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medos

por M.J., em 13.04.17

há poucas coisas que despreze mais do que a ideia de que os pais são mártires em função dos filhos.

o sentimento de alguns progenitores, tão generalizado ultimamente, que ouço e leio e vejo, numa espécie de moda contagiante e perigosa de:

* ah, as coisas que eu faço por eles!

* ah, como me mantenho neste trabalho horroroso porque tenho filhos!

* ah, que não me divorcio porque os meus filhos precisam de uma mãe/pai!

* ah, que não leio porque tenho todo o tempo todo ocupado com os filhos!

* ah, que não viajo porque tenho de canalizar todo o dinheiro para os meus filhos!

* ah, que apanho porrada no lombo mas não saio por causa dos meus filhos!

*ah!

 

este sentimento dominante de que o que eu faço está condicionado por um ou dois ou três ou uma equipa de futebol de filhos que pus no mundo é feio, sobretudo se passado para aqueles por quem se é, supostamente, mártir.

escrevo e sinto isto unicamente através da minha posição de filha. e sei, como toda a gente, que a maternidade e a paternidade exigem uma série de sacrifícios, uns maiores, outros menores. faz parte como faz parte todo o amor. sacrificamo-nos, numa ou outra questão, quando amamos. pomos de lado pouco ou muito ou quase tudo de nós - dependendo da forma que somos e vivemos e sentimos - em função do outro. repito, faz parte.

o que não faz parte é colocar nos ombros do outro o peso da nossa decisão de sacrifício. o peso do que amamos.

o que não faz parte é dar ao outro, num indício aqui, num indício ali - sobretudo daquele de quem se é progenitor - uma série de decisões cobardes que se assumiu como dominadoras da vida.

o que não faz parte é colocar na cabeça do outro que a sua existência provoca tanta coisa menos boa. mesmo que se jure a pés juntos que se ama. mesmo que se diga - sentindo - que se morria em função do outro: de que raio vale morrer pelo outro se todos os dias se vive uma existência miserável - a que o outro assiste - e que provoca dores de morte pela culpa que provoca? 

 

em última instância a decisão de ser mãe/pai está em quem o decidiu fazer. é a lógica da batata mas a nossa vida é consequência das nossas escolhas, por mais pequenas que sejam, por mais banais que possam parecer. e se não pensamos nisso na maioria das vezes, comandados por um instinto de sobrevivência que nos impele a seguir sem questionar ou fazer um resumo de todos os e ses, é estupidamente repugnante quando, directa ou indirectamente, incutimos no outro que permanecemos, que ficamos, que sofremos porque amamos tanto.

é ridículo.

é obtuso.

a decisão de permanecer numa relação, de ficar num trabalho, de ter uma casa minúscula, de não viajar, de não ser feliz é sempre, em última, instância de quem decide e não do condicionante.

a decisão de permanecer numa relação abusiva é de quem escolheu aquela relação e tem medo ou pavor ou incapacidade de se mover, usando como escudo protector um ou dois filhos. e incutindo, mesmo sem querer, que a responsabilidade da sua infelicidade é do condicionante. e quando o condicionante voa e sai de casa e há mil oportunidades de sair também, permanece-se porque "é demasiado tarde, porque quando era possível sair havia filhos e não se podia!".

isto não é amar. ou pelo menos é um amor egoísta que provoca traumas inimagináveis naqueles que sendo os "condicionantes" precisam de lidar com uma culpa que não é deles. 

 

há poucas coisas que mais despreze do que mártires por opção e que sendo mártires decidam colocar a responsabilidade do seu espírito de messias na existência do outro.

e é por isso - também - que tenho tanto medo de ser mãe. 

 

 

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eu fugitiva me confesso

por M.J., em 22.03.17

não sei quando os meus fins de semana se transformaram na imensidão de nada que são actualmente.

 

não que tivessem sido, em tempos, largos dias de animação, festas, saltos, maquilhagem e saídas nocturnas (essa época foi curta e directa e não acabou da maneira esperada). no entanto, ao longo dos meses e dos anos e do correr da vida fui amainando, numa espécie de embarcação parada por falta de vento enquanto as horas correm, empurradas por uma brisa suave e uma inexistente agitação marítima.

 

os fins de semana são dias de nada, repletos de tudo:

ele trabalha, numa imensidão de projectos que o têm envelhecido e carcomido o tempo livre, eu ocupo-me das mil coisas que desprezei um dia.

faço bolos com farinhas estranhas, sopas sem batata, bolachas que não são bolachas.

transformo tomate em polpa, descasco nozes para bolos e cozinho um arroz duro, integral e esguio, que demora tempos infinitos.

planeio refeições semanais, demolho feijão e acondiciono legumes vindos da serra, com raízes ainda repletas de terra, todos juntos numa caixa a lembrar o amor da mamã.

rego as plantas e arranco ervas daninhas dos vasos.

arrumo livros e desocupo roupeiros.

varro as varandas e planeio as semanas.

