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das pessoas e eu

por M.J., em 08.02.17

eles continuaram.

sorriram mais e choraram. talvez menos. apanharam sol em dias de verão e viram chuva cair por entre vidros foscos no inverno e fizeram planos e mudaram de vida e tomaram café em pastelarias com cheiro a pão fresco.

fizeram novos amigos e sentiram novas coisas e trilharam novos mundos.

 

eu não.

para com eles fiquei lá atrás. no exacto sitio que levou à quebra.

também sorri e chorei e apanhei sol e vi chuva e fiz planos e mudei de vida e passei horas sentada em pastelarias com cheiro de pão fresco e bolos doces.

fiz amigos e perdi amigos.

 

para com eles permaneço lá atrás, teimosamente, batendo o pé. sabendo, na minha loucura de rancor, a dimensão da perda, numa certeza de razão que não interessa mas é minha.

 

no mundo dos loucos a sua loucura é a única lucidez que faz sentido.

e nela permaneço lá atrás na espera do que nunca vai chegar uma vez que a razão assiste a todos. ainda que a minha razão seja maior.

sempre foi.

 

e afinal se chegasse tenho a certeza que percebia a sua desnecessidade.

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do comigo

por M.J., em 20.04.15

passo pela minha vida como quem vai ao cinema.

vejo-a ao de longe, incomodo-me com o ruído de quem come pipocas ao lado, emociono-me com as lágrimas que vejo cair no ecrã e não são minhas, sorrio ao de leve com os risos que não são meus e venho-me embora no fim sabendo que aquilo foi muito bonito mas não é nada comigo.

a minha vida é isso mesmo: não é nada comigo.

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publicado às 16:35

do ser

por M.J., em 18.03.15

consigo sentir a dor de que fui feita um dia. a dor que eu era. o corte na pele, a ausência de sono, a desnecessidade de comer. a falta de qualquer perspectiva, objectivo, clareza ou racionalidade.

consigo sentir o medo a correr-me pela pele, como minúsculos choques eléctricos. consigo sentir a angústia, o desespero em falta de palavras.

consigo sentir-me no que era.

estranhamente não me consigo sentir no que sou.

 

tem dias que sei que só sei ser trevas.

e quando não as sou simplesmente não sou.

 

 

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banalidades

por M.J., em 07.03.15

tenho uma brutal dor de cabeça que me persegue até aos ossos.

não passa por mais porcarias que tome. acredito que, tarda nada, se espalhe até à barriga e eu acabe a noite na casa de banho a praguejar.

 

passei o dia de um lado para o outro.

estava sol quente na serra e a água corria selvagem no rio, ao fundo. o céu permanecia mais azul do que nos últimos dias, de uma limpidez de pássaros em cantos e trinados matando o silêncio da terra.

 

quando regressámos a casa passámos pela praia.

um mar de gente em frente ao mar azul, ao fundo, e ondas revoltas de espuma branca. na calmaria da tarde o INEM cortou o ar por causa de um idoso sentado ao canto, num muro, ar cansado e pálido de morte. uma multidão acercou-se, curiosa, a querer saber. olhei por de trás dos óculos escuros a esperar sangue e desgraça tal a gritaria da ambulância e a multidão em redor. nada de grave, perdi o interesse.

 

em casa estendi roupa no estendal novo, esticadinho fora da marquise.

a árvore do jardim em frente, a encimar um candeeiro de parque idílico, tem as flores, de um rosa pálido, a abrir. escurecia lentamente. nas janelas em frente uma vizinha olhava compenetrada um tacho vermelho e, na janela de um apartamento em baixo, um rapaz musculado, em tronco nu, fumava languidamente olhando o jardim. cozinhei com a janela da cozinha aberta, esquecida das indiscrições dos vizinhos e  apenas a fechei quando a par com os odores de laranja e carne, saídos do forno, a miúda do andar de baixo quebrou a melancolia do anoitecer em gritos histéricos acompanhados do ladrar rouco do cão.

 

estou sentada no sofá.

a temperatura desceu e enrolei-me numa manta. não me apetece chá e comi maçã assada na tentativa de adoçar a noite. estou velha. esta manhã, no sol que batia no espelho do carro vi, sem sombra de qualquer dúvida, brancas infindas perto das orelhas.

 

há uns anos atrás, não muitos, estaria a esta hora em bares, com roupas interessantes e saltos nos pés, a fumar sisha, a beber como se o mundo pudesse acabar amanhã e a querer viver tudo, naquela hora, na certeza que cada momento mal vivido era vida perdida. agora estou aqui. num pijama largo demais, uma manta em cima das pernas, a fazer caretas à tv onde passam programas obtusos e pequeninos.

 

talvez se chame crescimento.

eu creio, tristemente, com as minhas brancas na cabeça e a minha manta nas perna, que se chama estagnação. aquela coisa que aliada à rotina me permite viver sem achar que sobrevivo.

 

já mencionei que me dói a cabeça?

 

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ponto de situação

por M.J., em 02.03.15

há cheiro de maçã e canela por toda a casa, a assar lentamente no forno.

para mim.

a vizinha de baixo canta a plenos pulmões.

 

mal apanhei ar fresco hoje, enclausurada na minha vida. continua a doer-me a cabeça.

sonhei esta noite que a minha aliança se partia em quatro pedaços e eu ficava numa estátua de gente.

roubei o meu correio perante o olhar reprovar de um senhor magrito que passava com um cão.

cheira a maçã assada com canela pela casa.

 

escureceu e dói.

 

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deu discussão! (quase porrada)