Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



era uma vez uma história triste #8

por M.J., em 27.07.17

casaram aos 23.

compraram casa, uma pechincha, o mercado estava favorável à compra. 

ele trabalhava a 200 quilómetros de distância da casa e dela.

se calhar ficas em casa dos teus pais, aconselhou, enquanto não me mudo, para não estares tão sozinha.

ela assentiu.

 

ficou grávida pouco depois.

um sonho idílico. a casa fechada. o marido aos fins de semana. os pais na preocupação da filha que ia ter uma filha.

é agora que te mudas e recomeças aqui?

talvez mais tarde, quando tivermos mais segurança. deixemos a criança nascer.

 

a criança nasceu e ele permaneceu no trabalho.

200 quilómetros.

talvez para o ano, concluíram depois, contas feitas, oportunidades e trabalhos, que nem sempre é fácil recomeçar.

a casa de ambos - a pechincha - fechada.

ela com os pais e com a filha.

depressão pós parto.

dor.

vontade de morrer.

ele longe.

 

aos fins de semana a mesma festa.

o recomeço. dois dias inteiros dele. e da filha. depois a partida. a segunda. a dor. os pais e a filha. a casa fechada e uma vida meia vivida.

 

cinco anos depois a casa - uma pechincha - permanece fechada.

os pais estão mais velhos, a filha maior, a dor amainada em dias, aumentada em estações. 

fui ao psiquiatra, sabes? confidenciou, e receitou-me umas coisas que me adormeceram. não gosto.

devias ir a um psicólogo...

mas ela sabe o motivo da dor, terapia para quê?

 

é mãe e pai.

ele vem ao fim de semana. não educa. brinca. traz presentes.

tem a função de aparecer e providenciar.

não se muda.

mudar para quê?

vive na cidade grande em apartamento partilhado com os amigalhaços. às vezes saem até ao bairro alto e conhecem mais gente. ninguém lhe diz para arrumar os chinelos ou pôr a toalha no cesto. traz a roupa num saco à sexta que ela lava e passa, ao fim de semana, como a um filho que vai para a universidade.

aos sábados e domingos é pai de família. dois dias de obrigações que são intervalos. não fales assim com a menina, diz-lhe quando ela se enerva com uma malandrice. cortaste o cabelo à menina porquê?, quando ouve a miúda queixar-se, sem saber que tinha piolhos, pega lá este presente que o papá te trouxe, mais um para o monte das coisas que se usam dois dias por semana. 

o melhor de dois mundos pois então.

enquanto ela definha, perde vida, perde dias.

perde sonhos. 

 

uma casa fechada, uma pechincha.

um casamento vivido num terço.

uma filha que vai dizendo agora que quer ir viver com o papá, como se houvesse um acordo de responsabilidades parentais e um documento que oficializa uma separação. 

 

se me divorcio, confidencia, fico sem filha e sem um terço do casamento. 

e se já sou tão inútil agora, como serei depois?

Autoria e outros dados (tags, etc)

ouvi isto ontem à noite

por M.J., em 09.06.17

ainda estou em choque:

 

eu vou ir.

 

repito:

 

eu vou ir.

 

para que não hajam dúvidas:

 

eu vou ir.

 

só me apeteceu perguntar:

vais ir onde?

morrer na forca por esse homícidio da língua portuguesa?

à merda?

atirar-te de uma ponte?

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

eu tinha, juro que tinha

por M.J., em 25.05.17

uma cena catita para escrever, muito interessante e engraçada e assim, como é habitual (lol - sempre quis usar a palavra lol e hoje foi o dia) mas depois li que as (in)capazes escreveram que a solução para os problemas do mundo é os homens brancos não votarem durante vinte anos e esqueci-me de tudo ao meu redor.

 

18765597_1960774014153930_192538041097006785_n.jpg

 

até do facto de que ao escrever sobre isso estou a dar-lhes exactamente o que elas querem: atenção à sua imbecilidade.

 

oh gente do catano.

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

pito e frango do campo

por M.J., em 20.02.17

ontem meus senhores, estive dez minutos a tentar perceber uma indignação.

eu, que por norma, percebo as indignações, as reivindicações do mundo, fiquei de boca aberta, sem perceber se aquilo era verdade ou uma cena muito parva para os apanhados.

percebi ao fim daquele tempo todo que era verdade e ia-se-me caindo tudo.

