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ódio

por M.J., em 10.07.17

a primeira vez que senti ódio visceral tinha sete anos e andava na escola primária.

eu era, como sou, uma trapalhada ambulante: gordita, mau feitio, ar mandão, rezingona, carente, chata, cabelos sem graça e uma péssima conjugação de roupa, que oscilava entre a vontade da mamã e o que a avó achava adequado, numa conjugação estranha de fatos de treino rosa neón dos power rangers com uma blusa de linho de formidáveis golas de renda.

 

a mamã trabalhava o dia todo, naquela época, numa fábrica de confecções longe da aldeia. era o tempo áureo da indústria e por todo o lado havia um armazém com centenas de máquinas de costura e mulheres sentadas, dobradas, o dia todo a cozer.

o facto de estar o dia todo longe da minha mãe causava-me ânsias.

sempre fomos apegadas de uma forma primitiva com sentimentos estranhos que iam do desespero a uma angústia sem nome sempre que ela se atrasava ou não respondia aos meus chamados durante a noite. coisas que, creio, a terapia explicaria, se me desse a vontade de voltar.

 

aos sete anos a mamã, longe de mim durante o dia, fazia questão de me mostrar que eu estivera nos seus pensamentos: um punhado de rebuçados doces quando chegava; um livro sobre os amigos da floresta no fim do mês; uma caixa de cereais que não se vendia na aldeia de vez em quando e, um dia, um elástico para o cabelo que ela mesma fez na fábrica, na hora de almoço. era um elástico estranho. funcional, lá isso era, mas no tecido e padrão com que costuravam na época: militar.

talvez hoje estivesse na moda, quem sabe*, mas na altura não estava.

usavam-se saias coloridas - nunca mais esqueço a saia amarela de uma amiga ainda hoje, com as suas duas tranças compridas e uns olhos gigantes, o mais bonito ser que eu achava existir na minha infância - elásticos com bolinhas azuis e combinações de cores, num pandã adequado.

já eu usava as combinações esquisitas de duas vontades de ferro da mamã e da avó e o meu elástico da tropa no cabelo. 

 

um dia, na hora de almoço, a cantina térrea ao lado do campo de terra, as árvores ao fundo, a menina bem da escola, filha de uma personalidade ilustre da aldeia, sabedora da sua posição - as crianças sabem sempre - apontou o meu elástico e gozou, muito alto e muito bem, sem a minha alarvidade ou espalhafato, sorrisinho ao canto do lábio e cabelo impecavelmente alinhado. gozou forte e feio, mas em bem, com o elástico que a mamã me dera, dias antes e que simbolizava a certeza de que pensava em mim constantemente.

foi a primeira vez que senti o tal ódio profundo.

um sentimento atroz que me fez dores de barriga e lágrimas abundantes, mesmo que eu já soubesse muito o que eram umas e outras, e me perseguiu durante muito tempo, numa conjugação estranha de factores ao longo da vida.

 

lembrei-me disto na semana passada, como tantas outras coisas que o cérebro me recorda quando preciso de clarear a mente e descobrir onde estou.

é estranho que me venham à memória dias que não sabia já terem existido, momentos que pensava não serem importantes ou horas perdidas que nem sabia que me podia lembrar. 

 

conto isto não com o objectivo final de "e olhem onde estamos as duas hoje" (até porque não acredito que quem fomos aos sete anos e as acções que por ali tomamos, desta pequenez, sejam reflexo do que somos e fazemos aos trinta) mas porque me lembrei que a primeira vez que odiei alguém, num sentimento de antipatia que me perseguiu o resto da vida - se me perguntarem da moça hoje em dia, que nem sei onde para, não sinto grande coisita por ela - foi porque apontaram o dedo ao amor abismal que sentia pela mamã.

pensando bem nisso, parece-me um dos motivos mais válidos para odiar. 

 

*fui ver à net, numa pesquisa curiosa: parece que se vende hoje, até, como uma coisa bonita. nunca tão bonito como o meu mas, ainda assim, aceitável aos olhos da moda. 

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vizinha

por M.J., em 31.05.17

a sala fica na penumbra depois de jantar.

