Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



chávenas

por M.J., em 21.04.17

a mamã é operada hoje.

uma pequenina cirurgia sem prognósticos de complicação pelo que rumei à serra cedinho.

antes de sair da cidade parei numa pastelaria para me assegurar que tomava a dose diária de cafeína:

é incrível a sensação de absoluta paz que me afoga quando entro numa pastelaria ou café, de manhã cedo, muito cedo, e há um chocalhar de sons de porcelanas, talheres, pratos e chávenas. o som da máquina de café, num prenúncio de imutabilidade e de que os dias cinzentos terminam tal como os solarengos e haverá sempre café para melhorar as horas.

 

há uns anos, quando conduzia quilómetros para trabalhar, havia um pequenito café em frente ao escritório onde entrava todas as manhãs, antes de me sentar na secretária.

a dona era gorda e servia café queimado.

as janelas deixavam entrar pouca luz, por má disposição e por vidros não muito lavados. havia bolos secos na vitrine. eu entrava, pousava a mala e a marmita numa das mesas e sorvia o café, com muitas delongas, enquanto desfolhava o jornal da região.

o café era queimado. sempre.

a mulher discorria longamente sobre a vida, fosse para mim ou outro - não havia distinção - num monólogo muito dela. 

eu pensava no quão minúsculos eram os meus dias, no quão infeliz me sentia e no quanto precisava de sair do café, directa a casa, no recomeço de mim. 

 

mas havia um ponto que me acalmava a alma:

o exacto momento em que ela pegava na minha chávena e punha na banca, ao lado das outras provocando som, um tilintar, um toque de louças que ressoava pelo café inteiro. como que se fosse partir mas não fosse. como se as chávenas para ali largadas, sem consideração, sem atenção, pudessem desfazer-se em bocados, num tilintar da fragilidade, acabando por mostrar que não.

eu pagava e saía com menos desalento:

as chávenas ainda não haviam quebrado. 

por mais um dia.

eu também não. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

epitáfio

por M.J., em 23.03.17

então é assim: preparem os lenços, dêem vivas, soltem hurras, engulam as lágrimas: 

vou morrer.

sendo menos melodramática: tenho altas probabilidades de morrer, finar-me, bater a bota, ir desta para melhor, partir, desaparecer num futuro breve, breve, muito breve.

 

explico, levem-me a sério: 

  • arranquei ontem - sem contar, assim à maluca, sem preparação alguma - um dente do siso que pensava ser um dos normais e afinal, nascido e criado prematuro, tinha uma deficiência qualquer que decidiu dar ar de sua graça na semana passada;
  • em consequência sofri - e sofro, oh se sofro - de uma mega hemorragia no sítio onde o mesmo permanecera outrora;
  • a hemorragia era tão grande - e é, oh se é - quese traduziu numa refeição inteirinha do meu próprio sangue, causando-me um enjoo tremendo e levando a que ultrapassasse em muito as calorias recomendadas para o jantar;
  • (tive finalmente um vislumbre daquela coisa de cozer com o cão com o pelo do próprio cão).

em resumo:

é altamente provável que morra de hemorragia, e fique sequinha, sequinha, sem sangue algum, pálida e feia.

 

 

depois:

  • quando a dentista averiguava do siso percebeu que havia uma qualquer coisa esquisita na minha língua. (e não, não era um uso em demasia por falar de mais);
  • é verdade que eu já reparara naquele alto há uns tempos mas assumi - estupidamente - que se tratava de uma qualquer lesão passageira (para hipocondríaca tenho muitas falhas. é que nem nisso sou boa, porra);
  • vai daí e achou que era necessário marcar - com relativa rapidez - uma espécie de cirurgia de retirada do dito alto que deverá ser, depois, mandado para análise.
  • segundo ela nunca se sabe e o seguro morreu de velho.

em resumo - que isto nestas coisas a gente nunca sabe e os melhores são os que têm mais azar:

posso ter uma daquelas coisas antipáticas e ruins na boca e morrer disso.

(ou ficar muda, meu deus, muda!

já pensaram nisso? como raio vou ensinar ao rapaz linguagem gestual?

como raio vou eu aprender??????)

