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comentava há pouco um texto da Olívia - de quem gosto muito - e que se mostrava agastada pela mistura de fátima com piadas acerca do festival da canção e futebol.

apesar de respeitar a fé de cada um - na mesma dimensão que respeito que a valorização do que é importante na vida de cada qual só a ele diz respeito - não entendo porque ficam os crentes - seja de que religião for - tão magoados com situações de humor, critica ou até de incompreensão pelos restantes.

e não entendo por vários motivos, apesar de nunca conseguir ter tido uma conversa deste tipo com ninguém.

 

esta coisa de fátima - sim, chamei-lhe esta coisa - não me incomodando, provoca-me um pouco de estupefacção.

é que habituei-me a olhar para todas estas... festividades como um evento turístico e respeitando quem sente de maneira diferente, quem olha para o que está a acontecer com fé e abnegação e sacrifício - e este respeitar é sentir que a pessoa está no seu direito e eu não tenho grande coisa a ver com isso - não percebo como se pode sentir um ataque, um desconforto ou uma mágoa por quem não sente e expressa o mesmo.

e mesmo não tendo nada a ver com isso gostava de perceber. 

 

é a própria igreja ou, enfim, quem nela manda, que transformou - ou permitiu que se transformasse - este acontecimento num evento turístico:

  • usam-se terços gigantes, que se acendem na entrada do papa;
  • usam-se corações gigantes;
  • fazem-se estruturas gigantes para acomodar imagens gigantes;
  • aceita-se que se vendam e se queimem velas gigantes.

(tudo em grande, tudo em proporção megalómana, tudo usado como uma marca, como uma imagem).

  • aceita-se que haja um aparato descomunal numa cidade.
  • organizam-se acontecimentos,
  • estrutura-se eventos,
  • aceita-se manifestações de alegada fé que envolve crianças a cumprir penitências de joelhos.
  • leva-se a bem que seja dada tolerância de ponto,
  • que se gastem milhões em segurança,
  • que se controlem as fronteiras. 

meus senhores não há dúvidas que é um evento - também, mesmo que não seja só - de turismo religioso, por mais que doa ouvir por aqueles que não o sentem.

e sendo um evento de turismo religioso,

e havendo uma aceitação de toda um... teatro por parte da igreja - sem conotação negativa, mas concordemos que todo o ritual católico assenta numa dramatização de gestos, roupas e acontecimentos -  porque lhe dá jeito que isto tenha proporções megalómanas...

por que motivo há uma incompreensão que esse evento então seja visto, nessa dimensão, como todos os outros?

 

reparem:

há gente que acorrenta cadeiras a cancelas para ficar na primeira fila, como adolescentes que dormem à porta dos locais onde vão estar os seus ídolos. 

há gente que caminha no meio da estrada, que encalacra o trânsito, sentindo plena legitimidade porque vai na sua fé.

há gente que acampa numa carrinha de caixa aberta para ver o papa, durante uma semana.

 

e então por que é que vendo tudo isto, e assumindo como natural até, um crente, um verdadeiro crente que assume fátima como oração, penitencia, fé, silêncio fica chateado, magoado com humor, mas não com a transformação destes valores num festival de carnaval?

 

por que é que há uma compreensão com o ti manel que aparece na tv em horário nobre, dentro da sua tenda, a dizer que vai para lá com uma semana de antecedência, a sua garrafa de vinho na mesa do campismo avançando a animação e dizendo que a sua vida é um milagre, mas há um sentimento de repulsa por assumidamente se brincar com um dia que junta o festival da canção, o papa e futebol?

 

não proclama afinal a vossa senhora de fátima um sentimento de compreensão mesmo pelos que não compreendem?

não fazem penitências no respeito pelo que a vossa senhora de fátima pediu?

por que motivo é que a minha incompreensão, o meu humor, o meu riso de uma piada que junta três coisas de dimensão para o país vos choca?

mas não é esse um pilar da vossa fé? o respeito pelo outro?

 

acho que, nesse caso, a compreensão pelo outro, onde se inclui o humor do outro, fica apenas quando o outro compreende da mesma forma.

e se assim é... é mais do mesmo:

não vale a pena caminharem tanto!

 

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deu discussão! (quase porrada)