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era uma vez uma história triste #7

por M.J., em 17.05.17

a rapariga, gorducha, feiinha, casada aos vinte, com quatro filhos aos vinte e cinco, está desempregada desde que estudou.

é o marido, balofo de álcool e gordura, cara imensa, que a mantém, e à prole, trabalhando fora do país, que dentro, dizem, não há dinheiro para um só manter cinco.

a rapariga entra numa espécie de depressão que alimenta no facebook com concentração.

espeta em fotografia de perfil as trombas maquilhadas do dia de casamento e em destaque a fotografia da prole, os putos todos, alinhados, muito direitos.

todos os dias escreve qualquer coisa:

que a vida é uma merda;

que tem saudades do marido;

que lhe apetece morrer.

em cada comentário destes alguém vem perguntar - por vezes a família, por vezes um conhecido - muito solícito e com palavras de amizade "pk coisa?" e "k s passa coisa?", "precisas de alguma coisa, coisa?"

na tentativa de saber, ver, bisbilhotar e contar que os anos passam mas os adros das igrejas permanecem. 

 

todo um rol de queixas:

que o país é feio;

que o marido está longe;

que tem de, sozinha, tomar conta de quatro crianças.

assim, ali exposto no facebook para os quinhentos e dez amigos.

para quê ler um drama ou ir ao cinema quando basta abrir o pc? 

a mulher prossegue e todos os dias é esta dor.

 

enfim, o marido volta a casa, depois de tanta queixa, tanta ânsia, tanta tristeza e decide levá-la com ele, juntamente com a criançada toda.

respiramos de alívio.

deixará de haver ameaças de morte, pensamos, frases de tristeza, concluímos, e citações brasileiras de saudade, suspiramos.

tudo está bem quando acaba bem.

 

mas não.

na última semana a senhora, cansada da rotina, dos dias claros, da ausência de comentários e actividade no facebook, decidiu retomar a ladainha:

tem saudades de casa,

não gosta de onde está,

que lá não se faz nada,

quer voltar para portugal.

retomam as ameaças de morte, concluímos, as frases de tristeza, constatamos, e as citações brasileiras de saudade, percebemos. 

 

 

tudo sempre com as trombas de casamento e a prole alinhada em fotografia de fundo.

 

tudo assim, ali escrito, com muitos ks e pks e estados e imagens de nossa senhora de fátima, rogai por nós, amem.

 

e toda a gente a perguntar, muito natural e inevitavelmente, um retomo ao habitual e normal, season dois, olha que saudades:

"pk coisa?" e "k s passa coisa?", "precisas de alguma coisa, coisa?"

 

não consigo evitar: fez-me lembrar aquela comparação do papel higiénico.

sabeis qual é?

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um amigo meu, em férias no estrangeiro, recebeu um telefonema da empresa onde trabalha a solicitar que voltasse ao trabalho, o mais rápido possível, se fosse naquele dia ainda melhor, porque precisavam dele.

assim. 

de nada valeu anunciar que estava fora do país, que havia descanso e planos, pagamentos e coisas decididas. a empresa foi peremptória no que precisava e, esquecendo os seus direitos, ao que podia recorrer, o que podia fazer, o meu amigo cedeu a bem da sua sanidade mental e do que precisa.

pôs numa balança pós e contras e concluiu, triste como a noite, que sim, abandonaria as férias a meio.

uma merda.

 

a senhora que vai começar a vir cá a casa dar uma limpeza geral, e com a qual falei na semana passada, contou-me, muito aberta e francamente que tivera um cancro de mama há uns anos e ficara sozinha.

para o bem e para o mal era só ela, que o companheiro dera de frosques.

ficara mutilada e só numa época em que precisara de toda a companhia que o mundo lhe pudesse dar.

ficara mutilada, na recusa de pôr prótese ou reconstrução e erguera-se, contando com ela e os seus medos e fantasmas, na procura da sobrevivência, mais ferida na alma do que no peito incompleto, pela quebra de promessas e compromissos. sentindo-se a não valer nada pela ausência provocada. 

uma valente merda.

