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o pessoal tem todo muito pouco que fazer para se abespinhar tanto por tão pouco.

 

qualquer dia, estou mesmo a ver, proíbem a compra de tachos, vestidos, bolas de futebol, jardineiras com suspensórios, calções vincados, berlindes, barbies e transformam o cor de rosa e o azul em branco, tudo na tentativa de mostrar, por a + b, que não há vaginas nem pilinhas mas um misto híbrido dos dois.

 

oh senhores!

compra quem quer!

a porto editora não é uma instituição pública! é privada e as suas linhas vão de encontro ao lucro! os livros faziam parte do programa escolar?

 

então e a indignação pelas mulheres que não são padres?

então e a indignação pelos homens que não têm útero?

então e a indignação pelos sutiãs só para mulheres?

então e a indignação pelos urinóis só para homens?

então e a indignação pela ausência de pelos no peito nas mamas avantajadas?

então e a indignação pela amamentação ser só feminina?

então e a indignação pela ausência de casual friday com vestidos para todos?

então e a indignação pela sic mulher?

então e a indignação de consultórios femininos?

então e a indignação da max men não ter homens despidos a fazer um movimento de ancas para termos uma girafa?

 

oh gente do catano!

 

#somostodoshermafroditasqueresver?

 

 

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oh vai ver ali:

comente se faz favor.

por M.J., em 02.08.17

uma vez dormi em casa da mãe de uma amiga.

precisava de ficar uma noite em lisboa por motivos profissionais e, entre a opção de um hotel completamente pago e à escolha ou a casa desabitada da mãe de uma amiga, optei pela segunda.

não me julguem. sou uma pessoa com alguns distúrbios - evidentes - e, naquela época, eram mais acentuados.

 

quando chegámos, eu ligeiramente em pânico porque tinha a ideia que me ia perder irremediavelmente (e não no sentido figurado) no metro, acabando mais cedo ou mais tarde por ser encontrada morta num dos carris, percebi que a casa:

a) estava cheia de pó até às orelhas, o que me provocou uma valente alergia;

b) tinha cotão nos cantos, o que aumentou a minha alergia;

c) tinha papelinhos espalhados pelas paredes e em todo o lado com coisas básicas escritas:

"por favor limpe os pés quando entrar";

"se usar a sanita não se esqueça de puxar o autoclismo";

"feche o saco do lixo quando o caixote estiver cheio e leve-o imediatamente para a rua";

"não deixe ficar louça suja na pia",

e por aí adiante.

 

no primeiro impacto julguei que aquilo fora ali colocado por minha causa o que, vistas bem as coisas, me pareceu contraditório.

era um tanto obtuso que uma casa pejada de pó e com cotão acumulado nos cantos, me recebesse com avisos para sacudir os pés à entrada.

mesmo assim encabulei, meti o rabo entre as pernas e fiquei a olhar, sem saber o que dizer.

 

a minha amiga havia-me avisado que a mãe era um nadinha estranha. 

quase doente, enfatizara, tentando que eu ficasse esclarecida, mas aquele nível era incompreensível até para mim.

sabes, disse ela depois de me ver ao canto , a minha mãe costumava receber visitas de uns amigos cá em casa.

e eu, já mais descansada, se calhar aquilo não era para mim mas uma leve tentativa de educar:

com crianças, presumo?

e ela, encabulada:

não. brasileiros. achava que lá ainda não haviam chegado alguns hábitos de civilização.

 

ñão soube o que dizer na altura.

agora já sei. 

 

oh gente do catano!

 

o que diriam vocemecês?

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oh vai ver ali:

desinformação

por M.J., em 01.08.17

a questão é que nunca houve tanta desinformação.

em boa verdade, pensei mesmo já lançar um site dedicado ao assunto, todos os dias com coisas novas, só para ver o mundo a arder.

porque nisto, meus senhores, sejamos habilitados com o grau de pós doutor (essa maravilha da natureza. já és tudo, então pões um pós ao tudo) ou a quarta classe feita nas novas oportunidades, todos nós caímos, mais cedo ou mais tarde, numa desinformação qualquer e achamos que estamos cinquenta passos à frente dos comuns dos mortais.