 

acende um candeeiro de pé, colocado estrategicamente ao pé da janela/porta. a luz é amarelada e trémula. da parte de fora, quando passamos, antevemos por entre as cortinas a pacatez da sala. o sofá grande e largo ao canto com a tv em frente. um tapete felpudo e uma pequena mesa de apoio. um aparador e uma estante grossa com livros.

que não sei quais são.

a minha indiscrição nunca me permitiu ler as lombadas.

 

o que me agrada naquela pacatez, seja em dias invernosos ou de verão, a noite a começar, a tv ligada, a luz do candeeiro, é a sensação de paz. cada coisa colocada no devido lugar, numa rotina constante e eterna. com a sua serventia traçada e sem se desviar disso mesmo.

jantar - feito.

arrumar a cozinha - feito.

arrumar a sala - feito.

desligar as luzes - feito.

acender o candeeiro - feito.

correr as cortinas brancas - feito.

sentar no sofá - feito.

ligar a tv para o serão das novelas até à meia noite - feito.

levantar a meio para ir buscar um chá - feito.

ou um licor em dias festivos - feito

com a devida paz. a devida pacatez. a devida ordem - feito.

sem uma migalha fora do lugar. sem permitir a entrada de uma mosca - feito.

viver - feito.

 

sem o caramba que me atrasei para o jantar, vamos tomar café? bem que me podias ajudar a arrumar a cozinha, também tenho de trabalhar, vamos rever aquilo que está pendente? se vais ligar para um cliente vai para a sala, ainda não lavamos a louça, olha lá quando vem a empregada? regaste as plantas? são dez da noite e ainda não jantamos, esqueci-me de passar as camisas, liga-me aí a impressora, e se fossemos caminhar depois de jantar? chegas a que horas amanhã? já passa das onze e não arrumamos a cozinha, amanhã sempre vais para lisboa? há roupa na corda, dobras enquanto eu apanho? queria ler um bocado hoje, filme? qual filme? e se mandássemos vir frango? podíamos ir comer sushi, este chão tem migalhas, para quê as luzes todas acesas? olha as melgas, fecha as janelas.

 

sei daquelas rotinas da minha vizinha do rés do chão porque lhas adivinho, juntas com o que passa pela janela. e invejo aquela paz certa de quem encontrou o sítio das coisas.

em tempos, quando andava no segundo ou terceiro ano de faculdade, os primeiros indícios da depressão ou stress ou personalidade ou feitio - misturo tudo porque está tudo ligado - foram evidentes em mim. a sensação de perda era tão grande que não sabia um centímetro de quem era. nessa altura desenvolvera com as minhas vizinhas da avenida onde vivia uma amizade peculiar. não tínhamos nada em comum. eu era a garota da serra, bravia e mau feitio, desconfiada e triste e elas eram senhoras da cidade, citadinas e polidas. uma delas mesmo, com posses económicas, que nunca saía de casa sem estar maquilhada, crescera num tempo em que as senhoras tocavam piano e falavam francês.

não sei o que lhes podia eu agradar. mas um dia, quando a minha expressão estava mais triste, o meu ar mais pesaroso e a sensação de absoluta perda maior, essa mesmo, a mais polida, convidou-me a passar os serões com ela em sua casa. 

jantávamos às oito.

depois arrumávamos a cozinha, as duas, em conversas banais e sentávamo-nos nos sofás antigos da sala, às florzinhas, a ver as novelas que passavam. havia uma luz de um candeeiro, trémula na passagem do tempo. a meio bebericávamos chá e, em dias mais felizes, licor de laranja, de figo ou de café. falávamos dos dias de outrora e vivíamos as novelas como coisas sérias e seguras.

falei aqui do ínicio dessa amizade que se prolongou durante os anos de curso.

 

foi um dos tempos onde senti absoluta pertença mesmo que fosse tudo provisório, incerto e quase caridoso.

pela certeza de rotina. de segurança. de paz. 

 

quero acreditar que a minha vizinha do rés do chão, gorda e velhota, que alimenta os gatos vadios das redondezas e fica na varanda, às vezes, com uma grande barriga a ver passar as tardes, tem esta mesma paz, segurança e rotina.

