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acredito que na convivência em comum, na partilha do mesmo espaço, as casas se vão enchendo da tralha que cada um gosta mais.

neste apartamento não há diferença: 

o escritório está repleto de livros. não todos os que possuo - até porque a casa dos meus pais tem estantes com os livros fui adquirindo desde que aprendi a ler, muitas das vezes com o dinheiro que devia ser canalizado para os almoços semanais - mas ainda assim muitos (incluindo alguns da magda) organizados no escritório e espalhados - um ou outro - no quarto, sala e cozinha. 

depois há as plantas da cozinha e da varanda, que comecei a coleccionar com o tempo:

umas morrem, umas vivem, outras permanecem. 

estas são as minhas tralhas e, tirando o óbvio dos trapos no armário - que não são muitos - não ocupo muito mais espaço.

 

depois há o meu marido nerd. 

que ocupa sala, escritório, corredor, entrada, garagem, quartos, varandas e mais houvesse com um monte de aparelhómetros que chiam, guincham e se vão apoderando do espaço.

drones no escritório que ele programa e mantém alinhados numa espécie de frota escaganifobética.

aparelhos estranhos espalhados pelas várias divisões que permitem que tenhamos net máxima em todo o lado e que eu não consigo disfarçar.

fios atrás de uma porta que eu ameaço cortar, sempre que me lembro, e que ele organiza muito bonitinhos.

telemóveis com câmaras térmicas (?) que ele programa e se alinham em cima da secretária.

phones. na secretária dele e na minha que ele achou por bem presentear-me.

há um monitor de não sei quantas polegadas que ele disse ser necessário para o trabalho mas que tinha escrito na caixa, lembro-me muito bem, que era para gamers.

há um PS4 e quinquilhões de jogos que eu arrumo num móvel fechado e que ele não joga porque não tem tempo.

aviões telecomandados (caros como o raio) fechados na garagem, a apanhar pó, que ele pilotava à distância quando vivíamos noutra cidade.

há centenas de cabos, carregadores, e outras peças que eu não sei que sejam, fechados dentro de uma caixa e que de vez em quando vêem a luz. 

e agora, nas poucas plantas que existem na varanda, vai haver um sistema de rega automático (????) porque sua excelência quer experimentar brincar às apps de rega (dois vasos com rega automática é para rir). 

 

e hoje de manhã, tão cedo que eu ainda dormia, tocaram-me à porta para entregar uma tv - que eu concordei em comprar assumindo um certo tamanho - que é gigante (ridiculamente grande) e na qual o meu pai ia delirar ver o sporting-benfica porque seria menino para conseguir ver os macacos do nariz do jesus. 

tenho mais televisão que sala, essa é que é essa.

 

creio que vai chegar o dia em que eu tenha de sair porque me entregam aqui em casa uma esposa altamente funcional, bonita, inteligente, simpática, boa parideira e robô!

oh senhores!!!!

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oh vai ver ali:

o cenário:

 

M.J. e o rapaz estão sentados no sofá, cada um com uma taça cheia de castanhas assadas, a ver star trek depois do jantar.

M.J. descasca as suas muito lentamente e com muito cuidado, colocando as cascas dentro da taça, e vai repetindo, de vez em quando:

* cuidado com o lixo.

* não ponhas cascas no chão que eu não tenho tempo para limpar e a empregada só vem sexta.

* vê lá se não atiras as cascas assim que elas caem na carpete.

* olha lá esse pedacinho de castanha no chão.

 

apesar de M.J estar a ser uma chata do ca...tano, o rapaz mantém-se impávido e sereno, vendo a voyager no espaço, Kathryn Janeway e afins em aventuras e glórias, esboçando um sorriso de vez em quando e ignorando os meus dizeres preocupados. 

 

findas as minhas castanhas ponho pausa na série e levanto-me para ir buscar água.

nesse exacto momento, a mão escapa da taça, a taça dá duas cambalhotas no ar e com toda a solenidade cai em cima da carpete e espalha cascas de castanhas por todo o lado incluindo debaixo do sofá, em cima, na carpete e em todo o lado ou mais houvesse.

