos de armas e bagagens ao douro.

acordados tarde no sábado (pelo menos para a excursão) chegamos a lamego pela hora de almoço e decidimos almoçar por essas bandas. a cidade engalanada de festa mudou sentidos de trânsito e demoramos horas para estacionar. o turista nos seus autocarros conspurca tudo e um par de botas, para o trânsito, arma confusões numa multidão desenfreada de máquina fotográfica ao peito, ar de aventura e uma imensa falta de civismo.

uma treta.

 

entramos no primeiro restaurante que nos apareceu. muitíssimo mal escolhido: sem ninguém, um ar absolutamente pretensioso e empregados chiques a valer. serviram-nos couverts (é assim que se escreve?) que davam para dois periquitos. a seguir o bacalhau foi servido num prato do tamanho de uma roda de tractor, a um cantinho, muito pequenino e redondinho, com uns rabiscos feitos no prato:

 

esperámos que a sobremesa salvasse o dia depois do empregado dobrar a língua toda para a enunciar: afinal era só uma bola de gelado do lidl com um bolo rijo de há dois dias. e tudo muito chique, com muitas mesuras, muitos salamaleques pagos a peso de ouro.

deus! mais valia ter comido um bitoque gordurento na tasca da esquina em pratos mal lavados.

 

almoçados (mal mas enfim) apanhamos caminho até peso da régua. tudo bonito...

 

#devezemquandopasseio #Régua

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

 

... mas mais uma vez repleto de rebanhos a comportar-se de uma forma estranha: em multidões, numa espécie de fila, dobrando-se para o mesmo lado, calcorreando as mesmas pedras, num bando unido e apalavrado. ficam ao sol no cais à espera do barco. compram todos os mesmos chapéus aos ciganos que os apregoam e fazem das casas de banho públicas uma esterqueira. com muita foto, às dezenas, em cada piscadela de olho um flashe. 

lindissimo. 

 

afastamo-nos enojados e procuramos um miradouro nas imediações.

 

Não há quem me tire da serra #Régua

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

a parte melhor, verdade seja dita, a acabar por nos lembrar, na volta, que o gps nunca é confiável depois de nos mandar quinta alheia dentro até um buraco sem saída, com obrigatoriedade de virar o carro com mil manobras.

poderia ter sido engraçado. não foi.

 

persistentes no passeio decidimos ir até pinhão. viagem junto ao rio, tudo muito pitoresco, dezenas de ciclistas a entupir a via que desporto é belo se for feito aos pares. à entrada da vila a coisa empancou. se na régua os autocarros pareciam cogumelos em pinhão, pouco ou nada preparado para a coisa, eram um enxame de mosquitos hediondo a estragar paisagem e momentos.

na ponte duas caravanas, uma em cada sentido, fizeram questão de avançar ficando presas no meio. caralhadas em estrangeiro, esbracejar em pleno, mais para cima, mais para baixo, passaram depois de dez minutos deixando em cada lado uma fila de quilómetros.

deslumbrante.

no meio da vila os carros paravam em filas infinitas para os rebanhos de pessoas atravessarem a passadeira, sorrisos deficientes, um ar aparvalhado de dia santo em festa. não paramos sequer para apreciar a paisagem, enfastiados, zangados, sem paciência.

 

um dia se o turismo atracar assim na minha serra desfaço-me em lágrimas.

quão doloroso deve ser ver a conspurcação de espaços e lugares, memórias e vivências por rebanhos de pessoas que se comportam como um só, quase doente de ideias?

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indo ao que interessa

por M.J., em 14.07.16

alentejo e algarve em cinco dias.

o roteiro está feito.

 

agora as dormidas:

meus senhores, que preço é aquele para partilhar um beliche num dormitório com gente que nunca se viu?

há mesmo quem faça isso?

há mesmo quem aceite partilhar dormidas, roncos, suores noturnos e ademais coisas com pessoal que não faz ideia quem seja, que doenças destila e que nível de psicopatia pode ter?

 

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um sítio magnifico para passar uns dias em agosto?

sugestões?

recomendações?

outras coisas acabadas em "ões" com opiniões?