é que, se analisar bem as coisas, ela está a mostrar-me como serei daqui a uns (poucos, bem mais poucos) anos. 

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dúvidas

por M.J., em 18.05.17

aos 16 anos tinha certezas de tudo.

do que queria, do que não queria, quem era e quem não era.

certezas do que acreditava. do que estava certo e totalmente errado, sem meias medidas. o meu cérebro era um pedaço de água límpido, plenamente consciente de tudo. 

eu era e por ser sabia quem era.

 

aos 29 - ainda não tenho 30 e quero gozar esse facto o mais tempo que puder -  perdi totalmente essa capacidade.

o mundo deixou de ser transparente e claro.

as minhas convicções desapareceram e deixei de saber no que acredito. evidentemente que há coisas que claras, quase transparentes de tão lúcidas: onde vivo, como me chamo, que idade tenho, onde nasci. mas tudo o resto é uma continua aprendizagem, um completo reformular de coisas, um total e absurdo questionamento.

sei onde nasci mas não sei onde é a minha casa.

sei quem são os meus pais e o amor que lhes devoto, mas não o entendo na sua totalidade e completa essência.

sei quais são os valores por que me pauto, mas não todos e alguns perdem-se e outros encontram-se.

sei o que certo mas não sei o que é certo e sei o que é errado mas não sei o que é errado.

não há certezas de nada nem em questões tão fraturantes.

fui obrigada por uma data de circunstâncias a olhar sempre para o caso em concreto e não generalizar, mesmo que na maioria das vezes caia nessa falácia.

aponto o dedo ao Outro, em impulso e depois perco horas num questionamento do que faria no lugar do Outro mesmo nunca sabendo ao todo porque não o sou, nas suas particularidades e circunstâncias.

questiono muito mais do que afirmo e mesmo quando afirmo acabo por questionar.

 

aos 29 não sei bem o que que quero porque vou querendo e deixando de querer à medida que o tempo passa.

aos 29 as coisas são uma espécie de neblina que vou desbravando sem saber bem quem me espera do outro lado que sou eu.

 

não imagino o tempo ou a personalidade dos outros no que diz respeito a descobrir quem são e o que querem.

na maior parte das vezes, acredito até - sem certeza alguma - que grande parte das pessoas se vá deixando ir, dominada pelos traços de personalidade e circunstâncias sem pensar, raciocinar, perceber os motivos do que sente ou do caminho que optou. 

queria tanto ser mais do que isso e ao mesmo tempo não ser.

 

deus, como é difícil. 

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oh vai ver ali:

quotas de desgraças

por M.J., em 15.05.17

tenho andado com insónias recorrentes. 

o filme é sempre o mesmo: chego à cama e dói-me a vida, aliada ao braço que ficou bom depois da fisioterapia mas começou novamente a chatear-me há umas semanas. depois tudo se torna uma pequenita tortura. os lençóis dobram-se sobre o corpo, há calor a mais que se transforma em frio e um sem número de pensamentos recorrentes que me assaltam como num cerco desprevenido, causando a vulnerabilidade que insisto em pôr para trás das costas ao longo do dia.

uma consumição.

 

ontem fez um ano de casamento.

não trocamos flores nem juras e procurei à pressa uma foto do dia só para assinar a coisa sem grandes foguetes.

a nossa vida começou antes do casamento e passou muito para além daquele dia, na constante caminhada diária de viver na partilha. porque se há coisa que descobri este ano - isto as emoções são como são e nem sempre as controlamos - é a inevitabilidade da total partilha quando se decide uma vida em comum. ou em comunhão, diria o padre. a ausência de segredos, planos individuais ou o "eu quero". a ausência de uma tristeza egocentrista a causar uma dor apenas própria, ou uma alegria de vitórias vivida por um só.

uma partilha constante de sonhos, planos, objectivos, medos, inseguranças e incertezas. há uma partilha constante de receios e fantasmas mesmo quando me sento na varanda de madrugada, de cálice de vinho na mão - que se não fumo algo tem de substituir a mão vazia na lassidão - a ponderar se o que tenho me chega ou desisto de vez. 

