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eu fugitiva me confesso

por M.J., em 22.03.17

não sei quando os meus fins de semana se transformaram na imensidão de nada que são actualmente.

 

não que tivessem sido, em tempos, largos dias de animação, festas, saltos, maquilhagem e saídas nocturnas (essa época foi curta e directa e não acabou da maneira esperada). no entanto, ao longo dos meses e dos anos e do correr da vida fui amainando, numa espécie de embarcação parada por falta de vento enquanto as horas correm, empurradas por uma brisa suave e uma inexistente agitação marítima.

 

os fins de semana são dias de nada, repletos de tudo:

ele trabalha, numa imensidão de projectos que o têm envelhecido e carcomido o tempo livre, eu ocupo-me das mil coisas que desprezei um dia.

faço bolos com farinhas estranhas, sopas sem batata, bolachas que não são bolachas.

transformo tomate em polpa, descasco nozes para bolos e cozinho um arroz duro, integral e esguio, que demora tempos infinitos.

planeio refeições semanais, demolho feijão e acondiciono legumes vindos da serra, com raízes ainda repletas de terra, todos juntos numa caixa a lembrar o amor da mamã.

rego as plantas e arranco ervas daninhas dos vasos.

arrumo livros e desocupo roupeiros.

varro as varandas e planeio as semanas.

às vezes, num dia ou outro, combinamos jantares e visitas, curtos, rápidos, num serão ou num almoço que o tempo é escasso e aproveitamo-lo na necessidade dos dias ou naquilo que nos faz sentir bem.

 

e é isto que não entendo: em que momento estranho deixei de calcular o tempo em função da dor menos forte para esta mansidão dos dias?

em que momento, em que altura houve esta reviravolta que não vi e que me transformou numa espécie de cuidadora plenamente satisfeita por dominar a própria vida?

 

em tempos fui aquilo a que, muito sabiamente, a minha psicóloga chamou de fugitiva.

eu fugia de todos e de tudo aquilo que me desse palpitações ou fizesse torcer os ossos.

tinha uma mochila preta - que ainda andará por aí em qualquer gaveta - repleta dos bens que achava necessários para um recomeço.

usava cada casa arrendada como uma armazém temporário de mim, sem nenhum objecto que não fosse estritamente necessário. nem livros, nem roupa em exagero, nem coisas decorativas nem nada que não pudesse acondicionar em três caixas.

eu era uma fugitiva e fugi de tantas situações que há uma imensidão de coisas passadas por resolver, numa espécie de casa cheia de frestas e frinchas e portas só encostadas porque os donos desapareceram com medo do que por ali entrava.

 

e agora aqui estou.

com medo do tempo em que constatarei ser rija de carnes, um bigode no lábio superior, o puxar dos óculos com gestos firmes na cana do nariz e o soltar ordens de governança de uma casa. o arregaçar das mangas nos braços fortes e lavar no tanque cobertas e tapetes, calças e lenços, assumindo que tudo se cria, que onde come um comem cinco e que as mulheres vieram ao mundo para dar vida à vida.

 

uma consumição, bem vos digo, que me corrói a alma aos fins de semana, nos únicos cinco minutos em que me desocupo.

 

e confesso aqui que percebi - há uns tempos - que a coisa que mais me amedronta na maternidade é a irreversível perda da juventude.

é a última pedra na vida de fugitiva.

é a certeza que depois disso não haverão mochilas pretas nem bens acondicionados em três caixas.

que depois disso eu não sou de mim mas de outrem e não posso recomeçar sozinha.

 

e o tamanho de tal responsabilidade, a imensidão atroz desse pensamento provoca-me tantas palpitações, tanta ansiedade que dou comigo a olhar sobre o ombro na procura de tudo aquilo que posso doar, dispensar, vender, deixar para trás antes que seja tarde de mais para recomeçar.

 

ainda que nunca se recomece na sua totalidade:

trazemos sempre muito do que achamos - erroneamente - que ficou para trás. 

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das pessoas e eu

por M.J., em 08.02.17

eles continuaram.

sorriram mais e choraram. talvez menos. apanharam sol em dias de verão e viram chuva cair por entre vidros foscos no inverno e fizeram planos e mudaram de vida e tomaram café em pastelarias com cheiro a pão fresco.

fizeram novos amigos e sentiram novas coisas e trilharam novos mundos.

