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por mais que suba

por M.J., em 07.09.17

lembro-me de ouvir um dia dizer que, por mais que fulano subisse na vida, não deixaria nunca de ser o filho do qualquer coisa.

sendo o qualquer coisa pejorativo. atirado ao ar como uma escarreta. dito assim, num arremesso de palavras, na convicção de que enfim, há vidas pequenas e há vidas grandes que serão sempre pequenas devido a certos factores.

podes fugir mas não te podes esconder. 

quem és é moldado pelo sítio de onde vieste ou de quem saíste.

não interessa quem sejas hoje.

e cada degrau que sobes ou desces é condicionado por quem foste.

sem opção.

 

durante anos lutei contra a certeza de que era uma serranita gorda e pouco polida.

que não sabia qual o copo da água e do vinho num grande evento.

que não percebia o motivo de se pôr o guardanapo nas pernas e não entendia, sobretudo, o falar em sussurro, o rir em sons cristalinos, o caminhar com ar de quem leva a vida em cima do nariz.

desajeitada, com a delicadeza de um elefante em cima de nenúfares, voz pujante, gargalhadas fortes, caminhar torto e desengonçado, olhando o chão no medo de ver muito acima. 

 

a primeira vez que vivi na cidade tinha a certeza absoluta de que o mundo me observava e apontava o dedo, clamando que o meu lugar era entre as árvores e o rio. entre a terra, as galinhas e as carroças de erva com a vaca pinta à frente, da quinta para os currais ao fundo da casa da avó. e que o meu lugar sendo lá, aos olhos destes onde hoje regresso, lá também não era porque sempre senti que o mundo era mais do que as curvas e contracurvas, o isolamento e a sensação de gota fora de água.

 

e depois, quando finalmente me moldei a viver de outra forma e achei que o passado era um fantasma que não me incomodava, mandei tudo às urtigas e percebi, sem perceber muito bem, que a melhor parte de mim, a mais segura, a mais pura, a que mais valia a pena, era a que vinha de trás.

era a rudeza dos montes, o cantar do galo às quatro da manhã, o apanhar o autocarro desconchavado em dias gélidos para ir para a escola.

era a broa de milho feita no forno a lenha, as laranjas caídas nas ruas como bolas de futebol e a corda de amarrar os molhos transformada em brinquedo em pequenos saltos.

eram os rebuçados de dois e quinhentos, a marmelada a secar ao sol, as uvas a escorrer nos lagares e os livros dos cinco no banco de cimento à entrada do portão.

 

por mais que suba ou desça na vida - seja lá isso o que for - virei dali ou dacolá e terei nascido dacolá ou dali.

isso não é pejorativo.

é quem sou. 

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ódio

por M.J., em 10.07.17

a primeira vez que senti ódio visceral tinha sete anos e andava na escola primária.

eu era, como sou, uma trapalhada ambulante: gordita, mau feitio, ar mandão, rezingona, carente, chata, cabelos sem graça e uma péssima conjugação de roupa, que oscilava entre a vontade da mamã e o que a avó achava adequado, numa conjugação estranha de fatos de treino rosa neón dos power rangers com uma blusa de linho de formidáveis golas de renda.

 

a mamã trabalhava o dia todo, naquela época, numa fábrica de confecções longe da aldeia. era o tempo áureo da indústria e por todo o lado havia um armazém com centenas de máquinas de costura e mulheres sentadas, dobradas, o dia todo a cozer.

o facto de estar o dia todo longe da minha mãe causava-me ânsias.

sempre fomos apegadas de uma forma primitiva com sentimentos estranhos que iam do desespero a uma angústia sem nome sempre que ela se atrasava ou não respondia aos meus chamados durante a noite. coisas que, creio, a terapia explicaria, se me desse a vontade de voltar.