 

 

por fim:

  • andaram aos tiros, ou facadas ou atropelamentos em londres ontem.
  • vou para londres dentro de pouco tempo.
  • num avião.

em resumo:

há uma grande probabilidade que seja atropelada, estropiada, ou outra coisa acabada em ada por um radical qualquer que me transforme numa das setenta virgens de alá.

isso ou uma queda livre do avião, algo bastante usual - e até recomendável - segundo o may day, desastres aéreos.

 

 

pronto, é isto!

e sendo a morte certa, o que me tem ocupado enquanto seguro gelo nas trombas, é optar pela melhor, algo em que não me decido.

  • morrer de hemorragia poderia até ser indolor mas começo a ficar fartissima de engolir sangue, cuspir sangue, ver coágulos de sangue.
  • a minha almofada hoje era uma cabidela sem arroz e carne e é difícil escrever seja o que for com um pedaço de gelo nas fuças e um sabor a ferrugem.
  • pelo que dispenso.

por outro lado:

  • morrer de cancro é horrível.
  • possivelmente, bater a bota enquanto como batatas e peixe frito é muito mais agradável.
  • no entanto, num caso destes é bastante plausível que as pessoas digam, enquanto choram a minha partida "olha, paciência, também ninguém a mandou ir passear. ficasse em casa e agora estava vivinha entre nós". 
  • já ninguém dirá o mesmo se morrer de cancro, não é? quer dizer, quem raio terá lata para mencionar, assim como quem não quer a coisa "olha, paciência, também ninguém a mandou ter uma coisa ruim!?"

 

pelo que, em suma, estou indecisa. 

 

o que sei - com grandes certezas - é o que quero que conste na lápide, morra do que for, gravado a letras douradas:

aqui jaz maria joão por extenso, amiga extremosa, filha carinhosa e esposa fabulosa. 

morreu a tentar salvar toda a sua família de um ataque de tubarões no ártico e os seus feitos serão para sempre cantados pelos trovadores modernos (menos o agir) numa versão em bom do "estou fazendo amor". 

avé guerreira!

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

vizinhança #2

por M.J., em 20.03.17

tenho uns vizinhos estranhos.

ainda que este seja o lugar mais calmo em que já vivi desde que deixei a serra, os meus vizinhos têm perturbações estranhas (de certeza que dirão o mesmo de mim, mas cada um tem a sua opinião) a que sou obrigada a assistir de camarote:

discussões, inundações (de palavras, era para rimar) opiniões e intromissões entre eles nos seus momentos familiares.

(já falei disso aqui).

 

posso jurar - sem medo de mentir - que o meu apartamento é o mais pacato:

  • somos só dois;
  • passamos demasiado tempo recolhidos nos computadores, livros e phones; 
  • não gritamos (eu sou das que amuam);
  • não soltamos gargalhadas em demasia;
  • eu não uso sapatos de salto;
  • ele não vê futebol;
  • não nos pomos aos saltos quando há um golo, como o meu vizinho de um dos lados que grita acerrimamente um "chupa" sempre que isso acontece (não sei se é quem marca que deve chupar ou se é quem deixa marcar... mas ele insiste muito nisso);
  • não temos filhos em choros nocturnos;
  • não temos um cão que gane a altas horas;
  • não berramos um com o outro;
  • não gostamos de tv com som demasiado alto. 

somos, em resumo, os vizinhos que toda a gente quer ter.

 

até há três semanas.

 

a coisa passou-se num sábado em que tivemos um casal amigo a  jantar às nove da noite (para ser precisa. se vamos contar um episódio doméstico devemos assumir precisão).

eu abri uma garrafa de vinho e bebi com a minha amiga visto que eles, nerds até ao tutano não bebem álcool. assim, só ambas as duas a dar vazão à garrafa, ficámos mais animadas do que o habitual e é provável que às nove e meia falássemos mais alto do que o normal, soltássemos gargalhadas ligeiramente histéricas e lançássemos um ou outro guinchinho idiota de quem não aguenta um copo de vinho.

nada de muito espalhafatoso, nem muito fora de horas: afinal eram nove e meia de um sábado e nós éramos só duas. 