há uma total partilha em igualdade de circunstâncias e às vezes, quando nos deitamos e chegam as insónias e os lençóis são carvão aceso no corpo e tenho frio e calor e há um gato que mia no jardim e um vizinho que caminha pela casa e mil fantasmas que voltam de fundo do passado onde os prendi, e mil situações que não fechei na fuga da personalidade que sou, e quando me dói a alma no sono que não chega e percebo, numa epifânia quase constante que ele ali está e dorme, na respiração pausada dos serenos, o corpo abandonado ao meu lado, a entrega total a quem sou mesmo sendo eu - como é possível? - mesmo nas minhas insónias e fantasmas e medos e eu, só eu como eu, toco-o ligeiramente para saber se é real

serei o rei que sonha que é borboleta ou a borboleta que sonha que é rei?

é esta mesmo a minha vida ou vou perceber, a qualquer instante, que tudo se desmorona e tenho de recomeçar outra vez, carregando traumas e medos, pedaços de mim desfeitos, novamente, tudo muito ruim e queimado, uma pequena selva de medo? 

é mesmo ele ali e esta é a nossa vida e somos dois mesmo que eu sinta, às vezes, que somos quase um, e vamos seguir e continuar e amanhã vamos estar ainda aqui, e os dias permanecem na paz de cafés de cevada e pão com manteiga ou há uma volatilidade que pode esfumar tudo isto num piscar de olhos?

 

tenho tanto medo, disse-lhe um dia, tenho tanto medo de estar a viver toda a quota de coisas boas disponíveis a uma pessoa, e tarda nada receba o que é suposto, na balança do equilíbrio karmico, mesmo que não acredite, e qualquer dia venha novamente a desgraça da dor para me lembrar que eu sou eu e eu não sou esta.

e ele, baixinho, a caminhada na tarde que caía, as primeiras flores de primavera:

não te preocupes. encheste já, no que ficou para trás, a tua quota de desgraças de vida. agora e o que aí vem é só e apenas para compensar.

 

é, não é?

 

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tempo e amigos

por M.J., em 11.05.17

a ideia de que temos o triplo dos amigos aos 15 do que temos aos 30 pode ser verdadeira mas comigo não cola. 

e talvez isso aconteça por diversos motivos:

porque não entendo totalmente a dimensão da palavra amigo;

porque nunca fui propriamente a rainha do social;

porque me sei dotada de uma total inabilidade do relacionamento com o outro em várias vertentes.

talvez porque por esse(s) facto(s) me sinto mais acompanhada agora do que outrora, mesmo que a quantidade das pessoas que habitam os meus dias vá substancialmente diminuindo.

 

é que na verdade a fórmula é batida mas razoávbel: não interessam os muitos, interessam os bons.

e desculpem lá, desconfio sempre das pessoas que se assumem como tendo mil amigos, uma constante entrada e saída de gente disposta a estar, ser, permanecer, dar atenção e companheirismo, acompanhar nas derrotas mas, sobretudo e o mais difícil, vibrar com as vitórias.

é muito simples e basta pensar: quantos amigos tinham aos 15 que ficassem verdadeiramente felizes com as vossas conquistas, por mais irrisórias que fossem à época (vistas com os olhos de hoje, bem entendido, que na altura era enormes na sua dimensão)? que sentissem quase como deles as vossas vitórias e se alegrassem genuinamente com a vossa felicidade?

talvez não muitos, como não muitos serão os de hoje.

as coisas são como são e basta enumerarem mentalmente as pessoas que fazem parte da vossa vida e pelas quais sentem essa... empatia de felicidade pela felicidade:

não são muitas, pois não?

é normal, faz parte.