 

há uns anos, uma amiga minha que trabalhava no mesmo sítio há muito tempo, ficou grávida e viu um familiar próximo sofrer de um cancro.

foi tudo assim numa assentada, notícia boa e notícia má, um toma lá é a vida, amanha-te, arranja-te, pega nas emoções e lida com elas, que é tua obrigação.

logicamente a minha amiga precisou de faltar ao trabalho muito mais do que o habitual, tendo sempre as devidas justificações, desde as consultas pré-natais, ao acompanhamento do familiar doente e convicta que, depois de tantos anos de dedicação, tantas horas a mais não pagas, tantos fins de semana abdicados, tantos dias de sacrificio, iria agora ser recompensada. 

só que não.

passados dois meses despediu-se, voluntariamente, pressionada pela chefia que pegou numa alma em frangalhos e a esmiuçou até a pessoa sentir que não tinha mais opção do que fugir, sair dali, perder todos os direitos, todos os anos de dedicação a bem de quem era e do que podia suportar.

uma senhora dona merda. 

 

lembrei-me destes episódios ontem, enquanto tomava café na varanda e via as mil folhas de algodão que voam pelas árvores e entopem o ar. 

não entendo.

não percebo ao ponto que chegamos.

nunca se viu tanta frase de amor, amizade, complacência, altruísmo e afins.

as palavras juntas correm pelo facebook como cogumelos. como lia ontem na página de um humorista - não recordo do nome, sigo vários - o "já foste" é o novo horóscopo.

as pessoas orgulham-se de evoluir e construir uma sociedade melhor. estamos no tempo em que tudo está ao nosso alcance. aprendemos a seguir. temos séculos de história para aprender e fazer melhor. os animais já não são considerados coisas juridicamente e achamos que o 1.º de maio é um feriado de sol onde há promoções nos supermercados, tal a certeza de que não é preciso lutar por direitos. as pessoas não são trabalhadoras, mas colaboradoras. há assistências a doentes, voluntários, terapias alternativas e a convicção de que a alimentação muda a saúde. o espírito colaborativo muda a internet e a economia de partilha muda o mundo.

o ser humano no seu melhor e mesmo assim, tem dias, nunca estivemos tão mal.

 

não lembraria, por exemplo, ao avô deixar a avó se ela ficasse doente.

mesmo que ela definhasse e ficasse ausente de quem era, e se transformasse numa outra pessoa, o avô, convicto do compromisso que assumira num dia lindo de sol, permaneceria a ferro e fogo ao seu lado. numa completa convicção de amor e responsabilidade.

porque estava escrito nele, como estava escrito que o dia tinha vinte e quatro horas, que o rio corria ao fundo da aldeia e que o limoeiro dava limões e não laranjas, que não se abandonam pessoas frágeis, mesmo quando tudo à nossa volta definha. mesmo quando parece que aquela pessoa abandonou aquele corpo e não é mais quem conhecemos.

faz parte do amor e o amor não existe só quando é conveniente. 

 

a quem lembraria obrigar um trabalhador a abandonar as suas férias, noutro país, com a família, e voltar para "um trabalho urgente" numa empresa com mais de quinhentos? quando é que chegamos à convicção de que os sacrifícios são compartilhados por todos, porque colaboram todos muito juntos, mas os lucros correm apenas para uma das partes?

a quem lembraria torturar emocionalmente uma funcionária grávida com um familiar altamente doente, apenas porque falta mais do que o normal?

 

orgulhamo-nos de conquistas atrás de conquistas. achamos que evoluímos e somos maiores.

mas se dermos uma olhada aos comentários nas redes sociais percebemos que estamos mais narcisistas do que nunca. que achamos que podemos dizer o que quisermos porque é a nossa opinião, mesmo que o único argumento numa discussão seja "estamos num país livre e esta é a minha opinião".

do género:

- tem de voltar à empresa, surgiu um imprevisto.

- mas estou do outro lado do mundo, com a minha família. cheguei ontem, não posso voltar.

- essa é a sua opinião. a minha é que tem de voltar porque é nosso colaborador e surgiu um imprevisto.

