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varandas

por M.J., em 02.08.16

a dinâmica dos subúrbios onde vivo (sempre quis usar a palavra subúrbios num texto) alia-se ao antigo bairro onde me senti em casa durante anos: depois de descida a encosta encontramos um núcleo de famílias, pessoas díspares entre apartamentos, moradias, quase barracas e chineses.

chineses: a viver e dormir nos armazéns repletos de coisinhas para tudo e uma doença. 

na sexta fui caminhar já depois de jantar. escurecera e o ar abafado consumia a noite. no bairro pessoas sentavam-se nas varandas como pássaros em gaiolas, homens em tronco nu, mulheres a olhar o infinito. no centro dois chineses berravam da varanda para a rua onde uma chinesa mais nova, talvez criança ainda, se encontrava de olhos no chão, sem virar a cara para o alto, soltando uns miados agudos de resposta ao arrazoado esquisito gritado da parte de cima.

foi a primeira vez que dei graças por viver aqui, quase isolada por uma encosta íngreme que me obriga a suar as estopinhas quando não me apetece pegar no carro.

a ideia de um bocadinho de varanda fazer as alegrias de famílias foi-me incompreensível durante anos. criada solta na serra, com terrenos ao dispor, as terras do vizinhos prontas a ser cultivadas, tardes de calor a fazer castelos de lama, pés descalços, flores no quintal, tanque ao fundo (olha que tu não vás para o tanque! olha que não te debruces na água!) casinhas de brincadeira com legumes fora de tempo a servir de comida que alimentavam bonecas de trapo nunca percebi o fascínio por uma varanda na cidade.

percebo agora.

dois pares de vasos num T2 ou T3 no meio de uma cidade fazem a diferença. a impossibilidade de esticar a mão no quintal para apanhar um raminho de salsa, louro, coentros, cebolinho ou ir à terra ver dos tomates, das alfaces, dos repolhos e do feijão verde é quase esquecida com uns vasos de plantas aromáticas na varanda. ninguém liga muito ao facto de que, se for numa rua movimentada cheia de carros a passar, a salsa, os coentros, o cebolinho ou até o louro vão, com certeza, ficar cheios de químicos: há todo um encantamento de ver crescer o que se come na ingenuidade que é saudável.

só dei conta da beleza da imagem quando perdi a possibilidade de. creio que, como em tudo na vida, percebemos da sorte anterior quando a perdemos, o que não deixa de ser triste.

durante anos desprezei a terra e o que saía dela. para quê cansar a semear, regar, podar, desbravar, colher quando ali ao lado, no supermercado há tudo em troca de dinheiro? para quê alimentar, engordar animais quando fica mais barato nas "promoções" encher o congelador?

e a fruta das árvores do quintal? pequena, encolhida, sem o brilho daquela que via à venda? como não desprezar?

aprendi anos mais tarde a idiota chapada que fui e, na sexta feira, enquanto caminhava perante um arrazoado de chineses a gritar da varanda, senhores em tronco nu sentados em poucos metros quadrados, cães a ganir nas grades do terraço que dá ar ao apartamento percebi o que levou tantos conhecidos e vizinhos a abandonar a cidade na reforma, para se encafuarem numa serra onde até a internet quer morrer:

é o sossego de estar em casa num tempo que não passa e onde até esperar a morte demora. 

creio que vou esconder-me na serra, mais dia menos dia.

e gostaria de ver a minha pessoa de há dez anos a ler isto!

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oh vai ver ali:

publicado às 10:00


1 comentário

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De sarabudja a 02.08.2016 às 12:36

Crescer em meio, que dizem pequeno, mas grande em espaço para fazer, correr, olhar, molda-nos.
Soubesses o que embirro com marquises e falta de varandas para estender a roupa quando o sol se faz presente... Ah e a máquina e ... nada, Sarabudja gosta de ir "lá fora" e sentar-se ao sol perto de roupa que seca na corda.
Quando for menos palerma também me deixo de exigências de proximidade de coisas bacocas e vou morar num país onde o sol brilha 365/366 dias por ano. Mesmo que seja época das chuvas. Preciso só desapalermar-me. E isso é tarefa árdua.

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