 

aos sete anos a mamã, longe de mim durante o dia, fazia questão de me mostrar que eu estivera nos seus pensamentos: um punhado de rebuçados doces quando chegava; um livro sobre os amigos da floresta no fim do mês; uma caixa de cereais que não se vendia na aldeia de vez em quando e, um dia, um elástico para o cabelo que ela mesma fez na fábrica, na hora de almoço. era um elástico estranho. funcional, lá isso era, mas no tecido e padrão com que costuravam na época: militar.

talvez hoje estivesse na moda, quem sabe*, mas na altura não estava.

usavam-se saias coloridas - nunca mais esqueço a saia amarela de uma amiga ainda hoje, com as suas duas tranças compridas e uns olhos gigantes, o mais bonito ser que eu achava existir na minha infância - elásticos com bolinhas azuis e combinações de cores, num pandã adequado.

já eu usava as combinações esquisitas de duas vontades de ferro da mamã e da avó e o meu elástico da tropa no cabelo. 

 

um dia, na hora de almoço, a cantina térrea ao lado do campo de terra, as árvores ao fundo, a menina bem da escola, filha de uma personalidade ilustre da aldeia, sabedora da sua posição - as crianças sabem sempre - apontou o meu elástico e gozou, muito alto e muito bem, sem a minha alarvidade ou espalhafato, sorrisinho ao canto do lábio e cabelo impecavelmente alinhado. gozou forte e feio, mas em bem, com o elástico que a mamã me dera, dias antes e que simbolizava a certeza de que pensava em mim constantemente.

foi a primeira vez que senti o tal ódio profundo.

um sentimento atroz que me fez dores de barriga e lágrimas abundantes, mesmo que eu já soubesse muito o que eram umas e outras, e me perseguiu durante muito tempo, numa conjugação estranha de factores ao longo da vida.

 

lembrei-me disto na semana passada, como tantas outras coisas que o cérebro me recorda quando preciso de clarear a mente e descobrir onde estou.

é estranho que me venham à memória dias que não sabia já terem existido, momentos que pensava não serem importantes ou horas perdidas que nem sabia que me podia lembrar. 

 

conto isto não com o objectivo final de "e olhem onde estamos as duas hoje" (até porque não acredito que quem fomos aos sete anos e as acções que por ali tomamos, desta pequenez, sejam reflexo do que somos e fazemos aos trinta) mas porque me lembrei que a primeira vez que odiei alguém, num sentimento de antipatia que me perseguiu o resto da vida - se me perguntarem da moça hoje em dia, que nem sei onde para, não sinto grande coisita por ela - foi porque apontaram o dedo ao amor abismal que sentia pela mamã.

pensando bem nisso, parece-me um dos motivos mais válidos para odiar. 

 

*fui ver à net, numa pesquisa curiosa: parece que se vende hoje, até, como uma coisa bonita. nunca tão bonito como o meu mas, ainda assim, aceitável aos olhos da moda. 

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25 de abril

por M.J., em 24.04.17

a primeira vez que soube do significado do 25 de abril tinha 9 ou 10 anos e uma quadra da escola para fazer em casa.

o título seria qualquer coisa como "o 25 de abril para mim" e depois de concluir pela rima com "jardim" fiz um longo poema sobre rosas e malmequeres, abelhas e morangos.

 

a avó leu as palavras alinhadas e escritas com uma letra gigante muito desfeita, muito feia, um esbardalhanço de tinta e borrões,

escreve tão mal, esta miúda,

e abanando a cabeça com desilusão no olhar perguntou:

mas tu sabes ao menos o que é o 25 de abril?

e eu que não, que não sabia, achava que era feriado mas haviam tantos e tirando o natal escapavam-se-me todos.

uma consumição já aos oito.

 

a avó sentou-se comigo num murito do quintal.

haviam laranjas numa laranjeira antiga, galinhas ao fundo e uma ameixoeira grande.

o silêncio era atroz - algo que não lembro mas depreendo, que nunca se queima o silêncio na aldeia - e contou, muito séria, muito longa, muito solene, o que fora a revolução.

contou baixinho, quase em surdina, olhando de soslaio possíveis escutas porque há hábitos que não morrem e medos que não desaparecem:

enumerou dias e torturas.

falou de gente que eu conhecia e do que passara.

contou acontecimentos com conhecimento de causa e autoridade.

respondeu a todas as perguntas de infância de quem não entendia o que era "não poder falar", "não poder pensar", "não poder ser diferente".

revelou segredos antigos de família, que eu não compreendera por criança, e levou-me a crescer muito rápido naquele dia.

