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o cenário:

 

M.J. e o rapaz estão sentados no sofá, cada um com uma taça cheia de castanhas assadas, a ver star trek depois do jantar.

M.J. descasca as suas muito lentamente e com muito cuidado, colocando as cascas dentro da taça, e vai repetindo, de vez em quando:

* cuidado com o lixo.

* não ponhas cascas no chão que eu não tenho tempo para limpar e a empregada só vem sexta.

* vê lá se não atiras as cascas assim que elas caem na carpete.

* olha lá esse pedacinho de castanha no chão.

 

apesar de M.J estar a ser uma chata do ca...tano, o rapaz mantém-se impávido e sereno, vendo a voyager no espaço, Kathryn Janeway e afins em aventuras e glórias, esboçando um sorriso de vez em quando e ignorando os meus dizeres preocupados. 

 

findas as minhas castanhas ponho pausa na série e levanto-me para ir buscar água.

nesse exacto momento, a mão escapa da taça, a taça dá duas cambalhotas no ar e com toda a solenidade cai em cima da carpete e espalha cascas de castanhas por todo o lado incluindo debaixo do sofá, em cima, na carpete e em todo o lado ou mais houvesse.

 

olho o rapaz esperando uma reacção, ainda em choque com tanto lixo espalhado na sala imaculada. 

ele olha-me de volta e depois de um compasso estranho sem nenhuns dizeres, desata a rir, em garglhadas tão sonantes, as lágrimas a cair quatro a quatro pela cara, acabando por perguntar entre duas e três risadas:

 

- ligo à empregada ou arranjas cinco minutos da tua agenda tão ocupada para limpar estes pedacinhos de castanhas do chão?

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amor

por M.J., em 25.09.17

umas das maravilha do outono é o quantidade de coisas que saem do quintal da mamã.

desta vez, o carro vindo de lá até coimbra parecia um atrelado de feira.

sinto-me relativamente mal no transporte dessas coisas. é aquela ideia do chegar, carregar e vir embora, como se a mamã fosse minha empregada e precisasse de providenciar a minha alimentação. bem sei que as coisas não são assim e que ela sente verdadeira satisfação no dar, no sentir que contribui, na ideia de que o seu amor transborda em coisas físicas.

uma semana antes do almoço quinzenal ela telefona, em intervalos curtos, numa roda viva, com uma listinha de coisas na sua letra bem redonda:

e limões, queres? temos ali tantos a estragar-se.

e ovos? a tua avó tem tantos que metade deles foram para o lixo, tudo estragado. quatro galinhas a pôr todos os dias, bem vês.

e depois, à noite, ainda antes de ir para a cama, quando eu estou a pensar no que será o jantar:

e louro? pus a secar dois ramos de louro enormes. queres que separe umas folhas para levares? não andes a comprar. um euro por umas folhinhas, onde já se viu!

olha e batatas?se não as gastar tenho de as pôr para o lixo daqui a uns tempos. não queres dar ao senhorio? ou à empregada?

 

o rapaz encolhe os ombros nesta demanda de produtos da serra.

ontem perguntou, enquanto encanteirava uma abóbora gigante em cima de outra e dois cabos de cebolas, que podes dar um a alguém, mais dois meses e elas espigam, sabes que não dá para conservar muito tempo:

mas vocês querem alimentar meia cidade, ou quê?

pela mamã, sim, alimentava meia cidade, na ideia de que aqui se come mal, tudo se compra e paga a peso de ouro, desde raminhos de salsa cheios de químicos, a carne prestes a passar de validade e mais barata por isso. tem mesmo absoluto horror a que compre carne no supermercado.

que nojo, exagera muito no nojo, para parecer de fato enjoada, coelho? aquilo ainda é gato! e aqueles porcos cheios de doenças? não compres nada disso.

a culpa também é minha. uma vez caí no erro de lhe contar que tinha comprado um frango estragado e que só percebera em casa, dado o cheiro nauseabundo que tinha. foi uma única vez mas nunca mais tirou aquilo da cabeça. 

queres levar frango? pergunta num dos telefonemas, a lista ao lado.

não mãe, tenho aqui ainda muito.

pois claro, responde, andas a comprar essa porcaria, como o outro que cheirava mal.

foi só uma vez mãe. 

e não chegou?

não vale a pena. é tempo perdido.

