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V

por M.J., em 21.07.15

porque vamos lá ver. sabemos de nós enquanto anormais na certeza que a normalidade não nos enquadra. nós aceitamo-nos, os outros não. hoje soube outra vez disso e agora sofro as consequências. cada escolha uma consequência, cada consequência uma escolha.

fartei-me de estar fechada neste quarto. ainda não tinha mostrado, até hoje, o meu feitio irascível e os contornos do que sou. fartei-me. admito. ela saiu novamente de manhã e deixei-me ficar enrolada em mim. o sino tocou, as horas correram e de repente, não sei que foi, se um trinado de um pássaro, se um lampejo de vida a correr-me nas veias a acordar, se um raio de sol a fazer brilhar o pó que dançava nas janelas: bati na porta com força.

quis viver.

a enfermeira que veio era alta e tinha bigode. abriu a porta e sem dizer uma palavra encostou uma mão gorda e quase peluda na minha cara. o impacto, brutal, fez-me cair contra a parede. olhei-a com raiva. podia, naquele momento, agarrar-me ao corpo que era dela e abrir-lhe muito lentamente a barriga, as mamas, ver-lhes as tripas repletas da porcaria que a compunham.

sorri, num esgar ensanguentado de louca.

- tu vais morrer! tu vais morrer! tu vais morrer! – uma cantinela, cada vez mais alta. cada vez maior – tu vais morrer, tu vais morrer, tu vais morrer!

antes dela reagir, batendo-me outra vez, eu já subira, numa agilidade de gato para cima da cama.

- sabes porque estou cá? – gritei, o sangue escorrendo-me para o queixo, um sorriso aberto de vingança – porque vejo o que tu não podes ver. não sou louca, sabes? e tu vais morrer. vais querer respirar e não conseguir, sentir o corpo a contorcer-se enrolado numa corda e vais querer com força, dar golpes de ar que não te acalmarão e a aflição vai misturar-se no teu corpo e vais sujar-te toda de dor. tu vais morrer. e os teus filhos também.

ela parou. pela primeira vez a olhar-me, numa atenção de medo:

- como é que sabes que tenho filhos, se nunca saíste deste quarto e eu nunca o disse? – voz surda, num temor?

nova gargalhada.

- tu vais morrer. eu sei.

nessa noite, depois do jantar, quando o sino batia oito vezes num entoar contínuo um grito de pavor cortou o ar e calaram-se os barulhos dos cães, as vozes dos loucos, as rezas dos sãos: alguém encontrara a enfermeira pendurada numa corda, amarrada a uma das vigas do pátio murado, de língua de fora e urina pelas pernas abaixo.

agora a minha irmã não me fala porque me disse, num sibilar de palavras, que levar os outros à loucura só nos faz permanecer aqui mais dias, mais tempo, mais horas e que cada minuto de cada dia aqui fechadas é um minuto a menos na salvação de quem tanto amamos. que o tempo urge e que tenho de ser mais do que a minha raiva.

tentei a todo o custo, deitada na cama, antever quando ela me voltará a falar para possamos enfim, decidir como sair daqui. mas tudo o que consegui foi uma névoa de cinzento, uma nuvem cerrada de indefinição.

cada acção, uma consequência, cada escolha um resultado: usar a visão de forma errada, perda da mesma por semanas.

e não sei se tenho paciência.

 

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publicado às 15:00


11 comentários

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De Sarabudja a 21.07.2015 às 16:18

A seguir à terça vem logo a quinta, não é?
Isto é quase gráfico. Gosto de onde me levam. Isto é, vou com gosto, mas com um certo medo.
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De M.J. a 22.07.2015 às 16:13

eu ia dizer-te que ias gostar de ler o meu livro mas tenho receio de ser repetitiva.
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De sarabudja a 22.07.2015 às 16:35

Que livro?!
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De M.J. a 23.07.2015 às 14:42

cê tá xingando a mim, num tá?
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De Sarabudja a 23.07.2015 às 14:55

Oi?! "Êmijei", quau é?
Tô xingando não.
Estava fazendo graça, né?

Vá, a menina vai à urbe este fim de semana e vou "adquiririlio".
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De Cris a 29.07.2015 às 18:23

ó moça, e o link para os números pares?
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De M.J. a 30.07.2015 às 16:50

é ali no tasco da galinha... pensei que o mundo já soubesse.
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De Cris a 30.07.2015 às 18:12

Eu sei, mas é mais fácil com link. Sou preguiçosa! Agora, com estes dias que estive fora, tenho que ler tudo do início para refrescar a memória.
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De M.J. a 30.07.2015 às 22:58

pronto, vou ver se altero isso.
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De Me, myself and I a 13.08.2015 às 11:33

A...M...E...I...!!!!! Ainda estou arrepiada com a tua prosa!
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De M.J. a 13.08.2015 às 18:50

obrigado :)

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