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as análises que ainda não tirei

por M.J., em 13.09.17

ando há um mês para fazer uma colheita de sangue para análise.

sê verdadeira, se faz favor M.J.

ok, pronto! ando há mês e meio e uns dias para fazer uma colheita de sangue para análise. mês e meio, é isso. 

e então porquê?

pura preguiça e desleixo.

é verdade.

não tem absolutamente nada a ver com medo de agulhas ou sangue (também, depois de tudo o que aconteceu e que eu fiz, seria estranhíssimo se assim fosse) tanto mais que até sou daquelas que olha fixamente a agulha ser espetada, sem qualquer tremor ou medo que vá lá, ontem queimei-me no fogão quando retirava o porco para o jantar e a dor foi incomparavelmente maior à mariquice de uma espetadela num dos braços.

pura preguiça, é o que é.

 

ora fica para amanhã, ora amanhã esqueci, ora depois de amanhã não lembrei, ora no outro dia não apetece. e ontem, depois de lavar a louça do jantar, a queimadura na mão bem à vista, decidi num gesto heróico que de amanhã não passava.

até colei, na minha agenda teen, um autocolante que dizia que hoje era dia de análises.

 

portanto, muito bem.

 

hoje saí de casa mais tarde do que gostaria mas não tão tarde que me envergonhasse e desloquei-me, com uma fome dos diabos e a bexiga cheia, ao local da recolha.

tinha procurado na net - é incrível que estando nesta cidade há dois anos (sem contar os que aqui estudei) ainda não saiba metade das coisas úteis - e pareceu-me bem:

  • relativamente perto de casa,
  • sem ser no centro, e
  • com estacionamento gratuito.

melhor só num hipermercado à escolha.

 

quando entrei, uma porta aberta no convite apelativo contra o nevoeiro, encontrei uma recepção vazia de funcionários e duas grávidas e uma senhora (que poderia estar ou não grávida) sentadas nas cadeiras da entrada.

muito bem, pensei, ficando especada em frente ao suposto guichet da recepção (que era uma secretária com um pc, um capacete e uma mochila) aquelas senhoras estarão à espera da sua vez, pelo que depois de olharem as minhas credenciais (é isso que se chama aquiilo que o médico nos passa, não é?) me mandarão sentar.

 

pelo que, pronto, fiquei ali ao alto, em pé e especada, pensando na fome e na vontade de fazer xixi e no quanto o mundo evolui e ainda ninguém inventou uma maneira de saberem se está tudo bem connosco sem ser preciso urinar para dentro de um copo e depois fechá-lo e vir com ele ainda quente na mão, certificando-nos que não há uma pinga de urina ali por fora, e entregando à pessoa da recepção que o recebe com ar muito natural, que é tudo muito natural, mesmo que enfim, aquilo seja mijo e a pessoa esteja, muito provavelmente, a tocar num sítio onde caiu o xixi, ao mesmo tempo que fala do tempo ou do jogo de futebol do dia anterior.

o meu cérebro, às vezes, é uma desgraça.

 

cinco minutos depois entrou - vindo do lado de dentro - um senhor que deduzi ser o funcionário da recepção (ou o dono, sei lá) e o enfermeiro de serviço:

  • calça descaída,
  • t-shirt,
  • cabelo com gel a fazer lembrar anos noventa, 
  • barba de três dias, e
  • nada de bata.

nada contra o visual alternativo, constatei olhando as minhas havainas nos pés, num dia de nevoeiro, nada contra.

pronto, então o homem entrou, sentou-se na cadeira atrás da secretária,

e eu ali ao alto, muito especada, pronta para pedir o copo e ir fazer xixi,

e ele nem tuge nem muge, nem bom dia nem boa tarde,

e eu a achar aquilo estranho

e ele faz um sinal com o queixo, juro que foi com o queixo, assim uma espécie de "anda cá, é a tua vez" à grávida do canto, sem nunca olhar para mim, ali ao alto ainda,

e ela vem e senta-se

e começam os dois a olhar para os papeis dela

e eu ali, ainda em pé, a perceber finalmente que ele não me ia dizer bom dia, nem dar o copo, nem pedir para aguardar nem nada.

juro por tudo o que é mais sagrado, eu caia aqui morta e redonda no chão se isto não aconteceu mesmo.