 

pois meus senhores, o que é que acontece?

o meu vizinho, o do chupa no futebol, o do cão que ladra sempre que está sozinho como se lhe estivessem a arrancar os tomates, o que discute com a namorada às duas da manhã mandando-a fazer-se à vida noutro sítio que não ali, o que tem uma companheira que caminha nas escadas como a tropa num dia de gala, o meu vizinho, esse, desata...

aos murros à parede.

com garra.

zangado.

com a razão toda por nos atrevermos a interromper assim a sua paz doméstica e o seu chupa futebolístico.

 

num dia normal eu calar-me-ia.

pediria para falarmos mais baixo.

moderaria o som e o álcool.

sentiria até um pontada de vergonha por ser assim chamada a atenção.

no entanto, naquele dia em específico, o único em meses em que a nossa presença é notada, o único em anos em que há um exagero da nossa parte subiu-me a mostarda ao nariz.

e ninguém gosta da M.J. zangada porque ela faz coisas parvas.

porque ela liga o youtube da tv, põe o seguinte video a dar e canta com ele a plenos pulmões, enquanto toda a gente ri e faz coro com o ritmo dos murros na parede.

 

 

 

é por isso que não bebo: acabo sempre por estalar o verniz.

 

mas mesmo assim, juro, mantenho um ar digno, quando desço as escadas e por azar da vida, o encontro.

e aposto que ele tão cedo não esquece do som do fazer amor com outra pessoa. 

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

isto é a sério: hoje passo-me.

por M.J., em 15.03.17

desde há uns meses, quando comecei a trabalhar fora do conforto do meu escritório de casa, que descobri pessoas estranhas.

nos últimos tempos a coisa acentuou-se de tal modo que deixei de perceber se sou eu que estou mais estranha do que o habitual (ao género de quem vai em contra-mão na autoestrada sem perceber) ou se tive a peculiaridade oferecida pela vida de conviver com gente mais inábil do que eu nisto da relação pontual com o outro.

 

já vi de tudo:

  • desde o senhor que esperava a esposa, dias inteiros, na recepção, para perceber se ela convivia com entes do sexo masculino;
  • a pessoas que se sentam nas mesas de convívio de olhos fixos em quem passa, não baixando nunca as vistinhas;
  • a gente que partilha os mesmos espaços de trabalho sem dizer água vai, entrando de novo e nem um bom dia;
  • a gente que nunca responde aos meus bem educados cumprimentos matinais;
  • a gente que se encosta a mim na fila do café e que coloca dinheiro na máquina quando a minha água choca ainda está a descer para o copo de plástico;
  • a gente que passa à frente de toda a gente para o café;
  • a gente que marca o wc com os seus dejectos (deve ser para mostrar que tem os intestinos saudáveis, sei lá);
  • a enfim, gente.

por coincidência (ou por ser a melhor hora) tenho feito a minha pausa matinal ao mesmo tempo em que, pelos vistos, meio edifício vai à rua.

a escolha do timming não é inócua, uma vez que corresponde exactamente a metade do tempo da jornada matinal e, na minha necessidade de esticar as costas e dar dois gestinhos às pernas, junto-me à multidão e faço parte do rebanho que inunda a casa de banho, empanca as filas do café e se amontoa à porta - independentemente das suas funções, necessidades e motivos para ali estar - de cigarro na mão, beatas no chão, copos de café e plásticos de comida rápida que sai de umas das máquinas.

 

então e qual é o problema M.J., sua snob?

 

é que no meio desse amontoado de gente tenho visto, todos os dias, um fulano.

ah, um fulano, que drama!

pois é!

é que o dito, cheiinho até às orelhas de uns olhos de carneiro mal morto, olha-me descaradamente, cima a baixo, e não desvia a vistinha nem quando o confronto. 

é constrangedor em demasia uma vez que:

  • o moço não está a dizer um howudoin;
  • o moço não está a mirar as minhas trombas por serem bonitas uma vez que, a não ser a minha mãe por motivos óbvios e o rapaz que teve a infeliz ideia de se casar comigo, ninguém consegue ver um pingo de beleza nelas. (nem eu).