 

o meu poema, alinhado e grande, letra desconchavada e tinta borrada, foi o melhor segundo a professora, que me presenteou com uma estrela (ou seria uma cara sorridente?) colada no canto da folha:

o meu prémio, o meu troféu por qualidade. 

 

mas não me lembro de festejar.

foi o meu primeiro contacto com um medo superior do homem na impotência do próprio homem.

foi a primeira certeza de que os adultos não podem tudo, não conseguem tudo, não são tudo.

foi a primeira ideia de que havia no mundo uma coisa chamada "ditadura" e que ia muito para além do "come e cala-te, vai para a cama, estás de castigo".

foi a primeira sensação de que o homem tortura o homem, no significado da palavra.

 

só anos mais tarde compreendi a total beleza rara do 25 de abril, o seu significado como um todo e onde nos trouxe.

 

e hoje tenho tanto medo que o mundo se vá esquecendo dele, encaminhando-nos cada vez mais para aquele meu terror primitivo, num dia à tarde, com uma avó destemida e aterrorizada, a contar-me sobre a privação da liberdade de ser. 

 

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páscoa serrana

por M.J., em 31.03.17

a serra tem um silêncio que não encontrei, jamais, em qualquer outro lugar.

ouvimos, com clareza transparente de riachos puros, o som dos pássaros, dos cães ao longe, de uma mosca melancólica no vidro.

 

na páscoa o silêncio aumentava numa dimensão de milagres santos.

os dias eram mais claros e azuis na primavera que chegava. as trepadeiras da varanda, em mil gomos lilases lançavam um cheiro adocicado e disputar com as amêndoas doces espalhadas em pratos. limpava-se a casa, numa azáfama constante. a sala passava a cheirar a óleo de cedro e ananás, com uma grossa toalha de renda.

 

na quarta feira santa as confissões na igreja estendiam-se o dia todo.

eu arranjava mil pecados que não cometera para ir com a minha vizinha. demorávamo-nos no caminho, passando pelo carreiro cheio de ervas daninhas. 

fazíamos ramos de flores amarelas, silvestres, que escondíamos à entrada da igreja e que estava invariavelmente fria, com cheiro a lixívia e humidade. pálidos raios de sol entravam pelos vitrais fazendo brilhar partículas de pó. sentava-me num dos bancos cimeiros e ficava contando os pontinhos de luz que dançavam na minha frente.

 

na quinta feira o avô punha luzes na fachada da casa.

preparava-se o caminho da procissão da noite, com velas compradas na loja do lado da igreja, que enrolávamos em papel velho.

o padre fazia uma missa longa que eu não ouvia. sentava-me no muro do grande largo da igreja e ficava - calçando ou vestindo alguma coisa nova - olhando as pessoas, na procura de uma cara da escola.

às vezes comprávamos rebuçados e ansiávamos pela procissão para acender as velas.

 

na sexta feira era proibido comer carne.

a mamã escondia qualquer pedaço dela, para não nos esquecermos ou cair em tentação. o pecado mortal de comer carne jamais seria perdoado. 

comíamos arroz de polvo, invariavelmente ao almoço, numa festa de rancho melhorado. não conseguia perceber o contexto de penitência.

nem os papás.

o papá, do alto da sua voz grave, dizia que era um pecado hediondo comer carne, deus me livre, enquanto a mamã cozia o polvo. bem mais caro que a carne. um dia avancei que penitência era não comer uma coisa que gostássemos pelo que eu abdicaria dos chocolates.

foi-me dito para não dizer asneiras pelo que, para compensar, às três da tarde - quando no café do tio se exigiu um minuto de silêncio pela morte de jesus cristo - enfardei dois chocolates twix que a minha prima me deu.

 

à tarde outra procissão do funeral de cristo.

a multidão amontoava-se à porta de uma velha capela e pelo chão espalhava-se erva doce e flores silvestres. caminhávamos em silêncio, muito sérios e compenetrados.

a banda tocava afinada, na certeza de não fazer feio.

e no meio as mulheres criticavam roupas e cabelos, aquela que engravidara ou o outro que andava com a vizinha.