 

e depois, concluí que, enfim, devia sentar-me muito tranquilamente numa das cadeiras e esperar que o homem voltasse e fizesse aquele gesto com o queixo para me chamar - ou um assobio, também podia ser um assobio - e me desse o copo para fazer xixi, sem dizer água vai, tudo muito natural, tudo muito profissional.

é que era bonito, queres ver? disse-me aos gritos a vozinha esfomeada na minha cabeça enquanto eu me sentava. deves estar é tola mulher, dá meia volta e vai embora!

 

pois que não, sentei-me e observei. 

a grávida olhava para o fulano como um obeso para um pedaço de presunto.

e começaram os dois a falar muito tranquilamente acerca do que ela tinha de fazer, coisas como frasco e xixi,

e ela ria como se ele fosse o bonitão da escola, na fila do bar, no intervalo de português e química, para comprar uma carcaça com manteiga e uma meia de leite (é isso que a juventude come nos intervalos?)

e depois levantam-se os dois,

ele a puxar as calças para cima,

um ar de "sou jovem como o caraças"

e eu a pensar que ele estava mais para os quarenta do que para os trinta e com aquela idade já devia saber que é falta de educação não cumprimentar potenciais clientes e de muito mau gosto atirar-se a grávidas em fim de tempo (ou era só gorda, mas duvido).

e pronto.

 

o homem desapareceu e eu olhei muito tranquilamente a porta.

depois levantei-me e vim-me embora com as análises por tirar (que sa lixe, dizer colheita para análise é chato) e estou agora em casa onde tomei o pequeno almoço ainda incrédula, com os papeis com as cenas que é preciso analisarem-me muito direitinhos em cima da mesa da sala. 

e entretanto o nevoeiro passou e há sol e eu tenho sangue a mais, que precisa de ser analisado.

 

oh, que se lixe, murmuro. em mês e meio, se não morri, também já não morro.

e a vozinha na minha cabeça, a puxar as calças para cima e a ajeitar o cabelo:

mas não é de morte que a coisa se trata, pois não M.J. maria?

pois não.

 

amanhã vou à procura de outro.

de amanhã não passa. 

(e agora como é que descolo o autocolante da minha agenda teen?)

(que consumição!)

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não deixa de ser irónico

por M.J., em 21.03.17

que uma semana depois de ter tratado todas as cáries dentárias, feliz e contente e com o bolso muito mais leve, tenha tido uma brutal dor de dentes devido a um filho da mãe de um siso.

 

juro: se não estou embruxada é como se estivesse!

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isto é a sério: hoje passo-me.

por M.J., em 15.03.17

desde há uns meses, quando comecei a trabalhar fora do conforto do meu escritório de casa, que descobri pessoas estranhas.

nos últimos tempos a coisa acentuou-se de tal modo que deixei de perceber se sou eu que estou mais estranha do que o habitual (ao género de quem vai em contra-mão na autoestrada sem perceber) ou se tive a peculiaridade oferecida pela vida de conviver com gente mais inábil do que eu nisto da relação pontual com o outro.

 

já vi de tudo:

  • desde o senhor que esperava a esposa, dias inteiros, na recepção, para perceber se ela convivia com entes do sexo masculino;
  • a pessoas que se sentam nas mesas de convívio de olhos fixos em quem passa, não baixando nunca as vistinhas;
  • a gente que partilha os mesmos espaços de trabalho sem dizer água vai, entrando de novo e nem um bom dia;
  • a gente que nunca responde aos meus bem educados cumprimentos matinais;
  • a gente que se encosta a mim na fila do café e que coloca dinheiro na máquina quando a minha água choca ainda está a descer para o copo de plástico;
  • a gente que passa à frente de toda a gente para o café;
  • a gente que marca o wc com os seus dejectos (deve ser para mostrar que tem os intestinos saudáveis, sei lá);
  • a enfim, gente.

por coincidência (ou por ser a melhor hora) tenho feito a minha pausa matinal ao mesmo tempo em que, pelos vistos, meio edifício vai à rua.

a escolha do timming não é inócua, uma vez que corresponde exactamente a metade do tempo da jornada matinal e, na minha necessidade de esticar as costas e dar dois gestinhos às pernas, junto-me à multidão e faço parte do rebanho que inunda a casa de banho, empanca as filas do café e se amontoa à porta - independentemente das suas funções, necessidades e motivos para ali estar - de cigarro na mão, beatas no chão, copos de café e plásticos de comida rápida que sai de umas das máquinas.

