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páscoa serrana

por M.J., em 31.03.17

a serra tem um silêncio que não encontrei, jamais, em qualquer outro lugar.

ouvimos, com clareza transparente de riachos puros, o som dos pássaros, dos cães ao longe, de uma mosca melancólica no vidro.

 

na páscoa o silêncio aumentava numa dimensão de milagres santos.

os dias eram mais claros e azuis na primavera que chegava. as trepadeiras da varanda, em mil gomos lilases lançavam um cheiro adocicado e disputar com as amêndoas doces espalhadas em pratos. limpava-se a casa, numa azáfama constante. a sala passava a cheirar a óleo de cedro e ananás, com uma grossa toalha de renda.

 

na quarta feira santa as confissões na igreja estendiam-se o dia todo.

eu arranjava mil pecados que não cometera para ir com a minha vizinha. demorávamo-nos no caminho, passando pelo carreiro cheio de ervas daninhas. 

fazíamos ramos de flores amarelas, silvestres, que escondíamos à entrada da igreja e que estava invariavelmente fria, com cheiro a lixívia e humidade. pálidos raios de sol entravam pelos vitrais fazendo brilhar partículas de pó. sentava-me num dos bancos cimeiros e ficava contando os pontinhos de luz que dançavam na minha frente.

 

na quinta feira o avô punha luzes na fachada da casa.

preparava-se o caminho da procissão da noite, com velas compradas na loja do lado da igreja, que enrolávamos em papel velho.

o padre fazia uma missa longa que eu não ouvia. sentava-me no muro do grande largo da igreja e ficava - calçando ou vestindo alguma coisa nova - olhando as pessoas, na procura de uma cara da escola.

às vezes comprávamos rebuçados e ansiávamos pela procissão para acender as velas.

 

na sexta feira era proibido comer carne.

a mamã escondia qualquer pedaço dela, para não nos esquecermos ou cair em tentação. o pecado mortal de comer carne jamais seria perdoado. 

comíamos arroz de polvo, invariavelmente ao almoço, numa festa de rancho melhorado. não conseguia perceber o contexto de penitência.

nem os papás.

o papá, do alto da sua voz grave, dizia que era um pecado hediondo comer carne, deus me livre, enquanto a mamã cozia o polvo. bem mais caro que a carne. um dia avancei que penitência era não comer uma coisa que gostássemos pelo que eu abdicaria dos chocolates.

foi-me dito para não dizer asneiras pelo que, para compensar, às três da tarde - quando no café do tio se exigiu um minuto de silêncio pela morte de jesus cristo - enfardei dois chocolates twix que a minha prima me deu.

 

à tarde outra procissão do funeral de cristo.

a multidão amontoava-se à porta de uma velha capela e pelo chão espalhava-se erva doce e flores silvestres. caminhávamos em silêncio, muito sérios e compenetrados.

a banda tocava afinada, na certeza de não fazer feio.

e no meio as mulheres criticavam roupas e cabelos, aquela que engravidara ou o outro que andava com a vizinha.

 

no sábado, antes de jantar, na igreja faziam-se cerimónias que se arrastavam noite dentro.

eu ouvia-as, de casa, os cânticos longos e desafinados e num dia de tédio decidi ir. acenderam uma fogueira à entrada e dentro cantaram desalmadamente durante horas. a meio fartei-me, enregelada e fui para casa maldizendo a triste ideia que se me dera. durou até às onze da noite, altura em que o sino tocou a anunciar a ressurreição.

 

no domingo o padre passava, com uma cruz, por todas as casas: era o compasso.

o papá insistia em pôr pétalas de camélia no terraço, contra a vontade da mamã. havia amêndoas em pratos brancos e uma toalha muito brilhante em cima da mesa. encostado a uma jarra de cravos, que a mamã ordinariamente comprava, colocavam um envelope selado com o dinheiro do folar a entregar ao senhor padre. nós ouvia-mo-lo à distância de uma campainha que um miúdo tocava. 

ficávamos quietos, cada um no seu sítio, quando o padre entrava.

uma vez, muito pequena, recusei-me a beijar a cruz porque me haviam dito que todos os velhos a beijavam - mesmo os sem dentes - e que o pano com que a limpavam era sempre o mesmo. quando o compasso saiu a mamã pôs-me de castigo.

mais tarde a avó disse-me que não haviam doenças nos pés de deus.

aquilo convenceu-me:

ainda hoje beijo.

ainda hoje não como carne à sexta feira.

ainda hoje sei de todos os pormenores, que me doíam à época, e que recordo com melancolia gritante de quem não volta a tempos em que o silêncio quebrava a dor e se transformava em coisas maiores.