 

no sábado, antes de jantar, na igreja faziam-se cerimónias que se arrastavam noite dentro.

eu ouvia-as, de casa, os cânticos longos e desafinados e num dia de tédio decidi ir. acenderam uma fogueira à entrada e dentro cantaram desalmadamente durante horas. a meio fartei-me, enregelada e fui para casa maldizendo a triste ideia que se me dera. durou até às onze da noite, altura em que o sino tocou a anunciar a ressurreição.

 

no domingo o padre passava, com uma cruz, por todas as casas: era o compasso.

o papá insistia em pôr pétalas de camélia no terraço, contra a vontade da mamã. havia amêndoas em pratos brancos e uma toalha muito brilhante em cima da mesa. encostado a uma jarra de cravos, que a mamã ordinariamente comprava, colocavam um envelope selado com o dinheiro do folar a entregar ao senhor padre. nós ouvia-mo-lo à distância de uma campainha que um miúdo tocava. 

ficávamos quietos, cada um no seu sítio, quando o padre entrava.

uma vez, muito pequena, recusei-me a beijar a cruz porque me haviam dito que todos os velhos a beijavam - mesmo os sem dentes - e que o pano com que a limpavam era sempre o mesmo. quando o compasso saiu a mamã pôs-me de castigo.

mais tarde a avó disse-me que não haviam doenças nos pés de deus.

aquilo convenceu-me:

ainda hoje beijo.

ainda hoje não como carne à sexta feira.

ainda hoje sei de todos os pormenores, que me doíam à época, e que recordo com melancolia gritante de quem não volta a tempos em que o silêncio quebrava a dor e se transformava em coisas maiores.

 

continua tudo lá.

só eu não.

os mesmos rituais e procissões, compasso e envelope em frente ao jarro de cravos, a que assisto, muito ao de longe, sem assistir, na promessa feita.

há promessas que deveríamos estar autorizados, por nós mesmos, a quebrar.

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ai MJ, a tua vida.

por M.J., em 14.03.17

ai manel, a tua vida,

grandes gargalhadas quando o viam, costas dobradas no campo, enxada na mão, suor a escorrer por entre as rugas que tinha desde que nascera porque há pessoas que nascem velhas, uma vida de cem anos no choro de quem vê a luz,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

a voz fina, amaricada, mãos calejadas, um mouro de trabalho, o calor infernal serrano do meio dia a bater nas costas, um pouco de água num rego por entre as ternadouras,

são leiras, que raio é isso de ternadouras?

um poço de água salgada a escorrer pelo corpo, a mesma camisola, inverno ou verão, uma malha velha em cima do peito cansado de velho, de quem nasceu velho, de quem cresceu velho, de quem morre velho.

 

ai manel, a tua vida,

quando passavam e o viam, uma quinta grande para tomar conta, sozinho, que os amos - a madrinha e o padrinho - assim o exigiam,

há que justificar o que come e bem que ele come,

o milho, o feijão, as batatas, as duas vacas e a erva, o abrir a presa e o fechar a presa, apanhar cachos,

são uvas, que raio é isso de cachos,

pô-los em cestas grandes que carregava aos ombros sozinho, despejá-las no lagar para transformar em vinho, um mouro de trabalho de quem não sabe o que é outra coisa,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

 

às dez da manhã, depois de levantado desde as seis, tirar leite às vacas, levar o leite ao posto, limpar o esterco dos currais, apanhar erva, correr pelas quintas,

para onde vais tu manel, com essa pressa? olha que cais,

as pernas velhas de quem nasceu velho, tropeças em passo apressado, um ar de missão de quem tem a vida nas mãos e precisa de a levar a bom porto,

vou levar o leite à madrinha, que deve estar a levantar-se,

senhora velha nascida nova, cabelos brancos, uma santa de virtudes a acolher o rapaz órfão, velho de nascimento, velho de infância, velho de juventude, velho de velhice, 

olha que tu vê lá como me tratas a quinta,

voz fina e sedosa, uma completa boa acção, que seria dele sem ela?

e ele a correr, todas as manhãs, umas quatro horas depois de estar acordado, com meio dia de trabalho nas costas, a levar o leite para a ama comer.

