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tenho a certeza que o meu vizinho anda a trair a namorada/esposa/unida ou seja o que for.

 

juro que não é uma informação que quisesse ter:

não fiquei especada na janela à espera de ver pseudo amantes a entrar no prédio;

não comprei binóculos que brilham no escuro (queria dizer ver no escuro, mas brilham fica mais bonito);

não contratei um detective privado para obter essa informação (o único detetive que tenho tido contacto é com cormoran strike). na verdade:

ela chegou-me, na madrugada de segunda para terça, enquanto eu combatia uma insónia vendo um documentário sobre anne frank.

 

sim, bem sei.

combater uma insónia com um documentário sobre anne frank é a mesma coisa que combater um incêndio atirando-lhe gasóleo mas, em minha defesa:

  • estava a fazer zapping à procura de uma coisa levezinha que me desse sono;
  • já estava a mudar de canal há meia hora;
  • o meu aborrecimento com a ausência de sono era tão grande que só queria algo que me distraísse. 

 

portanto, retomando o tema, estava eu deitada no sofá, a janela da sala (que também é porta - todas as janelas desta casa são portas para varandas) totalmente aberta, uma lua enorme a entrar-me casa dentro, um aborrecimento intenso, um cenário horrível na tv quando ouço, sem estar minimamente à espera, gemidos pornográficos vindos do apartamento do lado. 

em altos berros. 

em defesa do vizinho - que isto quando se defende, defende-se tudo - posso adiantar que:

  • não há barulho no sítio onde moro depois da meia noite. é uma espécie de regresso à aldeia em que a hora de dormir é assinalada pelos senhores do lixo e a madrugada por um cão rouco ou dois grilos em desgarrada;
  • o silêncio aumentava o barulho dos gemidos.
  • este apartamento esteve vazio por mais de uma década pelo que os habitantes do prédio ainda se esquecem que é possível haver gente aqui.
  • não é suposto, às três da manhã, alguém estar a ver um documentário acerca do holocausto.

 

e por falar em holocausto, posso dizer que foi a conjugação de factores "morte" + "gemidos altamente pornográficos" que me enojou.

sobretudo porque - a promiscuidade dos apartamentos é incrível, conhecemos até as rotinas de pessoas que mal falamos - eu sabia que a moça que era suposto estar a fazer tais barulhos, no sagrado matrimónio ou união de facto não estava em casa.

e porque, quando fui fechar as janelas meia hora depois, enojada com a vida, vi uma outra moça sair furtivamente do prédio, depois da porta do apartamento do lado se fechar.

 

é isto.

numa singela segunda feira à noite, a informação de que o meu vizinho trai a namorada/esposa/unida ou seja o que for, surgiu-me através das paredes da sala, enquanto eu tentava não chorar com o horror de um documentário triste.

em gemidos, repito, pornográficos.

caramba, que se toda a gente no prédio gemesse assim, isto era caso da cmtv.

 

escusado será dizer que não acabei o documentário e deitei-me enojada, na sensação de que enfim:

  • a minha vizinha que me deu salsa sem eu pedir, apenas para ser simpática,
  • falou comigo sobre os gatos vadios, e
  • me cumprimenta sempre com um sorriso e um aceno - mesmo quando as minhas trombas chegam ao chão - não era mais vizinha e o namorado estava na recuperação de uma separação.

 

só que não.

ontem, quando eu chegava de tomar um café, encontrei-a nas escadas.

morena, de quem vinha da praia, o cão ao ombro e um sorriso feliz. 

 

bonito, não é?

é que se antes era obrigada a passar por eles depois de ouvir gritos e discussões, o "põe-te daqui para fora", os nomes, as cenas feias, sou agora obrigada a olhá-la também, sabendo que enquanto não está em casa, o namorado/unido/marido ou seja o que for, provoca gemidos pornográficos em mulheres furtivas a meio da noite.

numa espécie de mónica sintra mamalhuda a cantar na minha cama com ela. 

 

deus! 

o que pode levar alguém a trair outro alguém com quem firmou um compromisso, na mesma casa onde vive, na véspera de estar com esse alguém?

o que faz procurar outro corpo, outro cheiro, outro envolvimento e no dia a seguir comportar-se como se nada fosse, ainda bem que estás de volta, senti saudades tuas?

 

não é a traição em si que me enoja (confesso que os gemidos sim, mas talvez fosse pelo documentário) mas a deslealdade absoluta.

o corromper de uma casa, de um lar, de um lugar onde se decide partilhar a vida com uma outra pessoa.

o desrespeito.

o absoluto desrespeito.