- mas já paguei tudo. nem sei se há voos. não me podem fazer isso.

 - isso é a sua opinião. a nossa é outra. veja lá qual quer testar.

- mas... mas tu disseste que me amavas, que ficavas comigo. 

- essa é a tua opinião. percebeste mal. a minha é que não aguento mais ver-te assim. a culpa não é tua, é minha.

- claro que não é culpa minha se tenho um cancro a comer-me o corpo. 

- pois não, mas eu não aguento. é a minha opinião e tenho direito a tê-la. 

- mas eu tenho justificação. tive de ir à consulta.

- pois foi. e a justificação vale o que vale para as necessidades da empresa. não tinha ninguém para o seu lugar. não posso ficar sem ninguém no seu lugar.

- mas eu tenho direito de faltar. estou grávida.

- essa é a sua opinião. não é a minha. quer ver qual das duas opiniões vale mais?

 

uma merda. 

uma valente merda. 

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era uma vez uma história triste #5

por M.J., em 24.01.17

seu grandessissimo filho dá puta, seu cabrão de merda.

os gritos da mulher eram frequentes e ouviam-se pela aldeia inteira, numa espécie de morte anunciada, a voz sonante - de quem podia declamar poesia - a matar o som do nada na serra, 

seu filho dá puta, eu mato-te hoje,

se não em porrada pelo menos em berros,

seu cabrão de merda,

assim, dito sem medo, em berros, corneta grave.

 

a mulher era forte, grande, usava o cabelo à escovinha e esgoelava ao filho impropérios destes, tão banais em berros sonantes como quem diz,

estás de castigo, ficas sem mesada,

em repressensão serena à criança que se portou mal. 

 

para o resto das pessoas um portento de boa educação:

olhos baixos, sem dar nas vistas, um muito bom dia, um muito boa tarde, um até amanhã se deus quiser. o cabelo à escovinha, as calças larguinhas, braços fortes, solidez no corpo, metida na vida e sem nada a apontar a não ser aquele,

seu filho dá puta,

a acentuação no à, como quem descarrega a raiva numa vogal aberta,

eu racho-te hoje,

em gritos berrados, de tal forma que não havia quem não escutasse, dirigidos à criança que se tornou rapaz e que ouvia, dia sim, dia não, a mulher de cabelo à escovinha, olhos raiados de sangue, um portento de boa educação para o mundo,

eu mato-te seu cabrão de merda,

porque se esquecera de tirar os sapatos, esmurrara a bicicleta ou não fora buscar o molho de erva. 

seu grandessissimo filho dá puta,

miudo mais novo do que eu, olhos baixos, voz fina, sentido de humor apurado e aqueles gritos, dia sim, dia não, lançados em fúria, um ódio cuspido,

seu filho dá puta.

 

e a mamã, a minha, que ouvia aquilo pelos campos e pelo ar, o roçar pelas árvores a correr em bando como pássaros, serena, quieta, ombros encolhidos e cabeça abanar de quem não entende:

pois então se o filho é dela e ela o chama filho da puta, o insulto é para ele ou para ela?

 

e eu, sem entender, a tremer de medo de gritos e berros e os silêncios da vergonha onde se ouve mais voz do que vento, a perceber mais tarde - tão mais tarde que o rapaz é agora quase homem - que o insulto era dele:

que ninguém quer ser filho de uma puta.

 

vi há uns tempos aquela criança, agora quase homem.

ria em gargalhadas e perdeu o medo no fundo dos olhos. 

só não sei se esqueceu o , com acento, no meio de filho e puta. 

 

não me venham com a história de que uma galheta na fralda são maus tratos.

maus tratos era aquela fúria em palavras, gritada, anunciada, berrada ao mundo. 

 

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ou a rubrica

era uma vez uma história triste #5

 

aqui diz zero, zero e ela está a dizer trinta,

roupa preta, criança num carro que grita em protesto, cabelo comprido e sotaque estranho. ao lado uma imensidão de espaço, numa espécie de quarentena imposta, gente espalhada nos cantos opostos,

senha trinta e dois, por favor,

a voz estridente da senhora atrás do balcão, lenço vermelho ao pescoço. um velho muito velho, tão velho que não tem mal que se chame velho, levanta-se de um dos bancos e aproxima-se lentamente, enquanto tira a boina. apoia-se na mármore do balcão em frente à senhora do lenço e maquilhagem borratada.