 

continua tudo lá.

só eu não.

os mesmos rituais e procissões, compasso e envelope em frente ao jarro de cravos, a que assisto, muito ao de longe, sem assistir, na promessa feita.

há promessas que deveríamos estar autorizados, por nós mesmos, a quebrar.

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o tempo e eu

por M.J., em 23.02.17

não sei qual foi o exacto momento em que deixei de pensar/sentir que tinha a vida toda à minha espera, para pensar/sentir que cada dia que passa é menos um que me resta.

talvez tenha sido no momento em que percebi que as minhas rugas aumentaram.

ou quando reparei que o meu cabelo tem mais brancas do que um senhor de setenta anos, que se cuide.

não sei.

 

sei só que a dimensão do tempo alterou-se.

as primaveras não são sempre um novo recomeço, os outonos não são logos dias de melancolia, os invernos não são travessias desertas de chuva e mantas e sofás e os verões não são já imensos dias de nada, na espera que o calor abrande e a vida recomece.

 

o tempo alterou-se.

os dias deixaram de ter os momentos espaçados em eventos com sentido.

cada hora, que antes tinha um compasso de minutos razoáveis, transformou-se em instantes que voam e ficam unidos, uns aos outros, em dias que se convertem em meses muito banais. muito sem nada. muito sem magia.

 

talvez aconteça só comigo. 

antes cada estação do ano tinha diferentes cheiros, sentidos, sabores. era um evento único, de recomeço. de sentido de pertença a uma natureza que mudava e alterava em função de nós.

antes, cada altura do dia tinha um significado útil de pertença: apanhar o autocarro. chegar à escola. dividir a manhã em horas com diversos conhecimentos. almoçar numa aventura pela cantina.

e a hora de recreio, nas escadas do campo de futebol, era um ano de emoções.

 

agora as coisas são difusas e perdidas entre pensamentos que não trazem nada. creio que o tempo fazia mais sentido porque eu vivia o tempo. porque me dedicava ao que vivenciava na certeza de que só aquilo interessava.

agora não.

passo de tarefa em tarefa, de hora em hora, de momento em momento pensando no próximo.

há sempre algo a ser decidido. há sempre algo a ser tratado. uma hora ao sol quente, na esplanada, num dia de inverno, é uma hora dividida com o que se passou de manhã e o que passará de tarde. dividida com o livro que leio, com o que quero ler e ainda com o que quero escrever sobre eles. com o exercício que não fiz e com o que tenho que fazer. com a alimentação que é suposto manter: faço peixe para o jantar ou carne? que comemos ontem, que não me lembro?

 

as horas não são elas próprias mas misturas de uma complexidade de tempo. 

e perdem-se.

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antes o tempo era meu.

agora eu sou do tempo. 

 

porra!

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da vontade

por M.J., em 26.03.15

tenho uma incrível e absurda vontade de chorar.

 

choveu e a erva do jardim está mais verde, repleta de pequenos cristais brilhantes de água. as flores amarelas, silvestres, ontem abertas, estão fechadas, curvadas sobre si mesmas, num mutismo silencioso de natureza morta. há ramos secos das árvores, caídos na relva, numa quietude triste. as magnólias perderam as flores e está cinzento, escuro, melancólico.

todas as pessoas que encontro têm phones nos ouvidos, numa necessidade de juntarem à vida uma banda sonora, a tornar mais luminosos os seus passos na tarde fria, com vento nos cabelos.

deixei-me disso na certeza de perda do canto dos pássaros, em baladas afinadas. somos amigos, eu e eles.