 

pior! tenho a certeza absoluta que o moço está claramente a:

  • contar as borbulhas;
  • avaliar o tamanho de olheiras;
  • dimensionar os pelos que restam;
  • percepcionar o cieiro nos lábios;
  • enumerar as brancas no cabelo; ou, em última instância,
  • a descortinar uma braguilha aberta.

digo-vos: é altamente desconfortável e faz-me sentir como nas aulas de educação física, quando tinha de saltar barreiras e acabava por cair com elas em cima, numa embrulhada de pés e ferro.  ou como uma porca antes de ir para o matadouro com os presuntos indevidamente firmes. ou como uma gorda que bebe um café de caramelo quando devia estar a beber água da fonte.

 

 

é ridículo e tenho-me contido,  de uma forma monumental, para não lhe deitar a língua de fora. 

 

até hoje!

hoje meus senhores, se o encontrar com olhos de carneiro mal morto, solto-lhe dos dedos do meio. 

os dois.

durante cinco minutos.

 

maluca por maluca não devo destoar muito no meio disto tudo. 

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

não sei nada, nada sei.

por M.J., em 10.03.17

na peixaria de um hipermercado uma senhora de cabelos brancos pede dois robalos.

a peixeira, grande avental branco e galochas, pega num. "esse não", diz a idosa, "antes aquele".

a peixeira pega noutro logo deixado de lado, em função das vontades da senhora. escolhe-os a peso, ora um, ora outro, aos olhos fuinhos da mulher que observa com garra, pedindo antes aquele, aqueloutro e o outro ainda.

no fim, escolhidos os animais, tarefa cumprida, a peixeira pergunta:

- é para amanhar?

e a senhora, num orgulho só visto de quem leu o grande livro das moças, o semanário das donas de casa, uma vida ao serviço do serviço doméstico, olha-me pelo canto do olho e responde:

- não é preciso que eu, com a graça de deus, sei amanhar. 

 

perdi mil pontos no concurso das esposas. 

sou uma inutilidade. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

a M.J. viu acontecer um milagre

por M.J., em 02.03.17

não vão acreditar no que acabou de me acontecer.

deviam - que eu não tenho por hábito inventar historinhas da tanga para vosso divertimento - mas é normal que não acreditem. 

até porque eu própria estou ainda paranóica com isso.

 

há cerca de uma hora, enquanto batia alegremente nas teclas do pc, reparei que meu dedo da mão esquerda estava nu.

sim, meus senhores: nu! sem aliança! sem o anel que aqui foi posto há quase um ano.

nuzinho da silva.

nesse instante fui acometida de um pânico seco.

e isto porque:

  • nos últimos dois meses parti o ecrã do telemóvel, completamente em frangalhos, uma vez.
  • nos últimos dois meses voltei a partir o ecrã do telemóvel, completamente em frangalhos duas vezes, ficando agora metade dele completamente preto.
  • nos últimos dois meses, o meu telemóvel de 200€ ficou a custar €350 com os ecrãs novos que o rapaz mandou vir.
  • mais quatro horas perdidas em montagens do mesmo.
  • nos últimos dois meses abri um precedente para aquilo que o rapaz chama de falta de cuidado pelo que deixei de poder dizer coisas como "tem mais cuidado com as toalhas molhadas espalhadas na cama" ou "tem mais cuidado com as almofadas do sofá caídas pelo chão" e ainda "tem mais cuidado com as meias que não ficaram no cesto".
  • ter mais cuidado é em não partir telemóveis e custa-me muito não ter razão.

 

além disso, a aliança é muitíssimo importante para mim porque:

  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • foi cara.

 

portanto, meus senhores, conseguem perceber que, quando dei conta do meu dedo nu, saí a correr do trabalho, entrei no carro e fui a voar até casa.

ou melhor: tentei ir a voar até casa.

é incrivel que quando mais pressa temos mais obstáculos encontramos:

  • o único semáforo estava vermelho;
  • na rotunda uma senhora de certa idade decidiu travar a meio, perdida.
  • encontrei um camião que transportava carros novos a comer toda a minha faixa.
  • na subida que antecede a minha casa, um idoso atravancava toda a rua em amena cavaqueira com os senhores do lar ilegal.