 

e claro, o impor-me essa informação obrigando-me a fingir que nada sei - porque não é nada comigo - quando a moça me diz olá, fala sobre banalidades e segue pela vida.

oh senhores!

já não me bastavam os meus próprios dramas?

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tens uma mão cheia de sonhos mas, por ser mulher, estás cinquenta passos atrás.

 

 

és tu que tens de engravidar e passar por nove meses de tortura (agora até estão na moda os posts acerca do que não te contaram sobre a coisa e que, ao contrário da última tendência que dizia que estar grávida eram só unicórnios, relatam horrores e torturas feias).

os homens, mesmo os presentes, não terão de ter mamas em sangue, nem levantar-se dez vezes por noite para servir de vaca leiteira.

és tu que ficas impulsionada, pelas hormonas, a te deixares ficar para trás em função da vida que deste.

és tu que te sentes altamente responsável pela organização, por manteres a casa, o lar e o diabo a quatro à deriva, porque és mulher e porque às vezes é inato e porque, porra, digam o que disserem, a maior parte de nós ainda é influenciada pela ideia da sociedade.

 

e um dia, olha que bem, acordas e o teu filho cresceu e tu tens mais rugas e o teu marido, sempre a tempo de recomeçar o que tu perdeste com a idade - a procriação -  deixou-te por outra de mamas mais firmes, menos cansada, menos velha, menos triste.

e se quiseres recomeçar estás mais amargurada, mais velha, mais desfeita, mais seca.

mais descrente.

e tudo o que resta é um ninho vazio, umas mamas descaídas e visitas ocasionais no natal e na páscoa para umas selfies de família feliz. 


olha que bela merda, não é?


morro de medo de ter filhos por este cenário.

(ponho as duas mãos no fogo de que comigo será diferente, mas não puseram todas?)


não tenho mesmo apetência para mártir.

(alguém tem?

a martirizar-me - como sempre foi - é pelas dores que são minhas e não controlo. 

que grandessíssima egoísta!

(é mesmo?)

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o problema da convivência é, na maioria das vezes, o embate da personalidade de cada um aliada a uma centena de emoções, grandes ou pequenas, que nos trespassam as horas e nos fazem ser assim ou assado quando, na verdade, se formos pensar bem, queríamos era ser cozido.

e às vezes, sem percebermos bem como, em dias mais quentes e cores vermelhas, depois de levantar cedo e cavalgar as horas com a necessidade de ir para algum lado, na rotina do dia a dia, ora isto, ora aquilo, agora mais isto e mais aquilo, um telefonema de trabalho fora de horas, a mesa mal posta para o jantar, o almoço que está insípido, uma toalha caída no chão e ali esquecida, uma pergunta que se fez sem resposta, um correr de pequenas coisas normais e que nada afectam, em boa verdade, quem somos e onde estamos, tudo aquilo, na gota que faz sempre transbordar o copo, se transforma numa pequenita guerra dentro de casa, em trágicas proporções domésticas.

esquece-se a verdadeira dimensão das coisas.

chispam os olhos e há uma chama acesa de raiva em proporções desajustadas ao crime cometido.

sobe um calor pelo peito.

há uma vontade louca de esbracejar e equipara-se uns chinelos fora do sítio a uma deslealdade e traição sem precedência.

há uma tendência a aumentar o tom de voz.

cruzam-se as mãos e aperta-se o peito numa explosão sem sentido.

por nada.

por absolutamente nada. 

 

as pequenices do dia a dia são uma prova às nossas decisões e àquilo que sentimos.

achamos que estamos preparados quando juramos a eternidade de sentimentos - que todos juramos, mais cedo ou mais tarde - para as grandes catástrofes. sabemos de antemão que estaremos ali, erguidos como guerreiros antes da guerra, prontos a passar pelas tempestades mais fortes. preparamo-nos para tudo e traçamos, mentalmente, os nossos limites. dizemos, mesmo sem saber, isto perdoo, aquilo não, isto é grave, aquilo nem por isso. 

temos plena convicção que sabemos até onde ir. 

e depois não sabemos nada.

não percebemos que a constância das pequenitas coisas, a puta da toalha esquecida no chão, os chinelos perdidos ao acaso, os carregadores de telemóvel em qualquer lado, aquela pergunta sem resposta, aquele tracito de personalidade que não é nada, aquelas insignificâncias que não nos incomodavam ou nem sequer dávamos conta delas, são o raio de um rastilho prestes a acender para uma raiva cega que, em algumas pessoas, se transforma num vulcão de palavras, esquecidas cinco minutos depois do desabafo.