 

então e qual é o problema M.J., sua snob?

 

é que no meio desse amontoado de gente tenho visto, todos os dias, um fulano.

ah, um fulano, que drama!

pois é!

é que o dito, cheiinho até às orelhas de uns olhos de carneiro mal morto, olha-me descaradamente, cima a baixo, e não desvia a vistinha nem quando o confronto. 

é constrangedor em demasia uma vez que:

  • o moço não está a dizer um howudoin;
  • o moço não está a mirar as minhas trombas por serem bonitas uma vez que, a não ser a minha mãe por motivos óbvios e o rapaz que teve a infeliz ideia de se casar comigo, ninguém consegue ver um pingo de beleza nelas. (nem eu).

 

pior! tenho a certeza absoluta que o moço está claramente a:

  • contar as borbulhas;
  • avaliar o tamanho de olheiras;
  • dimensionar os pelos que restam;
  • percepcionar o cieiro nos lábios;
  • enumerar as brancas no cabelo; ou, em última instância,
  • a descortinar uma braguilha aberta.

digo-vos: é altamente desconfortável e faz-me sentir como nas aulas de educação física, quando tinha de saltar barreiras e acabava por cair com elas em cima, numa embrulhada de pés e ferro.  ou como uma porca antes de ir para o matadouro com os presuntos indevidamente firmes. ou como uma gorda que bebe um café de caramelo quando devia estar a beber água da fonte.

 

 

é ridículo e tenho-me contido,  de uma forma monumental, para não lhe deitar a língua de fora. 

 

até hoje!

hoje meus senhores, se o encontrar com olhos de carneiro mal morto, solto-lhe dos dedos do meio. 

os dois.

durante cinco minutos.

 

maluca por maluca não devo destoar muito no meio disto tudo. 

 

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a M.J. viu acontecer um milagre

por M.J., em 02.03.17

não vão acreditar no que acabou de me acontecer.

deviam - que eu não tenho por hábito inventar historinhas da tanga para vosso divertimento - mas é normal que não acreditem. 

até porque eu própria estou ainda paranóica com isso.

 

há cerca de uma hora, enquanto batia alegremente nas teclas do pc, reparei que meu dedo da mão esquerda estava nu.

sim, meus senhores: nu! sem aliança! sem o anel que aqui foi posto há quase um ano.

nuzinho da silva.

nesse instante fui acometida de um pânico seco.

e isto porque:

  • nos últimos dois meses parti o ecrã do telemóvel, completamente em frangalhos, uma vez.
  • nos últimos dois meses voltei a partir o ecrã do telemóvel, completamente em frangalhos duas vezes, ficando agora metade dele completamente preto.
  • nos últimos dois meses, o meu telemóvel de 200€ ficou a custar €350 com os ecrãs novos que o rapaz mandou vir.
  • mais quatro horas perdidas em montagens do mesmo.
  • nos últimos dois meses abri um precedente para aquilo que o rapaz chama de falta de cuidado pelo que deixei de poder dizer coisas como "tem mais cuidado com as toalhas molhadas espalhadas na cama" ou "tem mais cuidado com as almofadas do sofá caídas pelo chão" e ainda "tem mais cuidado com as meias que não ficaram no cesto".
  • ter mais cuidado é em não partir telemóveis e custa-me muito não ter razão.

 

além disso, a aliança é muitíssimo importante para mim porque:

  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • foi cara.

 

portanto, meus senhores, conseguem perceber que, quando dei conta do meu dedo nu, saí a correr do trabalho, entrei no carro e fui a voar até casa.

ou melhor: tentei ir a voar até casa.