 

e tomates? não queres tomates para fazer polpa?

M.J. traz cinco quilos de tomates, que ela congelou (e só não fez a polpa porque sabe que eu gosto de o fazer).

quanto mais enchemos o carro mais fica feliz.

uma animação imensa, na sensação completa de sentido. 

há mesmo legumes que só começou a cultivar quando percebeu que eu gostava: batata doce, xuxus, brócolos, couve flor, abacate. comprou até duas pequenas plantas de mirtilos e maracujás. e uma romãzeira quando o rapaz disse, a um almoço, que gostava de romãs.

há um prazer imenso no dar.

 

e castanhas? perguntou, num outro dia, na semana que passou. tenho aqui muitas.

e abóboras? abóbora menina... ando a dá-las ao porco, não tenho sítio para isto tudo. 

feijão verde? tenho aqui que nunca mais acaba.

e alfaces?

sim mãe, um bocadinho de cada coisa. um bocadinho sim? um bocadinho é meio quilo, não meia aldeia.

 

não vale de nada.

o bocadinho transforma-se em quilos de tudo, que depois me vejo e desvejo para acondicionar.

partilho com a vizinha de baixo, o senhorio e a empregada. o bocadinho transforma-se em abóboras gigantes e batatas doces cujo tamanho nunca tinha visto.

 

e chocolates? ele quer chocolate? pergunta quando estamos já a vir embora, na despedida, a lágrima no canto do olho, como se fossemos para a guerra ou para a china ou de armas e bagagens para dois anos e não duas semanas. 

o quê? pergunto eu a tentar aligeirar o ambiente, também cultivas milka no quintal?

e o rapaz, já com o chocolate na mão e a aletria no buxo, que ela faz de propósito para ele, na sabedoria que é o seu doce favorito:

está calada, não a desafies! qualquer dia chegas a casa e tens uma fábrica de produção de milka de caramelo e avelãs. e olha que esses não partilhas com meia cidade que eu não deixo.

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as análises que ainda não tirei

por M.J., em 13.09.17

ando há um mês para fazer uma colheita de sangue para análise.

sê verdadeira, se faz favor M.J.

ok, pronto! ando há mês e meio e uns dias para fazer uma colheita de sangue para análise. mês e meio, é isso. 

e então porquê?

pura preguiça e desleixo.

é verdade.

não tem absolutamente nada a ver com medo de agulhas ou sangue (também, depois de tudo o que aconteceu e que eu fiz, seria estranhíssimo se assim fosse) tanto mais que até sou daquelas que olha fixamente a agulha ser espetada, sem qualquer tremor ou medo que vá lá, ontem queimei-me no fogão quando retirava o porco para o jantar e a dor foi incomparavelmente maior à mariquice de uma espetadela num dos braços.

pura preguiça, é o que é.

 

ora fica para amanhã, ora amanhã esqueci, ora depois de amanhã não lembrei, ora no outro dia não apetece. e ontem, depois de lavar a louça do jantar, a queimadura na mão bem à vista, decidi num gesto heróico que de amanhã não passava.

até colei, na minha agenda teen, um autocolante que dizia que hoje era dia de análises.

 

portanto, muito bem.

 

hoje saí de casa mais tarde do que gostaria mas não tão tarde que me envergonhasse e desloquei-me, com uma fome dos diabos e a bexiga cheia, ao local da recolha.

tinha procurado na net - é incrível que estando nesta cidade há dois anos (sem contar os que aqui estudei) ainda não saiba metade das coisas úteis - e pareceu-me bem:

  • relativamente perto de casa,
  • sem ser no centro, e
  • com estacionamento gratuito.

melhor só num hipermercado à escolha.

 

quando entrei, uma porta aberta no convite apelativo contra o nevoeiro, encontrei uma recepção vazia de funcionários e duas grávidas e uma senhora (que poderia estar ou não grávida) sentadas nas cadeiras da entrada.

muito bem, pensei, ficando especada em frente ao suposto guichet da recepção (que era uma secretária com um pc, um capacete e uma mochila) aquelas senhoras estarão à espera da sua vez, pelo que depois de olharem as minhas credenciais (é isso que se chama aquiilo que o médico nos passa, não é?) me mandarão sentar.

