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velhos são os trapos. e espertos.

por M.J., em 08.02.17

vou-vos explicar, que é para isso que me pagam:

 

estava uma fila gigante na porcaria das máquinas automáticas de pagamento. 

eu andei às voltas, no meio da multidão, para conseguir chegar ao azeite que me fazia falta para o jantar. pelo caminho encontrei um esmagador de alhos a um euro e estava toda contente a pagar quando a vi:

uma senhora - de cabelos brancos e um cesto cheio de coisas - a meter-se muito de mansinho atrás de mim, prontíssima a pagar as fraldas para a incontinência, passando à frente de toda a gente.

 

havia uma fila única gigante, meus senhores, gigante. eu própria esperara dez minutos para conseguir uma maquineta e ali estava a velha senhora, cabelo armado em meio frasco de laca, roupa a cheirar a naftalina e ar esperto de "a velhice ensinou-me umas coisas" tentando fingir que estava comigo e assim passar à frente dos tristes.

uma filha de uma rameirice que não abona nada a favor de quem tem idade para ter juízo.

e educação.

 

(pausa no episódio: sinceramente, não sei o que se passa com alguns dos idosos de hoje em dia. no meu tempo de infância, quando convivia com alguns, era normal vê-los no café do centro da aldeia a jogar à sueca. ou em casa a cuidar dos netos. ou da horta. ou lavar roupa no tanque. hoje não. a maior parte tem facebook e adiciona-nos sem qualquer vergonha. às vezes, quando são familiares, aceitamos só para depois os bloquear.  e ali estão, na fotografia tirada para o cartão de cidadão, ou pelo neto mais velho. fazem upload das fotos da família toda - mesmo aquelas onde ninguém quer aparecer. vão aos sites de montagens de fotos e criam lindas imagens ao lado de deus, ou com molduras de golfinhos. escrevem frases bonitas acerca da humanidade e comentam as notícias do correio da manhã indignadíssimos.

chega a ser quase uma tragédia.)

 

portanto, fazendo um ponto de situação, aquela senhora estava a tentar ultrapassar toda a gente, fazendo-se passar - vejam a ideia - por minha conhecida. 

tendo em conta que me sentia particularmente bem disposta depois de uma noite bem dormida (#sóquenão) optei por não reparar.

demorei apenas mais tempo a pôr o número de contribuinte, procurar moedas na carteira e constatar que tinha de pagar com cartão: tudo para ver se alguém impaciente da fila se revoltava.

resultou.

passados uns instantes fez-se luz e alguém disse, a medo:

- olhe que isto é fila única.

 

e pronto, the end, a situação resolveu-se, não foi MJ?

a senhora pediu desculpa e foi para a fila.

ou disse que não tinha reparado e perguntou se podia passar à frente que lhe doíam as pernas.

ou ainda informou que, sim senhora, tinham razão, e deslocou-se às caixas prioritárias.

ou pediu-te se não te importavas de a deixar passar à frente, porque estava cansada.

foi isso não foi?

não, meus amigos, não.

 

a velha senhora salta da resposta ensaiada, prontinha na ponta da língua, uma tal lata e desfaçatez que o cabelo nem se mexeu:

- não se preocupem que nós estamos quase a acabar.

 

nós.

nós???

como nós?

mas eu nunca a vira!

 

nem a ela, nem às suas fraldas e muito menos ao cabelo armado.

e mais: aproveitando que eu ainda não estava refeita do choque, vira-se para mim, voz docinha de mel, toda saltitona, toda sorridente, pega-me no braço e pergunta, ar inocente:

- olha, se não tiveres muita pressa, podes ajudar-me a passar aqui com as compras?

não me levem a mal.

ou levem, quero lá saber.

já ajudei velhinhas a transportar sacos até casa. já fiz companhia a uma vendo novelas ao serão. e lavei a louça, durante meio ano a outra, todas as noites, apenas porque ela não se podia levantar.

 

esta, no entanto, padecia da (ou do?) síndrome da espertice.

pelo que soltei um redondo não e avancei, muito solicitamente, que se precisasse de ajuda a funcionária ali do fundo estava à disposição.

isto claro, quando chegasse a vez dela, que a seguir, era a moça da fila.

 

a velha olhou-me como se eu fosse o diabo.

e mais logo vai dizer, a quem a quiser ouvir, que esta geração está perdida.

 

a idade é um posto.

pena que, às vezes, seja só de estupidez.

 

que fariam vocemecês nesta situação?

 

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publicado às 10:24


9 comentários

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De Cecília a 08.02.2017 às 10:41

se quiser fazer uso da lei da prioridade para idosos faça favor agora não me tome por parva nem seja mal educada.
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De M.J. a 08.02.2017 às 11:41

é exatamente isso.
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De Gaffe a 08.02.2017 às 11:26

Perguntava-lhe se sabia o nº de telemóvel do rapaz que faz "não" com o dedinho.
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De M.J. a 08.02.2017 às 11:41

ahahahahahahahahahaha
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De Quarentona a 08.02.2017 às 12:03

Ahahahahahah para o teu post e para o comentário da Gaffe, porque eu pensei exatamente o mesmo :D
Pois é, dizem que a idade é um posto e que os velhinhos merecem respeito, uma pinóia! Querem respeito, dêem-se a ele! Adorava ter estado contigo nessa altura, a velha ouvia das boas!
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De Joana B. a 08.02.2017 às 17:39

que grande lata
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De Pequeno caso sério a 08.02.2017 às 18:13

Abomino as putas das velhas -gaiteiras-chicas espertas.
Quando se põem de lado nas filas a ver se ninguém repara até mudo de cor. Só de escrever sobre isto já estou a ferver mais à merda da velha.
Também serei velha mas não serei gaiteira e muito menos chica esperta.

Essa tua "amiga" bateu todos os recordes da lata . Acho que me teria parado a boneca . E não. Quando me pára a boneca não é bonito pois é naquele momento em que mando as boas maneiras e a boa educação bardamerda .

Pronto.Agora que já desabafei vou ali comer uma banana que diz que acalma.
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De Cristina a 08.02.2017 às 19:08

mas "não chega" (vamos dizer assim) ter mais de 65 anos, pois não? tem de haver uma dificuldade ou incapacidade acrescida, estou certa?
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De Sweetener a 12.02.2017 às 16:01

Costumo ser muito atenta a quem passa ou não à minha frente em qualquer tipo de serviço, por isso penso que estando à espera teria reparado na espertalhona. Agora a lata dela é sem dúvida de deixar qualquer um parvo! Eu estou, com todas as letras!

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