 

 

mas se aos quinze era um deixa andar, a vida em grande e completa pela frente, uma eternidade de tempo e dias longos na companhia do outro, mesmo que não soubéssemos quem éramos ou o que procurávamos, a companhia pela companhia, a afinidade pela afinidade, aos 30 a vida é mais do que isso e no meu caso, procuro que o meu tempo seja gasto em mais do que o "porque sim".

não há porque sins.

há a vontade de continuar a conhecer ou estar com quem faz parte e partilho a vida (onde se incluem uns três quatro amigos e alguma família) e os outros.

e relativamente aos outros o meu tempo é limitado e o tempo que lhes dedico é ponderado e pensado. 

 

não tenho agora o tempo em que o tempo nos parecia infinito.

gastá-lo no só porque sim, em convívios que não me trazem nada além de uma sensação de maçada, em pessoas pelas quais perdi empatia, que o tempo levou e não faço tenção alguma de recuperar, é uma tempo totalmente desperdiçado nas mil coisas onde o poderia usar.

 

não se enganem mais senhores: o tempo é a coisa mais valiosa de que dispõem. 

eu faço tenção de o gastar com quem fica genuinamente feliz por mim (e vice-versa). 

e vocês?

 

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25 de abril

por M.J., em 24.04.17

a primeira vez que soube do significado do 25 de abril tinha 9 ou 10 anos e uma quadra da escola para fazer em casa.

o título seria qualquer coisa como "o 25 de abril para mim" e depois de concluir pela rima com "jardim" fiz um longo poema sobre rosas e malmequeres, abelhas e morangos.

 

a avó leu as palavras alinhadas e escritas com uma letra gigante muito desfeita, muito feia, um esbardalhanço de tinta e borrões,

escreve tão mal, esta miúda,

e abanando a cabeça com desilusão no olhar perguntou:

mas tu sabes ao menos o que é o 25 de abril?

e eu que não, que não sabia, achava que era feriado mas haviam tantos e tirando o natal escapavam-se-me todos.

uma consumição já aos oito.

 

a avó sentou-se comigo num murito do quintal.

haviam laranjas numa laranjeira antiga, galinhas ao fundo e uma ameixoeira grande.

o silêncio era atroz - algo que não lembro mas depreendo, que nunca se queima o silêncio na aldeia - e contou, muito séria, muito longa, muito solene, o que fora a revolução.

contou baixinho, quase em surdina, olhando de soslaio possíveis escutas porque há hábitos que não morrem e medos que não desaparecem:

enumerou dias e torturas.

falou de gente que eu conhecia e do que passara.

contou acontecimentos com conhecimento de causa e autoridade.

respondeu a todas as perguntas de infância de quem não entendia o que era "não poder falar", "não poder pensar", "não poder ser diferente".

revelou segredos antigos de família, que eu não compreendera por criança, e levou-me a crescer muito rápido naquele dia.

 

o meu poema, alinhado e grande, letra desconchavada e tinta borrada, foi o melhor segundo a professora, que me presenteou com uma estrela (ou seria uma cara sorridente?) colada no canto da folha:

o meu prémio, o meu troféu por qualidade. 

 

mas não me lembro de festejar.

foi o meu primeiro contacto com um medo superior do homem na impotência do próprio homem.

foi a primeira certeza de que os adultos não podem tudo, não conseguem tudo, não são tudo.

foi a primeira ideia de que havia no mundo uma coisa chamada "ditadura" e que ia muito para além do "come e cala-te, vai para a cama, estás de castigo".

foi a primeira sensação de que o homem tortura o homem, no significado da palavra.

 

só anos mais tarde compreendi a total beleza rara do 25 de abril, o seu significado como um todo e onde nos trouxe.

 

e hoje tenho tanto medo que o mundo se vá esquecendo dele, encaminhando-nos cada vez mais para aquele meu terror primitivo, num dia à tarde, com uma avó destemida e aterrorizada, a contar-me sobre a privação da liberdade de ser. 

 

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chávenas

por M.J., em 21.04.17

a mamã é operada hoje.

uma pequenina cirurgia sem prognósticos de complicação pelo que rumei à serra cedinho.

antes de sair da cidade parei numa pastelaria para me assegurar que tomava a dose diária de cafeína:

é incrível a sensação de absoluta paz que me afoga quando entro numa pastelaria ou café, de manhã cedo, muito cedo, e há um chocalhar de sons de porcelanas, talheres, pratos e chávenas. o som da máquina de café, num prenúncio de imutabilidade e de que os dias cinzentos terminam tal como os solarengos e haverá sempre café para melhorar as horas.

