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juro que não entendo

por M.J., em 31.08.17

a sério que não e faço um esforço.

 

que haja traição num namoro em que

  • cada pessoa vive em sua casa,
  • um compromisso firmado ainda na descoberta de quem é o outro,
  • na procura do se vale a pena,
  • se é para eventualmente continuar...

enfim, que haja traição aí, é um pouco estranho mas ainda assim, dependendo de cada um, que cada um é que sabe, é possível de - se não se concordar - pelo menos entender. 

 

o cenário altera quando as pessoas vivem juntas, seja por casamento, seja por união de facto, na partilha da vida.

no compromisso da partilha das pequenas coisas e do destino das horas de hoje e de amanhã que se tornarão em recordações.

na comunhão com o outro dos pequenitos momentos do agora ou as grandiosas decisões que alterarão o futuro.

na partilha dos maus humores, dos dias feios, das certezas de desistência ou das horas mais felizes.

há um compromisso - geralmente, ou pelo menos é assim que o assumo - que vai além da paixão do sexo, da descoberta de quem somos e de quem é aquele(a) com quem dividimos a vida:

há um compromisso de lealdade, respeito, consideração.

 

não nego que entendo que cada caso é um caso.

entendo as particularidades de cada decisão incluindo aquelas que vão na cobardia e falta de respeito de uma traição. mas ver ali ao lado, no apartamento do lado, alguém desrespeitar de tal forma a pessoa com quem partilha a vida que traz para lá, na sua ausência, uma outra em expressões bem ouvidas pelo prédio - ou pelo menos no meu apartamento - de que aquilo que estão a fazer ultrapassa a mera camaradagem e assemelha-se um filme porno de terceira categoria, enoja-me. 

 

enoja-me porque assumo a minha casa como uma extensão de mim:

tem o meu retrato nas paredes.

há flores que escolhi e que cuido com amor na cozinha e na varanda.

passei os lençóis da minha cama e lavei-os com determinado amaciador que me lhes dá um cheiro em especifico.

decorei a sala e escolhi a manta do sofá.

optei por um certo ambientador para o corredor, velas com cheiro a maçã canela para a sala e coloquei um pequeno pindericalho no bengaleiro que diz "home sweet home", numa pirosice desmedida mas que me faz sentir em casa.

no meu lar.

 

fiz isso tudo e é por isso e não imagino a dor da facada no peito se soubesse que este mesmo espaço - que sinto como um albergue das nossas vidas, uma extensão do nosso conforto, planos e vivências - era conspurcado por uma outra que aqui chegava, na minha ausência, e protagonizava filmes rascas que se ouviam pelo prédio.

a dor que sentiria se soubesse que os meus vizinhos sabiam de mim e da vergonha de uma deslealdade tamanha, num grotesco cenário de uma mónica sintra a cantar acerca da minha cama.

a dor no peito de uma tamanha falta de respeito por parte de alguém com quem decidi partilhar todos os aspetos de quem sou na pequenez das nossas vidas.

 

é triste.

e sempre que ouço apetece-me tocar na campainha e pedir, muito encarecidamente que baixe o volume. que traia, coma, gema, faça o que tem a fazer num tom abaixo.

num mutismo silencioso que não me obrigue a baixar os olhos com vergonha quando passo pela vizinha. 

 

porquê? o que leva alguém a fazer isso? para quê?

alguém sabe? alguém encontra uma explicação que vá além da filha da putice, da cobardia e da total deslealdade?

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tenho a certeza que o meu vizinho anda a trair a namorada/esposa/unida ou seja o que for.

 

juro que não é uma informação que quisesse ter:

não fiquei especada na janela à espera de ver pseudo amantes a entrar no prédio;

não comprei binóculos que brilham no escuro (queria dizer ver no escuro, mas brilham fica mais bonito);

não contratei um detective privado para obter essa informação (o único detetive que tenho tido contacto é com cormoran strike). na verdade:

ela chegou-me, na madrugada de segunda para terça, enquanto eu combatia uma insónia vendo um documentário sobre anne frank.