 

ai a tua vida manel,

as piadas de quem passava, um ar de galhofa na voz, a certeza de que era paneleiro, mariconço, maricas e larilas. palhaço nacional na miséria humana encontrado um dia, num dos currais perto do rio, enrolado com um tolito ainda mais tolo, uma pouca vergonha, os dois engalfinhados como dois cães com o cio,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

 

a mesma camisola, inverno ou verão, um sol infernal serrano do meio dia, o feijão e o milho, uma folha que não se movia num verão estéril, uma mosca que não zumbia na frescura de uma árvore inexistente, um calor bruto, seco, doente, e ele de costas dobradas, a cabeça descoberta ao morrer do meio dia,

ai manel que tu morres assado com essa roupa,

e ele, voz fina de mulher, olhos velhos de quem nascera velho,

o que tapa o frio tapa o calor. 

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(imagem daqui)

 

tantos anos depois, quando encasacada mesmo em dias quentes, me perguntam,

que raio M.J. não tens calor? 

respondo, com um sorriso de quem sabe por ter aprendido com um velho nascido mais velho e que se recusara - a vida toda - a admitir a inferioridade da própria vida:

o que tapa o frio tapa calor!

 

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confeisho a god

por M.J., em 07.03.17

marble_champion-large.jpge então já sabem dizer as cores?

voz suave de menina ainda que os cabelos brancos a lembrassem da idade, saia casaco da mesma cor, sapatos resistentes de homem, sempre que nos encontrava a menina milinha perguntava-nos coisas e nós - bem ensinados e crentes - respondíamos fosse verão ou inverno, houvesse chuva nos chapéus grossos de plástico,

olha que não partas o guarda-chuva que não te compro mais nenhum,

ou calor abrasador serrano, em dias eternos de verão.

 

 

e então, já sabem dizer os números?

uma curiosidade quase infantil, na procura de quem conversar, mesmo que a conversa fosse com quatro miúdos pequenos, alinhados e carregados, vindos da escola primária com grandes mochilas aos ombros, pão na mão esquecido de ser comido durante o dia,

olha que tu come o que te mando, que aqui em casa não há dinheiro para estragar,

e toda uma certeza de quem sabe que a vida se moldará aos seus pés, ainda que a vida fosse só aquelas casas perdidas, a escola no cimo pequena e branca, com duas salas enormes e duas casas de banho na rua, na entrada, 

posso ir fazer xixi, senhora professora? 

a espera da resposta, pernas a tremer, só se pedia quando a vontade era mesmo muita, na vergonha dessa intimidade,

podes pois, mas não se diz assim. repete comigo: a senhora professora dá licença que vá à casinha?

e depois uma corrida até à casa de banho feminina ou masculina com uma sanita ao meio e uma porta com um fecho.

sem lavatório. 

 

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e então, já sabem dizer os dias da semana?

e nós, na ida para casa, desertos do dia que passara em mais brincadeiras do que estudo, o grande cruzeiro ao centro, a árvore onde nos empoleirávamos, o lago ao fundo com girinos que pescávamos, as flores da época, 

nada de calcar as flores, vejam se têm maneiras ou eu chamo os vossos pais,

nós ali, bem comportados e mandados, que a menina milinha - à espreita, de saia casaco e cabelo levantado - era uma autoridade,

por que é que ela é menina, mãe? se já é velha,

a curiosidade espantada de quem não sabe a vida,

porque as irmãs dos padres são sempre meninas. 

 

 

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e o padre nosso, já sabem dizer o padre nosso?

perguntava a menina que não era menina mas que nunca fora mulher, desejosa de dois dedos de conversa e nós, saídos da escola, com calor e esbaforidos, sabedores da recompensa de quem poupara um mês inteiro, cinco escudos aqui, dez escudos perdidos ali, tudo junto num lenço à saída da escola, para quatro gelados comprados na loja perto da igreja,

temos duzentos escudos!

nós esbaforidos da corrida, cinquenta escudos por gelado, uma festa enorme de quem antevê doçuras, quase a chegar à loja e ela,

e a avé maria? já sabem dizer a avé maria?

aquela curiosidade santa de quem nunca aprendera inglês e queria saber o que nós sabíamos, todas a quartas depois das aulas, na professora nova que nos ensinava aos bocadinhos, uma hora por dois contos mensais, 

e o acto de contrição? já sabem dizer o acto de contrição?

e nós, que até em português nos engasgávamos no credo, os bolsos a queimar do dinheiro junto, uma fortuna enorme para quatro gelados, uma excitação de quem poupara tanto para a doçura de cinco minutos, nós já cabisbaixos pela meia hora ali perdida a fazer companhia a uma menina tão velha,

e o credo? já sabem dizer o credo?

