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leituras

por M.J., em 04.10.17

li este ano bastantes livros.

não que isto seja uma espécie de "vamos ver quantos consigo", rasgando um sorriso muito largo no fim, num momento de glória por ter lido muitíssimo na competição imaginada na minha cabeça.

não concebo a leitura dessa forma, já o disse.

 

causa-me ânsias, até, essa necessidade de alinhavar livros, lombadas e títulos como uma conquista, ao jeito daquele pessoal que viaja muito e colecciona carimbos no passaporte:

parece-me sempre que a viagem é o menos importante comparado com o entusiasmo que demonstram pelas ninharias coleccionáveis depois.

 

tenho lido mais nos últimos anos porque tenho mais disponibilidade para.

tão simples como isso.

durante uns dez anos estagnei em leituras. houve um ano, ou dois, que não li mais do que três livros. tinha muitíssimas coisas na mente e deixei de parte um prazer que me acompanha desde infância aliado a um leve cheiro de limão e pão quente. não consigo dissociar uma coisa da outra:

os livros têm todos um odor a citrinos e broa de milho. 

 

não costumo falar dos livros que leio porque, ao contrário das outras merdices da minha vida, que escancaranco aqui, acredito não o saber fazer.

é sério.

das inutilidades da minha vida é fácil falar. são minhas e não as desrespeito se disser as banalidades que são. já os livros é um assunto diferente e confesso que ler, às vezes, certas barbaridade acerca de livros geniais, ditas como quem diz o resumo da novela do dia anterior enquanto põe a secar no estendal dois pares de truces e um sutiã, incomoda-me.

incomodou-me antes e acho que vai sempre incomodar-me:

arrepia-me a capacidade de se escrever sobre livros com a mesma ligeireza com que se escreve a lista das compras. "papel higiénico, e depois eu gostei porque é de leitura corrida, arroz, e a personagem principal mantém-se fiel às suas convicções, guardanapos, e no fim apesar da grande reviravolta uma pessoa percebe, carne de porco picada, que a esperança vence sempre, azeite, e que é possível sonhar, massa meada".

 

alivia um pouco se em causa estiver uma porcaria com uma lombada. se me falam do "sei lá" como quem fala do benfica-porto acho adequado. não há outra forma. mas escarrapachar em cima de, por exemplo, A elegância do ouriço considerações minúsculas do "gostei, pronto, era bom", ou de Os Maias com "não presta, tem muita descrição" provoca-me urticária, põe-me as unhas dos pés a crescer para dentro, arranca-me os pensos rápidos das feridas com pelos! pois se tem muita descrição minha filha ou filho, vai ler a tv7 dias e encanta-te com as imagens. 

puta que pariu.

 

li uns quantos livros este ano.

alguns muito pequenitos, a maioria escolhida de propósito com esse objectivo, apenas e só para aligeirar o espírito, dar de rir à alma e entreter o tempo. e ainda assim, mesmo dos mais fraquitos não tenho nada a dizer:

abarcam um conjunto de vidas, de situações e de pessoas que vão para além da minha capacidade de descrição. e até, se pensar muito neles, quase consigo vê-los a saltar num rebuliço de gente e acontecimentos, reviravoltas e sensações.

e por isso, nenhuma palavra que lhes reserve chega. 

 

posto isto, se me perguntarem o que li mesmo bom este ano, a pontos de me transformar em páginas e letras, limão e pão quente, serenidade e rolas no telhado, respondo estes.

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não me atrevo a explicar porquê.

 

quais foram os vossos?

 

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"Claudette era alta, magra e bem conservada para os seus cinquenta e muitos anos."

do livro secreto deste mês - Um castigo exemplar, Júlia Pinheiro

 

 

*(sinto-me sempre tão excluída nestas coisas. é como se fosse novamente a última gorda a ser escolhida nas aulas de educação física ou a miúda das festas de aniversário a que nunca ninguém vinha - nenhuma das opções ocorreu mas achei que podiam ilustrar).  