às vezes, num dia ou outro, combinamos jantares e visitas, curtos, rápidos, num serão ou num almoço que o tempo é escasso e aproveitamo-lo na necessidade dos dias ou naquilo que nos faz sentir bem.

 

e é isto que não entendo: em que momento estranho deixei de calcular o tempo em função da dor menos forte para esta mansidão dos dias?

em que momento, em que altura houve esta reviravolta que não vi e que me transformou numa espécie de cuidadora plenamente satisfeita por dominar a própria vida?

 

em tempos fui aquilo a que, muito sabiamente, a minha psicóloga chamou de fugitiva.

eu fugia de todos e de tudo aquilo que me desse palpitações ou fizesse torcer os ossos.

tinha uma mochila preta - que ainda andará por aí em qualquer gaveta - repleta dos bens que achava necessários para um recomeço.

usava cada casa arrendada como uma armazém temporário de mim, sem nenhum objecto que não fosse estritamente necessário. nem livros, nem roupa em exagero, nem coisas decorativas nem nada que não pudesse acondicionar em três caixas.

eu era uma fugitiva e fugi de tantas situações que há uma imensidão de coisas passadas por resolver, numa espécie de casa cheia de frestas e frinchas e portas só encostadas porque os donos desapareceram com medo do que por ali entrava.

 

e agora aqui estou.

com medo do tempo em que constatarei ser rija de carnes, um bigode no lábio superior, o puxar dos óculos com gestos firmes na cana do nariz e o soltar ordens de governança de uma casa. o arregaçar das mangas nos braços fortes e lavar no tanque cobertas e tapetes, calças e lenços, assumindo que tudo se cria, que onde come um comem cinco e que as mulheres vieram ao mundo para dar vida à vida.

 

uma consumição, bem vos digo, que me corrói a alma aos fins de semana, nos únicos cinco minutos em que me desocupo.

 

e confesso aqui que percebi - há uns tempos - que a coisa que mais me amedronta na maternidade é a irreversível perda da juventude.

é a última pedra na vida de fugitiva.

é a certeza que depois disso não haverão mochilas pretas nem bens acondicionados em três caixas.

que depois disso eu não sou de mim mas de outrem e não posso recomeçar sozinha.

 

e o tamanho de tal responsabilidade, a imensidão atroz desse pensamento provoca-me tantas palpitações, tanta ansiedade que dou comigo a olhar sobre o ombro na procura de tudo aquilo que posso doar, dispensar, vender, deixar para trás antes que seja tarde de mais para recomeçar.

 

ainda que nunca se recomece na sua totalidade:

trazemos sempre muito do que achamos - erroneamente - que ficou para trás. 

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se me acham bruta agora, pouco diplomática, com um humor duvidoso e piaduchas idiotas, haviam de me ter lido há uns anos.

a minha acidez - e estupidez - chegava a dissolver carcaças.

 

deixo-vos um pedacito de uma carta escrita num dia particularmente nebuloso.

 

podem ler mas não me batam.

lembrem-se que estamos sempre em constante evolução.

(e na verdade, não há assim muito coisa por ali que não seja verdade, 'tão não?)

 

agora, sobretudo, sobretudo - e isto é essencial - pergunta primeiro à pessoa que está ao teu lado se ela quer efectivamente pôr a mão na tua barriga. é que repara, torna-se desagradável para os outros alguéns do mundo estarem constantemente em sobressalto sobre se será agora que vão ter de sentir uma coisa anormalmente estranha dentro da barriga de outra pessoa e terem de dizer: que giiiiro!

não-é-giro!

não é!

é estranho e causa, numa primeira sensação, um sentimento de repulsa.

 

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oh vai ver ali:

pais e espermatozóides

por M.J., em 25.01.17

um dos meus maiores medos na maternidade é que, depois de dar luz à vida ou vida à luz ou seja lá como lhe chamem, o rapaz se passe e eu fique governanta única de um puto cagão, limpando fraldas, dói-dóis, xixis e mauzões na escola. 

 

quando revelo isto, em jeito de confidência, a quem nos conhece é gargalhada garantida. é que não só o rapaz é a pessoa mais responsável da face da terra, como até com o cão - que tivemos uma semana - se apegou de tal forma que parecia terem sido criados juntos em comunhão de corridas e vai buscar.

 

mesmo assim tenho arrepios na espinha quando penso nisto. quando vejo/leio/ouço mulheres a dizer que fazem tudo sozinhas em casa, que o marido/amante/namorado trabalha e não tem paciência. que são elas que vão buscar e levar os putos a todo o lado, desde médico, catequese, cagadeira e creche. que são elas que se levantam a meio da noite, todas as noites, para ir acalmar pesadelos e birras. que são elas que vão envelhecendo precocemente porque são mães e logo, têm mais dons para a coisa. quase num orgulho do "eles preferem-me a mim" e por isso vou-me matando aos pouquinhos enquanto o meu marido vê futebol na sala e se levanta às duas da tarde.