 

e a ana, mais expedita, mais afoita, a minha ana que me desenganou do pai natal aos seis anos e me fez acreditar novamente na vida aos vinte e quatro, farta, sem paciência, lingua afiada, ombros encolhidos e a pergunta, num descaramento sem fim, vozinha felina de quem pensara no assunto,

e a menina, por que não se casou?

 

os gelados de cinquenta escudos não serviram para acalmar as lágrimas das palmadas que a mamã me deu depois, quando sabedora do episódio.

e por mais que lhe explicasse que não fora eu, que até me mantivera calçada e de olhos no chão, a mão da mamã encontrou o meu rabo e fez-me lembrar, de uma vez só, que não havia confissão que perdoasse certos pecados.

nem mesmo em inglês.

 

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e a confissão? já sabem dizer a confissão?

uns dias mais tarde, no retorno à normalidade,

e eu,

pois sim, que sei,

e ela,

então diz lá.

e eu,

confaisso a god alwais powerful my pecaidos. 

e ela,

só isso? 

e eu,

isso e cinco palmadas no cu. 

 

 

e desta vez a mamã não bateu. estava a rir-se demasiado para ter força. 

 

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não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas antes da missa era a catequese.

nós, que nos conhecíamos da escola, chegávamos mais cedo e ficávamos no átrio em correrias de brincadeira.

a catequista era uma miúda nova que se aperaltava na honra concedida e lia-nos o catecismo que comprávamos no início de cada ano.

uma vez cortei as imagens do catecismo todas, e colei-as num caderno velho, na minha própria história, ao lado de outras cortadas de uma revista que os senhores jeovás deixavam lá em casa, antes da mamã os expulsar.

de vez em quando, o senhor padre, calvo, afável, maneiroso, baixinho, pequenino, voz felina, barba feita perguntava-nos o credo, fazendo cara feia quando não sabíamos.

o padre está num lar, faz mais de dez anos, acabado de velhice.

 

não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas quando podia, depois da catequese, fugia da igreja:

corria desalmadamente e ficava na terra em frente de casa, fazendo bolos de lama ou escondida no meio do milho até ver a dona lurdinhas, que mais santificada naquela hora, bamboleava-se afirmando ao mundo que ia fazer o arrozinho.

a dona lurdinhas morreu, vai fazer três anos. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas quando não podia fugir ficava ao lado dos outros todos, bem alinhados, mesmo na primeira fila.

a meio da igreja o coro cantava, desengonçadamente, num orgulho desafinado dos seus membros em trajes de domingo.

eu levantava-me quando me tinha de levantar e sentava-me quando tinha de me sentar.

os minutos arrastavam-se na voz monocórdica do padre. e na hora da saudação eu ia muito saltitante dar beijinhos a conhecidos e família, que a mamã assim ensinara, incluindo ao avô que me segredava piadas.

o avô morreu, vai fazer dois anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas dizia-se que o padre tinha um filho e muitas amantes.

dele só sabia que falava baixinho e que apertava as bochechas com muita força. e que tinha uma irmã que nos esperava na saída da escola, só para conversar.

a irmã do padre desapareceu, vai fazer dez anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas nunca ouvi uma palavra do que era dito, fosse em que altura fosse.

conseguia escutar as primeiras leituras, em pessoas que saiam dos seus bancos e liam alto, depois de pigarrear muito, numa honra de distinção.

depois as palavras uniam-se umas nas outras e eu precisava de contar os azulejos, as flores pintadas no tecto ou os botões do sacristão, na camisa branca.

o sacristão desistiu, vai fazer tantos anos que nem sei. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas alguns domingos, quando ficava sentada na ponta, conseguia fugir a meio, por uma das portas laterais. nessa altura refugiava-me na lojinha do lado, povoada por homens que falavam, riam alto e diziam palavrões, numa socialização normal.

eu pedia um rebuçado de caramelo, ao dono que era surdo, e ficava num canto, esperando que chegasse ao fim para, minutos antes, entrar devagarinho.

o dono morreu, vai fazer mais de quinze anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

e eu ia.

mas deus nunca me agradeceu.

