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bilhetinhos

por M.J., em 14.02.18

há sempre uma gorda, no dia dos namorados, que fica sentada na carteira à espera de receber bilhetinhos.

em boa verdade, não sei como funciona actualmente.

os miudos nas escolas ainda se vestem de carteiros, cupido ou outra coisa qualquer e percorrem as salas distribuindo cartinhas, postais, flores e chocolates? ou recebe-se tudo via instagram, facebook, whatsapp, youtubes e essas coisas novas?

 

no meu tempo, há tanto tempo que parece ontem, alguém percorria as salas transportando tesouros. 

eu era a gorda no canto, de óculos e ar atento, na espera ansiosa de receber um bilhete que não chegaria jamais. e nessa ausência,  disfarçada com mal disfarçado desdém havia uma tristeza latente de culpa.

de vez em quando alguém se lembrava e enviava um bilhete,

és a minha melhor amiga,

clamavam, na piedade de quem não receberia um penduricalho qualquer, para esfregar nas trombas alheias no intervalo.

 

havia sempre uma gorda e eu era a gorda.

eu esperava o bilhetinho, na letra mal escrita.

poderia até ter erros, nessa coisa não era esquisita.

podia mesmo vir num pedaço de folha rasgada, ao canto, ou em papel quadriculado, meio amarrotado e tudo.

desde que viesse.

poderia mesmo ser anónimo, na capacidade de esperança durante largos meses à cata de onde viera.

podia ser, não era.

podia ser. ou podia ser pior: não tive admiradores secretos falsos, partidas cruéis de dia dos namorados, brincadeiras que poderiam fazer rir toda a gente, incluindo eu no desdém mal feito e na mágoa mal escondida. 

nada. 

 

já em adulta, longe dos bancos da escola e da faculdade, depois de escrever sobre o ridículo da data, de rir sobre o assassínio das rosas vermelhas, das overdoses de chocolate e das filas às portas dos restaurantes, como colegiais de mãos dadas à espera de uns bifes mal feitos, enviaram-me flores para o escritório onde trabalhava.

não sei quantas eram.

lembro que eram rosas.

vermelhas.

com brilhantes.

e tinham um bilhetinho acoplado, ainda guardado na caixa das recordações, escondida (esquecida?) na garagem, como guardando em si o passado para sempre.

sei que fiquei meia histérica, mesmo que a medicação na altura me impedisse de grandes alegrias.

nem sequer era dia dos namorados, mas algo em mim se regozijou por todos os dias dos namorados mal gozados, ali para sempre remediados, num escritório com vista para a rua, pessoas e clientes e eu com um ramo de rosas na mão. 

para sempre,

pensei, ali completa, até que meses mais tarde, já as rosas haviam secado e só restava um bilhete, o autor delas me mandou um pontapé no rabo, tão bem dado que me fez tropeçar na doença que era minha e me fazia só ver escuridão:

tens direito a rosas, lá isso tens, mas esquece o resto.

 

tu deste-me rosas. já.

e girassóis.

deste-me confiança. dizes que me amas mesmo quando tenho os cabelos no ar (e são tão brancos, meu amor, cada vez mais), remela nos olhos e estou vermelhusca de transpiração.

tu deste-me rosas. já.

e carinho. apertas a minha mão e dotas a nós de toda a esperança que existe no mundo.

e se correr mal? questiono eu, nas mil dúvidas que me assolam, uma espécie de comichão que se cola ao cérebro, uma ideia fixa, e se, e se, e se, e se, em constantes ses que matam e consomem até eu ser só se.

tu deste-me rosas. já.

e paciência. pegas nas minhas birras, e caramba se sou birrenta. nos últimos tempos esta coisa de termos de brincar com as hormonas transforma-me numa criança birrenta, em algo que não fui,

olha que apanhas, estás ouvir? birras comigo não,

a voz da mamã, paciente em tanta coisa menos nos guinchos e nas birras,

estás de burro amarrado? olha que tens bom trabalho a desamarrá-lo,

e tu pegas nas minhas birras e com infinita paciência dás-me a atenção, mesmo quando mereço um par de estalos, mesmo quando sou pior que um miúda e podia desatar aos guinchos no meio do nada, e tu permaneces e ficas e manténs a serenidade e pedes desculpa mesmo quando a desculpa é desnecessária na criancice que é minha.

tu deste-me rosas já. e secaram. e perdi o cartão, sei lá dele, não é preciso:

tu estás a dizer o que cartão algum poderia dizer.

tu estás.

tu ficas.

tu permaneces.

 

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há sempre uma gorda no dia dos namorados, que fica sentada ao canto, na espera do bilhetinho.

se as coisas correrem bem não haverá  bilhetinho algum que sirva, algum dia, para demonstrar o amor.

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oh vai ver ali:

o problema é que estão verdes

por M.J., em 14.02.17

sempre que ouço/leio gente a implicar:

  • com o dia dos namorados;
  • com os jantares no dia dos namorados;
  • com a estupidez que é o dia dos namorados;
  • com o consumismo do dia dos namorados;
  • com a pirosice do dia dos namorados;
  • e afins do dia dos namorados;

lembro-me do seguinte:

 

"uma raposa faminta entrou num terreno onde havia uma videira, cheia de uvas maduras, cujos cachos se penduravam, muito alto, em cima de sua cabeça.

a raposa não podia resistir à tentação de comer aquelas uvas mas, por mais que pulasse, não conseguia abocanhá-las.

cansada de pular, olhou mais uma vez os apetitosos cachos e disse:

 

- também não queria que estão verdes..."

 

admitir a crueza das coisas costuma doer mais do que se pensa.

 

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do dia dos namorados

por M.J., em 13.02.15

quando vamos envelhecendo vamos deixando de dar valor a coisas que antes eram importantes. e assumimos que certas pequenices são inúteis, uma perda de dinheiro. deixamos, por exemplo, de colocar no facebook todas as porcarias que nos acontecem ao longo do dia e rimos com complacência dos nossos amigos que partilham na net as flores e bombons oferecidos à cara metade.

 

pensamos bem, e com um orgulho triste chegamos mesmo à conclusão que não, não queremos um monte de rosas vermelhas, nem morangos ou champanhe ou bombons aos quilos apenas porque alguém diz que devemos celebrar o amor.

é nesse momento que falamos calmamente com a outra pessoa e acordamos que o dinheiro que se gastaria em flores, chocolates, perfumes caros ou outra prenda qualquer será mais útil investido num... aspirador potente, com filtro de água por causa das alergias que assolam uma das partes da relação, pessoa esta que acorda todas as santas manhãs ranhosa, a espirrar o nariz e cérebro ainda que não haja uma ponta de pó à vista.

 

tudo isto meus senhores, para vos dizer que este ano não vou receber flores nem jantar num restaurante iluminado a velas, ou oferecer perfumes, caixas de chocolate ou um salto de bungee jumping que nunca foi feito. este ano, no terceiro da relação, no auge do amor vamos comprar um aspirador. (a rimar e tudo).

 

o momento da minha vida que mais temia chegou:

o romantismo foi comido pelos ácaros.

tarda nada ando a partilhar com o mundo qual o melhor detergente para lavar panos da louça.

 

valha-me Deus (com maiúscula e tudo).

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deu discussão! (quase porrada)