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tempo

por M.J., em 03.01.18

creio nunca ter tido tanto trabalho como aquele que está neste dias pendente.

nem mesmo quando trabalhava doze horas num escritório havia tantas coisas alinhadas à espera de serem feitas.

é engraçado isto do tempo.

entre os meus doze e dezoito anos jurava a pés juntos que era possível ter tempo para tudo e não entendia as queixas de

o tempo passa demasiado depressa,

ou sequer achava piada às exclamações de quem me via raramente,

tão grande, credo como o tempo passou.

 

o tempo era na altura perfeitamente divisível e havia sempre possibilidade de o esticar, mesmo que a hora de deitar nunca passasse das dez e meia (a mamã era a general de um exército de um único soldado: eu, e não havia margem para resmungo); eu tivesse sempre coisas demais para estudar; ou apanhasse um autocarro velho que demorava quarenta e cinco minutos em cada viagem.

o tempo chegava.

chegava para tudo e ainda sobrava, dobrado em tardes de fim de semana longas e cheias de tédio, em minutos que se prolongavam tão lentos como quando temos uma espinha em pus e lateja mas não rebentamos. 

 

com a faculdade a dimensão do tempo alterou.

já não havia tantas horas para tudo, dobradas em trabalhar numa fotocopiadora (em 2005 os apontamentos eram mais usados na FDUC do que qualquer livro ou internet), a dar explicações, a ir às aulas todas com uma mochila cor de rosa e a estudar em eternidades que se amontoavam em palavras gigantes e feias.

o tempo não era tão grande mas ainda assim não o sentia a fugir, na certeza de que era moldável no futuro, na convicção de que era só uma fase e depois tudo voltaria a ser como dantes.

uma colega minha, com quem partilhei casa uns meses, avisou-me um dia que não. que isso era uma utopia. e que mais tarde, quando começasse a trabalhar, o tempo seria indomável e veria que não faria dele o que fizera outrora.

não concordei na altura mas dei-lhe razão há uns quatro anos.

esse foi um tempo negro.

um tempo em que o tempo não era meu mas das pessoas para quem trabalhava.

o tempo todo que tinha era de outrem, que o moldava à sua vontade, em horas que não passavam e não eram minhas, sentadas atrás de um pc, a bater nas teclas com uma fúria de prisioneira.

nenhum tempo era meu.

nem a hora de almoço, que fugia entre os meus dedos, nem as horas de dormir, sempre curtas e que me punham na inconsciência de um outro dia a esperar-me logo a seguir. 

 

eu era uma prisioneira do tempo e o sofrimento que isso me causou é inenarrável.

de todos os meus tormentos e dores e angústias, doenças e traumas, angústias e desesperos, aquele tempo que não era meu foi o que mais me doeu, consumiu em chama lenta, numa espécie de queimadura a comer a pele e a lembrar-me, por trás de uma janela em frente, que eu não era senhora para apanhar sol, ler meio parágrafo de um livro ou fazer uma chamada.

não me interpretem mal.

não tenho problema nenhum em cumprir horários e em trabalhar.

sou dotada de uma capacidade de concentração bastante grande e faço o que me proponho com gosto, mesmo que não goste do que esteja a fazer.

mas aquilo, aquelas doze horas intermináveis, longas, em que me era vedado sair sem perguntar, em que para ir a uma consulta ao médico precisava de pedinchar e receber um resmungo em troca, em que nenhum minuto me pertencia... foram das horas mais tristes que vivi até hoje.

deixei de ler, de sair com amigos, de ter tempo para tomar um café numa esplanada ou apreciar o correr dos dias.

deixei de ter possibilidade de viver e passei a sobreviver, numa aparência bonita de quem faz o que escolheu.

 

o tempo é mais relativo do que o conceito da relatividade.

e só quando o perdi e o meu deixou de ser meu, é que percebi que não estica, não somos capazes de o moldar e só é nosso quando temos a coragem, a possibilidade ou a ajuda de o reclamar para nós.

 

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publicado às 10:26


3 comentários

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De Maribel Maia a 03.01.2018 às 11:07

Boa reflexão....gostei muito!!!!
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De A rapariga do autocarro a 03.01.2018 às 11:37

A eterna quimera de correr atrás do tempo! " Há coisas que que levam tempo, outras o tempo leva" (Matheus Jacob)
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De Olívia a 04.01.2018 às 09:41

Sabes, um dia - daqui a muito tempo - se vivermos até lá, voltaremos a ter tempo de sobra. Teremos muito tempo e provavelmente não teremos capacidade de lhe dar utilidade nenhuma de jeito, e isso, é assustador!

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