 

quando entrei o cenário já era este.

as pessoas acoplavam-se em pares, longe da mulher de roupa preta, criança em gritos, sotaque cerrado e cabelo preto imenso. sentei-me no banco ao lado, na espera da minha vez que se previa longa: dez pessoas à frente e os gritos de uma criança, num carrinho empurrado pela mulher de preto.

 

na chamada de uma nova pessoa após o velho muito velho,

senha trinta e três se faz favor,

a mulher, voz chateada, a frustração a aumentar,

aqui diz zero, zero, e ela está a dizer trinta,

aumenta o tom, a criança grita mais alto enquanto observo, canto do olho, que chatice, faltam nove pessoas à minha frente e ainda mais esta que deixou passar a vez por não entender que é 0033.

levanto-me, aproximo-me dela:

posso ver a sua senha? 

a voz num murmúrio.

responde-me com desconfiança, ainda que contente pela atenção, 

aqui diz zero, zero e ela está sempre a gritar trinta, foda-se,

o foda-se em muleta de conversa, atirado para ali numa afirmação de poderio, ar de desafio, pensamentos através dos olhos comigo não brincas tu, gorda de merda.

 

pego na senha: é o número vinte e três. a mulher deve estar ali há quinze minutos a lançar para o ar a ladaínha do "zero, zero". talvez tenha sido por isso que toda a gente se afastou.

aproximo-me do balcão, murmuro baixinho:

aquela senhora não consegue perceber o sistema de senhas e já passou a vez dela. pode atendê-la a seguir por favor?

a funcionária olha-me com desdém e finge que não entende. encolhe os ombros e solta uma opinião,

mais uma para o rendimento mínimo.

corrijo-a mais por formação, do que vontade:

rendimento social de inserção. rendimento mínimo não existe agora.

atrás de mim a criança guincha mais alto. a funcionária volta a encolher os ombros:

para ser de inserção, era preciso que se quisessem inserir. e essa gente só percebe a inserção do dinheiro. senha trinta e quatro, por favor.

 

alguém se aproxima do balcão. volto a sentar-me, perplexa e cobarde. a criança berra mais alto, a mulher olha o mundo sem entender,

aqui diz zero, zero, e ela está a dizer trinta.

faltam oito pessoas para eu ser atendida.

venho-me embora sem esperar. 

lá dizia zero, zero. 

 

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conta-se de um trago, sem muita coisa, adjectivação ou mesuras:

o casal na casa dos trinta e muito, bem de vida, emprego estável e casa certa descobre que está grávido,

estamos grávidos,

no anúncio à família, alegria evidente de quem não espera o que ai vem mas não faria melhor se esperasse.

e nove meses depois a criança nasce. um ser pequenino, lindito, desprotegido e frágil. alteram-se rotinas, motivações, horas e planos. há a vida e há o centro da vida,

coitadinha, tão pequenina.

e a criança cresce, rodeada em amor e devoção paternal,

não esqueças o casaco, o joão é mau? eu falo com a mãe dele. dá cá que eu faço essa conta. tanto trabalho de casa? vai brincar, se tiveres falta não interessa. negativa? quem é a professora? deve saber tanto disso como eu. se tens tarde livre vou buscar-te, não ficas lá a fazer nada. tens razão, eu vou-te levar e trazer, no autocarro cheira mal.

e vai perdendo aos poucos a gordura infantil e as tranças pelas costas. 

coitadinha, tão pequenina,

e a mamã e o papá são a vida, o centro, e a menina é a vida e o centro, e os coleguinhas são maus, onde já se viu, dois deles apanhados aos beijos atrás do balneário, uma sem vergonhice, criados ao deus dará, telemóvel para quê? vê aqui a novela com a mamã.