 

olho o rapaz esperando uma reacção, ainda em choque com tanto lixo espalhado na sala imaculada. 

ele olha-me de volta e depois de um compasso estranho sem nenhuns dizeres, desata a rir, em garglhadas tão sonantes, as lágrimas a cair quatro a quatro pela cara, acabando por perguntar entre duas e três risadas:

 

- ligo à empregada ou arranjas cinco minutos da tua agenda tão ocupada para limpar estes pedacinhos de castanhas do chão?

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na saúde e na doença

por M.J., em 03.03.17

disse o padre. e nas piadinhas também:

 

depois do milagre da aliança, eis a resposta do rapaz:

reação aliança.PNG

 

 

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oh vai ver ali:

na saúde e na doença,

por M.J., em 25.02.17

disse o padre, e em aplicações de telemóveis que não lembram ao demónio também.

 

explico:

é um despertador que ao despertar vem acompanhado de enigmas matemáticos, problemas de lógica e merdas do género.

e enquanto aquela porcaria não for resolvida o filho de mil animais quadrúpedes do despertador não se cala.

em gritos sonantes de desespero.

 

e depois dizem que as pessoas se divorciam por dá cá aquela palha!

 

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na saúde e na doença

por M.J., em 16.02.17

disse o padre, e nas nerdices também.

 

depois de muito falarmos sobre o assunto o rapaz convenceu-me que precisava de um monitor novo. para trabalho, evidentemente, porque para programar preciso de ter várias janelas abertas. porque a resolução do antigo era uma bosta. porque há coisas que são mais fáceis de fazer num monitor maior.

assim seja!

pronto, que se compre o monitor novo, com as polegadas que quer, que os instrumentos de trabalho são isso mesmo, e se se pode melhorar, nada contra.

 

pois meus senhores, no dia em que chega a caixa com o dito a casa sabem o que tinha escrito em letras garrafais?

sabem?

GAMER.

repito,

GAMER.

 

como se não bastasse, isto é como ficam as minhas tretas nele:

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eu, de facto, mereço.

a PS4, os jogos, os star wars e treks da vida eram indícios mais do que suficientes do que me esperava, antes do casamento. 

se não antevi, problema meu!

 

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no dia dos namorados tenho medo

por M.J., em 14.02.17

um medo absurdo da perda de mim, enquanto eu.

da perda da minha sanidade mental.

da perda do que sou enquanto pessoa.

 

de me transformar noutra coisa, sem traços do que creio ser.

de ver imagens que não existem.

de acreditar em coisas que não são reais.

de me perder daquilo que sou transformando-me noutra coisa, meio louca, meio estranha.

de me tornar dependente de outros para sobreviver sem a réstia da dignidade que sou.

 

de te esquecer.

de olhar a tua cara e não ver mais do que olhos e pele e lábios e dentes e não seres tu mas um outro qualquer. de não saber da tua voz, do teu cheiro e dos teus gestos. de não reconhecer os teus traços. de não me lembrar das tuas mãos. de não recordar o teu corpo junto ao meu. de não saber o sabor da vida que partilhamos. de não ver já as gargalhadas.

tenho medo de esquecer as coisas que nos faziam enquanto nós. 

 

tenho medo de, um dia, por mais longínquo que seja, não te ver. 

não posso viver cega de amor. 

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na saúde e na doença

por M.J., em 13.02.17

disse o padre, e nos clichés do casamento também.

 

fui cortar o cabelo.

não é que tenha tirado grande coisa no comprimento mas dei-lhe forma, que aquilo parecia uma peruca escorrida, com demasiado cabelo e sem jeito nenhum.

como não gosto que o estiquem muito esticadinho, a cabeleireira só o enxugou e fez uma trança, que eu carreguei toda orgulhosa até casa.

 

quando o rapaz chegou, beijinho, beijinho, como foi o dia, jantarinho, sofá, banalidades e conversetas não mencionou nada quanto ao visual novo, pelo que, desfazendo a trança perguntei, ao jeito das novelas de infância:

- não notas nada de diferente em mim?

pergunta proibida, claro está.

 

depois de olhar, inspeccionar, sabendo de antemão que qualquer resposta dada seria errada, confessa:

- não. que é que fizeste desta vez?

aponto para a cabeça:

- o cabelo! não notas nada no cabelo?

 

olhou, mirou e acabou por murmurar:

- sim. está um bocado mais... farfalhudo.

- mas estás gira, estás gira!