 

se quiserem ter uma noção dêem uma olhadela pelas internets da vida.

no mesmo dia podem ler que o salmão é um peixe bom e que o salmão é um peixe mau. que o leite é um alimento recomendável e que o leite não presta. que comer carne faz mal e que comer carne faz bem. e tudo isto sustentado em artigos que lançam mão de um estudo qualquer feito numa universidade que ninguém nunca viu ou questionou da veracidade do mesmo. 

 

chocolate ao pequeno almoço emagrece, noticia-se, num título manhoso de clickbait, e nos grupos de saúde do facebook vem logo um montão de mulheres, num português ranhoso:

gente quero perder vinte quilos numa semana. chocolate pode?

arroz pode?

suco de limão de manhã e antes da janta emagrece?

e eu, se quiser, encontro cinco artigos, todos diferentes a dizer que sim, não, talvez e só em noites de luar com duas galinhas na testa.

oh-meu-deus.

 

 

na semana passada, quando morreu chester bennington, durante uma hora andou meia Internet a especular sobre a coisa:

morreu ou não morreu?

um jornal dizia que sim e cinquenta comentários diziam que não apelando a sites anteriores que davam conta da morte do homem mas ele permanecera vivo.

e de repente, há uma noticia da própria notícia: homem pode ou não ter morrido. 

é isto.

as nossas noticias assentam agora no pode, mas ainda vamos ver.

avião pode ou não ter caído.

pessoa pode ou não ter-se suicidado.

cão pode ou não ter mijado no carro do cidadão do quarto esquerdo. 

senhores!!!

 

para não cair na rolha de desinformação decidi fazer like em centenas de páginas diferentes do facebook, com ideologias contraditórias, todo o tipo de jornal e alguns grupos.

pensei: que sa lixe! se aparecer no meu feed paleolíticos a dizer que só devo comer bacon, e que os frangos devem ser alimentados a bifes; e macrobióticos a mandar-me comer algas ao pequeno almoço e que a carne não deve ser um alimento essencial; e vegetarianos a dizer que devemos comer só folhas; (vêem como estou a espalhar desinformação, pegando em estereótipos?) e a maria vieira a dizer que o trump é o maior estadista jamais visto; e a ana bola a dizer que a maria vieira está sequestrada pelo marido que disse que o trump é o maior; e o cláudio ramos a dizer que a ana bola disse que a maria vieira está sei lá o quê; e o dioguinho a dizer que o cláudio ramos disse que a ana bola disse que a maria vieira disse que o trump disse que o frango faz mal disse que devemos comer ervas e oh... porra, perdi-me, enfim, dizia eu, se eu tiver coisas desta gente toda vou saber o que se passa realmente numa pequenita parte do mundo.*

é... pois não.

 

na verdade, o facebook tem um algoritmo fantástico.

de repente não aparecem - como há uns anos - todas as publicações no nosso feed até à ultima que vimos há dois dias.

era bonito, era, mas não.

o facebook dá-te informações consoante os teus gostos e actividade. portanto, se abrires dois dias seguidos várias noticias do correio da manhã, nos próximos tempos vais ser bombardeado com informações constantes de violações, sócrates, mortos, sócrates, pedofilia, sócrates e funerais. e se usares muito o facebook - até por questões profissionais - vais achar que portugal está a entrar no seu fim e que, mais cedo ou mais tarde, seremos bombardeados por um meteorito porque isto é o apocalipse.

 

os tempos estão maus, dizem as pessoas, faz cá falta um salazar.

e se fores à procura encontras cinco ou seis grupos de muitas mil pessoas a apregoar as virtualidades do salazar enquanto escrevem sobre como a política é uma merda (nada contraditório).

e se, enjoada, fores à procura, encontras mais cinco ou seis grupos que dizem que a mariana mortágua é que é, e é tanto que devia aparecer nuinha da cintura para cima e mostrar aquilo que tem de melhor. (mulheres ao poder mas em mamas?)

a sério.

a questão é tão fascinante que os grupos do facebook davam um mesmo um estudo de pós doutoramento:

macarrão com pés de galinha, pode?