 

explico.

uma senhora, muito chateada, clamava ao mundo, ofendidíssima, o engano, a burla que fora sujeita, por ter comprado um frango do campo, a três euros e qualquer coisa o quilo, e o mesmo ter tido uma alimentação de 70% de cereais.

 

portanto, meus senhores, aquela pessoa queria que o pito tivesse sido alimentado a bifes!

que tivesse tomado um pequeno almoço de bacon com ovos, seus primos, dado umas corridas à volta do campo para fortalecer as coxas, almoçado umas cinco batatas doces com queijo, feito três horas de ginásio à tarde e comido brócolos ao jantar.

cereais é que não! milho? está tudo tolo! mas onde é que pitos comem milho!?

a minha avó, por exemplo, sempre criou porcos para os dar como alimento às galinhas!

 

juro, mas juro que não entendo a visão distorcida da maioria das pessoas que, nascida e criada numa cidade, não sabe o que raio é viver numa aldeia e criar animais. é que há de tudo.

há quem ache que:

  • os animais na província (acima de lisboa é província, né?) são criados por parolos que não sabem ler e que, romanticamente, se deitam com eles na própria cama;
  • os animais na província são praticamente pessoas.
  • na província é muito fácil e barato criar animais porque há espaço. basicamente, eles até se alimentam sozinhos.
  • na província os frangos do campo são lançados à solta na serra, com uma faca do mato no bolso, e alimentam-se de minhocas e dos restos das carcaças que os tigres deixam por lá.

 

três palavras:

ma-tem-se!

 

por acaso, o frango do campo daquela marca em concreto - de que a senhora clamava indignações - é criado, efectivamente, ao ar livre. tanto mais que as normas de certificação de frango do campo exigem que os mesmos tenham uma alimentação específica e um determinado espaço para se movimentarem (em nada igual aos frangos do aviário).

demoram é mais tempo a crescer e é por isso que são mais caros.

evidentemente que as alminhas que nunca foram uma aldeia - e acham que o leite vem do frigorífico - não conseguem perceber isso e reclamam por dar três euros por um galo que demora meses a deixar de ser pito.

uma consumição!

 

 

e é por isso meus senhores, que eu, M.J. maria, nascida e criada no meio do nada, tenho a solução para estes vossos anseios:

ide viver para a aldeia.

há milhares de metros quadrados ao abandono e a preço de saldo. podem ser fundamentalistas o quanto quiserem na alimentação. podem chocar os próprios ovos para fazer galinhas e alimentar porcos que transformam em bacon. podem andar ao sol a regar milho e ir correr atrás dos pitos, antes do jantar, para os fazer para a ceia. claro que, no vosso caso, olham para o pito, pensam com muita força para ele se transformar em carne e ele suicida-se, depena-se a si próprio, limpa-se de entranhas e desloca-se até a uma covete de esferovite, emplastificando-se e estando fresquíssimo para vossa alimentação.

é assim mesmo.

 

no vosso caso, evidentemente, não vão precisar de o apanhar, pô-lo dentro do funil para o efeito e cortar-lhe a cabeça enquanto esperam que não esperneie muito.

não vão ficar salpicados com o sangue nem empurrar com força as patas para baixo.

não vão pegar numa panela de água a ferver e pôr-lhe em cima, enquanto sentem o maravilhoso cheiro nauseabundo a animais mortos e cocó que sai das penas.

e no fim,também não o vão abrir ao meio, pensando se começam por cortar a pele do rabo e puxar por lá as tripas ou se o abrem mesmo, arrancando entranhas com precisão.

 

sim, é esta a beleza do campo e de matar animais para se comer.

mas faz-se porque é necessário. porque se comemos carne, lamento muito informar mas ela não vem do supermercado. e quando vem, a um euro e meio o quilo, é depois de passar por condições muito piores do que aqueles que são criados por gente na aldeia, e que os mata assim de forma rudimentar*

 

não percebo o que vai na cabeça da maioria das pessoas.

é normal que, quando nunca vivenciamos uma situação, a olhemos da maneira que somos. mas daí a achar que o pito não deve comer cereais... então come o quê? outro pito?