 

na pastelaria as velhas do costume estão sentadas, num grupo barulhento, ao lado da porta. comem queques de laranja e bebem leite quente, num fumo intenso que sai das chávenas.

não perdi a vontade de chorar.

 

ao meu lado sentou-se um casal. o rapaz fala alto, o pé a bater consecutivamente no chão. conta com entusiasmo como foi fabuloso na entrevista de trabalho a que foi hoje. de como respondeu de forma assertiva e inteligente. gesticula muito, o iphone numa das mãos. diz coisas obtusas, de certeza que nunca trabalhou, que o papá nunca deixou.

enjoo de o ouvir e ponho finalmente os phones enquanto bebo o chá quente de limão.

 

sinto uma incrível e absurda vontade de chorar. este canto da pastelaria é sempre apropriado ao lavar da alma. mesmo com chá quente e gente feliz.

 

quanto temos podemos ficar de braços cruzados vendo a vida que poderíamos ter passar por nós?

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publicado às 17:24

do domingo

por M.J., em 23.03.15

acordei tarde no silêncio do bairro.

o vento varria as casas e punha ao chão as flores da magnólia em frente à marquise. a roupa dançava numa dança sem pausas e fiquei uns minutos, a chávena de chá quente pousada no peitoril, a apanhar com o vento frio na cara. cheirava a torradas e leite com chocolate e na rua passava uma senhora pequenina, a cabeça curvada na defesa do vento.

 

almoçámos tarde na festa de aniversário da mãe do rapaz. o restaurante estava cheio e acabei por comer uma minúscula fatia de bolo que me fez lembrar o gosto pelo açúcar e a vontade de estraçalhar o raio do bolo todo, de uma só vez, enquanto mastigava em dentadas muito pequeninas, muito direita na cadeira, como que espetada por um garfo. triste, triste.

saímos cedo do almoço e parámos na pastelaria do bairro a tomar café, os dois deprimidos a olhar a janela.

a rua estava deserta de gente. a vitrina repleta de bolos. o rapaz pensava na tarde de trabalho que lhe esperava e eu no desejo de açúcar, puro e duro, numa vida cinzenta quando podia estar vermelha de rebuçados.

 

passei uma hora na marquise, de volta da roupa que nem precisava de ser dobrada. a tarde estava encoberta e quando começou a chover um cheiro a terra molhada invadiu tudo.

 

jantámos em casa dos papás e fiquei tempos infindos em frente à lareira.

e quando cheguei a casa bebi um chá de romã, num cheiro a primavera que disse a mim mesma ser igual a açúcar.

só que não era.

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publicado às 13:48

do ser

por M.J., em 18.03.15

consigo sentir a dor de que fui feita um dia. a dor que eu era. o corte na pele, a ausência de sono, a desnecessidade de comer. a falta de qualquer perspectiva, objectivo, clareza ou racionalidade.

consigo sentir o medo a correr-me pela pele, como minúsculos choques eléctricos. consigo sentir a angústia, o desespero em falta de palavras.

consigo sentir-me no que era.

estranhamente não me consigo sentir no que sou.

 

tem dias que sei que só sei ser trevas.

e quando não as sou simplesmente não sou.

 

 

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do domingo

por M.J., em 15.03.15

ao domingo o bairro enche-se de um silêncio pachorrento, que entra pelas casas, pelas pessoas, pelas árvores.

há vozes que saem melancolicamente das janelas semi abertas. no fundo do jardim um idoso passeia o cão e o rapazito com ar de demente fuma languidamente num dos bancos, olhando desconsolado o cão do velho. não sei que será feito dos dois cãezitos com que se faz acompanhar todos os dias. possivelmente, por ser domingo, também eles quiseram a sua folga.

ou morreram.

é possível.

 

a pastelaria tem menos gente do que o costume, não passam carros na estrada.

a aproveitar o sol de inverno, quente, sem vento hoje, há crianças e avós, sentados na esplanada. um catraio olha para um livro de banda desenhada, de pernas para o ar, enquanto tagarela sozinho. pedimos dois cafés. o céu está mais azul, a empregada serviu-nos com calma, desejou-nos bom resto de domingo.