 

nunca houve tanta informação mas também nunca houve tão pouca.

é difícil saber o que é verdade ou não e, em ultimo caso, passamos todos a achar que não há verdades mas apenas coisas que podem ser mais certas do que outras, dependendo da interpretação. 

uma colega minha dizia há uns tempos que não bebe leite.

és intolerante à lactose? perguntei, curiosa.

que não. apenas que o leite não era preciso.

então aderiste à corrente, disse eu, na maior das ingenuidades.

e ela, furiosa, não é isso. é que o leite não me traz vantagens nenhumas.

olha que merda!!!! ia eu exclamando num outro palavrão mais feio, começado por c e acabado em o.

beber coca cola também não. ou apanhar sol na praia nas horas de maior calor. ou dormir mais do que sete horas. ou... metade das porcarias que fazemos. 

 

as pessoas gostam de modas.

eu também.

faz parte. 

o que eu não sabia é que as pessoas não gostam que lhes digam que seguem modas, que estão desinformadas e que o melhor nisto tudo é seguir o bom senso. na, na, ni, na, não!

elas estão informadas, estão mais à frente, sabem mais!

só abacaxi três dias seguidos emagrece?

 

oh gente do catano. 

 

*para quem não entende: ironia.

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era uma vez uma história triste #8

por M.J., em 27.07.17

casaram aos 23.

compraram casa, uma pechincha, o mercado estava favorável à compra. 

ele trabalhava a 200 quilómetros de distância da casa e dela.

se calhar ficas em casa dos teus pais, aconselhou, enquanto não me mudo, para não estares tão sozinha.

ela assentiu.

 

ficou grávida pouco depois.

um sonho idílico. a casa fechada. o marido aos fins de semana. os pais na preocupação da filha que ia ter uma filha.

é agora que te mudas e recomeças aqui?

talvez mais tarde, quando tivermos mais segurança. deixemos a criança nascer.

 

a criança nasceu e ele permaneceu no trabalho.

200 quilómetros.

talvez para o ano, concluíram depois, contas feitas, oportunidades e trabalhos, que nem sempre é fácil recomeçar.

a casa de ambos - a pechincha - fechada.

ela com os pais e com a filha.

depressão pós parto.

dor.

vontade de morrer.

ele longe.

 

aos fins de semana a mesma festa.

o recomeço. dois dias inteiros dele. e da filha. depois a partida. a segunda. a dor. os pais e a filha. a casa fechada e uma vida meia vivida.

 

cinco anos depois a casa - uma pechincha - permanece fechada.

os pais estão mais velhos, a filha maior, a dor amainada em dias, aumentada em estações. 

fui ao psiquiatra, sabes? confidenciou, e receitou-me umas coisas que me adormeceram. não gosto.

devias ir a um psicólogo...

mas ela sabe o motivo da dor, terapia para quê?

 

é mãe e pai.

ele vem ao fim de semana. não educa. brinca. traz presentes.

tem a função de aparecer e providenciar.

não se muda.

mudar para quê?

vive na cidade grande em apartamento partilhado com os amigalhaços. às vezes saem até ao bairro alto e conhecem mais gente. ninguém lhe diz para arrumar os chinelos ou pôr a toalha no cesto. traz a roupa num saco à sexta que ela lava e passa, ao fim de semana, como a um filho que vai para a universidade.

aos sábados e domingos é pai de família. dois dias de obrigações que são intervalos. não fales assim com a menina, diz-lhe quando ela se enerva com uma malandrice. cortaste o cabelo à menina porquê?, quando ouve a miúda queixar-se, sem saber que tinha piolhos, pega lá este presente que o papá te trouxe, mais um para o monte das coisas que se usam dois dias por semana. 

o melhor de dois mundos pois então.

enquanto ela definha, perde vida, perde dias.

perde sonhos. 

