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um emaranhado de coisitas

por M.J., em 24.07.17

a primeira vez que tive noção do poder das pequenas coisas foi com joanne harris em chocolate, um livro fabuloso, escrito com uma singeleza incrível e que, à semelhança de banalidades incriveis que acontecem no dia a dia, me inspirou.

 

é engraçado porque sempre me foi dado a conhecer o poder das pequenas coisas.

desde criança que a avó me fazia limonada doce em dias mais amargos, me acendia a lareira em dias chuvosos e tristes mesmo que não houvesse frio, me punha a descascar marmelos que enchiam panelas enormes de marmelada a borbulhar, numa alquimia suave.

as recordações mais serenas que tenho passam pelas janelas embaciadas com o calor da cozinha e a chuva a bater nos vidros. a mamã a cozinhar comigo de volta de um livro, junto à lareira. e a casa dos meus pais, que hoje me parece distante e a qual mudaria ao gosto e vontade de quem tem as suas próprias ideias, era na altura, em certos momentos, um mundo intenso de conforto que não se encontrava em mais nada.

 

conheço-me hoje como nunca, apesar de, sinceramente, me conhecer muito pouco.

desconfio sempre de quem sabe muito linearmente quem é, o que quer, de onde vem e para onde vai. das duas uma: ou é dotado de uma imbecilidade idiota que faz não questionar, não pensar, não mudar, não evoluir, não ser integralmente um humano, ou é alguém muito genialmente evoluído que atingiu um patamar de auto conhecimento a que poucos chegam.

nenhuma das duas me fascina. 

mas dizia eu, no que a isto diz respeito, que me conhecendo bastante bem - mesmo não conhecendo nada - aprendi a lidar com todas as coisas que a minha personalidade, vivencias, feitio e doença me transformaram:

consigo antever os meus sinais depressivos dias antes das crises.

consigo perceber o momento em que a única saída passa por umas horas na solidão de um quarto fechado e uma distracção idiota para o cérebro.

consigo perceber as alturas em que nada me tirará de um pessimismo, insegurança, incredulidade, amargura, solidão e tantas outras coisas negras que me povoam a alma como carvões mirrados.

e conseguindo perceber sei quais os antídotos a recorrer ou, quando não consigo remediar, onde ir buscar um pouco do alivio. 

 

é estranho como me sei mesmo não sabendo.

é estranho o poder que certos rituais, certas coisinhas têm naquilo que sou:

o cheiro de um chá a borbulhar no inverno.

um café de cevada, feito muito devagar, depois de uma tarde em que decido fugir ao mundo.

o regar de uma planta.

um quadrado de chocolate, muito amargo, escondido para certos dias.

um livro lido e relido.

uma parvoeira muito parva no tv.

uma cadeira numa esplanada com uma meia de leite a ferver e um pão de centeio torrado.

um novelo de linhas desfeito enrolado novamente.

uma lista de tarefas pendentes muito alinhadas em cores diferentes numa letra escangalhada.

coisinhas tão insignificantes que ninguém daria por elas.

e ainda assim, dotadas de um poder imenso em quem sou.

 

descobri, nos últimos anos, que são as únicas capazes de me tirar de um pequenito abismo e drama doméstico, sem nexo e que a mais ninguém diz respeito.

são as únicas que me podem transformar naquilo que estava destinada a ser, por feito, personalidade, vivências e doença, naquilo que vou sendo. 

essas e amor, mas não é de amor que falo hoje.

 

descobri o meu antídoto, ou pedacitos estanques da minha cura, vá, e isso é um poder imenso para lutar com quem sou.

há muita gente que não o descobre.

e há gente que descobre formas não tão aceites como as minhas. coisas mas negras, mais feias, mais solitárias, mais eternas, mais finitas. 

 

se ninguém aponta o dedo às minhas coisitas, às minhas maneiras de lidar com quem sou porque são tão banais, tão insignificantes, tão triviais, com que direito aponta o dedo às maneiras maiores, mais eternas e mais corajosas que outros encontram?

com que direito se decide que umas são melhores do que outras?

 

tudo isto para uma só conclusão:

se acham que nunca se suicidariam e que encontrariam melhores maneiras de lidar com uma dor intensa parabéns a você.

tenham no entanto presente que isso não vos torna grandes ou melhores pessoas se a única coisa que conseguem sentir, em relação a quem o não conseguiu, é desprezo, apelidando o sofrimento alheio de cobardia. 

torna-vos é muitissimo pequenitos. 

 

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publicado às 10:33


5 comentários

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De Cristina a 24.07.2017 às 11:24

Eu gostei muito muito deste texto.
Na primeira parte manteve-se em mim a célebre frase "o diabo está nos detalhes", mas com o rolar sereno das tuas palavras,, retive o conforto dos rituais.
Uma boa semana, MJ ☺
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De M.J. a 24.07.2017 às 12:03

é célebre mas eu não conhecia ;)

Cristina Maria?
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De Cristina a 24.07.2017 às 16:05

isso.
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De A rapariga do autocarro a 24.07.2017 às 13:34

Depois de muito sofrimento, aprendemos a saber onde ir buscar reservas e como as usar! Todos os dias sei ao que não quero voltar, então viro a agulha, mas é uma luta!!!(que nunca se acabem as tuas coisitas, da mesma forma que nunca se acabem as minhas)
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De M.J. a 25.07.2017 às 15:51

uma luta hercúlea.
a cena de se estar no fundo do poço é que às vezes estamos a meio mas julgamos estar no fundo. e outras vezes ainda nem caímos e já achamos que vamos cair. e na pior das hipoteses julgamos que já estamos bem no fundo e, vai-se a ver, ainda há muito lodo para escarafunchar.

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