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no ano passado organizei uma coisa chamada "livro secreto". 

a coisa era simples e de secreto tinha pouco: quem quisesse aderir punha a circular um livro que lhe dissesse algo (não podia ser a história antiga, volume I e II herdada da tia avó falecida) e ao longo de um ano esse livro entraria na casa de outras pessoas, um mês em cada uma, até regressar ao dono. 

o objectivo passava por:

* criar uma interacção entre várias pessoas (sobretudo neste mundo da escrita em blogs);

* levar a que todas nós saíssemos da nossa zona de conforto - no que diz respeito a preferências literárias;

* pôr os nossos livros arrumados (e a cheirar a naftalina em estantes) nas mãos de outras pessoas.

* promover maior leitura.

 

a resposta à iniciativa foi melhor do que estava à espera:

não só bastantes pessoas aderiram (treze para ser mais exacta) como ninguém desistiu a meio (o que, confesso, não estava à espera).

é certo que nem toda a gente leu tudo mas, a verdade, é que os livros saltaram de casa em casa, de mala em mala, de CTT em CTT e estão agora - no regresso às suas devidas prateleiras -  muito mais ricos.

 

ah M.J., então foram só coisas boas?

como é evidente não. 

* ir aos CTT todos os meses é uma valente seca, sobretudo em meses como dezembro, onde estive nada mais nada menos do que 45 minutos em espera, enquanto uma senhora embalava meio carro de brinquedos. 

* os portes nem sempre são baratos - apesar da tarifa editorial.

* um livro perdeu-se pelo caminho e foi comprado novamente. (tenho a certeza que está, neste momento, de férias em paris, dando vivas à sua fuga).

* não é fácil conciliar ritmos de leitura de doze pessoas tão diferentes.

* os livros que queríamos ler vão sendo passados à frente pelos da iniciativa - alguns que nem gostamos muito.

 

no entanto, meus senhores, acreditem, os pontos positivos são muito maiores.

* não só se criaram laços - temos um grupo no facebook onde podemos ir dizendo as nossas parvoeiras;

* como muitas de nós saíram da sua zona de conforto, lendo o que nunca leriam (as visadas que se acusem)

 

* como também é fabuloso receber na caixa do correio algo que não contas para pagar ou folhetos do lidl para comprar queijo fit.

 

houveram dois livros, de todos os da iniciativa, que gostei mesmo muito de ler:

* a contadora de filmes, enviado pela maria das palavras; e

* a sombra do vento, enviado pela dona pavlova.

depois, existiram outros dois que tive alguma dificuldade em terminar, nomeadamente "lua de mel em paris" e " adultério" (o que só serviu para realçar as minhas incapacidades de ler romances cor-de-rosa).

 

posto isto, a primeira volta está no fim. com um mês de atraso (só)  mas no fim.

então e acabou M.J.?

não!

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em março irá começar uma nova rodada de livros.

a iniciativa está aberta a quem quiser participar num limite máximo de 25 pessoas (dois anos de troca é muito tempo e quem sabe se batemos a bota pelo meio). 

doze das pessoas que participaram estão dispostas a prosseguir pelo que há vagas para (é só fazer as contas) mais treze!

então e se houver mais pessoas a querer participar?

infelizmente, nesta ronda, não poderemos aceitar e procederemos todas (as doze da iniciativa um) à escolha dos restantes através de critérios tão básicos como o livro em causa, a participação ou não em blogs entre outros.

(no entanto, não deixem de participar porque, tenho a certeza, não deverá existir muito mais do que doze pessoas a querer aderir.)

 

ok M.J. quero participar, como faço?

envia-me um e-mail para eagoraseila@sapo.pt com o assunto livro secreto.

no corpo de e-mail identifica-te e diz o livro que queres enviar. tendo em conta o feedback das participantes, sugiro que além do livro te dizer qualquer coisa, não deve ser muito grande (evita que ultrapasse as 200 páginas).

também deves dizer-me se concordas ou não que o mesmo seja sublinhado.

por fim, não digas qual o livro que queres enviar na caixa de comentários uma vez que a primeira troca é uma surpresa para todos os participantes.

 

posto isto, vamos participar?

 

 

 

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deu discussão! (quase porrada)