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como não tenho a emocionalidade necessária para me confortar dos entraves diários procuro pedacinhos no mundo que me possam aliviar os pequenos dramas na vida. que os passo, essas minúsculas dresgraças obscuras, a contorcer-me os dias e a fazer-me andar aos caídos, pelos cantos, lamentando esta vida triste, repleta de tudo o que posso desejar e ainda assim não chega.

talvez por isso sempre tenha sido gorda. bolachas de chocolate com leite quente antes de dormir afastam os pesadelos. chá de limão com muito mel em dias de chuva faz surgir um raio de sol. broa de milho quente com chouriço, a gordura a escorrer na crosta, faz com que o choro do desespero se transforme num sorriso lambuzado. frango do campo, do quintal, estufado lentamente, dá uma nota de alegria a um dia particularmente negro. pão com tulicreme comido nas escadas faz com que um dia interminável seja mais curto, na felicidade do sabor.

com o tempo fui buscando conforto a mais coisas. levantar de manhã, muito cedo, contrariada na ansiedade do dia, e guardar dois minutos para o café na pastelaria velha com senhores das obras. sentar-me na secretária e passar creme hidratante nas mãos, o cheiro a coco ou baunilha a espalhar-se no ar. olhar perdida, por dez minutos, pela janela, a vida que cada pessoa leva, a passar ao fundo...

construo pequenos rituais que me aliviam dos dramas minúsculos da vida. bebo leite quente, a ferver, numa pastelaria de bairro enquanto equaciono as dores de quem me serve. imagino a amante loira do senhor que acaba de entrar, fato caro e gestos desconfiados. pondero nos sonhos que a mulher gorda, ao canto, teve um dia. terá sido bonita? que lhe dirá o corpo quando se deita à noite, na cama, ao lado do marido barrigudo?

cheiro o meu cachecol, repleto do perfume que ele usava no dia em que nos conhecemos, para me lembrar do conforto da vida. uso odores, sabores e imaginação para assentar as coisas nos devidos lugares e não me consumir por pequenos nadas.

resulta.

percebo na racionalidade das pequenas coisas o conforto que a emocionalidade sempre doente não me consegue dar.

sinto-me vitoriosa de mim mesma. descobri a fórmula para a dor deixar de doer: relativizar os dias com perfume, bolachas, chá quente e imaginação.

será isto a maturidade?

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oh vai ver ali:

publicado às 10:22


8 comentários

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De sarabudja a 09.03.2016 às 12:02

Parei no pão com tulicreme comido na escada: somos todos um bocadinho iguais, não somos?
Dias sem preocupações sabem a pão com tulicreme comido vagarosamente.

Gostava de ter a resposta à tua pergunta, saberia-a por mim também.
Se a maturidade é saber simplificar como as crianças, talvez seja um sim a resposta.
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De M.J. a 16.03.2016 às 17:40

quero acreditar que sim, que o sim é resposta.
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De josef a 09.03.2016 às 14:23

Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio é o único modo de vida que a um sábio convém e aquece.

Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'
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De M.J. a 16.03.2016 às 17:40

gosto tanto!
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De Maria Araújo a 09.03.2016 às 17:28


Um autêntico texto que me leva a cenas da minha infância.
M.J. , fizeste-me fome com aquele frango, do quintal, estufado, hummmm!
Só nunca gostei de tulicreme.
Mas como bolacha Maria, bebo leite quente com Nesquik, antes de me deitar...e sabe-me pela vida.
Pequenas e deliciosas coisas da vida que mostram que estás a ficar madura.
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De M.J. a 16.03.2016 às 17:41

estou, não estou?
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De Silvia pereira a 09.03.2016 às 21:19

Adoro quando escreves assim!
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De M.J. a 16.03.2016 às 17:41

oh... tão querida.

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