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o problema da convivência é, na maioria das vezes, o embate da personalidade de cada um aliada a uma centena de emoções, grandes ou pequenas, que nos trespassam as horas e nos fazem ser assim ou assado quando, na verdade, se formos pensar bem, queríamos era ser cozido.

e às vezes, sem percebermos bem como, em dias mais quentes e cores vermelhas, depois de levantar cedo e cavalgar as horas com a necessidade de ir para algum lado, na rotina do dia a dia, ora isto, ora aquilo, agora mais isto e mais aquilo, um telefonema de trabalho fora de horas, a mesa mal posta para o jantar, o almoço que está insípido, uma toalha caída no chão e ali esquecida, uma pergunta que se fez sem resposta, um correr de pequenas coisas normais e que nada afectam, em boa verdade, quem somos e onde estamos, tudo aquilo, na gota que faz sempre transbordar o copo, se transforma numa pequenita guerra dentro de casa, em trágicas proporções domésticas.

esquece-se a verdadeira dimensão das coisas.

chispam os olhos e há uma chama acesa de raiva em proporções desajustadas ao crime cometido.

sobe um calor pelo peito.

há uma vontade louca de esbracejar e equipara-se uns chinelos fora do sítio a uma deslealdade e traição sem precedência.

há uma tendência a aumentar o tom de voz.

cruzam-se as mãos e aperta-se o peito numa explosão sem sentido.

por nada.

por absolutamente nada. 

 

as pequenices do dia a dia são uma prova às nossas decisões e àquilo que sentimos.

achamos que estamos preparados quando juramos a eternidade de sentimentos - que todos juramos, mais cedo ou mais tarde - para as grandes catástrofes. sabemos de antemão que estaremos ali, erguidos como guerreiros antes da guerra, prontos a passar pelas tempestades mais fortes. preparamo-nos para tudo e traçamos, mentalmente, os nossos limites. dizemos, mesmo sem saber, isto perdoo, aquilo não, isto é grave, aquilo nem por isso. 

temos plena convicção que sabemos até onde ir. 

e depois não sabemos nada.

não percebemos que a constância das pequenitas coisas, a puta da toalha esquecida no chão, os chinelos perdidos ao acaso, os carregadores de telemóvel em qualquer lado, aquela pergunta sem resposta, aquele tracito de personalidade que não é nada, aquelas insignificâncias que não nos incomodavam ou nem sequer dávamos conta delas, são o raio de um rastilho prestes a acender para uma raiva cega que, em algumas pessoas, se transforma num vulcão de palavras, esquecidas cinco minutos depois do desabafo.

 

quando somos adultos e estamos seguros do que queremos e de quem somos e da realidade das coisas, e conhecemos o Outro na sua imensidão, aprendemos a reconhecer esses momentos em que a gota transborda a colher de café.

bufamos, rogamos umas pragas, esperamos que o vulcão de nada desapareça e percebemos, horas mais tarde, no retorno da tranquilidade, que era tudo uma piada: desde a raiva sem sentido, ao gatilho que a fez despoletar, à merdinha sem lógica que colocamos acima da importância que tem.

nessa altura, se não tivermos provocado a catástrofe de dimensões épicas, retorna tudo ao normal.

as palavras não foram ditas como facas cortantes.

não houve acusações nem silêncios maldosos.

não se esgrimiram argumentos que, analisados a frio, são comédias.

passou. voltou-se ao que é.

não há a necessidade de dissecar "mas tu disseste" e "estava a quente, não queria ter dito", "mas foi dito e o que foi dito foi mais grave do que o cometido".

 

agora problema está naqueles que, dotados de um egocentrismo desmesurado, não só não o conseguem ver e permanecem colados a nada, cegos ao tudo que interessa e convencidos que uma toalha húmida no chão é a desgraça plena e o fim da eternidade jurada como, depois de terem percebido isso, constatam que a guerra provocada tem proporções descomunais e a situação inverteu-se no que foi dito, nos argumentos usados, no que veio de onde em palavras arremessadas como tijolos.

palavra dita não se desdiz.

 

e se tivessem assistido a um terço dos divórcios a que assisti concordariam comigo.

 

 

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publicado às 10:00

quotas de desgraças

por M.J., em 15.05.17

tenho andado com insónias recorrentes. 

o filme é sempre o mesmo: chego à cama e dói-me a vida, aliada ao braço que ficou bom depois da fisioterapia mas começou novamente a chatear-me há umas semanas. depois tudo se torna uma pequenita tortura. os lençóis dobram-se sobre o corpo, há calor a mais que se transforma em frio e um sem número de pensamentos recorrentes que me assaltam como num cerco desprevenido, causando a vulnerabilidade que insisto em pôr para trás das costas ao longo do dia.

uma consumição.