e aos dezoito anos entra na universidade,

coitadinha, tão pequenina,

mamã e papá a escolherem casa, mas eu não quero estar sozinha, um deles a permanecer, fazer a cama e lavar casa de banho, almoço e jantar a horas certas, cantina não serve que ela não come nada de jeito quando está sozinha,

coitadinha, tão pequenina.

e dez dias depois desiste que universidade não é para ela. os professores não entendem, o mundo é grande e mete medo e faz frio e,

coitadinha, tão pequenina

e depois fica doente,

não entendo doutor, fizemos sempre tudo, ansiedade de quê? tristeza porquê? pois se fizemos sempre o que nos era pedido, se a criamos com tanto amor, essa medicação serve para quê?

coitadinha, tão pequenina,

e aos vinte e três anos os dias desenrolam-se no sofá e na cama, medicação e vida na janela, que o mundo é grande e mete medo e faz frio, e é doente, incapaz de trabalhar, se ao menos as pessoas não fossem tão más e o mundo tão exigente,

coitadinha, tão pequenina,

e a completa incapacidade de lidar com as coisas básicas do quotidiano,

olha lá a menina tem o penso cheio: vais mudá-lo ou vou lá eu?

 

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a história é breve e repetitiva: a rapariga girinha, magrinha, coisinha e plenamente satisfeita com a aparência, dedicando a atenção devida a cabelos e unhas, ancas e peitos, engravida e esquece-se do que era outrora. pega na máxima que "é preciso comer por dois" e quando dá conta está uma pequenina lontra.

nada de mal.

diz-se que a gravidez é estado de graça e menos é mais. mesmo que o mais passe da barriga para as omoplatas, pescoço e pernas, e a carinha outrora laroca fique só gordoca. ai de quem fizer reparo. gravidez é bênção de deus, gordura formosura, ninguém controla o que quer o bebé, a hormona tem muita força e baldes de gelado são precisos para o crescimento da criança.

uma atrocidade que só depois se toma consciência: a criança sai em gritos pipi fora (pelo menos passa por lá, não me apoquentem) e ao fim de um ano a mamã bonita não perdeu barriga, braços, pernas e queixo. não há mal nenhum. cuidar de recém nascido é dose, cansa, não se dorme, não se pensa, não se come o que é suposto comer. exercita-se costas, mamas e de vez em quando braços mas a gordura permanece, acoplada onde pode.

a menina lindita é agora gordita. tem o cabelo impecável, a unha devidamente pintada e usa salto, que ao menos os sapatos de outrora ainda servem, alongam a perna e diz que dá a ilusão de emagrecer. dá nada. apenas uma valente dor de pernas e duas chouriças equilibradas em agulhas. 

a menina lindita é agora gordita.

mas não faz mal mesmo fazendo. não se assume que é preconceito. não se chamam os burros pelos nomes pois que já bem basta o que ela sente. não se explica que é preciso força porque ela tem mais é que se dedicar à criança. aceita-se, encolhe-se os ombros, finge-se que não se vê enfardar açúcar e doses industriais de massa. escondem-se as fotos de corpo do facebook, usam-se correctores de maquilhagem e fazem-se contornos que disfarçam a gordura.

a menina gordita sente-se mal por já não se sentir lindita: mas não tem a força, a motivação e o espírito de sacrifício que é preciso para mudar.

 

não me julguem mal. sou gorda. sempre fui gorda. creio até que nasci gorda. mas não meus senhores, não tenho ossos largos, compleição forte ou metabolismo lento.  - ou tenho, mas não é isso que causa a estria, o queixo a mais, o braço gorducho.

eu sou dotada de uma extraordinária vontade de comer e uma incansável preguiça no que diz respeito a mexer o traseiro para exercício físico. sou uma preguiçosa comilona, as coisas são como são e assumo: a culpa é integralmente minha.

no ano passado perdi cerca de dezassete quilos.

a coisa atingiu-me quando percebi que não cabia num pijama. NUM PIJAMA, meus senhores. para quem não sabe, por norma, os pijamas esticam, são maleáveis e cabem mesmo numa vaca gorda: pois que em mim nada. aquele em especifico mal passava, apertava ancas e barriga.