 

é que acredito que estas mulheres, a não ser que tivessem vocação para o sacrifício, estavam convencidas que as suas crias teriam um pai e não só um espermatozóide

e depois, afinal, até o espermatozóide era fraquinho. 

 

acredito que todas as pessoas se passam. que toda a gente tem potencial para largar tudo e tentar recomeçar, mesmo aquelas que jurávamos - com as duas mãos - que não.

e se? 

 

as pessoas nunca pensam nisto?

sou assim tão anormal?

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oh vai ver ali:

dos chinelos

por M.J., em 23.02.15

encontrei uma senhora calçada com uns chinelos de quarto, sem parte da frente, no continente.

eu explicava ao moço, em grandes gestos, que precisávamos mesmo de claras pasteurizadas, porque estou farta de dar cabo das gemas, quando a vi.

por momentos estaquei em silêncio.

já passava das nove, chovia na rua, estava um frio da merda e ali estava uma senhora, com iogurtes  na mão, de chinelos de quarto, calças justas e uma túnica de um tecido estranho.

 

fiquei confusa.

claramente a senhora não era mendiga. nenhum mendigo que se preze compra iogurtes da danone. possivelmente estaria apenas confortável nos seus chinelos de quarto. podia ter joanetes e não conseguir calçar uns sapatos de verniz. ou uma unha encravada em cada pé.

fosse como fosse a senhora estava claramente à vontade na secção dos frescos.

e quando eu pagava acabei por a ver com um senhor janota, de bigode e calça vincada, e um bebé de meses dentro de um cesto qualquer.

 

percebi claramente que a senhora tinha sido mãe há pouco tempo.

e na beleza da maternidade nem sempre há tempo para calçar sapatos.

 

mesmo quando vamos ao continente comprar iogurtes.

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da carta

por M.J., em 02.02.15

cara senhora que vai ser mamã:

 

acredito que estejas orgulhosa.

não que eu ache que devas estar assim, muito por aí além. bem vistas as coisas, a maioria das pessoas consegue fazer um filho (seja inteligente, bonita, feia, rica ou pobre). é uma coisa natural. a não ser claro, que tinhas tentado muito e não tenhas conseguido.

por isso, envergares a barriga pelo meio da praça com ar de "foda-se, sou a maior, tenho uma pessoa dentro de mim" não é um grande feito. quer dizer, se tiveres oito pessoas dentro da barriga consigo entender (quanto mais não seja conseguires caminhar). agora ter uma ou duas... bem, pronto.

 

do mesmo modo, acredito que queiras mostrar e dizer ao mundo as maravilhas da maternidade. mas acredita que nem toda a gente - enquanto come uma sandochas, ou pensa no drama do cabelo cujo volume duplicou esta manhã - está com vontade de saber que

i) enjoaste quando acordaste,

ii) os teus pés incharam e

iii) peidas-te sem conseguir controlar.

por mais radiante que estejas! e sim, estás. isso não é gordura, é outra pessoa. isso não são mamas de silicone. é leite em formação. estás um espanto, fabulosa, irradias essa coisa que os poetas cantam de brilho de grávida mas, por favor, não estejas constantemente a falar disso, sobretudo a quem por exemplo, não pode ser mãe. há tantos temas.... a grécia por exemplo. ou o benfica. ou o pudim que comeste todo ontem à noite num desejo mal contido.

é que são nove meses. nove! é muito dia a discorrer do mesmo assunto. 

 

agora, sobretudo, sobretudo - e isto é essencial - pergunta primeiro à pessoa que está ao teu lado se ela quer efectivamente pôr a mão na tua barriga. é que repara, torna-se desagradável para os outros alguéns do mundo estarem constantemente em sobressalto sobre se será agora que vão ter de sentir uma coisa anormalmente estranha dentro da barriga de outra pessoa e terem de dizer: que giiiiro!

não-é-giro!

não é!

é estranho e causa, numa primeira sensação, um sentimento de repulsa.

 

desculpa estar a dizer isto.

eu sei que devia estar aos saltinhos contigo. sentir do teu orgulho por contribuíres para a natalidade (ainda que o planeta não ache muita graça). fazer o meu ar mais fofo porque um novo ser vem a caminho. irradiar felicidade porque o milagre da vida se desenrola aos meus olhos. mas não estou. estou só em pânico que pegues na minha mão (esquerda ou direita) e a coloques na tua barriga descomunal enquanto me dizes, com um piscar de olhos "vai ser o próximo cristiano ronaldo".

não faças isso está bem?

e eu prometo que digo, quando ele nascer, que mesmo vermelho e enrugado é a criatura mais bela que a humanidade já teve a honra de ver!

 

ah, ah e não digas a ninguém que não queres epidural visto que a tua mãe também te teve sem a levar e não morreu. acredita. quando chegar a hora, se puderes, não levas só uma! 

 

ps. e quando eu estiver grávida - algum dia vai ter de ser, coitada da criança, tenho mais pena dela que de mim - lembra-me disto tudo, está bem?

agradecida!

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