 

ontem fez um ano de casamento.

não trocamos flores nem juras e procurei à pressa uma foto do dia só para assinar a coisa sem grandes foguetes.

a nossa vida começou antes do casamento e passou muito para além daquele dia, na constante caminhada diária de viver na partilha. porque se há coisa que descobri este ano - isto as emoções são como são e nem sempre as controlamos - é a inevitabilidade da total partilha quando se decide uma vida em comum. ou em comunhão, diria o padre. a ausência de segredos, planos individuais ou o "eu quero". a ausência de uma tristeza egocentrista a causar uma dor apenas própria, ou uma alegria de vitórias vivida por um só.

uma partilha constante de sonhos, planos, objectivos, medos, inseguranças e incertezas. há uma partilha constante de receios e fantasmas mesmo quando me sento na varanda de madrugada, de cálice de vinho na mão - que se não fumo algo tem de substituir a mão vazia na lassidão - a ponderar se o que tenho me chega ou desisto de vez. 

há uma total partilha em igualdade de circunstâncias e às vezes, quando nos deitamos e chegam as insónias e os lençóis são carvão aceso no corpo e tenho frio e calor e há um gato que mia no jardim e um vizinho que caminha pela casa e mil fantasmas que voltam de fundo do passado onde os prendi, e mil situações que não fechei na fuga da personalidade que sou, e quando me dói a alma no sono que não chega e percebo, numa epifânia quase constante que ele ali está e dorme, na respiração pausada dos serenos, o corpo abandonado ao meu lado, a entrega total a quem sou mesmo sendo eu - como é possível? - mesmo nas minhas insónias e fantasmas e medos e eu, só eu como eu, toco-o ligeiramente para saber se é real

serei o rei que sonha que é borboleta ou a borboleta que sonha que é rei?

é esta mesmo a minha vida ou vou perceber, a qualquer instante, que tudo se desmorona e tenho de recomeçar outra vez, carregando traumas e medos, pedaços de mim desfeitos, novamente, tudo muito ruim e queimado, uma pequena selva de medo? 

é mesmo ele ali e esta é a nossa vida e somos dois mesmo que eu sinta, às vezes, que somos quase um, e vamos seguir e continuar e amanhã vamos estar ainda aqui, e os dias permanecem na paz de cafés de cevada e pão com manteiga ou há uma volatilidade que pode esfumar tudo isto num piscar de olhos?

 

tenho tanto medo, disse-lhe um dia, tenho tanto medo de estar a viver toda a quota de coisas boas disponíveis a uma pessoa, e tarda nada receba o que é suposto, na balança do equilíbrio karmico, mesmo que não acredite, e qualquer dia venha novamente a desgraça da dor para me lembrar que eu sou eu e eu não sou esta.

e ele, baixinho, a caminhada na tarde que caía, as primeiras flores de primavera:

não te preocupes. encheste já, no que ficou para trás, a tua quota de desgraças de vida. agora e o que aí vem é só e apenas para compensar.

 

é, não é?

 

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dormir maquilhado é para meninos

por M.J., em 15.02.17

um colega disse-me que tinha ido ao cinema, levado pela namorada, a ver a ante-estreia do fabuloso filme de acção, porrada, dinheiro e carros caros chamado "50 sombras mais negras".

 

e nesse instante, enquanto ele contava com ar de tédio as peripécias envolvidas, lembrei-me deste episódio, relatado aqui no tasco faz mais de dois anos.

 

permanece sempre actual:

 

uma vez conheci uma rapariga, através de uma amiga, que numa noite de copos, quando trocávamos confidências, me contou entre soluços de bêbada que sempre que dormia com um gajo levantava-se mais cedo e ia à casa de banho maquilhar-se, deitando-se depois e fingindo acordar com ele.

fiquei estupefacta, boquiaberta.

- mas... mas... mas como? não dormes?

 

confessem lá: conhecem algo mais estranho?

 

 

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ontem os meus vizinhos do lado discutiram parte da noite. 

eu estava numa reunião via skype e, quando dei conta, comecei a corar com os impropérios que se ouviam do outro lado. a voz do homem ressoava as paredes, queimava os corredores e saía do seu espaço para o prédio.

as mimosices com que bombardeava a esposa eram incontáveis e acabou numa nota final, ao jeito de climax num histerismo agudo "põe-te daqui para fora".

no silêncio que a seguir se propagou não percebi se a senhora tinha acedido aos desejos dele, ou não.