uma absoluta vergonha causada unicamente pelo meu desleixo.

haviam sido anos de intensa frustração no trabalho e vingara-me na comida. engordara mais do que alguma vez achara ser possível e olhem que sempre fui gorda. comia doses industriais de hidratos, açúcar e afins. não mexia uma palha porque dizia que não tinha tempo (apesar de ter tempo para ver tv, filmes e estar no pc a jogar merdinhas). quando me chamavam a atenção inventava desculpas, alegava as circunstâncias: trabalho muito. não tenho tempo. não consigo.

em todo o tempo fingi que aquela montanha de carne não era eu e que eu não vivia ali. é incrível a capacidade de dissociação entre corpo e cérebro e esta pequena lontra sabe-o por experiência:

eu não cabia no filho da mãe de um pijama!

naquele dia não me chamei gordita: estava, meus senhores e minhas senhoras, atendei, obesa! com todos os nomes, letras e sons que a palavra tem. e bem que vos digo que, ao lado da palavra que usam para denominar o pipi (começada por c e acabada em a) não há, para mim, palavra mais feia: obesa! obesidade! doente. 

o resto é sabido. reeducação alimentar (não acredito em dietas), muita frustração (o açúcar é efectivamente viciante), muitas recaídas, muita praga rogada, muito espírito de sacrifício (continuo a odiar fazer exercício e a adorar comer). preciso de emagrecer muito ainda (há fotos minhas no instagram do casamento e bem se vê que sou tudo menos magra) e todos os dias cometo erros: há muito exercício que não faço, muita desculpa que invento para comer chocolate e muita caloria inútil que ingiro.

gorda, obesa por minha culpa, meus senhores, minha única exclusiva culpa.

se as circunstâncias em que vivi ajudaram a chegar a este ponto? evidentemente! mas se em ultima instância eu era a responsável pela porcaria que comia e sabia que não devia? mais evidente ainda! 

 

lembrei-me disto ao ver a foto da menina grávida, agora mãe há mais de um ano, no facebook. o cabelo está impecábel. as unhas devidamente arranjadas. a maquilhagem o melhor possível. mas o duplo queixo, bochechas, pescoço, a barriga, pernas, braços e o resto permanecem com gordura do que ela alguma vez imaginou. 

gostava de saber que desculpas diz a si mesma.

bem sei quais eram - e são - as minhas. 

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era uma vez uma história triste #2

por M.J., em 12.07.16

maria e zé nunca casaram.

que não era preciso dizia o zé. que a vida a dois não se compadece com formalidades. que o amor vive enquanto vive e não é um papel que o legitima. que as assinaturas matam a paixão e o compromisso maior é dos dois, não da sociedade e até têm ana, seis anos de vida, dentes da frente a cair, a comprovar amor maior que o peito, a transbordar em cabelos com totós e saias de veludo. 

a mãe da maria diz-lhe que se case. podem até fazer o baptizado ao mesmo tempo, festa mais linda, a ana a levar as alianças, pequena noiva ao lado da mamã, amigos e avós, tios e primos, flores e branco, arroz e água benta.

o zé não quer. ana há-de escolher a religião quando quiser e souber a noção de escolha. 

maria acede.

vivem na mesma casa, chama-o de marido. as questões práticas são resolvidas. partilham a vida e o dinheiro. não se pensa quem paga o quê, ambos trabalham, a conta é dos dois, a casa e o empréstimo, o carro comprado com dinheiro junto, no nome do zé que é quem trata dessas coisas.

o zé cria uma empresa. gere um restaurante. a maria não entra nos papeluchos, não é preciso, nem são casados, que bom, não há assinaturas a mais, uma maçada. passa lá as tardes de domingo e as noites da semana, trabalhando numa fábrica durante o dia.

casa-te, diz-lhe a mãe preocupada, afinal o que é de quem?

dos dois, diz a maria, casada em coração, que até queria um papel mas não é preciso, o amor é forte e há uma filha, ali herdeira a garantir o património futuro.