 

uma casa fechada, uma pechincha.

um casamento vivido num terço.

uma filha que vai dizendo agora que quer ir viver com o papá, como se houvesse um acordo de responsabilidades parentais e um documento que oficializa uma separação. 

 

se me divorcio, confidencia, fico sem filha e sem um terço do casamento. 

e se já sou tão inútil agora, como serei depois?

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ouvi isto ontem à noite

por M.J., em 09.06.17

ainda estou em choque:

 

eu vou ir.

 

repito:

 

eu vou ir.

 

para que não hajam dúvidas:

 

eu vou ir.

 

só me apeteceu perguntar:

vais ir onde?

morrer na forca por esse homícidio da língua portuguesa?

à merda?

atirar-te de uma ponte?

 

 

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eu tinha, juro que tinha

por M.J., em 25.05.17

uma cena catita para escrever, muito interessante e engraçada e assim, como é habitual (lol - sempre quis usar a palavra lol e hoje foi o dia) mas depois li que as (in)capazes escreveram que a solução para os problemas do mundo é os homens brancos não votarem durante vinte anos e esqueci-me de tudo ao meu redor.

 

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até do facto de que ao escrever sobre isso estou a dar-lhes exactamente o que elas querem: atenção à sua imbecilidade.

 

oh gente do catano.

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oh vai ver ali:

pito e frango do campo

por M.J., em 20.02.17

ontem meus senhores, estive dez minutos a tentar perceber uma indignação.

eu, que por norma, percebo as indignações, as reivindicações do mundo, fiquei de boca aberta, sem perceber se aquilo era verdade ou uma cena muito parva para os apanhados.

percebi ao fim daquele tempo todo que era verdade e ia-se-me caindo tudo.

 

explico.

uma senhora, muito chateada, clamava ao mundo, ofendidíssima, o engano, a burla que fora sujeita, por ter comprado um frango do campo, a três euros e qualquer coisa o quilo, e o mesmo ter tido uma alimentação de 70% de cereais.

 

portanto, meus senhores, aquela pessoa queria que o pito tivesse sido alimentado a bifes!

que tivesse tomado um pequeno almoço de bacon com ovos, seus primos, dado umas corridas à volta do campo para fortalecer as coxas, almoçado umas cinco batatas doces com queijo, feito três horas de ginásio à tarde e comido brócolos ao jantar.

cereais é que não! milho? está tudo tolo! mas onde é que pitos comem milho!?

a minha avó, por exemplo, sempre criou porcos para os dar como alimento às galinhas!

 

juro, mas juro que não entendo a visão distorcida da maioria das pessoas que, nascida e criada numa cidade, não sabe o que raio é viver numa aldeia e criar animais. é que há de tudo.

há quem ache que:

  • os animais na província (acima de lisboa é província, né?) são criados por parolos que não sabem ler e que, romanticamente, se deitam com eles na própria cama;
  • os animais na província são praticamente pessoas.
  • na província é muito fácil e barato criar animais porque há espaço. basicamente, eles até se alimentam sozinhos.
  • na província os frangos do campo são lançados à solta na serra, com uma faca do mato no bolso, e alimentam-se de minhocas e dos restos das carcaças que os tigres deixam por lá.

 

três palavras:

ma-tem-se!

 

por acaso, o frango do campo daquela marca em concreto - de que a senhora clamava indignações - é criado, efectivamente, ao ar livre. tanto mais que as normas de certificação de frango do campo exigem que os mesmos tenham uma alimentação específica e um determinado espaço para se movimentarem (em nada igual aos frangos do aviário).

demoram é mais tempo a crescer e é por isso que são mais caros.

evidentemente que as alminhas que nunca foram uma aldeia - e acham que o leite vem do frigorífico - não conseguem perceber isso e reclamam por dar três euros por um galo que demora meses a deixar de ser pito.

uma consumição!