 

pelo que, pronto, fiquei ali ao alto, em pé e especada, pensando na fome e na vontade de fazer xixi e no quanto o mundo evolui e ainda ninguém inventou uma maneira de saberem se está tudo bem connosco sem ser preciso urinar para dentro de um copo e depois fechá-lo e vir com ele ainda quente na mão, certificando-nos que não há uma pinga de urina ali por fora, e entregando à pessoa da recepção que o recebe com ar muito natural, que é tudo muito natural, mesmo que enfim, aquilo seja mijo e a pessoa esteja, muito provavelmente, a tocar num sítio onde caiu o xixi, ao mesmo tempo que fala do tempo ou do jogo de futebol do dia anterior.

o meu cérebro, às vezes, é uma desgraça.

 

cinco minutos depois entrou - vindo do lado de dentro - um senhor que deduzi ser o funcionário da recepção (ou o dono, sei lá) e o enfermeiro de serviço:

  • calça descaída,
  • t-shirt,
  • cabelo com gel a fazer lembrar anos noventa, 
  • barba de três dias, e
  • nada de bata.

nada contra o visual alternativo, constatei olhando as minhas havainas nos pés, num dia de nevoeiro, nada contra.

pronto, então o homem entrou, sentou-se na cadeira atrás da secretária,

e eu ali ao alto, muito especada, pronta para pedir o copo e ir fazer xixi,

e ele nem tuge nem muge, nem bom dia nem boa tarde,

e eu a achar aquilo estranho

e ele faz um sinal com o queixo, juro que foi com o queixo, assim uma espécie de "anda cá, é a tua vez" à grávida do canto, sem nunca olhar para mim, ali ao alto ainda,

e ela vem e senta-se

e começam os dois a olhar para os papeis dela

e eu ali, ainda em pé, a perceber finalmente que ele não me ia dizer bom dia, nem dar o copo, nem pedir para aguardar nem nada.

juro por tudo o que é mais sagrado, eu caia aqui morta e redonda no chão se isto não aconteceu mesmo.

 

e depois, concluí que, enfim, devia sentar-me muito tranquilamente numa das cadeiras e esperar que o homem voltasse e fizesse aquele gesto com o queixo para me chamar - ou um assobio, também podia ser um assobio - e me desse o copo para fazer xixi, sem dizer água vai, tudo muito natural, tudo muito profissional.

é que era bonito, queres ver? disse-me aos gritos a vozinha esfomeada na minha cabeça enquanto eu me sentava. deves estar é tola mulher, dá meia volta e vai embora!

 

pois que não, sentei-me e observei. 

a grávida olhava para o fulano como um obeso para um pedaço de presunto.

e começaram os dois a falar muito tranquilamente acerca do que ela tinha de fazer, coisas como frasco e xixi,

e ela ria como se ele fosse o bonitão da escola, na fila do bar, no intervalo de português e química, para comprar uma carcaça com manteiga e uma meia de leite (é isso que a juventude come nos intervalos?)

e depois levantam-se os dois,

ele a puxar as calças para cima,

um ar de "sou jovem como o caraças"

e eu a pensar que ele estava mais para os quarenta do que para os trinta e com aquela idade já devia saber que é falta de educação não cumprimentar potenciais clientes e de muito mau gosto atirar-se a grávidas em fim de tempo (ou era só gorda, mas duvido).

e pronto.

 

o homem desapareceu e eu olhei muito tranquilamente a porta.

depois levantei-me e vim-me embora com as análises por tirar (que sa lixe, dizer colheita para análise é chato) e estou agora em casa onde tomei o pequeno almoço ainda incrédula, com os papeis com as cenas que é preciso analisarem-me muito direitinhos em cima da mesa da sala. 

e entretanto o nevoeiro passou e há sol e eu tenho sangue a mais, que precisa de ser analisado.

 

oh, que se lixe, murmuro. em mês e meio, se não morri, também já não morro.

e a vozinha na minha cabeça, a puxar as calças para cima e a ajeitar o cabelo:

mas não é de morte que a coisa se trata, pois não M.J. maria?

pois não.

 

amanhã vou à procura de outro.

de amanhã não passa. 

(e agora como é que descolo o autocolante da minha agenda teen?)

(que consumição!)