o zé chega a casa um dia e anuncia separação.

então e a casa? pergunta maria. minha, responde zé, empréstimo quase pago, o nome dele ali sozinho, no dia do registo não foram os dois, uma maçada que maria dispensou.

então e o carro? pergunta maria. meu, responde zé, o nome dele, no dia da compra foi sozinho, maria nem liga a veículos, ainda usa o velhinho que o pai ofereceu.

então e o restaurante? pergunta maria. meu responde o zé, a firma é dele, o arrendamento também, até o nome "restaurante "o zé", não zé e maria.

o amor não precisa de papéis, dizia o zé e também maria, na convicção maior para calar a mãe. 

ah, se tivesse um papelito, responde-lhe o advogado! tão mais simples, tão mais rápido, tão mais barato na ruptura dos negócios da vida quando os atropelos do amor calcam compromissos de vontades. 

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era uma vez uma história triste

por M.J., em 05.07.16

uma amiga tem uma amiga que sempre quis ser mãe.

a amiga casa e, nove meses e dois dias depois tem na sua frente, depois de suores, sangues e gritinhos de dor - mas dor boa porque sempre foi o que quis - uma menina.

a amiga da minha amiga queria muito uma menina (desde que se recordava de ter memórias) porque podia vesti-la com vestidos de croché e pôr laçarotes nos cabelos.

a amiga da minha amiga também tinha um nome para a filha desde que andara no jardim infantil e a sua melhor amiga se chamava mila. sem e antes do mila e i antes do a.  

a filha da amiga da minha amiga foi, por isso, registada com o nome de mila. 

uns meses depois, sem saber explicar como nem porquê a amiga da minha amiga foi diagnosticada com depressão pós parto. desde o dia em que tivera a mila no colo percebera que não sentia nada que lhe disseram que ia sentir. chateava-a também o facto da mila berrar dia e noite, com dores e sapinhos e otites e cólicas e dentes. chateava-a o facto de a mila não ter cabelo grande para lhe poder pôr laçarotes e parecer um pato com a fralda, sempre cheia e grossa que, com a graça de deus, a mila tinha bons intestinos. 

a amiga da minha amiga começou, cada hora com mais força, a querer estar menos tempo com a filha e um dia deixou-a em casa sozinha, a chorar durante horas enquanto ouvia musica nos phones na esplanada ao lado.

depois do diagnóstico a amiga da minha amiga percebeu que era uma doença e como, tal não tinha culpa. os médicos disseram-lhe que as hormonas são uma coisa lixada e às vezes provocam estas coisas mas que com o tempo passaria, desde que ela continuasse a medicação e fizesse terapia. 

cinco anos mais tarde a amiga da minha amiga ainda deixa a mila, sem e no início e i antes do a, todas as manhãs na casa da avó e vai buscá-la já depois do jantar, banho tomado e a dormir, pondo-a na cama sem a acordar.

a amiga que me contou isto não entende a doença.

eu entendo.

e tenho pena da mila. 

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e você, que tem com isso?

por M.J., em 21.01.15

ou era uma vez uma história triste.

 

fui na hora de almoço, num instantinho, ver a mãe do moço ao hospital.

depois de estacionar o carro, debaixo de um manto de chuva, vi uma senhora, já velhinha, cair redonda no chão, ainda que amparada por outra, muito magra, quase tísica. foi uma queda feia, de braços e pernas nuas numa saia preta, a raspar no chão.

aproximei-me, preocupada:

a tísica puxava-a já, sem qualquer cuidado, por um braço.

 

quando cheguei perto delas a velhinha já estava de pé, novamente a tentar caminhar, ainda que toda curvada, periclitante, a gemer.

para meu espanto, a puta da tisica, cabelo colado à cabeça, feia que nem mil escaravelhos, puxava-a por um braço, numa rapidez impossível de acompanhar por pernas velhas, cansadas, sem coordenação.