 

 

e é por isso meus senhores, que eu, M.J. maria, nascida e criada no meio do nada, tenho a solução para estes vossos anseios:

ide viver para a aldeia.

há milhares de metros quadrados ao abandono e a preço de saldo. podem ser fundamentalistas o quanto quiserem na alimentação. podem chocar os próprios ovos para fazer galinhas e alimentar porcos que transformam em bacon. podem andar ao sol a regar milho e ir correr atrás dos pitos, antes do jantar, para os fazer para a ceia. claro que, no vosso caso, olham para o pito, pensam com muita força para ele se transformar em carne e ele suicida-se, depena-se a si próprio, limpa-se de entranhas e desloca-se até a uma covete de esferovite, emplastificando-se e estando fresquíssimo para vossa alimentação.

é assim mesmo.

 

no vosso caso, evidentemente, não vão precisar de o apanhar, pô-lo dentro do funil para o efeito e cortar-lhe a cabeça enquanto esperam que não esperneie muito.

não vão ficar salpicados com o sangue nem empurrar com força as patas para baixo.

não vão pegar numa panela de água a ferver e pôr-lhe em cima, enquanto sentem o maravilhoso cheiro nauseabundo a animais mortos e cocó que sai das penas.

e no fim,também não o vão abrir ao meio, pensando se começam por cortar a pele do rabo e puxar por lá as tripas ou se o abrem mesmo, arrancando entranhas com precisão.

 

sim, é esta a beleza do campo e de matar animais para se comer.

mas faz-se porque é necessário. porque se comemos carne, lamento muito informar mas ela não vem do supermercado. e quando vem, a um euro e meio o quilo, é depois de passar por condições muito piores do que aqueles que são criados por gente na aldeia, e que os mata assim de forma rudimentar*

 

não percebo o que vai na cabeça da maioria das pessoas.

é normal que, quando nunca vivenciamos uma situação, a olhemos da maneira que somos. mas daí a achar que o pito não deve comer cereais... então come o quê? outro pito?

 

oh gente do catano!

 

*(não digo que os frangos do campo criados em larga escala são mortos pela ti maria, depois do jantar. mas sei que têm uma vida muito melhor do que os de aviário e que a sua criação é muito mais dispendiosa).

 

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dormir maquilhado é para meninos

por M.J., em 15.02.17

um colega disse-me que tinha ido ao cinema, levado pela namorada, a ver a ante-estreia do fabuloso filme de acção, porrada, dinheiro e carros caros chamado "50 sombras mais negras".

 

e nesse instante, enquanto ele contava com ar de tédio as peripécias envolvidas, lembrei-me deste episódio, relatado aqui no tasco faz mais de dois anos.

 

permanece sempre actual:

 

uma vez conheci uma rapariga, através de uma amiga, que numa noite de copos, quando trocávamos confidências, me contou entre soluços de bêbada que sempre que dormia com um gajo levantava-se mais cedo e ia à casa de banho maquilhar-se, deitando-se depois e fingindo acordar com ele.

fiquei estupefacta, boquiaberta.

- mas... mas... mas como? não dormes?

 

confessem lá: conhecem algo mais estranho?

 

 

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estou condenada a coisas destas

por M.J., em 08.02.17

há um lar de idosos ilegal na minha rua.

tenho a certezinha absoluta.

mais certeza do que dois e dois serem quatro:

 

  • há imensos velhinhos sentados na varanda.
  • já por mais do que uma vez vi sair o carro fúnebre de lá.
  • não está sinalizado como lar.
  • há sempre gente que nos olha ameaçadoramente quando, nas minhas corridas, abrando o passo para observar.

 

portanto, há uns anos foi a creche ilegal, agora é o lar.

 

na altura, não apresentei queixa:

mas por outro lado... se os pais dos catraios se sentem à vontade para os deixar numa creche ilegal... que direito tenho eu de me preocupar mais do que eles?

 

mas não sei se fiz bem.

que teriam feito vocemecês?

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velhos são os trapos. e espertos.

por M.J., em 08.02.17

vou-vos explicar, que é para isso que me pagam:

 

estava uma fila gigante na porcaria das máquinas automáticas de pagamento. 

eu andei às voltas, no meio da multidão, para conseguir chegar ao azeite que me fazia falta para o jantar. pelo caminho encontrei um esmagador de alhos a um euro e estava toda contente a pagar quando a vi:

uma senhora - de cabelos brancos e um cesto cheio de coisas - a meter-se muito de mansinho atrás de mim, prontíssima a pagar as fraldas para a incontinência, passando à frente de toda a gente.