 

sim, bem sei.

combater uma insónia com um documentário sobre anne frank é a mesma coisa que combater um incêndio atirando-lhe gasóleo mas, em minha defesa:

  • estava a fazer zapping à procura de uma coisa levezinha que me desse sono;
  • já estava a mudar de canal há meia hora;
  • o meu aborrecimento com a ausência de sono era tão grande que só queria algo que me distraísse. 

 

portanto, retomando o tema, estava eu deitada no sofá, a janela da sala (que também é porta - todas as janelas desta casa são portas para varandas) totalmente aberta, uma lua enorme a entrar-me casa dentro, um aborrecimento intenso, um cenário horrível na tv quando ouço, sem estar minimamente à espera, gemidos pornográficos vindos do apartamento do lado. 

em altos berros. 

em defesa do vizinho - que isto quando se defende, defende-se tudo - posso adiantar que:

  • não há barulho no sítio onde moro depois da meia noite. é uma espécie de regresso à aldeia em que a hora de dormir é assinalada pelos senhores do lixo e a madrugada por um cão rouco ou dois grilos em desgarrada;
  • o silêncio aumentava o barulho dos gemidos.
  • este apartamento esteve vazio por mais de uma década pelo que os habitantes do prédio ainda se esquecem que é possível haver gente aqui.
  • não é suposto, às três da manhã, alguém estar a ver um documentário acerca do holocausto.

 

e por falar em holocausto, posso dizer que foi a conjugação de factores "morte" + "gemidos altamente pornográficos" que me enojou.

sobretudo porque - a promiscuidade dos apartamentos é incrível, conhecemos até as rotinas de pessoas que mal falamos - eu sabia que a moça que era suposto estar a fazer tais barulhos, no sagrado matrimónio ou união de facto não estava em casa.

e porque, quando fui fechar as janelas meia hora depois, enojada com a vida, vi uma outra moça sair furtivamente do prédio, depois da porta do apartamento do lado se fechar.

 

é isto.

numa singela segunda feira à noite, a informação de que o meu vizinho trai a namorada/esposa/unida ou seja o que for, surgiu-me através das paredes da sala, enquanto eu tentava não chorar com o horror de um documentário triste.

em gemidos, repito, pornográficos.

caramba, que se toda a gente no prédio gemesse assim, isto era caso da cmtv.

 

escusado será dizer que não acabei o documentário e deitei-me enojada, na sensação de que enfim:

  • a minha vizinha que me deu salsa sem eu pedir, apenas para ser simpática,
  • falou comigo sobre os gatos vadios, e
  • me cumprimenta sempre com um sorriso e um aceno - mesmo quando as minhas trombas chegam ao chão - não era mais vizinha e o namorado estava na recuperação de uma separação.

 

só que não.

ontem, quando eu chegava de tomar um café, encontrei-a nas escadas.

morena, de quem vinha da praia, o cão ao ombro e um sorriso feliz. 

 

bonito, não é?

é que se antes era obrigada a passar por eles depois de ouvir gritos e discussões, o "põe-te daqui para fora", os nomes, as cenas feias, sou agora obrigada a olhá-la também, sabendo que enquanto não está em casa, o namorado/unido/marido ou seja o que for, provoca gemidos pornográficos em mulheres furtivas a meio da noite.

numa espécie de mónica sintra mamalhuda a cantar na minha cama com ela. 

 

deus! 

o que pode levar alguém a trair outro alguém com quem firmou um compromisso, na mesma casa onde vive, na véspera de estar com esse alguém?

o que faz procurar outro corpo, outro cheiro, outro envolvimento e no dia a seguir comportar-se como se nada fosse, ainda bem que estás de volta, senti saudades tuas?

 

não é a traição em si que me enoja (confesso que os gemidos sim, mas talvez fosse pelo documentário) mas a deslealdade absoluta.

o corromper de uma casa, de um lar, de um lugar onde se decide partilhar a vida com uma outra pessoa.

o desrespeito.

o absoluto desrespeito.

 

e claro, o impor-me essa informação obrigando-me a fingir que nada sei - porque não é nada comigo - quando a moça me diz olá, fala sobre banalidades e segue pela vida.

oh senhores!

já não me bastavam os meus próprios dramas?

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deu discussão! (quase porrada)