 

outra senhora aproximou-se também, indignada, com as palavras na boca que me emudeceram.

creio que murmurou, em voz ríspida, que a senhora não conseguia caminhar e que não valia a pena puxá-la. 

a tísica resmungou qualquer coisa, que bem sabia que a outra não podia caminhar mas tinha que ir à consulta dos olhos:

- ande, dizia ela, quase em berros, caminhe.

 

a senhora que se aproximara voltou a insistir, numa amabilidade que eu não tinha, prontificando-se a levar a velhinha à porta do hospital, com o carro, que não a puxasse, que a estava a magoar. 

- não é preciso - a tísica, quase aos gritos. e depois virando-se para a velha - caminhe ou quê?

 

naquele momento vi-me a mim mesma, daqui a uns anos, velha, resmungona, rezingona, gorda e com osteoporose, a ser puxada para uma consulta das cataratas por uma fulana qualquer, que quer é despachar aquilo para ir fumar o cigarrinho na esquina.

acabei por exclamar, em nervos:

- mas de que vale mandar caminhar se a senhora não consegue? 

- e você, quem tem com isso? 

a tísica, ar de má, a querer apanhar um bofardo nas trombas, voz de desafio: eu é que sei.

 

estaquei. 

com um safanão, eu que nem gosto de violência nem de conflitos, podia abaná-la até lhe cair a cabeleira.

ainda assim, não fiz nada, na cobardia que me consome.

às vezes sou quase eu a tísica, mesmo que gorda, na minha incapacidade de agir.

 

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publicado às 17:11

era uma vez uma história triste

por M.J., em 07.01.15

era uma vez, pela vigésima vez, um casal que se suportava na rotina dos dias.

dormiam juntos, na mesma cama, afastando os corpos, um do outro, no asco que provocava a pele nua, no toque de um corpo.

tratavam-se mal.

com palavras que ouviram uma vida inteira. repetiam um ao outro coisas como puta, cabão, filho de uma égua.

comiam juntos, na mesma cozinha onde comiam há mais de quarenta anos.

tinham os filhos criados.

acordavam cedo, calejavam as mãos.

viviam, sobreviviam, seguiam.

 

às vezes ele chegava bêbado a casa depois de uma noite de copos, na única coisa que fazia, quando saía. sempre o fizera, tal como o seu pai e antes dele o pai do pai.

ela já o avisara que ele tinha um problema com o vinho e que devia fazer o tratamento como o vizinho do lado, que estivera internado e agora não podia ver álcool. ele rira-se na cara dela, dentes caídos, e bebera mais um copo, lábios esticados, do garrafão ao lado da pia, na cozinha.

 

viam na televisão coisas como novelas.

ele apagava o aparelho quando ela se sentava, cansada, derreada, a ver.

as putas da televisão só enganavam as pessoas. mulher decente não vê televisão. faz o jantar e vai dormir.  às vezes queria batê-la mas a polícia já lá fora casa e ele desistira da ideia, com medo da cadeia.

sua puta, dizia,

seu cabrão, ela respondia.

e assim se passaram os anos.

 

um dia ela acordou e ficou parada, quieta, na manhã que chegava.

tinha passado uma vida ao lado daquele homem. não sabia mais nem melhor. não sabia quem podia ter sido. nunca pensara nisso sequer.

trabalhara uma vida. ouvira-o chamar os mimos com que a presenteava em palavras. aturara-lhe as bebedeiras e os cabelos no ralo.

não sabia nada. só que estava farta. cansada. derreada e queria ver a novela, que passava às sete.

 

foi à cozinha.

a manhã clareava. na gaveta do fundo estava a faca comprida de matar o porco. pegou-lhe com curiosidade, na lâmina afiada. foi ao quarto. cheirava a bafio e a álcool e ele dormia com a boca aberta. não hesitou um segundo e espetou-lhe na garganta, mesmo no sitio onde o vira, anos a fio, a espetar nos porcos que criava no quintal.

 

não deitou muito sangue o desgraçado.

ela deitou-se ao lado dele e esperou. às sete ia dar a novela.

dorme bem, seu cabrão, despediu-se, antes de se virar para o lado e dormir.

em paz.

 

(o que foi? unicórnios e arco-íris é na tasca do lado).

 

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