 

há uns anos, quando conduzia quilómetros para trabalhar, havia um pequenito café em frente ao escritório onde entrava todas as manhãs, antes de me sentar na secretária.

a dona era gorda e servia café queimado.

as janelas deixavam entrar pouca luz, por má disposição e por vidros não muito lavados. havia bolos secos na vitrine. eu entrava, pousava a mala e a marmita numa das mesas e sorvia o café, com muitas delongas, enquanto desfolhava o jornal da região.

o café era queimado. sempre.

a mulher discorria longamente sobre a vida, fosse para mim ou outro - não havia distinção - num monólogo muito dela. 

eu pensava no quão minúsculos eram os meus dias, no quão infeliz me sentia e no quanto precisava de sair do café, directa a casa, no recomeço de mim. 

 

mas havia um ponto que me acalmava a alma:

o exacto momento em que ela pegava na minha chávena e punha na banca, ao lado das outras provocando som, um tilintar, um toque de louças que ressoava pelo café inteiro. como que se fosse partir mas não fosse. como se as chávenas para ali largadas, sem consideração, sem atenção, pudessem desfazer-se em bocados, num tilintar da fragilidade, acabando por mostrar que não.

eu pagava e saía com menos desalento:

as chávenas ainda não haviam quebrado. 

por mais um dia.

eu também não. 

 

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para-quedas

por M.J., em 19.04.17

este ano faço trinta.

não sei onde se meteu o tempo uma vez que sinto ter vivido muito mais do que era suposto.

não sei o que fiz aos dias e aos anos uma vez que não os vi passar e foi como se de repente, num repentismo estranho, desse conta de mim aqui ainda que, quando me olho ao espelho, não me reconheça.

 

este ano faço trinta e tenho uma série de vídeos de londres.

apareço ora desfocada ora focada de mais, a câmara colada à cara que duplica de tamanho. tenho brancas, imensas apenas de um dos lados (vá-se lá entender) e mal reconheço a minha voz. dizem que nos ouvimos de forma diferente e eu não sou excepção.

fiquei a olhar-me, pernas, tronco e membros a sorrir para a câmara e é como se visse outra.

aquela não sou eu porque não me reconheço em mim.

aquela não tem todos os traços que devia ter, na passagem dos anos.

aquela não tem todas as rugas que devia ter.

aquela não tem um desgaste nos olhos.

aquela não tem mil anos e é estranho porque no tempo que vivi, na evolução que senti em mim, é como se tivesse passado por décadas de vida, muito mais que três, embrulhada num limbo de incertezas.

 

este ano faço trinta anos. 

às vezes dou por mim especada, perdida em centenas de momentos vividos que revivo com uma clareza quase dolorida.

e sinto saudades imensas - mesmo do que doeu a pontos de morte - perdida numa nostalgia velha de que tudo é ténue. revivo pequenos minutos, longos abraços, horas de choro e gargalhadas imensas. embrulho num mesmo espaço e tempo o eu de outrora com o eu de hoje e de repente avalio quem fui com os olhos de quem sou e é uma misturada de sentimentos do que devia ter feito e não fiz e vice-versa.

 

este faço trinta anos e poderia jurar que eram sessenta.

faço trinta anos e não consigo parar de pensar que já vivi o melhor.

que não há muito mais que me espere porque perco juventude. porque daqui não podem vir dias maiores, mais cheios, mais doloridos ou felizes.

faço trinta anos e constato, muito tristemente, que nada mais me pode surpreender a sério, provocar lágrimas de riso ou dar-me aquela sensação absurda de descarga de adrenalina.

quase como se fosse trilhar um caminho vestida de mim mas sendo outra qualquer.

 

faço trinta anos e foda-se, para assinalar o marco vou saltar de para-quedas nesse mesmo dia.

a minha crise dos quarenta chegou dez anos antes.

lindo serviço.

