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pito e frango do campo

por M.J., em 20.02.17

ontem meus senhores, estive dez minutos a tentar perceber uma indignação.

eu, que por norma, percebo as indignações, as reivindicações do mundo, fiquei de boca aberta, sem perceber se aquilo era verdade ou uma cena muito parva para os apanhados.

percebi ao fim daquele tempo todo que era verdade e ia-se-me caindo tudo.

 

explico.

uma senhora, muito chateada, clamava ao mundo, ofendidíssima, o engano, a burla que fora sujeita, por ter comprado um frango do campo, a três euros e qualquer coisa o quilo, e o mesmo ter tido uma alimentação de 70% de cereais.

 

portanto, meus senhores, aquela pessoa queria que o pito tivesse sido alimentado a bifes!

que tivesse tomado um pequeno almoço de bacon com ovos, seus primos, dado umas corridas à volta do campo para fortalecer as coxas, almoçado umas cinco batatas doces com queijo, feito três horas de ginásio à tarde e comido brócolos ao jantar.

cereais é que não! milho? está tudo tolo! mas onde é que pitos comem milho!?

a minha avó, por exemplo, sempre criou porcos para os dar como alimento às galinhas!

 

juro, mas juro que não entendo a visão distorcida da maioria das pessoas que, nascida e criada numa cidade, não sabe o que raio é viver numa aldeia e criar animais. é que há de tudo.

há quem ache que:

  • os animais na província (acima de lisboa é província, né?) são criados por parolos que não sabem ler e que, romanticamente, se deitam com eles na própria cama;
  • os animais na província são praticamente pessoas.
  • na província é muito fácil e barato criar animais porque há espaço. basicamente, eles até se alimentam sozinhos.
  • na província os frangos do campo são lançados à solta na serra, com uma faca do mato no bolso, e alimentam-se de minhocas e dos restos das carcaças que os tigres deixam por lá.

 

três palavras:

ma-tem-se!

 

por acaso, o frango do campo daquela marca em concreto - de que a senhora clamava indignações - é criado, efectivamente, ao ar livre. tanto mais que as normas de certificação de frango do campo exigem que os mesmos tenham uma alimentação específica e um determinado espaço para se movimentarem (em nada igual aos frangos do aviário).

demoram é mais tempo a crescer e é por isso que são mais caros.

evidentemente que as alminhas que nunca foram uma aldeia - e acham que o leite vem do frigorífico - não conseguem perceber isso e reclamam por dar três euros por um galo que demora meses a deixar de ser pito.

uma consumição!

 

 

e é por isso meus senhores, que eu, M.J. maria, nascida e criada no meio do nada, tenho a solução para estes vossos anseios:

ide viver para a aldeia.

há milhares de metros quadrados ao abandono e a preço de saldo. podem ser fundamentalistas o quanto quiserem na alimentação. podem chocar os próprios ovos para fazer galinhas e alimentar porcos que transformam em bacon. podem andar ao sol a regar milho e ir correr atrás dos pitos, antes do jantar, para os fazer para a ceia. claro que, no vosso caso, olham para o pito, pensam com muita força para ele se transformar em carne e ele suicida-se, depena-se a si próprio, limpa-se de entranhas e desloca-se até a uma covete de esferovite, emplastificando-se e estando fresquíssimo para vossa alimentação.

é assim mesmo.

 

no vosso caso, evidentemente, não vão precisar de o apanhar, pô-lo dentro do funil para o efeito e cortar-lhe a cabeça enquanto esperam que não esperneie muito.

não vão ficar salpicados com o sangue nem empurrar com força as patas para baixo.

não vão pegar numa panela de água a ferver e pôr-lhe em cima, enquanto sentem o maravilhoso cheiro nauseabundo a animais mortos e cocó que sai das penas.

e no fim,também não o vão abrir ao meio, pensando se começam por cortar a pele do rabo e puxar por lá as tripas ou se o abrem mesmo, arrancando entranhas com precisão.

 

sim, é esta a beleza do campo e de matar animais para se comer.

mas faz-se porque é necessário. porque se comemos carne, lamento muito informar mas ela não vem do supermercado. e quando vem, a um euro e meio o quilo, é depois de passar por condições muito piores do que aqueles que são criados por gente na aldeia, e que os mata assim de forma rudimentar*

 

não percebo o que vai na cabeça da maioria das pessoas.

é normal que, quando nunca vivenciamos uma situação, a olhemos da maneira que somos. mas daí a achar que o pito não deve comer cereais... então come o quê? outro pito?

 

oh gente do catano!

 

*(não digo que os frangos do campo criados em larga escala são mortos pela ti maria, depois do jantar. mas sei que têm uma vida muito melhor do que os de aviário e que a sua criação é muito mais dispendiosa).

 

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