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sapatos

por M.J., em 06.09.17

depois de alguns anos a usar muito frequentemente saltos, deixei-me disso e uso só coisinhas rasas.

adoptei os ténis da rockport como calçado diário concluindo que a vida já tem instabilidade suficiente para ter ainda de passar pelas calçadas dos dias num periclitante equilíbrio. a prioridade é caminhar em termos, em vez de me empoleirar em saltos que nadinha têm  a ver comigo.

 

acontece que (em todas as histórias há um acontece que vírgula ou ponto) no domingo fui a um casamento e não pude - ainda que pudesse que o convite não mencionava sapatagem obrigatória - usar os ténis que me fazem companhia aos dias.

logo, saquei de uns sapatos, escondidos no fundo da sapateira e percebi que enfim, estariam em condições para o evento mesmo nos critérios da mamã que me diz, perante o meu desalinho fora de horas, que há um mínimo para tudo e não tenho idade para calçar coisas que escolhi aos 14.

assim seja, pensei num brinde à vida e à roupa da ocasião, e pus-me a caminho, empiriquitada e perfumada, pezinhos bonitos e ancas levantadas. 

 

the end?

não.

no final do casamento, convivência e comida, fotografias e bolo, fogo de artificio e conversas de circunstância, piadinhas e camarão, caminhada para aqui e para ali, soube, muito claramente, que se desse mais dois passos perdia pés e sapatos e era a convidada que passava por aguentar mal a bebida, quando em causa estavam uns saltos desapropriados a pés serranos.

 

na segunda, quando me levantei grogue de sono, percebi que não sabia caminhar.

e hoje tenho ainda os pés pisados do tempo em que respeitei a sapiência da mamã dos mínimos razoáveis.

há um mínimo para tudo, pois claro.

sobretudo um mínimo de respeito por uns pés cansados.

 

no próximo sábado vou a bodas de ouro formais e chiques a valer - isto sem qualquer ironia desnecessária - de circunstância e necessidade de fazer boa figura, com os pés nas orelhas, a servir de brincos. 

ou isso ou torço um, na desculpa para usar chinelos.

de dedo

sem unhas pintadas.

 

não nasci de todo para ser chique.

alguém que sofra do mesmo mal?

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oh vai ver ali:

és mesmo burro

por M.J., em 21.08.17

fui à praia na semana passada.

tinha pouca gente, estranhamente, e não estava o calor infernal dos últimos dias. 

 

na minha frente, depois de almoço, surgiu uma família de três: pai, mãe e filho.

o miúdo, muito branco, uns sete ou oito anos, trazia uma mochila às costas com brinquedos de plástico que, mal abancou no poiso escolhido, espalhou pela areia com mestria.

logo depois, o pai e a mãe atarefaram-se, meios vestidos, na montagem do estandarte que uma ida à praia exige:

corta ventos, guarda sol, toalhas, lancheiras, chapéus, roupas, uma espécie de mini casa preparada para uma tarde, protector solar a um canto, bronzeador noutro e os brinquedos da criança espalhados como pequenitos tesouros de plástico.

 

ninguém deu muita importância ao miúdo, agachado a um canto a mexer na areia.

eu retornei a atenção para o livro e nos minutos seguintes a tranquilidade do cenário familiar à minha frente foi dispersada pelas letras do capítulo onde ia.

 

pouco tempo depois o escândalo:

 a mulher, gorducha e pujante gritou ao miúdo:

que estás tu a fazer?

eu olho novamente em frente, despertada pela gritaria e curiosidade mórbida:

o cenário não tinha mortos nem feridos mas apenas uma criança com uma t-shirt molhada à altura da barriga assim como os calções de praia e as pernas. 

uma criança molhada na praia, pensei, não podia ser o motivo para aquele espectáculo pelo que, deduzi, o escabeche histérico da senhora era talvez motivado por uma ida à água do miúdo às escondidas da boa vigilância parental.

não.