 

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epitáfio

por M.J., em 23.03.17

então é assim: preparem os lenços, dêem vivas, soltem hurras, engulam as lágrimas: 

vou morrer.

sendo menos melodramática: tenho altas probabilidades de morrer, finar-me, bater a bota, ir desta para melhor, partir, desaparecer num futuro breve, breve, muito breve.

 

explico, levem-me a sério: 

  • arranquei ontem - sem contar, assim à maluca, sem preparação alguma - um dente do siso que pensava ser um dos normais e afinal, nascido e criado prematuro, tinha uma deficiência qualquer que decidiu dar ar de sua graça na semana passada;
  • em consequência sofri - e sofro, oh se sofro - de uma mega hemorragia no sítio onde o mesmo permanecera outrora;
  • a hemorragia era tão grande - e é, oh se é - quese traduziu numa refeição inteirinha do meu próprio sangue, causando-me um enjoo tremendo e levando a que ultrapassasse em muito as calorias recomendadas para o jantar;
  • (tive finalmente um vislumbre daquela coisa de cozer com o cão com o pelo do próprio cão).

em resumo:

é altamente provável que morra de hemorragia, e fique sequinha, sequinha, sem sangue algum, pálida e feia.

 

 

depois:

  • quando a dentista averiguava do siso percebeu que havia uma qualquer coisa esquisita na minha língua. (e não, não era um uso em demasia por falar de mais);
  • é verdade que eu já reparara naquele alto há uns tempos mas assumi - estupidamente - que se tratava de uma qualquer lesão passageira (para hipocondríaca tenho muitas falhas. é que nem nisso sou boa, porra);
  • vai daí e achou que era necessário marcar - com relativa rapidez - uma espécie de cirurgia de retirada do dito alto que deverá ser, depois, mandado para análise.
  • segundo ela nunca se sabe e o seguro morreu de velho.

em resumo - que isto nestas coisas a gente nunca sabe e os melhores são os que têm mais azar:

posso ter uma daquelas coisas antipáticas e ruins na boca e morrer disso.

(ou ficar muda, meu deus, muda!

já pensaram nisso? como raio vou ensinar ao rapaz linguagem gestual?

como raio vou eu aprender??????)

 

 

por fim:

  • andaram aos tiros, ou facadas ou atropelamentos em londres ontem.
  • vou para londres dentro de pouco tempo.
  • num avião.

em resumo:

há uma grande probabilidade que seja atropelada, estropiada, ou outra coisa acabada em ada por um radical qualquer que me transforme numa das setenta virgens de alá.

isso ou uma queda livre do avião, algo bastante usual - e até recomendável - segundo o may day, desastres aéreos.

 

 

pronto, é isto!

e sendo a morte certa, o que me tem ocupado enquanto seguro gelo nas trombas, é optar pela melhor, algo em que não me decido.

  • morrer de hemorragia poderia até ser indolor mas começo a ficar fartissima de engolir sangue, cuspir sangue, ver coágulos de sangue.
  • a minha almofada hoje era uma cabidela sem arroz e carne e é difícil escrever seja o que for com um pedaço de gelo nas fuças e um sabor a ferrugem.
  • pelo que dispenso.

por outro lado:

  • morrer de cancro é horrível.
  • possivelmente, bater a bota enquanto como batatas e peixe frito é muito mais agradável.
  • no entanto, num caso destes é bastante plausível que as pessoas digam, enquanto choram a minha partida "olha, paciência, também ninguém a mandou ir passear. ficasse em casa e agora estava vivinha entre nós". 
  • já ninguém dirá o mesmo se morrer de cancro, não é? quer dizer, quem raio terá lata para mencionar, assim como quem não quer a coisa "olha, paciência, também ninguém a mandou ter uma coisa ruim!?"

 

pelo que, em suma, estou indecisa. 

 

o que sei - com grandes certezas - é o que quero que conste na lápide, morra do que for, gravado a letras douradas:

aqui jaz maria joão por extenso, amiga extremosa, filha carinhosa e esposa fabulosa. 

morreu a tentar salvar toda a sua família de um ataque de tubarões no ártico e os seus feitos serão para sempre cantados pelos trovadores modernos (menos o agir) numa versão em bom do "estou fazendo amor". 

avé guerreira!