 

depois de soltar muitas pragas cheguei finalmente a casa.

na minha cabeça uma só ideia: a aliança tinha escorrido do meu dedo quando eu lavava a louça ontem à noite.

oh-meu-deus!

já não bastava gostar de fazer sopas e bolos e pensar em alimentações saudáveis e merdas de dona de casa que há dois anos desprezaria com a alma! não! nããããããão!

o culminar de tudo isso era perder a aliança enquanto lavava a louça. num toma lá que já almoçaste! não é na praia, enquanto banhas os presuntos. não é a escalar. não é a andar de cavalo. não é a andar de montanha russa. não! é a fazer aquilo que mais excitante tem a tua vida: a lavar louça!

 

 

subi as escadas.

na cozinha atirei casaco, lenço e mala para o chão. acometida de coragem abri o armário que fica por baixo da pia e olhei para as tubagens com ar de pânico: para meu bem ia precisar de desmontar aquilo. 

acometida de um frenesim sem lógica, pus a mão num dos canos onde poderia ter ficado retida a aliança e dei em desenroscar. no entanto, como podem compreender, a minha apetência para canalizadora está ao mesmo nível de ser magra e, em vez de desenroscar enrosquei ainda mais!

só a mim! 

aquilo não saía por mais esforço que fizesse. toda eu transpirava e depois de puxar, empurrar, rodar um dos canos soltou-se, exactamente o mesmo que tinha uma espécie de reservatório de porcaria onde a minha aliança poderia ter ficado encalhada.

assim, desato a bater com ele no chão na tentativa de que a dita saísse de lá (repleta de bactérias mas impune).

pois que nada.

nada.

 

quer dizer, saíram grãos de arroz, restos de vegetais, três ossos pequenos e ainda - não perguntem - cascas de ovo. mas aliança nada.

nadinha. nicles!

(mas pickles, acho que sim).

 

foi nesse instante que percebi que, pronto, estava lixada e comecei a praguejar alto. eu tinha:

  • desfeito as tubagens;
  • as mãos repletas de bactérias;
  • o dedo nu;
  • a aliança perdida.

minha santa maria das pias!

 

no chão da cozinha havia resquícios de comida pelo que peguei no garrafão de lixívia e espalhei, ao calhas.

apanhei a tempo o casaco, o lenço e a mala e voltei a pousá-los com nojo porque as minhas mãos ainda não tinham sido devidamente desinfectadas.

tentei pôr os canos no sítio.

usei meio gel anti-bacteriano nas mãos e depois, desanimada e lixada da vida sentei-me na cama, numa choradeira: eu perdera a aliança.

 

e sabem o que aconteceu nesse exacto momento, depois da choradeira?

a aliança apareceu na cama. quer dizer, não apareceu exactamente, uma vez que, na verdade, creio que esteve sempre lá. no entanto, na minha mente, ela havia aparecido pelas minhas lágrimas.

era o meu pequeno milagre.

de que importavam as minhas mãos irritadas com tanto desinfectante? ou o chão da cozinha com cheiro a comida putrefacta e lixívia? ou os canos todos lixados? as minhas lágrimas, meus senhores, toda uma vida desperdiçadas e vistas como chatas e persistentes são causadoras de milagres!

são melhores do que responsos: fazem aparecer coisas perdidas!

 

e é isto.

logo tenho de ligar ao senhorio para que me ajude nas canalizações. também tenho de limpar o chão com toda a lixívia que conseguir comprar e, nos entretantos, no caminho para cá, voltei a despejar o resto do frasco anti-bacteriano nas mãos pelo que, preciso de me abastecer disso também.

mas fiz um milagre!

quantos de vós podem orgulhar-se do mesmo?

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

... não chega a jacaré.

por M.J., em 28.02.17

acho que já contei isto, mas permanece sempre atual.

 

quando comecei a trabalhar num escritório enquanto advogada estagiária, um mês depois da faculdade terminada, não me conseguia habituar ao selecto tratamento de doutora. era doutora por extenso, abreviado ou substítuido por colega para aqui, para ali, para acolá. como que fazendo parte do meu nome, numa espécie de prefixo que eu não acrescentara mas que alguém me colocara para me fazer lembrar onde pertencia agora. a validar-me porque sem ele eu não estava completa e só eu não chegava.

confesso que olhando agora para trás, era minha obrigação ter logo percebido: não estava talhada para a coisa.