 

a mãe grita para o catraio, novamente:

tu fizeste xixi aqui?

e o miúdo, envergonhado, outros miúdos à volta a começar de olhar, a voz forte da mulher na entoação das duas da tarde:

eu não acredito que tu mijaste aqui, vestido!

e a voz da criança em resposta que não se ouvia. 

e o pai, metido ao barulho, tão gorducho como a mãe, tão pujante como a mãe, mamas de um e outro a competir (se lá fosse para o meio passávamos todos por família):

mas eu disse-te isso ontem porque estávamos dentro de água! onde é que já se viu mijar fora de água? de calções e tudo? então não vês que mijaste a camisola toda?

e o miúdo a olhar para as pernas e os calções de algodão minúsculos e a t-shirt a perceber o erro que lhe era gritado.

e a mãe, abanando a cabeça em descrença:

és tão burro!

e o pai, em concordância:

és mesmo burro!

 

desviei a atenção para o livro enojada.

não com o mijo, que fique bem claro, que é melhor ele mijar ali do que dentro de água ao meu ladinho, enquanto ambos partilhamos um pirulito salgado, de água nas trombas. enjoada por outra coisa, mais profunda:

se aquele miúdo tiver a sensibilidade que eu tinha na idade dele, acreditará durante anos que é, efectivamente, burro.

mas mesmo muito, muito, muito burro.

 

as palavras são armas de arremesso.

mais fortes do que lambadas, castigos, bofetões, beijinhos e presentes. 

e em pleno século XXI, com dezenas de blogues sobre o assunto, psicólogos, revistas, informações, pais a jurar que não há nada mais importante do que filhos, mães a jurar que dariam cinco braços e duas mamas pelos filhos, casais e dizer que sem filhos seriam incompletos no amor, ainda há pais que não sabem a capacidade de ferir de uma palavra. da capacidade de uma palavra produzir cicatrizes traumáticas para todo o sempre.

é que são mesmo burros, caramba!

 

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oh vai ver ali:

pai

por M.J., em 17.08.17

uma amiga de infância contou-me uma vez, num café casual de fim de semana, um episódio que me marcou pela simplicidade e uma certa dimensão de amor que nem sempre entendo.

a história é rápida e conta-se de um trago:

 

depois de acabar a licenciatura demorou cerca de um ano a encontrar trabalho. 

um ano em que voltou a casa dos pais, fez e refez currículos, enviou, procurou, fuçou, desesperou, desistiu e voltou a tentar.

um ano em casa, no quarto de infância, com os quadros de outrora nas paredes e duas bonecas de porcelana em cima de um móvel, a lembrar-lhe que devia ter prosseguido quando, afinal estava de regresso ao passo atrás.

 

no meio desse ano infernal, que a pôs à prova, o pai foi um dia encontrá-la a chorar, copiosamente, agarrada ao computador.

o motivo era evidente, numa costumada recusa a um currículo enviado, muito cordial mas muito negativa. e essa recusa, uma outra igual a tantas, tinha nela aberto uma torrente de pranto, na quebra da apatia e do tédio de uma vida em suspenso, que a fez desafabar que não conseguia mais. que se sentia presa às circunstâncias. que não dava para prosseguir. que estava manietada. que as paredes se abatiam sobre ela. que sentia, sabia disso, que não aguentaria mais um dia que fosse olhar as cores daquela casa, a impedi-la de respirar.

 

no dia a seguir o pai pintou toda a casa.

pintou divisão a divisão, cor por cor, na mudança de uma coisa só, que fosse, para serenar o sofrimento. 

e foi aquela demonstração de amor, de atenção, de consideração pelo sofrimento dela espelhado numa coisita, que a fez levantar a cabeça com mais afinco e fuçar ainda mais até encontrar. 

 

hoje - tantos anos depois - tem um óptimo emprego numa cidade distante e à sua espera uma casa pronta a mudar-se para a receber, sempre que for preciso.

e um pai.

com toda a total dimensão dessa palavra.

 

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oh vai ver ali:

chávenas

por M.J., em 21.04.17

a mamã é operada hoje.

uma pequenina cirurgia sem prognósticos de complicação pelo que rumei à serra cedinho.

antes de sair da cidade parei numa pastelaria para me assegurar que tomava a dose diária de cafeína:

é incrível a sensação de absoluta paz que me afoga quando entro numa pastelaria ou café, de manhã cedo, muito cedo, e há um chocalhar de sons de porcelanas, talheres, pratos e chávenas. o som da máquina de café, num prenúncio de imutabilidade e de que os dias cinzentos terminam tal como os solarengos e haverá sempre café para melhorar as horas.