 

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eu fugitiva me confesso

por M.J., em 22.03.17

não sei quando os meus fins de semana se transformaram na imensidão de nada que são actualmente.

 

não que tivessem sido, em tempos, largos dias de animação, festas, saltos, maquilhagem e saídas nocturnas (essa época foi curta e directa e não acabou da maneira esperada). no entanto, ao longo dos meses e dos anos e do correr da vida fui amainando, numa espécie de embarcação parada por falta de vento enquanto as horas correm, empurradas por uma brisa suave e uma inexistente agitação marítima.

 

os fins de semana são dias de nada, repletos de tudo:

ele trabalha, numa imensidão de projectos que o têm envelhecido e carcomido o tempo livre, eu ocupo-me das mil coisas que desprezei um dia.

faço bolos com farinhas estranhas, sopas sem batata, bolachas que não são bolachas.

transformo tomate em polpa, descasco nozes para bolos e cozinho um arroz duro, integral e esguio, que demora tempos infinitos.

planeio refeições semanais, demolho feijão e acondiciono legumes vindos da serra, com raízes ainda repletas de terra, todos juntos numa caixa a lembrar o amor da mamã.

rego as plantas e arranco ervas daninhas dos vasos.

arrumo livros e desocupo roupeiros.

varro as varandas e planeio as semanas.

às vezes, num dia ou outro, combinamos jantares e visitas, curtos, rápidos, num serão ou num almoço que o tempo é escasso e aproveitamo-lo na necessidade dos dias ou naquilo que nos faz sentir bem.

 

e é isto que não entendo: em que momento estranho deixei de calcular o tempo em função da dor menos forte para esta mansidão dos dias?

em que momento, em que altura houve esta reviravolta que não vi e que me transformou numa espécie de cuidadora plenamente satisfeita por dominar a própria vida?

 

em tempos fui aquilo a que, muito sabiamente, a minha psicóloga chamou de fugitiva.

eu fugia de todos e de tudo aquilo que me desse palpitações ou fizesse torcer os ossos.

tinha uma mochila preta - que ainda andará por aí em qualquer gaveta - repleta dos bens que achava necessários para um recomeço.

usava cada casa arrendada como uma armazém temporário de mim, sem nenhum objecto que não fosse estritamente necessário. nem livros, nem roupa em exagero, nem coisas decorativas nem nada que não pudesse acondicionar em três caixas.

eu era uma fugitiva e fugi de tantas situações que há uma imensidão de coisas passadas por resolver, numa espécie de casa cheia de frestas e frinchas e portas só encostadas porque os donos desapareceram com medo do que por ali entrava.

 

e agora aqui estou.

com medo do tempo em que constatarei ser rija de carnes, um bigode no lábio superior, o puxar dos óculos com gestos firmes na cana do nariz e o soltar ordens de governança de uma casa. o arregaçar das mangas nos braços fortes e lavar no tanque cobertas e tapetes, calças e lenços, assumindo que tudo se cria, que onde come um comem cinco e que as mulheres vieram ao mundo para dar vida à vida.

 

uma consumição, bem vos digo, que me corrói a alma aos fins de semana, nos únicos cinco minutos em que me desocupo.

 

e confesso aqui que percebi - há uns tempos - que a coisa que mais me amedronta na maternidade é a irreversível perda da juventude.

é a última pedra na vida de fugitiva.

é a certeza que depois disso não haverão mochilas pretas nem bens acondicionados em três caixas.

que depois disso eu não sou de mim mas de outrem e não posso recomeçar sozinha.

 

e o tamanho de tal responsabilidade, a imensidão atroz desse pensamento provoca-me tantas palpitações, tanta ansiedade que dou comigo a olhar sobre o ombro na procura de tudo aquilo que posso doar, dispensar, vender, deixar para trás antes que seja tarde de mais para recomeçar.

 

ainda que nunca se recomece na sua totalidade:

trazemos sempre muito do que achamos - erroneamente - que ficou para trás. 

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