 

assim, num almoço de domingo, comentei isso com a mamã, lamentando-me que não passava de uma serrana saloia e que nem a uma coisa supostamente boa achava graça e que não havia meio de me habituar e que às vezes chamavam-me e eu ficava sempre à espera que estivessem a falar para outra pessoa qualquer, olhando de soslaio por cima do ombro para confirmar. 

 

umas semanas mais tarde a mamã ligou-me para o telemóvel e não atendi.

como o assunto era urgente ligou para o escritório.

- estou sim - murmurou na sua voz mais doce - seria possível falar com a Maria João?

e a funcionária logo, pelo na venta, lição estudada, respeito não é respeitinho, de supetão:

- olhe, a senhora vai-me desculpar mas não trabalha connosco nenhuma maria joão.

e a mamã:

- ai desculpe, se calhar enganei-me no número.

e a funcionária, toque de mestre, uns quantos anos a ensinar maneiras às pessoas:

- ou se calhar queria falar com a doutora maria joão. é que, de facto, trabalha cá desde setembro a doutora maria joão...

e a mamã contente, toma lá que já almoçaste, estás mesmo onde queria:

- ah desculpe - a voz visivelmente atrapalhada - deve ser ela sim. mas sabe, quando eu a baptizei a rapariga ficou a chamar-se de maria joão. se agora mudou de nome para doutora e não me avisou vai ter muito que contar.

 

quem nasce lagartixa...

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

e então M.J., essas lentes?

por M.J., em 07.02.17

vão andando nas minhas vistinhas.

de vez em quando.

muitíssimo de vez em quando.

só mesmo às vezes.

 

mas não desmaio.

é um bom princípio, não é?

 

e por falar em lentes, para quem pensa que o problema é actual, encontrei este post de 2015.

2015, meus senhores.

ora leiam lá um bocadinho:

 

ah, e por que é que não usas lentes MJ? 

porque sou uma incapaz! porque sou uma tola que, perante a perspectiva de tocar nos olhos, faz cara azeda, enjoa, torce o nariz, quase chora, numa repulsa inimaginável. imagino até que para colocar as ditas iam ser precisas cinco pessoas a segurar-me para que não batesse em ninguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)

vizinhança

por M.J., em 04.03.15

cheguei a casa há uns dez minutos.

ainda nem tive tempo de me descalçar ou pensar no jantar:

mas já deu tempo para saber que a vizinha de cima está num incrivel bacanal, com guinchos e rangeres de cama.

 

se eu for à janela dar um incentivo, gritando um "segue nisso, dá-lhe com mais força" a mulher aumentará a gritaria ou parará com a vergonha?

que aquilo é de um fôlego, meus senhores, mas um grande fôlego.

 

(mas por que raio haverá ela de achar que todo o prédio quer saber dos seus afazeres?

mesmo a creche ilegal do rés-do-chão esquerdo?)

 

oh gente do catano!

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

dos chinelos

por M.J., em 23.02.15

encontrei uma senhora calçada com uns chinelos de quarto, sem parte da frente, no continente.

eu explicava ao moço, em grandes gestos, que precisávamos mesmo de claras pasteurizadas, porque estou farta de dar cabo das gemas, quando a vi.

por momentos estaquei em silêncio.

já passava das nove, chovia na rua, estava um frio da merda e ali estava uma senhora, com iogurtes  na mão, de chinelos de quarto, calças justas e uma túnica de um tecido estranho.

 

fiquei confusa.

claramente a senhora não era mendiga. nenhum mendigo que se preze compra iogurtes da danone. possivelmente estaria apenas confortável nos seus chinelos de quarto. podia ter joanetes e não conseguir calçar uns sapatos de verniz. ou uma unha encravada em cada pé.

fosse como fosse a senhora estava claramente à vontade na secção dos frescos.

e quando eu pagava acabei por a ver com um senhor janota, de bigode e calça vincada, e um bebé de meses dentro de um cesto qualquer.

 

percebi claramente que a senhora tinha sido mãe há pouco tempo.

e na beleza da maternidade nem sempre há tempo para calçar sapatos.

 

mesmo quando vamos ao continente comprar iogurtes.

Autoria e outros dados (tags, etc)