 

há uns anos, quando conduzia quilómetros para trabalhar, havia um pequenito café em frente ao escritório onde entrava todas as manhãs, antes de me sentar na secretária.

a dona era gorda e servia café queimado.

as janelas deixavam entrar pouca luz, por má disposição e por vidros não muito lavados. havia bolos secos na vitrine. eu entrava, pousava a mala e a marmita numa das mesas e sorvia o café, com muitas delongas, enquanto desfolhava o jornal da região.

o café era queimado. sempre.

a mulher discorria longamente sobre a vida, fosse para mim ou outro - não havia distinção - num monólogo muito dela. 

eu pensava no quão minúsculos eram os meus dias, no quão infeliz me sentia e no quanto precisava de sair do café, directa a casa, no recomeço de mim. 

 

mas havia um ponto que me acalmava a alma:

o exacto momento em que ela pegava na minha chávena e punha na banca, ao lado das outras provocando som, um tilintar, um toque de louças que ressoava pelo café inteiro. como que se fosse partir mas não fosse. como se as chávenas para ali largadas, sem consideração, sem atenção, pudessem desfazer-se em bocados, num tilintar da fragilidade, acabando por mostrar que não.

eu pagava e saía com menos desalento:

as chávenas ainda não haviam quebrado. 

por mais um dia.

eu também não. 

 

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oh vai ver ali:

epitáfio

por M.J., em 23.03.17

então é assim: preparem os lenços, dêem vivas, soltem hurras, engulam as lágrimas: 

vou morrer.

sendo menos melodramática: tenho altas probabilidades de morrer, finar-me, bater a bota, ir desta para melhor, partir, desaparecer num futuro breve, breve, muito breve.

 

explico, levem-me a sério: 

  • arranquei ontem - sem contar, assim à maluca, sem preparação alguma - um dente do siso que pensava ser um dos normais e afinal, nascido e criado prematuro, tinha uma deficiência qualquer que decidiu dar ar de sua graça na semana passada;
  • em consequência sofri - e sofro, oh se sofro - de uma mega hemorragia no sítio onde o mesmo permanecera outrora;
  • a hemorragia era tão grande - e é, oh se é - quese traduziu numa refeição inteirinha do meu próprio sangue, causando-me um enjoo tremendo e levando a que ultrapassasse em muito as calorias recomendadas para o jantar;
  • (tive finalmente um vislumbre daquela coisa de cozer com o cão com o pelo do próprio cão).

em resumo:

é altamente provável que morra de hemorragia, e fique sequinha, sequinha, sem sangue algum, pálida e feia.

 

 

depois:

  • quando a dentista averiguava do siso percebeu que havia uma qualquer coisa esquisita na minha língua. (e não, não era um uso em demasia por falar de mais);
  • é verdade que eu já reparara naquele alto há uns tempos mas assumi - estupidamente - que se tratava de uma qualquer lesão passageira (para hipocondríaca tenho muitas falhas. é que nem nisso sou boa, porra);
  • vai daí e achou que era necessário marcar - com relativa rapidez - uma espécie de cirurgia de retirada do dito alto que deverá ser, depois, mandado para análise.
  • segundo ela nunca se sabe e o seguro morreu de velho.

em resumo - que isto nestas coisas a gente nunca sabe e os melhores são os que têm mais azar:

posso ter uma daquelas coisas antipáticas e ruins na boca e morrer disso.

(ou ficar muda, meu deus, muda!

já pensaram nisso? como raio vou ensinar ao rapaz linguagem gestual?

como raio vou eu aprender??????)

 

 

por fim:

  • andaram aos tiros, ou facadas ou atropelamentos em londres ontem.
  • vou para londres dentro de pouco tempo.
  • num avião.

em resumo:

há uma grande probabilidade que seja atropelada, estropiada, ou outra coisa acabada em ada por um radical qualquer que me transforme numa das setenta virgens de alá.

isso ou uma queda livre do avião, algo bastante usual - e até recomendável - segundo o may day, desastres aéreos.

 

 

pronto, é isto!

e sendo a morte certa, o que me tem ocupado enquanto seguro gelo nas trombas, é optar pela melhor, algo em que não me decido.