é incrivel que quando mais pressa temos mais obstáculos encontramos:

  • o único semáforo estava vermelho;
  • na rotunda uma senhora de certa idade decidiu travar a meio, perdida.
  • encontrei um camião que transportava carros novos a comer toda a minha faixa.
  • na subida que antecede a minha casa, um idoso atravancava toda a rua em amena cavaqueira com os senhores do lar ilegal.

 

depois de soltar muitas pragas cheguei finalmente a casa.

na minha cabeça uma só ideia: a aliança tinha escorrido do meu dedo quando eu lavava a louça ontem à noite.

oh-meu-deus!

já não bastava gostar de fazer sopas e bolos e pensar em alimentações saudáveis e merdas de dona de casa que há dois anos desprezaria com a alma! não! nããããããão!

o culminar de tudo isso era perder a aliança enquanto lavava a louça. num toma lá que já almoçaste! não é na praia, enquanto banhas os presuntos. não é a escalar. não é a andar de cavalo. não é a andar de montanha russa. não! é a fazer aquilo que mais excitante tem a tua vida: a lavar louça!

 

 

subi as escadas.

na cozinha atirei casaco, lenço e mala para o chão. acometida de coragem abri o armário que fica por baixo da pia e olhei para as tubagens com ar de pânico: para meu bem ia precisar de desmontar aquilo. 

acometida de um frenesim sem lógica, pus a mão num dos canos onde poderia ter ficado retida a aliança e dei em desenroscar. no entanto, como podem compreender, a minha apetência para canalizadora está ao mesmo nível de ser magra e, em vez de desenroscar enrosquei ainda mais!

só a mim! 

aquilo não saía por mais esforço que fizesse. toda eu transpirava e depois de puxar, empurrar, rodar um dos canos soltou-se, exactamente o mesmo que tinha uma espécie de reservatório de porcaria onde a minha aliança poderia ter ficado encalhada.

assim, desato a bater com ele no chão na tentativa de que a dita saísse de lá (repleta de bactérias mas impune).

pois que nada.

nada.

 

quer dizer, saíram grãos de arroz, restos de vegetais, três ossos pequenos e ainda - não perguntem - cascas de ovo. mas aliança nada.

nadinha. nicles!

(mas pickles, acho que sim).

 

foi nesse instante que percebi que, pronto, estava lixada e comecei a praguejar alto. eu tinha:

  • desfeito as tubagens;
  • as mãos repletas de bactérias;
  • o dedo nu;
  • a aliança perdida.

minha santa maria das pias!

 

no chão da cozinha havia resquícios de comida pelo que peguei no garrafão de lixívia e espalhei, ao calhas.

apanhei a tempo o casaco, o lenço e a mala e voltei a pousá-los com nojo porque as minhas mãos ainda não tinham sido devidamente desinfectadas.

tentei pôr os canos no sítio.

usei meio gel anti-bacteriano nas mãos e depois, desanimada e lixada da vida sentei-me na cama, numa choradeira: eu perdera a aliança.

 

e sabem o que aconteceu nesse exacto momento, depois da choradeira?

a aliança apareceu na cama. quer dizer, não apareceu exactamente, uma vez que, na verdade, creio que esteve sempre lá. no entanto, na minha mente, ela havia aparecido pelas minhas lágrimas.

era o meu pequeno milagre.

de que importavam as minhas mãos irritadas com tanto desinfectante? ou o chão da cozinha com cheiro a comida putrefacta e lixívia? ou os canos todos lixados? as minhas lágrimas, meus senhores, toda uma vida desperdiçadas e vistas como chatas e persistentes são causadoras de milagres!

são melhores do que responsos: fazem aparecer coisas perdidas!

 

e é isto.

logo tenho de ligar ao senhorio para que me ajude nas canalizações. também tenho de limpar o chão com toda a lixívia que conseguir comprar e, nos entretantos, no caminho para cá, voltei a despejar o resto do frasco anti-bacteriano nas mãos pelo que, preciso de me abastecer disso também.

mas fiz um milagre!

quantos de vós podem orgulhar-se do mesmo?

 

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