 

não foi a primeira vez.

nas escadas, sempre que os encontro, são bonitos e sedosos. encostam-se e sorriem - mesmo que as palavras "põe-te daqui para fora" tenham soado no dia anterior - e passam por nós como quem vai de lua de mel.

quando comentei isto com uma amiga, ela que sabe dos meus silêncios de amuo, que já me viu engolir em seco as palavras que não digo para as arrefecer e as atirar mais calmas e ponderadas - ou mais duras e secas - disse-me que há coisas que se perdoam por serem ditas no calor do momento.

 

o tanas.

que há coisas e coisas, é verdade, mas o calor do momento tem sido usado, de há uns tempos para cá, como justificativo de tudo.

atiram-se as maiores barbaridades à cara do Outro, ultrapassa-se o limite do respeito, pega-se na merdinha que se sabe magoar pelo conhecimento integral de quem se partilha a cama, arremessam-se palavras como tijolos, sem filtros, sem considerações e depois não tem mal porque foi "no calor do momento".

como se o raio do calor do momento fosse justificativo de qualquer coisa.

como se o alívio do despejar palavras, só porque sim, só porque estou nervoso e não queria dizer, servisse como bálsamo reparador da ferida que se abriu.

repito: o tanas meus senhores, o tanas!

se o calor do momento te queima a língua engole dois cubos de gelo.

se o calor do momento te justifica a dizer toda a porcaria que queres, só porque sim, só porque é desculpável, experimenta lá apanhar com um quilo de batatas a ferver, também elas quentes do momento, e vê se é bom.

 

desde quando é que nervos, ansiedades, histerismos servem para justificar as porcarias que vomitamos?

desde quando a ideia de que "ao menos disse e acalmou" é boa? como? há palavras de primeira categoria e de segunda? há palavras que em certos momentos deixam de cheirar a cocó e passam a cheirar a flores?

ou chamar o chefe de cabrão é mau por não ser no calor do momento mas, apelidar a esposa de puta já é desculpável porque estava quente?

se estás quente toma um banho gelado, que passa.

 

não entendo nem vou entender jamais a agressão verbal como justificativa, seja do que for. e não são só os palavrões. é também o que se atira com o objectivo de magoar. que se atira enquanto alívio do próprio mas que mata um bocadinho o outro:

a cobardia de dizer certas palavras é incomensuravelmente maior do que a cobardia de as guardar para dizer no momento em que foram pesadas para não doerem. 

 

o calor do momento não é mais do que a justificação arranjada para a própria falta de educação e de consideração pelo próximo.

de que vale amar tanto o outro se se pegam nas palavras e se arremessam como tijolos até abrir feridas?

mais vale, nesse caso, amar um pouco menos. 

 

tu não amas no calor do momento, pois não?

 

 

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se quiseres ler mais sobre este tema já escrevi sobre ele aqui 

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peço desculpa mas...

por M.J., em 12.01.17

de há uns tempos para cá, talvez por coincidência, talvez por coisas da vida, tenho ouvido mais gente do que o normal a pedir-me desculpa e, logo a seguir, a acrescentar um mas.

como:

* tem razão senhor doutor, estou gordo e comi duas bolas de berlim mas foi só hoje.

* é verdade senhor polícia. deixei o carro no estacionamento para deficientes mas não estava lá ninguém.

* tens razão meu amor. não levei o lixo para baixo mas foi só a semana toda. 

* sim, sim, mãe, tirei negativa a português mas foi só este ano. 

 

esta necessidade de defesa quando se assume algo, numa espécie de arranjar um escudo para o ataque não ser maior, irrita-me sobremaneira.

irrita-me sobretudo nas situações em que se pede desculpa.

porque das duas uma: ou se diz "desculpa" consciente do erro, da situação, da incapacidade, sentindo necessidade de o assumir e tentando não o repetir, ou se xuta um desculpa para calar o outro, para que não chateie, a ver se passa. e aí assume-se o mas.

o tens razão mas.

o é verdade mas.

o entendo mas.

e se pões um mas à frente não dás razão nenhuma, não entendes nada, não estás minimamente a concordar. 

 

pedir desculpa - juntando-lhe com uma sacudidela de cabelo - o mas é não pedir desculpa de todo.

é fazer passar o outro por parvo.

é caminhar por entre os pingos de chuva, com ar de esperteza, a ver se passa.

 

há casos em que ou é carne ou é peixe.

carne mas peixe não é nada. 

 

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