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"tudo incluído", num hotel de cinco estrelas, numa ilha a quatro horas de avião:

 

1. há pessoas extremamente sociáveis que arranjam em estranhos com quem partilham uma semana amigos para a vida. mesmo que sejam extremamente cagões, uns e outros e apontem, nas costas duns e outros, a celulite e a barba mal aparada.

2. tenho um marido mais anti-social que eu e não fizemos uma única amizade. 

3. quando há comida à descrição há quem fique louco e queira comer tudo, mesmo que metade seja para estragar.

4. há quem estando a dois metros do bar, na piscina, se levante para ir escolher as bebidas que quer e em vez de as trazer na manápula obrigue o funcionário a vir atrás de si até à espreguiçadeira. a dois metros.

5. há quem fale com os conhecidos acerca da sua vida toda, incluindo doenças sexualmente transmissíveis, em altos berros, fazendo com que meia multidão tome conhecimento desse facto.

6. as pessoas passam o dia inteiro a verem-se em roupas menores, em frente à piscina, lambuzadas, transpiradas e com marcas de bronzeador mas vestem-se como para um casamento para ir ao jantar que é exactamente ao lado do sítio onde passaram o dia inteiro, com essas mesmíssimas pessoas.

7. há pessoas que vão à caça mesmo que a presa seja o funcionário do hotel.

8. há loucos por gatos em todo o lado, que comem com as mesmas mãos que coçam os animalejos repletos de pulgas e sarna, enquanto lhes dão pedacinhos da comida que têm no prato.

9. há pessoas que comem com os mesmíssimos gatos doentes, todos fodidos das orelhas de andar à porrada, com pus e líquidos amarelos, no colo.

10. há pessoas que olham tudo isto com ar de desdém, nunca se incluindo na multidão, achando-se superiores mas acabando por estar lá também.

(vá, está última é fácil de perceber que sou eu).

 

hajam pessoas!

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em cabo verde... #1

por M.J., em 31.05.16

amanhecia tão cedo que, quando me levantava efectivamente, às sete e meia da manhã, já era tarde.

as nuvens corriam no céu à velocidade dos sorrisos. a vida repartia-se entre piscina, sol, praia e livros. estou agora a escamar pele no nariz e a diferença de cores no meu corpo, entre a pobre da pele que apanhou sol e a que não apanhou é tão grande como aquela senhora que vi no avião, na volta, com a cara preta e todo o redor dos olhos absolutamente branco, dos óculos.

juro que se me visse assim ao espelho tentava, no mínimo, uniformizar a coisa com base e, no máximo, nunca mais tirar os óculos de sol. nem no banho. ou na cagadeira.

 

no dia em que saímos do hotel, turistas armados em bons, água na mochila, em cima de uma pick up tivemos a sorte de encontrar um guia fantástico que nos fez partilhar a viagem com mais quatro pessoas.

não falava mais do que o estritamente necessário nem vendia banha da cobra.

as coisas eram como eram. agrestes. abafadas na sua aridez. sem nada. excepto cabras, areia e blocos de cimento.

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todas as cabras têm uma marca, disse-nos ele, mesmo aquelas que vagueiam sozinhas. algumas trepavam até ao hotel, para gáudio da turistada que lhes dava pão até vir um funcionário expulsá-las.

na primeira povoação onde paramos percebi que tinha a bexiga a dar de si. as possibilidades não eram muitas. tinha as casotas dos senegaleses que nos queriam impingir coisinhas à força. "bares" com matraquilhos e pessoas às portas. e cães, muitos cães, quase tantos como as cabras, deitados por ali.

depois de ponderar ir atrás de uma moita, encontrei casas de banho ao fundo da povoação (velha). à entrada uma senhora com uma criança ao colo disse-me somente "um euro". estendi-lho a assumir que se pagava. o guia disse-me depois que não. mas percebi, na mesma altura, que numa ilha onde o salário mínimo é de cento e cinquenta euros, um euro para mim não fazia grande diferença e para ela podia fazer toda.

não me queixei.