 

oh gente do catano!

 

*(não digo que os frangos do campo criados em larga escala são mortos pela ti maria, depois do jantar. mas sei que têm uma vida muito melhor do que os de aviário e que a sua criação é muito mais dispendiosa).

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

dormir maquilhado é para meninos

por M.J., em 15.02.17

um colega disse-me que tinha ido ao cinema, levado pela namorada, a ver a ante-estreia do fabuloso filme de acção, porrada, dinheiro e carros caros chamado "50 sombras mais negras".

 

e nesse instante, enquanto ele contava com ar de tédio as peripécias envolvidas, lembrei-me deste episódio, relatado aqui no tasco faz mais de dois anos.

 

permanece sempre actual:

 

uma vez conheci uma rapariga, através de uma amiga, que numa noite de copos, quando trocávamos confidências, me contou entre soluços de bêbada que sempre que dormia com um gajo levantava-se mais cedo e ia à casa de banho maquilhar-se, deitando-se depois e fingindo acordar com ele.

fiquei estupefacta, boquiaberta.

- mas... mas... mas como? não dormes?

 

confessem lá: conhecem algo mais estranho?

 

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

estou condenada a coisas destas

por M.J., em 08.02.17

há um lar de idosos ilegal na minha rua.

tenho a certezinha absoluta.

mais certeza do que dois e dois serem quatro:

 

  • há imensos velhinhos sentados na varanda.
  • já por mais do que uma vez vi sair o carro fúnebre de lá.
  • não está sinalizado como lar.
  • há sempre gente que nos olha ameaçadoramente quando, nas minhas corridas, abrando o passo para observar.

 

portanto, há uns anos foi a creche ilegal, agora é o lar.

 

na altura, não apresentei queixa:

mas por outro lado... se os pais dos catraios se sentem à vontade para os deixar numa creche ilegal... que direito tenho eu de me preocupar mais do que eles?

 

mas não sei se fiz bem.

que teriam feito vocemecês?

Autoria e outros dados (tags, etc)

velhos são os trapos. e espertos.

por M.J., em 08.02.17

vou-vos explicar, que é para isso que me pagam:

 

estava uma fila gigante na porcaria das máquinas automáticas de pagamento. 

eu andei às voltas, no meio da multidão, para conseguir chegar ao azeite que me fazia falta para o jantar. pelo caminho encontrei um esmagador de alhos a um euro e estava toda contente a pagar quando a vi:

uma senhora - de cabelos brancos e um cesto cheio de coisas - a meter-se muito de mansinho atrás de mim, prontíssima a pagar as fraldas para a incontinência, passando à frente de toda a gente.

 

havia uma fila única gigante, meus senhores, gigante. eu própria esperara dez minutos para conseguir uma maquineta e ali estava a velha senhora, cabelo armado em meio frasco de laca, roupa a cheirar a naftalina e ar esperto de "a velhice ensinou-me umas coisas" tentando fingir que estava comigo e assim passar à frente dos tristes.

uma filha de uma rameirice que não abona nada a favor de quem tem idade para ter juízo.

e educação.

 

(pausa no episódio: sinceramente, não sei o que se passa com alguns dos idosos de hoje em dia. no meu tempo de infância, quando convivia com alguns, era normal vê-los no café do centro da aldeia a jogar à sueca. ou em casa a cuidar dos netos. ou da horta. ou lavar roupa no tanque. hoje não. a maior parte tem facebook e adiciona-nos sem qualquer vergonha. às vezes, quando são familiares, aceitamos só para depois os bloquear.  e ali estão, na fotografia tirada para o cartão de cidadão, ou pelo neto mais velho. fazem upload das fotos da família toda - mesmo aquelas onde ninguém quer aparecer. vão aos sites de montagens de fotos e criam lindas imagens ao lado de deus, ou com molduras de golfinhos. escrevem frases bonitas acerca da humanidade e comentam as notícias do correio da manhã indignadíssimos.

chega a ser quase uma tragédia.)