 

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oh vai ver ali:

das cicatrizes

por M.J., em 14.04.15

consigo sentir o cheiro da relva fresca acabada de cortar.

o corpo inundava-me de dor na procura da pessoa que habitava em mim e eu não sabia quem era.

a manhã acordava devagar estendendo pequenos raios de sol e transformando em lágrimas de cristal as minúsculas gotas de nevoeiro, pousadas na erva fresca dos canteiros.

 

sei que havia um baloiço num ramo de uma árvore.

sei que haviam patos no lago, numa calmaria de dias longos. sei que estava sentada ao canto e que esperava por mim, ainda que não soubesse onde encontrar-me.

 

consigo sentir o frio que me queimava os braços nus.

alinhadas de sangue, em finas linhas, no orgulho de ser mais do que eu, as cicatrizes abertas, expostas à manhã fresca que chegava, matavam o dia, o que eu era e não queria ser.

pensei morrer naquela manhã, sentada ao lado do baloiço na árvore velha, com um cheiro intenso a erva cortada.

 

não morri afinal.

nunca morro nos momentos torpes de dor.

e sei - com certeza - que me resta a tristeza dos desafortunados:

acabar por morrer quando finalmente se instalou a esperança da utilidade da vida, em cicatrizes fechadas do tempo.

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publicado às 10:11

da cobardia

por M.J., em 17.02.15

o rapaz ofereceu-me uns ténis no fim de semana.

eu ali com uma caixa de chocolates para lhe oferecer (sim, sim, pensei que seria uma surpresa porque ia contra o que combinámos) e ele com o raio dos ténis caros.

o problema das prendas é mesmo esse. no natal, então, é um drama:

há dois anos ofereci a uma amiga uma caixa mini de bombons - porque tínhamos combinado que não haveria troca de prendas - e ela ofereceu-me uma caixa de maquilhagem, cara, fazendo com que me sentisse mal por estar a ser forreta. este ano ofereci-lhe um perfume caro e ela deu-me uma planta, comprada num supermercado, ficando a sentir-se mal. acho que seria muito mais fácil se as pessoas avisassem com antecedência qual o valor do que estavam dispostas a oferecer, evitado-se assim momentos constrangedores.

 

claro que não sou apologista de darmos tralhas uns aos outros.

para isso mais vale darmos beijinhos e já está. há uns anos, por exemplo, a funcionária do escritório onde trabalhava sugeriu que o giro mesmo era fazermos uma troca de prendas com coisas que tivéssemos em casa e que não usássemos.

não é preciso dizer que as pessoas foram extremamente desagradáveis e circularam uns e-mails nada simpáticos em que alguém dizia que não queria receber lixo.

 

adiante.

dizia eu que o rapaz me deu os ténis. ontem fui experimentá-los no parque, na corrida diária. estava tudo a correr muito bem até sentir que o pé esquerdo me começava a doer acima do calcanhar. passado uns minutos de corrida a dor era excruciante e vim descalça para casa.

uma miséria.

 

há uns anos atrás um amigo meu, esperança olímpica dos jogos seguintes, participou numa maratona qualquer cujo prémio era a qualificação dos três primeiros para ir correr a um país asiático. a meio da corrida o meu amigo perdeu, não sei como, um dos ténis. podia parar, como seria normal. mas o rapaz era teimoso pelo que continuou a correr sei lá mais quantos quilómetros descalço de um pé.

evidentemente que não ganhou a corrida.

no entanto, pelo acto de coragem, que lhe pôs o pé em sangue, foi levado à tal corrida asiática, com tudo pago

 

é certo que meses depois teve uma lesão que lhe acabou com sonhos e esperanças olímpicas levando a que ele se perdesse, durante uns meses, em álcool e depressão. mas o acto de coragem que demonstrou valeu-lhe o facto de que imensa gente do meio nunca se esquecesse dele.

