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vai haver casório #28

por M.J., em 09.05.16

tenho o vestido no meu quarto de infância.

está pendurado e antes de sair estive feita idiota a olhá-lo durante longos minutos. nunca pensei ter um vestido de noiva naquele quarto. assumi, desde miúda, gorducha, caixa de óculos, bicho do mato, mandona, armada em arrogante que ficaria sozinha a definhar numa serra, acabando mais cedo ou mais tarde por me transformar na menina qualquer coisa, virgem, velha e seca na espera do príncipe encantado.

no sábado havia um vestido branco naquele quarto e por momentos inundei-me em recordações melancólicas. há coisas que não esperamos da vida e ainda assim, num quarto dela permanecem os meus livros dos cinco, a boneca de porcelana que me ofereceram no décimo segundo aniversário, na primeira festa surpresa, o cão a pilhas que dá saltinhos e um espanta espíritos comprado em segunda mão numa viagem de estudo. há álbuns de fotografias em que não me reconheço, sisuda e triste. há livros e dezenas de cadernos, escritos, gatafunhados, com dores e partilhas, sonhos e medos.

a mamã quis "dar uma volta ao quarto". redecorá-lo, tirar coisas velhas, enchê-lo de flores. uma coisa adequada às fotografias, disse, e eu proibi, compreendendo agora os quartos de meninas, com noivas pirosas a destoar, ar chorão e lamechas. 

sorri ao vestido pendurado no alto de uma parede.

não esperei jamais um ínfimo terço do que a vida me trouxe ou fui buscar, sei lá, e ainda assim, apesar de tudo e das horas, e do passado, e dos peluches gastos por serem companheiros de medo, e da ansiedade e dos sonhos de partida, tudo tão longe, tudo tão distante, e ainda assim, dizia, com rendas e tule e sapatos e pulseiras em exposição, sinto no quarto que mantenho como sempre a certeza do acolhimento dos dias feios. estará ali, na certeza eterna do regresso a quem fui e sou. estará ali como o porto-seguro, inalterado, os objectos que ficaram, os livros, os cadernos, a boneca, o espanta espíritos, na espera eterna e na certeza que há sempre possibilidade de voltar.

que a vida é sempre mais do que pensamos mas há os sortudos que podem recuar nela, no espaço, até ao exacto ponto de onde foram para recuperar o abrigo nos dias de trovoada.

 

apesar de existir um vestido de noiva pendurado nele, conterá em todas as noites o aconchego das mantas pelas mãos da minha mãe. 

 

(a ideia inicial do vestido aqui)

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oh vai ver ali:

publicado às 10:00


13 comentários

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De anacb a 09.05.2016 às 10:21

estás nas nuvens, verdade? tão bom!!! ainda me lembro do meu nervoso miudinho no dia em que me casei (sem igreja, sem vestido branco e quase sem convidados, mas mesmo assim...); é aquele tipo de sensação que só é possível uma vez na vida
beijinho :-*
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De M.J. a 09.05.2016 às 17:55

estou sim. sobretudo imensamente feliz por poder sentir isto tudo :)
acho um privilégio, na verdade.
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De SP a 09.05.2016 às 12:02

Não sei o que é ter este tipo de sensações em relação ao casamento, hoje em dia estou separado sem nunca sequer ter casado e admito, fica algo sempre dentro de nós que faz pensar no bonito que poderia ter sido e nas boas e bonitas recordações que afinal de contas não existem...
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De M.J. a 09.05.2016 às 17:55

estamos sempre a tempo de criar recordações :)
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De Cristina a 09.05.2016 às 13:56

Gostei tanto de ler este teu texto, MJ :-)
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De M.J. a 09.05.2016 às 17:55

e eu gosto tanto que tenhas gostado...
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De Maria Araújo a 09.05.2016 às 15:53

Ainda bem que a vida trouxe muito mais que esperavas.
Com certeza que lutaste para ser quem és, com qualidades e defeitos, com sucessos e insucessos.
E as mantas da mãe são o calor que as tuas fotografias, álbuns, peluches e tudo o mais precisam.
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De M.J. a 09.05.2016 às 17:55

sempre tão querida...
obrigado.
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De Gaffe a 09.05.2016 às 16:19

Tenho saudades tuas.
Hoje, especialmente.
(Não perguntes porquê. Não sei)
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De M.J. a 09.05.2016 às 17:58

eu tenho sempre saudades tuas.
ainda que não consiga explicar como nem porquê.
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De Sarabudja a 09.05.2016 às 16:20

Tão bonito.
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De M.J. a 09.05.2016 às 17:58

obrigado :)
mesmo.
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De Just_Smile a 09.05.2016 às 18:26

Há sítios que serão sempre uma parte inabalável de nós e da nossa história e há que preservá-los, pois só assim saberemos de onde viemos e naquilo que hoje nos tornamos :)
Que imagem tão gira que me transmitiste :)

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