 

portanto, fazendo um ponto de situação, aquela senhora estava a tentar ultrapassar toda a gente, fazendo-se passar - vejam a ideia - por minha conhecida. 

tendo em conta que me sentia particularmente bem disposta depois de uma noite bem dormida (#sóquenão) optei por não reparar.

demorei apenas mais tempo a pôr o número de contribuinte, procurar moedas na carteira e constatar que tinha de pagar com cartão: tudo para ver se alguém impaciente da fila se revoltava.

resultou.

passados uns instantes fez-se luz e alguém disse, a medo:

- olhe que isto é fila única.

 

e pronto, the end, a situação resolveu-se, não foi MJ?

a senhora pediu desculpa e foi para a fila.

ou disse que não tinha reparado e perguntou se podia passar à frente que lhe doíam as pernas.

ou ainda informou que, sim senhora, tinham razão, e deslocou-se às caixas prioritárias.

ou pediu-te se não te importavas de a deixar passar à frente, porque estava cansada.

foi isso não foi?

não, meus amigos, não.

 

a velha senhora salta da resposta ensaiada, prontinha na ponta da língua, uma tal lata e desfaçatez que o cabelo nem se mexeu:

- não se preocupem que nós estamos quase a acabar.

 

nós.

nós???

como nós?

mas eu nunca a vira!

 

nem a ela, nem às suas fraldas e muito menos ao cabelo armado.

e mais: aproveitando que eu ainda não estava refeita do choque, vira-se para mim, voz docinha de mel, toda saltitona, toda sorridente, pega-me no braço e pergunta, ar inocente:

- olha, se não tiveres muita pressa, podes ajudar-me a passar aqui com as compras?

não me levem a mal.

ou levem, quero lá saber.

já ajudei velhinhas a transportar sacos até casa. já fiz companhia a uma vendo novelas ao serão. e lavei a louça, durante meio ano a outra, todas as noites, apenas porque ela não se podia levantar.

 

esta, no entanto, padecia da (ou do?) síndrome da espertice.

pelo que soltei um redondo não e avancei, muito solicitamente, que se precisasse de ajuda a funcionária ali do fundo estava à disposição.

isto claro, quando chegasse a vez dela, que a seguir, era a moça da fila.

 

a velha olhou-me como se eu fosse o diabo.

e mais logo vai dizer, a quem a quiser ouvir, que esta geração está perdida.

 

a idade é um posto.

pena que, às vezes, seja só de estupidez.

 

que fariam vocemecês nesta situação?

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

deixa ver se eu entendo

por M.J., em 01.02.17

as mães que proibem os filhos de ler valter hugo mãe são as mesmas que levam os filhinhos ao concerto de tipos como este, a cantar merdas destas?

Que ela tem aquele corpo que eu digo
What the fuck so what, so what, so what
Eu não tenho a culpa
Que ela tenha aquele butt

 

ou seja... cu, racha e afins que está na literatura é um pecado aos olhos mas... fuck e butt é arte!

oh sabem que mais?

vão-se matar!

 

gente do catano.

Autoria e outros dados (tags, etc)

na semana passada fui ao dentista.

não bastava o trump dar ar de sua graça nos destinos do mundo e eu ainda fui escarafunchar a boca, tratando de três dentes ao mesmo tempo e mantendo os maxilares abertos durante duas horas.

depois, no fim, muito mais leve da carteira e sentindo que precisava de comprar qualquer coisa para o jantar, fui num instantinho ao continente (vá, ninguém me paga para dizer que fui ao continente comprar um quilo de douradas mas vocês merecem este nível de detalhe).

 

sendo certo que pesar o peixe, esperar pelo amanhar do peixe, pegar na saca do peixe e ir para a caixa se revelou uma tarefa chata - visto que a minha bochecha esquerda tinha o mesmo nível de sensibilidade de um idoso incontinente quando molha a fralda - o pior estava para vir.

 

quando cheguei às caixas optei pelas automáticas

àquela hora o centro comercial estava repleto de pessoas de uma certa idade que se movimentavam em passeio pelos corredores (há-de chegar o dia em que o ponto alto da minha vida é ver quais as novidades do arroz, mas para já ainda não) e esse tipo de público é, por norma, avesso ao automatismo pelo que não havia fila.

 

e o que é que acontece?

a caixa encrava?

não há talão?

a funcionária de apoio não dava apoio?

aquela coisa gritava constantemente "por favor aguarde por um assistente"?