 

quando somos adultos e estamos seguros do que queremos e de quem somos e da realidade das coisas, e conhecemos o Outro na sua imensidão, aprendemos a reconhecer esses momentos em que a gota transborda a colher de café.

bufamos, rogamos umas pragas, esperamos que o vulcão de nada desapareça e percebemos, horas mais tarde, no retorno da tranquilidade, que era tudo uma piada: desde a raiva sem sentido, ao gatilho que a fez despoletar, à merdinha sem lógica que colocamos acima da importância que tem.

nessa altura, se não tivermos provocado a catástrofe de dimensões épicas, retorna tudo ao normal.

as palavras não foram ditas como facas cortantes.

não houve acusações nem silêncios maldosos.

não se esgrimiram argumentos que, analisados a frio, são comédias.

passou. voltou-se ao que é.

não há a necessidade de dissecar "mas tu disseste" e "estava a quente, não queria ter dito", "mas foi dito e o que foi dito foi mais grave do que o cometido".

 

agora problema está naqueles que, dotados de um egocentrismo desmesurado, não só não o conseguem ver e permanecem colados a nada, cegos ao tudo que interessa e convencidos que uma toalha húmida no chão é a desgraça plena e o fim da eternidade jurada como, depois de terem percebido isso, constatam que a guerra provocada tem proporções descomunais e a situação inverteu-se no que foi dito, nos argumentos usados, no que veio de onde em palavras arremessadas como tijolos.

palavra dita não se desdiz.

 

e se tivessem assistido a um terço dos divórcios a que assisti concordariam comigo.

 

 

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publicado às 10:00

das pessoas e eu

por M.J., em 08.02.17

eles continuaram.

sorriram mais e choraram. talvez menos. apanharam sol em dias de verão e viram chuva cair por entre vidros foscos no inverno e fizeram planos e mudaram de vida e tomaram café em pastelarias com cheiro a pão fresco.

fizeram novos amigos e sentiram novas coisas e trilharam novos mundos.

 

eu não.

para com eles fiquei lá atrás. no exacto sitio que levou à quebra.

também sorri e chorei e apanhei sol e vi chuva e fiz planos e mudei de vida e passei horas sentada em pastelarias com cheiro de pão fresco e bolos doces.

fiz amigos e perdi amigos.

 

para com eles permaneço lá atrás, teimosamente, batendo o pé. sabendo, na minha loucura de rancor, a dimensão da perda, numa certeza de razão que não interessa mas é minha.

 

no mundo dos loucos a sua loucura é a única lucidez que faz sentido.

e nela permaneço lá atrás na espera do que nunca vai chegar uma vez que a razão assiste a todos. ainda que a minha razão seja maior.

sempre foi.

 

e afinal se chegasse tenho a certeza que percebia a sua desnecessidade.

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do dia dos namorados

por M.J., em 13.02.15

quando vamos envelhecendo vamos deixando de dar valor a coisas que antes eram importantes. e assumimos que certas pequenices são inúteis, uma perda de dinheiro. deixamos, por exemplo, de colocar no facebook todas as porcarias que nos acontecem ao longo do dia e rimos com complacência dos nossos amigos que partilham na net as flores e bombons oferecidos à cara metade.

 

pensamos bem, e com um orgulho triste chegamos mesmo à conclusão que não, não queremos um monte de rosas vermelhas, nem morangos ou champanhe ou bombons aos quilos apenas porque alguém diz que devemos celebrar o amor.

é nesse momento que falamos calmamente com a outra pessoa e acordamos que o dinheiro que se gastaria em flores, chocolates, perfumes caros ou outra prenda qualquer será mais útil investido num... aspirador potente, com filtro de água por causa das alergias que assolam uma das partes da relação, pessoa esta que acorda todas as santas manhãs ranhosa, a espirrar o nariz e cérebro ainda que não haja uma ponta de pó à vista.

 

tudo isto meus senhores, para vos dizer que este ano não vou receber flores nem jantar num restaurante iluminado a velas, ou oferecer perfumes, caixas de chocolate ou um salto de bungee jumping que nunca foi feito. este ano, no terceiro da relação, no auge do amor vamos comprar um aspirador. (a rimar e tudo).

 

o momento da minha vida que mais temia chegou:

o romantismo foi comido pelos ácaros.

tarda nada ando a partilhar com o mundo qual o melhor detergente para lavar panos da louça.

 

valha-me Deus (com maiúscula e tudo).

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