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vizinhança

por M.J., em 08.06.16

a intimidade doméstica de uma - ou duas vidas - morre perante as paredes finas das casas a dividir propriedades e recatos, sonos e alegrias, famílias e pessoas.

na serra nada me provocava mais temor e vergonha do que a certeza de que o vizinho do lado tinha conhecimento das desgraças domésticas que assomavam o meu telhado. apesar das casas serem separadas e as paredes grossas de pedra, o silêncio é quebrado de longe a longe apenas pelo canto dos pássaros e as vozes mais fortes ressoam com o eco em altercações sem sentido para gáudio e entretenimento das pessoas que conhecem todas as outras pessoas.

uma miséria para a intimidade, um tesouro para a intriguice.  

saber dos dramas que me encimavam a vida discutidos, falados, comentados, ciciados pelas tabernas e missas, pelo vizinhos e conhecidos, pela família e ausentes provocava-me mais dor que a própria dor do drama em si. fazia-me baixar a cabeça, ainda que não houvesse motivo, fixar um ponto no chão, para não ver rostos e, em último e para sempre adoptado mecanismo de defesa, fechar a cara, carregar a máscara da arrogância e desprezar sem dó nem piedade tudo e todos.

desprezava na exacta moeda de troca do que sentia.

quando me mudei para  a cidade estava convencida que não haveria disso. as pessoas não se conhecem. não falam todas umas com as outras. há mais do que fazer do que pegar nos dramas dos conhecidos e despeja-los em cima das mesas do café, com um bagaço ao lado ou duas tacinhas de vinho, enquanto se ganha força para o resto do dia. há mais gente, tanta gente que não se pode saber dela toda. tanta gente que podemos viver anos sem nos encontrarmos com um conhecido ainda que vivamos na mesma cidade.

e depois percebo que não.

não falo com os meus vizinhos. a não ser os de baixo, que cederam a net logo no início e são de uma simpatia. mesmo assim, não sei o nome de nenhum. partilhamos o mesmo teto, a mesma porta de entrada e subimos as mesmas escadas. recebemos a correspondência na caixinha ao lado uns dos outros e sabemos quem conduz o que quê mas não falamos uns com outros.

estranhamente sei deles mais pormenores do que era suposto. vejo-os dignos, da varanda, a sair e entrar nos carros, a descer a ladeira, sorrisos ou cara fechada, compostura erguida numa vida normal e sei dos palavrões que soltam uns para os outros, dos ciúmes doentios da miúda do lado, da exigência escolar do pai da adolescente do outro lado, da falta de dinheiro de um dos baixo, em casa todo o dia, a fumar na varanda e a entrar à noite com comida congelada debaixo do braço.

- na verdade, com isto de pagar os sacos, até a nossa intimidade das compras fica exposta a desconhecidos. -

sei do hábito do cão que ladra sempre que os donos descem as escadas até a porta da entrada bater. sei que os do rés do chão preferem pão fresco, logo de manhã, porque deixam o saco de pano na entrada para o padeiro largar o papo seco de madrugada. sei das birras da outra senhora do rés do chão, sempre à defesa com os mil gatos que alimenta enquanto bamboleia a barriga em forma de avental pela varanda. sei rotinas de sono. e sei dos gritos, que lançam, uns e outros, sem medo dos vizinhos ouvirem "põe-te daqui para fora", "és a culpada" "quem és tu para me dizer isso?" assim, entregues de bandeja pelas paredes finas enquanto eu, mesmo numa gargalhada mais alta do rapaz lhe digo "shiu, olha os vizinhos que não precisam de saber da nossa vida".

 

não sei o nome de nenhum.

trocamos a banalidade do nome pela intromissão na intimidade familiar. 

e cruzamo-nos todos, majestosos nas escadas, com a certeza de vida honrada.

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publicado às 13:10


9 comentários

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De Gaffe a 08.06.2016 às 13:49

Tão perfeito!
Tão desolador.
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De M.J. a 08.06.2016 às 13:54

tão triste :)
sei até o tom exacto do miado do gato vadio quando corre atrás das gatas!
juro!
está numa miadeira que só visto debaixo da minha janela.
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De Olívia a 08.06.2016 às 13:53

Ainda bem que não te foste embora à bocado!
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De M.J. a 08.06.2016 às 13:56

voltei de uma assentada só enquanto olhava pela varanda com o café na mão.
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De Petrolina a 08.06.2016 às 14:04

Tão real...
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De (des)Esperança a 08.06.2016 às 15:12

brilhante! e verdadeiro... mas acreditas que sinto saudade??
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 08.06.2016 às 16:45

Tão bom.
(Sinto isso, mas no meu caso ouço imensas discussões só desde há uns meses, e imensos telefonemas por atender, às horas inteiras a tocar, o cão recente que ladrava muito e curiosamente não ouvi nas últimas duas semanas, nunca lhes vi sequer a cara, e nem o nome sei)
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De Violinista a 08.06.2016 às 17:48

Nós moramos em casas geminadas, e é mais ou menos o mesmo. Não sabemos nomes, só reconhecemos os gritos.
Gostava de saber o que sabem de nós do outro lado.
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De marrocoseodestino a 10.06.2016 às 19:42

Quando vivia na aldeia em casa dos meus pais detestava e continuo a detestar a vida das pessoas andar na boca das pessoas da terrinha. Era habitual e ainda é falar-se da vida dos outros, muitas vezes coisas falsas.
Passei para a cidade e embora aquela coisa que cusquisse não seja igual acabamos por saber da vida dos vizinhos sem querer.
A minha do lado grita que se farta com o ex ao telefone, o de cima grita todas as manhãs para o filho se levantar e ir para a escola e uns outros falam alto numa língua que não domino.
Como vês isto por aqui é divertido

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