 

quando regressamos a casa um miado de gaivota encheu o bairro todo.

fiquei uns vinte minutos na janela da marquise, a olhar a árvore das flores rosa enquanto esperava pelo chá. não vejo pessoas nos apartamentos da frente e, em baixo, não se ouve cão nem criança em guinchos. tive vontade de fumar um cigarro, muito tranquilamente, fazendo círculos com o fumo.

depois lembrei-me que não fumo e apressei o chá.

 

quando cheguei à sala o rapaz tinha as cortinas cerradas enquanto jogava um jogo parvo na ps4. abri as cortinas, a portada, fui à varanda ver as flores. ele seguiu-me com ar culpado, perguntou se queria ver um filme ou sair. acenei que não. gosto dos domingos em casa, a ver o silêncio do bairro. gosto que ele faça uma coisa que lhe faz sentir bem e tranquilo.

podemos estar juntos fazendo coisas diferentes. não quero exclusividade de atenção. não a consigo retribuir.

 

na rua de trás uma senhora toca violino dentro do carro, que ouço enquanto coloco o saquinho de chá na chávena. reguei a orquídea, que ainda não perdeu as flores e pensei seriamente em ir correr. não vou fazer bolachas ou olhar filmes na tv.

 

hoje vou escrever.

a senhora em baixo corta agora o silêncio com o adagio for strings no seu violino, dentro do carro.

não troco o chá por um copo de vinho.

mas era menina para lhe dar uma das orquídeas, quando ela acabar.

 

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publicado às 17:00

banalidades

por M.J., em 07.03.15

tenho uma brutal dor de cabeça que me persegue até aos ossos.

não passa por mais porcarias que tome. acredito que, tarda nada, se espalhe até à barriga e eu acabe a noite na casa de banho a praguejar.

 

passei o dia de um lado para o outro.

estava sol quente na serra e a água corria selvagem no rio, ao fundo. o céu permanecia mais azul do que nos últimos dias, de uma limpidez de pássaros em cantos e trinados matando o silêncio da terra.

 

quando regressámos a casa passámos pela praia.

um mar de gente em frente ao mar azul, ao fundo, e ondas revoltas de espuma branca. na calmaria da tarde o INEM cortou o ar por causa de um idoso sentado ao canto, num muro, ar cansado e pálido de morte. uma multidão acercou-se, curiosa, a querer saber. olhei por de trás dos óculos escuros a esperar sangue e desgraça tal a gritaria da ambulância e a multidão em redor. nada de grave, perdi o interesse.

 

em casa estendi roupa no estendal novo, esticadinho fora da marquise.

a árvore do jardim em frente, a encimar um candeeiro de parque idílico, tem as flores, de um rosa pálido, a abrir. escurecia lentamente. nas janelas em frente uma vizinha olhava compenetrada um tacho vermelho e, na janela de um apartamento em baixo, um rapaz musculado, em tronco nu, fumava languidamente olhando o jardim. cozinhei com a janela da cozinha aberta, esquecida das indiscrições dos vizinhos e  apenas a fechei quando a par com os odores de laranja e carne, saídos do forno, a miúda do andar de baixo quebrou a melancolia do anoitecer em gritos histéricos acompanhados do ladrar rouco do cão.

 

estou sentada no sofá.

a temperatura desceu e enrolei-me numa manta. não me apetece chá e comi maçã assada na tentativa de adoçar a noite. estou velha. esta manhã, no sol que batia no espelho do carro vi, sem sombra de qualquer dúvida, brancas infindas perto das orelhas.

 

há uns anos atrás, não muitos, estaria a esta hora em bares, com roupas interessantes e saltos nos pés, a fumar sisha, a beber como se o mundo pudesse acabar amanhã e a querer viver tudo, naquela hora, na certeza que cada momento mal vivido era vida perdida. agora estou aqui. num pijama largo demais, uma manta em cima das pernas, a fazer caretas à tv onde passam programas obtusos e pequeninos.

 

talvez se chame crescimento.

eu creio, tristemente, com as minhas brancas na cabeça e a minha manta nas perna, que se chama estagnação. aquela coisa que aliada à rotina me permite viver sem achar que sobrevivo.

 

já mencionei que me dói a cabeça?

 

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deu discussão! (quase porrada)