  • morrer de hemorragia poderia até ser indolor mas começo a ficar fartissima de engolir sangue, cuspir sangue, ver coágulos de sangue.
  • a minha almofada hoje era uma cabidela sem arroz e carne e é difícil escrever seja o que for com um pedaço de gelo nas fuças e um sabor a ferrugem.
  • pelo que dispenso.

por outro lado:

  • morrer de cancro é horrível.
  • possivelmente, bater a bota enquanto como batatas e peixe frito é muito mais agradável.
  • no entanto, num caso destes é bastante plausível que as pessoas digam, enquanto choram a minha partida "olha, paciência, também ninguém a mandou ir passear. ficasse em casa e agora estava vivinha entre nós". 
  • já ninguém dirá o mesmo se morrer de cancro, não é? quer dizer, quem raio terá lata para mencionar, assim como quem não quer a coisa "olha, paciência, também ninguém a mandou ter uma coisa ruim!?"

 

pelo que, em suma, estou indecisa. 

 

o que sei - com grandes certezas - é o que quero que conste na lápide, morra do que for, gravado a letras douradas:

aqui jaz maria joão por extenso, amiga extremosa, filha carinhosa e esposa fabulosa. 

morreu a tentar salvar toda a sua família de um ataque de tubarões no ártico e os seus feitos serão para sempre cantados pelos trovadores modernos (menos o agir) numa versão em bom do "estou fazendo amor". 

avé guerreira!

 

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vizinhança #2

por M.J., em 20.03.17

tenho uns vizinhos estranhos.

ainda que este seja o lugar mais calmo em que já vivi desde que deixei a serra, os meus vizinhos têm perturbações estranhas (de certeza que dirão o mesmo de mim, mas cada um tem a sua opinião) a que sou obrigada a assistir de camarote:

discussões, inundações (de palavras, era para rimar) opiniões e intromissões entre eles nos seus momentos familiares.

(já falei disso aqui).

 

posso jurar - sem medo de mentir - que o meu apartamento é o mais pacato:

  • somos só dois;
  • passamos demasiado tempo recolhidos nos computadores, livros e phones; 
  • não gritamos (eu sou das que amuam);
  • não soltamos gargalhadas em demasia;
  • eu não uso sapatos de salto;
  • ele não vê futebol;
  • não nos pomos aos saltos quando há um golo, como o meu vizinho de um dos lados que grita acerrimamente um "chupa" sempre que isso acontece (não sei se é quem marca que deve chupar ou se é quem deixa marcar... mas ele insiste muito nisso);
  • não temos filhos em choros nocturnos;
  • não temos um cão que gane a altas horas;
  • não berramos um com o outro;
  • não gostamos de tv com som demasiado alto. 

somos, em resumo, os vizinhos que toda a gente quer ter.

 

até há três semanas.

 

a coisa passou-se num sábado em que tivemos um casal amigo a  jantar às nove da noite (para ser precisa. se vamos contar um episódio doméstico devemos assumir precisão).

eu abri uma garrafa de vinho e bebi com a minha amiga visto que eles, nerds até ao tutano não bebem álcool. assim, só ambas as duas a dar vazão à garrafa, ficámos mais animadas do que o habitual e é provável que às nove e meia falássemos mais alto do que o normal, soltássemos gargalhadas ligeiramente histéricas e lançássemos um ou outro guinchinho idiota de quem não aguenta um copo de vinho.

nada de muito espalhafatoso, nem muito fora de horas: afinal eram nove e meia de um sábado e nós éramos só duas. 

 

pois meus senhores, o que é que acontece?

o meu vizinho, o do chupa no futebol, o do cão que ladra sempre que está sozinho como se lhe estivessem a arrancar os tomates, o que discute com a namorada às duas da manhã mandando-a fazer-se à vida noutro sítio que não ali, o que tem uma companheira que caminha nas escadas como a tropa num dia de gala, o meu vizinho, esse, desata...

aos murros à parede.

com garra.

zangado.

com a razão toda por nos atrevermos a interromper assim a sua paz doméstica e o seu chupa futebolístico.

 

num dia normal eu calar-me-ia.

pediria para falarmos mais baixo.

moderaria o som e o álcool.

sentiria até um pontada de vergonha por ser assim chamada a atenção.

no entanto, naquele dia em específico, o único em meses em que a nossa presença é notada, o único em anos em que há um exagero da nossa parte subiu-me a mostarda ao nariz.

e ninguém gosta da M.J. zangada porque ela faz coisas parvas.

porque ela liga o youtube da tv, põe o seguinte video a dar e canta com ele a plenos pulmões, enquanto toda a gente ri e faz coro com o ritmo dos murros na parede.