 

não!

o que acontece é que quando carregava no ecrã daquilo com garra, vejo aproximar-se um senhor - já do lado de fora do continente - de cinquenta anos no mínimo, calvice aguda, barba de cinco dias e um fétido hálito que me toca no braço e diz, em-jeito-de-repreensão-bamos-lutar-pelos-males-do-mundo-salvem-as-baleias-parem-o-bloqueio-a-cuba-acabem-com-a-fome-em-áfrica-deixem-de-comer-vacas-alimentem-se-de-relva o seguinte:

- sabias que quando usas estas máquinas estás a tirar lugar a um funcionário?

assim, do nada, tu cá tu lá, testa franzida, hálito nas minhas trombas, mãozinha no meu braço, pega-lá-ume-sermão-reza-duas-avé-marias-e-não-voltes-a-pecar.

 

e o que M.J. responde, do alto da sua boca torta, bochecha descaída e forte pontada num dos dentes recém-tratados?

(oh adivinhem)

 

a) sabia que quando vem ao fórum está a levar ao desemprego os comerciantes da baixa?

b) sabia que quando não corta a barba está a levar os senhores que vendem lâminas à penúria?

c) sabia que quando não vai ao dentista tira o emprego aos doutores?

 

assim, toma lá que já almoçaste.

foi mesmo uma delas (mas podiam ter sido as três).

resta saber se acertam. 

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

era uma vez uma história triste #5

por M.J., em 24.01.17

seu grandessissimo filho dá puta, seu cabrão de merda.

os gritos da mulher eram frequentes e ouviam-se pela aldeia inteira, numa espécie de morte anunciada, a voz sonante - de quem podia declamar poesia - a matar o som do nada na serra, 

seu filho dá puta, eu mato-te hoje,

se não em porrada pelo menos em berros,

seu cabrão de merda,

assim, dito sem medo, em berros, corneta grave.

 

a mulher era forte, grande, usava o cabelo à escovinha e esgoelava ao filho impropérios destes, tão banais em berros sonantes como quem diz,

estás de castigo, ficas sem mesada,

em repressensão serena à criança que se portou mal. 

 

para o resto das pessoas um portento de boa educação:

olhos baixos, sem dar nas vistas, um muito bom dia, um muito boa tarde, um até amanhã se deus quiser. o cabelo à escovinha, as calças larguinhas, braços fortes, solidez no corpo, metida na vida e sem nada a apontar a não ser aquele,

seu filho dá puta,

a acentuação no à, como quem descarrega a raiva numa vogal aberta,

eu racho-te hoje,

em gritos berrados, de tal forma que não havia quem não escutasse, dirigidos à criança que se tornou rapaz e que ouvia, dia sim, dia não, a mulher de cabelo à escovinha, olhos raiados de sangue, um portento de boa educação para o mundo,

eu mato-te seu cabrão de merda,

porque se esquecera de tirar os sapatos, esmurrara a bicicleta ou não fora buscar o molho de erva. 

seu grandessissimo filho dá puta,

miudo mais novo do que eu, olhos baixos, voz fina, sentido de humor apurado e aqueles gritos, dia sim, dia não, lançados em fúria, um ódio cuspido,

seu filho dá puta.

 

e a mamã, a minha, que ouvia aquilo pelos campos e pelo ar, o roçar pelas árvores a correr em bando como pássaros, serena, quieta, ombros encolhidos e cabeça abanar de quem não entende:

pois então se o filho é dela e ela o chama filho da puta, o insulto é para ele ou para ela?

 

e eu, sem entender, a tremer de medo de gritos e berros e os silêncios da vergonha onde se ouve mais voz do que vento, a perceber mais tarde - tão mais tarde que o rapaz é agora quase homem - que o insulto era dele:

que ninguém quer ser filho de uma puta.

 

vi há uns tempos aquela criança, agora quase homem.

ria em gargalhadas e perdeu o medo no fundo dos olhos. 

só não sei se esqueceu o , com acento, no meio de filho e puta. 

 

não me venham com a história de que uma galheta na fralda são maus tratos.

maus tratos era aquela fúria em palavras, gritada, anunciada, berrada ao mundo. 

 

F I.png

vem ter comigo ao facebook - aqui,  e instagram - aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)