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trovoada

por M.J., em 22.11.16

no som da trovoada desligávamos as fichas todas,

o zé do fundo da rua não desligou e ficou com tudo queimadinho, arca e um rádio, um despropósito de carne cozinhada à pressão,

os relâmpagos a cortar o céu muito negro na falta de electricidade, acontecimento banal em dias de tempestade,

diz que são os cabos que batem nas árvores, no meio da serra.

sem televisão era difícil a vida. morria a noite nas janelas e o silêncio irrompia na mente como um grito ensurdecedor. na cozinha acendia-se a lareira que dava um apontamento de som, o único no espaço. crepitavam as chamas e entrava a desolação pela chaminé. 

fecha-me esse livro, rapariga, que faz mal aos olhos,

dizia a avó quando, ainda em casa dela, tentava afastar a melancolia com alguma coisa, a certeza de que sem nada que distraísse a mente não controlava os pensamentos que me inundavam de solidão,

mas não sei não fazer nada avó,

o pânico pelo tempo que não passava, sabia lá eu que o tempo pode demorar mais tempo que o próprio tempo,

vocês hoje em dia já nem sabem estar convosco,

a avó muito sábia, sem antever jamais a internet que chegaria, os telemóveis até na sanita, em momento algum sozinhos, olhar preso constantemente em algo, uma imensidão de estímulos, uma mensagem a chegar em constância, amigos do outro lado do atlântico a falar em tempo real,

há quem diga que morreu por lá, no brasil, e há quem diga que morreu mesmo na viagem, mas o que é certo é que nunca mais soube do meu pai,

a história mais que contada nas noites de inverno, com a nota de esperança na voz, ou ainda familiares a quem foi feito o funeral estando vivos no meio de áfrica.

 

no som da trovoada desligávamos as fichas todas e eu esperava que a electricidade aguentasse no temor traumático da solidão.

não há trovoada hoje que me desligue. antes houvesse.

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publicado às 10:30


2 comentários

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De Cristina - Lado inverso a 22.11.2016 às 12:23

Eu adoro trovoada...e estar no meio dela...e tenho uma sorte enorme porque geralmente quando há trovoada à noite vou até à praia...é espetacularmente lindo...até já me aventurei ir ao banho à noite no meio de uma trovoada enorme...e nunca morri...tenho realmente uma grande sorte...mas adoro...deliro mesmo
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De Cristina a 22.11.2016 às 20:31

eu... eu... eu...

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