 

 

 

é por isso que não bebo: acabo sempre por estalar o verniz.

 

mas mesmo assim, juro, mantenho um ar digno, quando desço as escadas e por azar da vida, o encontro.

e aposto que ele tão cedo não esquece do som do fazer amor com outra pessoa. 

 

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isto é a sério: hoje passo-me.

por M.J., em 15.03.17

desde há uns meses, quando comecei a trabalhar fora do conforto do meu escritório de casa, que descobri pessoas estranhas.

nos últimos tempos a coisa acentuou-se de tal modo que deixei de perceber se sou eu que estou mais estranha do que o habitual (ao género de quem vai em contra-mão na autoestrada sem perceber) ou se tive a peculiaridade oferecida pela vida de conviver com gente mais inábil do que eu nisto da relação pontual com o outro.

 

já vi de tudo:

  • desde o senhor que esperava a esposa, dias inteiros, na recepção, para perceber se ela convivia com entes do sexo masculino;
  • a pessoas que se sentam nas mesas de convívio de olhos fixos em quem passa, não baixando nunca as vistinhas;
  • a gente que partilha os mesmos espaços de trabalho sem dizer água vai, entrando de novo e nem um bom dia;
  • a gente que nunca responde aos meus bem educados cumprimentos matinais;
  • a gente que se encosta a mim na fila do café e que coloca dinheiro na máquina quando a minha água choca ainda está a descer para o copo de plástico;
  • a gente que passa à frente de toda a gente para o café;
  • a gente que marca o wc com os seus dejectos (deve ser para mostrar que tem os intestinos saudáveis, sei lá);
  • a enfim, gente.

por coincidência (ou por ser a melhor hora) tenho feito a minha pausa matinal ao mesmo tempo em que, pelos vistos, meio edifício vai à rua.

a escolha do timming não é inócua, uma vez que corresponde exactamente a metade do tempo da jornada matinal e, na minha necessidade de esticar as costas e dar dois gestinhos às pernas, junto-me à multidão e faço parte do rebanho que inunda a casa de banho, empanca as filas do café e se amontoa à porta - independentemente das suas funções, necessidades e motivos para ali estar - de cigarro na mão, beatas no chão, copos de café e plásticos de comida rápida que sai de umas das máquinas.

 

então e qual é o problema M.J., sua snob?

 

é que no meio desse amontoado de gente tenho visto, todos os dias, um fulano.

ah, um fulano, que drama!

pois é!

é que o dito, cheiinho até às orelhas de uns olhos de carneiro mal morto, olha-me descaradamente, cima a baixo, e não desvia a vistinha nem quando o confronto. 

é constrangedor em demasia uma vez que:

  • o moço não está a dizer um howudoin;
  • o moço não está a mirar as minhas trombas por serem bonitas uma vez que, a não ser a minha mãe por motivos óbvios e o rapaz que teve a infeliz ideia de se casar comigo, ninguém consegue ver um pingo de beleza nelas. (nem eu).

 

pior! tenho a certeza absoluta que o moço está claramente a:

  • contar as borbulhas;
  • avaliar o tamanho de olheiras;
  • dimensionar os pelos que restam;
  • percepcionar o cieiro nos lábios;
  • enumerar as brancas no cabelo; ou, em última instância,
  • a descortinar uma braguilha aberta.

digo-vos: é altamente desconfortável e faz-me sentir como nas aulas de educação física, quando tinha de saltar barreiras e acabava por cair com elas em cima, numa embrulhada de pés e ferro.  ou como uma porca antes de ir para o matadouro com os presuntos indevidamente firmes. ou como uma gorda que bebe um café de caramelo quando devia estar a beber água da fonte.

 

 

é ridículo e tenho-me contido,  de uma forma monumental, para não lhe deitar a língua de fora. 

 

até hoje!

hoje meus senhores, se o encontrar com olhos de carneiro mal morto, solto-lhe dos dedos do meio. 

os dois.

durante cinco minutos.

 

maluca por maluca não devo destoar muito no meio disto tudo. 

 

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deu discussão! (quase porrada)