quando voltamos a circular, no meio do deserto, areia, pedra, areia e mais pedra, um castanho constante a inundar as vistas e a alma fui aos poucos deixando-me inundar por uma pequena depressão. era então aquela ausência de árvores e verde, de pessoas e cores que me fazia sentir abafada, pequena e ao mesmo tempo esquecida. de vez em quando, no meio do nada, como que ali plantados da mesma forma que as pedras, homens mandavam com enxadas no chão. ou picaretas. não sei. não percebi o motivo mas assumi o calor nas costas, a aridez, a desolação de tal trabalho.

meia hora depois a praia de santa mónica quebrava o castanho, num nome em desrespeito pelo local (o nome original da paria era "curralinho" até alguém se lembrar que santa mónica, por ser mais parecida com os states era melhor).

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o turista é impiedoso. apropria-se das pessoas, dos lugares e muda-lhes o nome. encolhe os ombros. dá trabalho aos locais, mata-lhes a fome e por isso pode mudar nomes antigos, alterar demografias e circular com a cabeça erguida de "quem faz o bem sem olhar a quem". sempre com muito boas intenções para conhecer e ajudar a povoação. como aqueles meus colegas de viagem que, na povoação em que paramos antes da praia, entraram dentro do jardim infantil e escola primária, com ar curioso, pouco se importando se aquelas crianças mereciam a privacidade de estarem a ter aulas. apenas porque podiam. apenas porque eram os turistas e, logo, podiam entrar, fazer perguntas, interromper e tirar - meus deus, nem acredito - fotografias, assim, num constante ininterrupto de flashes. 

aos poucos, a alteração da paisagem, ora castanho seco ora verde do mar foi-se-me entranhando até aos ossos. sentia-me asfixiada, um pouco calcada pela dimensão maior do que eu.

almoçámos num restaurante local. os meus colegas de viagem encetaram conversas com o guia. uma beleza que só visto. diziam coisas como "ah, lisboa sabes, a capital, uma cidade muito grande..." ou "nós também temos ilhas, sabes, os açores, que são um arquipélago formado por ilhas..." explicando as minúsculas coisas, como se o guia não tivesse televisão, como se não passassem os nossos canais por lá, como se eles não falassem o português e como se fossem de tal forma incultos que não soubessem o que eram os açores.

o almoço caiu-me mal. 

a tarde não melhorou grande coisa.

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O tuga, ah o tuga!

por M.J., em 25.05.16

O tuga marca as espreguiçadeiras do hotel com vista para o mar, logo de manhã passando lá dois minutos dia.

O tuga é o primeiro a entrar no restaurante seja para o pequeno almoço, almoço ou jantar.

O tuga bate palmas com o corpo todo, logo ali nos cotovelos bamboleando a barriga com força.

O tuga olha com avidez para a comida do "tudo incluído" batendo o pé com impaciência quando o inglês da frente se serve dos camarões, acabando mesmo por dizer entre dentes "daqui a bocado leva-os todos".

O tuga dá nomes às filhas de Constança e Benedita mas finge que não vê quando elas guincham aos ouvidos dos antónios e manéis.

o tuga vai ver o espectáculo de música e dança da animação do hotel e depois de bater palmas com os cotovelos diz "até se esforçam, coitadinhos".

O tuga, ah o tuga.

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São oito da noite

por M.J., em 24.05.16

Calcorreei praia virgem.

Tive uma menina de um ano cheia de tranças no cabelo sentada no meu colo sem eu pedir, apenas porque se agarrou às minhas pernas sem medo.

Temos comido como se o mundo fosse só hoje.

Há um escaldão nos ombros e o tempo caminha em passo lento e escuro, gingando ao som da música que entoa e lembra luz e sol, sal e mar.

Há uma simplicidade mesmo no olhar daqueles que vestindo a farda no hotel são ensinados a ser diferentes.

Paramos na povoação mais velha da ilha.

Cinco crianças brincavam com dois cães. Sorriam com os olhos e o corpo.

O tempo demora.

As nuvens correm.

Estou apaixonada.

As coisas pequenas da vida todas completas em gargalhadas de sol.

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Podia tirar uma foto melhor #2

por M.J., em 23.05.16

mas não me apetece.

(já percebi: às sete e meia da manhã está sempre este tempo).

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