 

lembrei-me só disso ontem, quando voltava para casa com um calcanhar em sangue e um sapato na mão, pés descalços na erva molhada do parque.

se fosse eu, tenho a certeza, teria desistido da maratona, da possibilidade de ir a outro país ou fosse o que fosse.

e ainda diria que tinha a justificação perfeita, pois que ninguém corre só com um dos ténis.

ele correu.

 

creio que essa é a diferença entre os persistentes e os cobardes.

e eu sempre admiti que tenho uma valente dose de cobardia.

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publicado às 16:58

há três anos que não vou ao carnaval.

não que isso interesse a ponta de um nariz de palhaço.

a última vez que vi gente fantasiada, em cortejos de samba e chuva foi noutro tempo, noutra vida, quando me humilhava em algo que apelidava de amor e me escondia de mim fingindo ser o que não era.

ah, bons tempos.

 

às vezes penso que nunca perdoarei nem recuperarei totalmente do que fui naquela altura.

ou da pessoa que me ajudou a chegar aquele ponto.

verdade seja dita, sei-lhe das dores, fortes, como pontapés nas trombas, num moer doloroso que o vai corroer os anos todos que respirar. e não me entristeço.

o karma é fodido.

 

tem dias que tudo aquilo me é indiferente, num desprezo maior.

depois, se penso no assunto a sério, percebo que quando ele me deixou para morrer sozinha, assim nesse dramatismo que me consumia na época, levou-me também necessária e ordinariamente  pessoas que faziam parte da minha vida, desde sempre, e que eu afastei porque de uma forma ou outra o desculparam, o perdoaram.

não fincaram o pé na certeza de que ele estava mal.

 

acreditem:

quando temos amigos que cultivamos durante anos, num sentimento leal e fraternal de irmandade esperamos que fiquem do nosso lado quando a pessoa com quem partilhamos amor decide que já chega.

chama-se talvez lealdade, ou amizade.

por mais que estejamos errados. 

 

acho que foi isso que não perdoei a muitas, ou pelos menos algumas, pessoas dessa época. fiquei sempre com o rancor, a certeza que mais dia menos dia iam sair com ele, em grandiosos cafés de amigos, falando de como a MJ era ridícula no seu sentimento mórbido e tétrico, na sua doença estúpida e de como ele estivera bem em pegar nas botinhas e sair da relação.

que no fundo esteve.

se algum dia ultrapassar o rancor talvez lhe mande um bilhetinho a agradecer o gesto e a decisão.

até essa altura espero que tenha muitas vezes diarreia. 

 

nesse tempo não perdi só a pessoa de quem estava absurdamente dependente. perdi amigos, que afastei com garra por me dizerem, de uma forma ou outra, mais claro ou menos, que ele não tinha culpa.

tenho a certeza, ainda hoje, que nenhum amigo que se preze tinha o direito de mo dizer, estando eu no estado mental que estava. era obrigação deles soltarem caralhadas em direcção ao homem, apelida-lo de cobarde, como fora.

ainda que eu estivesse impossível de aturar. 

 

não o fizeram.

assumiram que a culpa era minha, que talvez fosse, e não esperaram que eu ficasse saudável para exprimirem essa opinião.

mas de que caralho vale dizer a um esquizofrénico em plena crise que não está, não senhor, a jantar com dez pessoas? não é melhor brindar com as dez até a crise passar e depois dizer-lhe que as cadeiras estavam vazias e que ninguém tocava violino ao cimo da mesa?

 

é por isso que não posso, não vou retomar a amizade que ficou ali parada, naquele ponto.

tenho a consciência de ter feito o melhor que podia e sabia à época e que nenhum deles o fez também. 

decidiram manter, estranhamente, um sentimento de justiça na defesa do fulano que conheceram através de mim no período mínimo de alguns meses em contrapartida da pessoa que conheciam há anos e que sempre fizera tudo para os apoiar.

 

está aí a explicação. 

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