 

eu não.

para com eles fiquei lá atrás. no exacto sitio que levou à quebra.

também sorri e chorei e apanhei sol e vi chuva e fiz planos e mudei de vida e passei horas sentada em pastelarias com cheiro de pão fresco e bolos doces.

fiz amigos e perdi amigos.

 

para com eles permaneço lá atrás, teimosamente, batendo o pé. sabendo, na minha loucura de rancor, a dimensão da perda, numa certeza de razão que não interessa mas é minha.

 

no mundo dos loucos a sua loucura é a única lucidez que faz sentido.

e nela permaneço lá atrás na espera do que nunca vai chegar uma vez que a razão assiste a todos. ainda que a minha razão seja maior.

sempre foi.

 

e afinal se chegasse tenho a certeza que percebia a sua desnecessidade.

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das falhas

por M.J., em 14.03.15

sou uma pessoa repleta de falhas.

a pessoa com mais falhas que conheço. uma tipa absolutamente banal que se farta de errar. mais do que qualquer outra pessoa.

entro, não raras vezes, em contradições.

dou conta delas mal penso sobre o assunto. odeio contradizer-me. acontece frequentemente. fico numa zanga comigo mesma quando acontece. às vezes nem me perdoo.

tenho muitas vezes o dedo estendido em direcção aos outros.

chateia-me porque, ao mesmo tempo, aponto uns quantos a mim própria. bato o pé nessa altura, em grandes sermões que me dou antes de dormir, entro em sérias discussões. vou mudando, mas não muito.

afasto-me de pessoas com a mesma facilidade e intensidade com que me aproximo.

entrego-me de alma e coração, faço tudo e um par de botas e atiro-lhes o par de botas, logo a seguir, quando fazem algo que me chateia. não que me chateia. sim que me magoa. às vezes engano-me nas frases que quero dizer.

sou melindrosa.

magoam-me atitudes que na maioria das pessoas passam ao lado e nem reparo em coisas que a maioria das pessoas leva a peito.

exijo dos outros, não de todos, só dos que gosto, o mesmo que exijo a mim.

ninguém está à altura dessa função. o nível de exigência é terrível. tem dias que desce, mas continua ali.

sou manipuladora.

já fui mais. quanto maior é o leque de pessoas com que convivo mais manipuladora sou. consigo sê-lo. grande parte das vezes por bondade dos outros que fingem que não reparam. às vezes não reparam mesmo. outras vezes finjem que não.

 

sou cheia de falhas.

admito. e admito-o, confesso, como arma de arremesso. de que vale a alguém acusar-me as falhas, numa vermelhidão de raiva, com perdigotos e pé a bater no chão, se antes de as apontar eu já as assumi? como se magoa uma pessoa chamando-a idiota, se antes de lhe terem chamado, já ela disse que era?

 

(de que valem certos comentários neste tasco ridículo se a gerência do tasco é a primeira a dizer que é insalubre, sujo e impróprio para consumo?)

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sou tão mas tão do contra

por M.J., em 06.03.15

que às vezes sou contra mim mesma.

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da partida

por M.J., em 05.03.15

a partida de alguém da nossa vida, seja voluntária ou involuntária, deixa para trás uma série de pequenas dores (para além das grandes) que massacram como frieiras em dias de frio:

há fotografias espalhadas, casualmente, pela casa, pelo telemóvel, pelo computador.

há números de telefone, e-mails, a apagar, ainda que os saibamos de cor e dancem em frentes aos nossos olhos como folhas de outono.

há papéis trocados, letras escritas em bilhetes, formando palavras doces.

há uma meia esquecida ao canto, uma flor seca guardada de um dia especial.

há o sitio onde íamos sempre e que não podemos voltar, na dor de imagens perdidas. o cheio do perfume entranhado na nossa pele, que não sai, por mais que esfreguemos. o sabor do gelado favorito, a cor da roupa usual. o dia solarengo de pequenos almoços em frente ao mar.

há toda uma imensidão de dor que enfrentar, na certeza da força que há-de vir e melhorar-nos.

 

e depois há pessoas, como eu, que na partida de alguém importante, entram dentro de uma bola cinzenta onde não sentem, não vêem, não cheiram, não lembram.

são só ocas, sobrevivendo sem sentir, sem ser. 

minúsculos seres cheios de nada.

até alguém apanhar os cacos e os unir em algo novo, mais bonito, maior.

 

há as pessoas, como eu, incapazes de se colarem sozinhas.

as fracas: que vivem no medo da partida e das pequenas coisas que ela traz.

 

 

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