 

e é isto, meus senhores.

não tenho cabelo.

tenho crina.

tenho pelo.

tenho uma coisa FARFALHUDA  na cabeça.

 

isto tem de ser motivo justificativo de um divórcio!

 

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na saúde e na doença,

por M.J., em 10.02.17

disse o padre, e nos dispensadores de guardanapos também:

 

uma pessoa está na cafetaria, a saborear um chá e a dizer parvoeiras acerca dos transeuntes na rua, e ele não responde porque está muito ocupado a pensar sobre que mecanismo podia arranjar para o dispensador dos guardanapos ser mais eficiente.

 

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publicado às 12:21

na saúde e na doença

por M.J., em 07.02.17

disse o padre, e na paciência também!

 

depois do rapaz ter a boca operacional (toda a saga aqui) e de ter posto um ponto final aos seus jantares compostos de nestum com açúcar (matem-me, matem-me já. só escrever nestum com açúcar dá-me arrepios) fiz um jantarinho catita para comemorar:

espetadas de frango (daqueles do campo, que a mamã cria quase como animais de estimação) acompanhadas de brócolos e batata doce. por norma uso abacaxi nas espetadas, mas à falta dele optei por pedaços de maçã e pêra a intercalar o frango.

(bem bom, por cinco euros dou-vos a receita).

 

depois de jantarmos, satisfeita de mim própria, comida saudável, colorido no prato, toda uma alimentação fit e afins, pergunto-lhe:

- estava bom, não estava?

- hum... mais ou menos, responde baixinho, olhando de soslaio um monte de código sem fim no monitor.

- mais ou menos? foi dos brócolos? insisto.

- hum... não, voz mais fininha, quase num fio.

- do tempero do frango? o meu tom mais frio do que duas naifas.

- nã. deixa isso, não interessa.

- foi da batata doce! - constato revirando os olhos.

- não! agora já me habituei.

- então quéquefoiquequalquerdiacozinhastu?

- foi da fruta: ficou muito doce!

 

muito doce, meus senhores, maçã e pera.

já açúcar no nestum...

 

 

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comer nestum só com leite?

por M.J., em 31.01.17

isso é para meninos!

 

na saga do dente do siso extraído o rapaz ficou com limitações quanto à alimentação. e de nada valeram as alternativas que comecei logo a apresentar, feliz e contente por haver tanta coisinha que poderia socorrer-se, como fossem papas de aveia, sopas, purés de fruta e afins.

não senhora.

para alguém com dores, a jorrar sangue que nem uma fonte, a coisa não se resolvia recorrendo ao saudável mas antes ao calórico: 

- quero nestum!

murmurou, a boca a mal se mexer, o lenço no nariz, uma vítima do infortúnio, assim, a implorar.

 

M.J. vai comprar nestum.

 

depois de horas perdida entre prateleiras que por norma nunca frequento (as minhas idas aos super mercados estão limitadas a alguns corredores) dei de frente com a secção dos cereais e, mais precisamente, com o nestum.

pois meus senhores, e o que vejo?! apenas nestum simples, agarrar a primeira embalagem e vir embora?

era o eras!

é que, daquilo que me lembro, havia uma panóplia que jamais poderia imaginar da coisa:

* nestum de arroz.

* nestum de bolacha maria.

* nestum de cereais integrais (cinco, para ser mais precisa).

* nestum de chocolate.

* nestum com aveia com chocolate.

* nestum com aveia e caramelo.

* nestum mel.

* nestum. 

 

pego neste último - isto o rapaz com dores é picuinhas e não queria arriscar o integral - e venho para casa. toda orgulhosa preparo aquilo seguindo à risca as instruções (nunca como nestum. pensava até que era feito com água) e apresento a taça ao rapaz.

que come.

duas colheradas.

e faz cara má.

e torce o nariz.

 

mau, mau maria, começo a pensar.

 

mais uma colherada.

mais uma torcidela!

 

- olha lá, pergunto avessa a tanta torcida, isso faz-te doer o dente que já não tens?

- não. cara na taça, ar contrafeito.

- então quéuqefoi? expludo já.

- nada.

- mas fazes o favor de me explicar o que é que foi?

a minha paciência no limite.

 

ao que sua excelência responde:

- esqueceste-te de pôr açúcar!

 

açúcar meus senhores. no nestum!

o rapaz queria açúcar!

 

e a gorda sou eu!

 

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