 

havia uma fila única gigante, meus senhores, gigante. eu própria esperara dez minutos para conseguir uma maquineta e ali estava a velha senhora, cabelo armado em meio frasco de laca, roupa a cheirar a naftalina e ar esperto de "a velhice ensinou-me umas coisas" tentando fingir que estava comigo e assim passar à frente dos tristes.

uma filha de uma rameirice que não abona nada a favor de quem tem idade para ter juízo.

e educação.

 

(pausa no episódio: sinceramente, não sei o que se passa com alguns dos idosos de hoje em dia. no meu tempo de infância, quando convivia com alguns, era normal vê-los no café do centro da aldeia a jogar à sueca. ou em casa a cuidar dos netos. ou da horta. ou lavar roupa no tanque. hoje não. a maior parte tem facebook e adiciona-nos sem qualquer vergonha. às vezes, quando são familiares, aceitamos só para depois os bloquear.  e ali estão, na fotografia tirada para o cartão de cidadão, ou pelo neto mais velho. fazem upload das fotos da família toda - mesmo aquelas onde ninguém quer aparecer. vão aos sites de montagens de fotos e criam lindas imagens ao lado de deus, ou com molduras de golfinhos. escrevem frases bonitas acerca da humanidade e comentam as notícias do correio da manhã indignadíssimos.

chega a ser quase uma tragédia.)

 

portanto, fazendo um ponto de situação, aquela senhora estava a tentar ultrapassar toda a gente, fazendo-se passar - vejam a ideia - por minha conhecida. 

tendo em conta que me sentia particularmente bem disposta depois de uma noite bem dormida (#sóquenão) optei por não reparar.

demorei apenas mais tempo a pôr o número de contribuinte, procurar moedas na carteira e constatar que tinha de pagar com cartão: tudo para ver se alguém impaciente da fila se revoltava.

resultou.

passados uns instantes fez-se luz e alguém disse, a medo:

- olhe que isto é fila única.

 

e pronto, the end, a situação resolveu-se, não foi MJ?

a senhora pediu desculpa e foi para a fila.

ou disse que não tinha reparado e perguntou se podia passar à frente que lhe doíam as pernas.

ou ainda informou que, sim senhora, tinham razão, e deslocou-se às caixas prioritárias.

ou pediu-te se não te importavas de a deixar passar à frente, porque estava cansada.

foi isso não foi?

não, meus amigos, não.

 

a velha senhora salta da resposta ensaiada, prontinha na ponta da língua, uma tal lata e desfaçatez que o cabelo nem se mexeu:

- não se preocupem que nós estamos quase a acabar.

 

nós.

nós???

como nós?

mas eu nunca a vira!

 

nem a ela, nem às suas fraldas e muito menos ao cabelo armado.

e mais: aproveitando que eu ainda não estava refeita do choque, vira-se para mim, voz docinha de mel, toda saltitona, toda sorridente, pega-me no braço e pergunta, ar inocente:

- olha, se não tiveres muita pressa, podes ajudar-me a passar aqui com as compras?

não me levem a mal.

ou levem, quero lá saber.

já ajudei velhinhas a transportar sacos até casa. já fiz companhia a uma vendo novelas ao serão. e lavei a louça, durante meio ano a outra, todas as noites, apenas porque ela não se podia levantar.

 

esta, no entanto, padecia da (ou do?) síndrome da espertice.

pelo que soltei um redondo não e avancei, muito solicitamente, que se precisasse de ajuda a funcionária ali do fundo estava à disposição.

isto claro, quando chegasse a vez dela, que a seguir, era a moça da fila.

 

a velha olhou-me como se eu fosse o diabo.

e mais logo vai dizer, a quem a quiser ouvir, que esta geração está perdida.

 

a idade é um posto.

pena que, às vezes, seja só de estupidez.

 

que fariam vocemecês nesta situação?

 

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